15.8.20
Crônica diária
A solidão
Foi o Germano Fher quem me pediu para falar do Antonio Maria, quando eu
escrevia sobre Rubem Braga, dia sim, outro também. Depois foi ele também
quem me pediu que lesse as crônicas do Carlinhos Oliveira. E foi o
Carlinhos em outubro de 1964 quem escreveu que Antonio Maria havia
morrido. Começa sua crônica dizendo: "Antonio Maria morreu perto da vida, diante da comida e da bebida que ninguém soube louvar mais do que ele." Numa frase, define e saúda o amigo boêmio com precisão cirúrgica. "Morreu perto da vida". Pode ter coisa mais poética do que isso? E o Carlinhos disse mais: "Ele
gostava de escrever sobre o que estava ao seu redor: amigos, amores, a
noite, a rua, a esquina; e sobre as preocupações que trazia. As
constantes eram solidão, saudade e morte." E sobre solidão criou uma frase fantástica: "A única vantagem da solidão é poder ir ao banheiro com a porta aberta."
14.8.20
Crônica diária
Lição de casa
Quando
eu pintava, resolvi fazer o que vi muito estudante de pintura fazendo
nos museus: copiar obras de artistas famosos. E só fiz cópias dos que eu
admirava. Nessa série que dei o nome de: "Lição de casa copiando os
mestres que gosto". Não por acaso Lucian Freud, nessa série, tem duas
obras copiadas. Um nu, e a pia do seu atelier. Casualmente dia 21
passado dois amigos postaram obras do Freud no mesmo dia. Foi quando
lembrei das minhas duas telinhas. O nu, óleo sobre tela que mede
15x20cm. A Pia com a mesma técnica, 20x30 cm. E postei as fotos nas
páginas de ambos. Além disso em 2011 fiz uma caricatura do Freud. Postei
também. Não há nenhum mal em fazer esse exercício. Não se trata de uma
falsificação. Ninguém pretende assinar Freud e deseja que alguém possa
acreditar ser um Lucian. Mas essa prática, tentando acertar as cores,
imitar o estilo de cada artista, faz com que você acabe descobrindo o
seu estilo, e sua palheta. Todo artista passa por esse processo. Nem
todos conseguem criar um estilo próprio e original. No final me
perguntam: e qual acabou sendo seu estilo? Eu na verdade assimilei um
pouco de todos. De uns mais, de outros menos, mas todos deixaram algumas
lições. Vejam na foto abaixo e tirem suas conclusões:
Retrato de Paula Canto, acrílica sobre tela, 50 x 50 cm, 1998.
13.8.20
Lucia Marques, pintora
Assinado e datado de 1982
Meu amigo Edgard Faco Vidigal, Rio de Janeiro, postou meses atrás uma foto da sala da casa da família em Teresópolis. Uma parede com pratos, e noutra esta tela da Lucia Marques. Gentilmente fotografou a obra porque me interessei em saber o autor. Não conhecia nada da pintura da artista, e consegui "garimpar" estes cinco trabalhos a ela atribuídos. Obrigado Edgard pela gentileza.
Todos atribuídos a Lucia Marques
Crônica diária
Achei
estranho o comportamento dos correligionários do presidente do PSDB
quando o Aécio Neves foi incriminado pela Lava Jato. Um silêncio
conivente. Um distanciamento preventivo e absolutamente suspeito. Depois
um licenciamento forçado, quando a renúncia ao cargo era inevitável.
Constrangendo seus pares. Mas ninguém ousava se indignar. Sempre achei
estranho o silêncio do Serra, e do Alckmin, para ficar nos dois
recentemente investigados pelos crimes semelhantes aos do Aécio. Agora
esta explicado. Nesse congresso não salva um. Reforma política e
partidária urgente.
12.8.20
Crônica diária
"Lua gelada em forma de ovo"
Na
crônica "Noite errante" Carlinhos Oliveira estava inspirado. Ela data
de 4 de junho de 1964, em pleno ano da Revolução. Mas os boêmios de
Ipanema e Leblon continuavam indiferentes ao regime militar. E ele se
sai com essa: "Mulher não deve tomar muito banho. Um só e ficar
cheirando a laranja". "Como são horríveis essas mulheres pasteurizadas!"
Essas que vão ao cabeleireiro e deixam o malandro construir um
monumento com seus cabelos. Depois não deixam o homem, que dizem amar,
desmancha-lo. "Deus me defenda das mulheres excessivamente penteadas."
Depois comparou a lua sobre o oceano gelado às cabeças de mulher que Milton da Costa pintava em 1953, ou 4.
11.8.20
Crônica diária
Crônicas do Carlinhos Oliveira
Continuando minha leitura, e tentativa de desvendar a razão pela qual o
cronista Carlinhos Oliveira foi esquecido, pinço frases memoráveis de
seus textos. Por exemplo: "A bolha de sabão que se desprende do talo do mamoeiro".
Para as novas gerações, e as exclusivamente urbanas, não tem nenhum
significado. Mas para os da minha idade, e que tiveram infância no
interior, faz todo sentido. Quem não brincou de fazer bolha de sabão com
canudo de mamoeiro? Em nosso jardim da fazenda além de mamoeiro
tínhamos pés de jambolão, caju, laranja, limão, bananeira, amoreira,
carambola e o Armindo velho e paciente jardineiro, nos ensinava a fazer
visgo e arapuca de bambu para pegar passarinho, ou estilingue com
forquilha, borracha e couro, além de com, seu canivete de picar fumo,
moldar os frutos do jenipapo, fazendo utensílios, para minha irmã Elisa,
brincar de fazer comidinhas para as bonecas. Cortava os grandes
gramados de alfange, coisa que a gente nova só vê em desenho animado de
terror. Tenho até hoje uma latinha de Bardahl, importado, na época,
presente do Armindo, que passou depois de anos, a cortar a grama à
máquina. E por derradeiro outra frase genial do Carlinhos: "Pessoas da nossa idade já não se podem dar ao luxo de ser pitorescas".
10.8.20
Crônica diária
Por falar em memória
Ontem falei da falta de memória. Hoje do prazer de encontrar objetos e coisas que nunca mais pensávamos ver na vida. Em 1969 eu casei e fomos para NY e Europa em lua de mel. Naquele tempo viajávamos de lua de mel. Hoje os jovens ficam, depois viajam, e só casam um pouco antes de separar. Mas em Florença, na Ponte Vecchio, minha mulher posou para um retratista. Quando voltamos demos um jantar para um casal de amigos que estavam namorando: Luiza Strina e Wesley Duke Lee. Ele era um famoso desenhista e pintor, ela ainda não tinha criado sua Galeria de Arte, que leva seu nome. O Wesley menosprezou o retrato (que era de um retratista de rua) e fez uma proposta irrecusável: "me dá esse desenho, que eu faço um retrato". Minha ex-mulher e eu ficamos encantados com a ideia. Não teinhamos condição financeira de ter uma obra do Wesley, muito menos um retrato. Dias depois ela foi chamada para posar. Claro que eu fui junto. E fotografei todas as sessões. Foram mais de uma. No final o retrato virou uma instalação. Com prancheta de pés de ferro preto, dois retratos sobre papel, o do italiano com um chicote sobre o rosto, e o do Wesley. Tudo isso sobre uma bandeia de plástico branco, com sapatos de salto alto, e outros objetos. O artista então me fez comprar uma caixa de vidro Blindex 8 mm, com cantoneiras de metal cromado. Sobre um dos cantos da caixa, um vasinho de cimento, com um bonsai. A obra pronta foi para o centro de uma sala da nossa nova casa no Jardim Cordeiro, em São Paulo. Como eu não sabia cuidar de bonsai, ele morreu. Nunca mais soube do vasinho. Sessenta e um anos depois, a semana passada, fui a Ribeirão Preto, no aniversário de 45 anos da minha filha, e encontro, no seu jardim, o vaso da obra do Wesley. Foi um maravilhoso reencontro. Trouxe para São Paulo, de onde ele tinha saído, plantei uma Tuia jacaré, e agora que pratico essa arte, e sei como recomendar seus cuidados, espero viva por dezena de anos, numa homenagem à obra do velho amigo Wesley. Hoje a obra pertence a um importante colecionador de arte em São Paulo.
Ontem falei da falta de memória. Hoje do prazer de encontrar objetos e coisas que nunca mais pensávamos ver na vida. Em 1969 eu casei e fomos para NY e Europa em lua de mel. Naquele tempo viajávamos de lua de mel. Hoje os jovens ficam, depois viajam, e só casam um pouco antes de separar. Mas em Florença, na Ponte Vecchio, minha mulher posou para um retratista. Quando voltamos demos um jantar para um casal de amigos que estavam namorando: Luiza Strina e Wesley Duke Lee. Ele era um famoso desenhista e pintor, ela ainda não tinha criado sua Galeria de Arte, que leva seu nome. O Wesley menosprezou o retrato (que era de um retratista de rua) e fez uma proposta irrecusável: "me dá esse desenho, que eu faço um retrato". Minha ex-mulher e eu ficamos encantados com a ideia. Não teinhamos condição financeira de ter uma obra do Wesley, muito menos um retrato. Dias depois ela foi chamada para posar. Claro que eu fui junto. E fotografei todas as sessões. Foram mais de uma. No final o retrato virou uma instalação. Com prancheta de pés de ferro preto, dois retratos sobre papel, o do italiano com um chicote sobre o rosto, e o do Wesley. Tudo isso sobre uma bandeia de plástico branco, com sapatos de salto alto, e outros objetos. O artista então me fez comprar uma caixa de vidro Blindex 8 mm, com cantoneiras de metal cromado. Sobre um dos cantos da caixa, um vasinho de cimento, com um bonsai. A obra pronta foi para o centro de uma sala da nossa nova casa no Jardim Cordeiro, em São Paulo. Como eu não sabia cuidar de bonsai, ele morreu. Nunca mais soube do vasinho. Sessenta e um anos depois, a semana passada, fui a Ribeirão Preto, no aniversário de 45 anos da minha filha, e encontro, no seu jardim, o vaso da obra do Wesley. Foi um maravilhoso reencontro. Trouxe para São Paulo, de onde ele tinha saído, plantei uma Tuia jacaré, e agora que pratico essa arte, e sei como recomendar seus cuidados, espero viva por dezena de anos, numa homenagem à obra do velho amigo Wesley. Hoje a obra pertence a um importante colecionador de arte em São Paulo.
9.8.20
Crônica diária
Carlos Fajardo ou Luiz Baravelli?
Affortunato Gory (Gori) -
(1895-1925)
Carlos Fajardo, óleo s/tela, 20x30 cm, 1970 Trabalho em
fórmica, tiragem de 4/30 Fernando Stickel
Quando
a memória falha dá um trabalho danado para tentar lembrar das coisas.
Estes dias estive tentando lembrar quem era o autor de uma obra de
madeira e fórmica que usei como cabeceira da minha cama na década de 60.
Eu tinha como certo que era do artista plástico Carlos Fajardo, meu
velho amigo Fafá. Mas dei em pagamento na compra de um busto de mármore e
bronze, na galeria de arte do Claudino Nóbrega. Ele alega que era um
Baravelli. Aí iniciou minha dúvida. Eu tinha como certo que era um Fafá.
Do Baravelli tenho até hoje "As quatro graças". E do Fafá fiz um
retrato em 1970, enviei para ele de presente, e nunca me agradeceu. Da
série paisagens de fórmica, o Fernando Stickel publicou essa que ilustra
meu texto, e que eu tive uma. Também troquei por alguma coisa anos
atrás. A dúvida permanece.
8.8.20
Banksy
Banksy deixa graffiti no metro de Londres e encoraja uso de máscara. Obra já foi apagada
Click na palavra Banksy da primeira linha acima e veja o vídeo.
Crônica diária
Novos amigos, grandes artistas
É impressionante a velocidade e quantidade de gente que se fica
conhecendo, e conhecendo seu trabalho, sua obra. Tudo graças à essa rede
social que dizem estar em declínio. Sou blogueiro há quatorze anos.
Infelizmente assisti a decadência dos blogs, e lutei muito até aderir ao
Facebook. Agora percebo que vai acontecer a mesma coisa nessa rede
social. O tempo é de coisas efêmeras. Descartáveis. Mas o "novo normal"
será muito mais em casa, num trabalho home office, onde as
possibilidades de encontros não virtuais, será cada dia menor. Como
poderia ter reencontrado 50 anos depois minha amiga Luzia Moraes? Como
poderia ficar sabendo que ela é mãe do Sérgio Moraes, fotógrafo? Que é
mãe da Nana Moraes, fotógrafa? Que é mãe da Bebel Moraes, dona da
Galeria de Arte Brisa, em Lisboa? Que Bebel é casada com Daniel Mattar,
fotógrafo e artista plástico? Que o Sérgio, filho da Luzia é pai da
Luiza (Lulu), fotógrafa? Que a Nana é mãe do Ricardo, fotógrafo, e neto
da Luzia? Uma família descendente do meu amigo José Antonio, que era
fotógrafo do grupo de revistas da Abril, em São Paulo, na década de 60.
Tive a honra de ter meu casamento fotografado por ele. Certamente a
Luzia vai me corrigir e apresentar novos membros dessa família carioca
com o DNA de fotógrafos e artistas. Nada disso poderia ter acontecido em
poucos dias, depois de tanto tempo, se não fosse essa rede social. Na
década de 60, quando nada disso existia, um intelectual, publicitário e
jornalista paulista, chamado Carlito Maia já dizia que "a vida na cidade separava os amigos e juntava bandidos." Na internet, até prova em contrário, são todos "amigos virtuais". E quando não são: deletamos, e pronto.
Crônica do Alvaro Abreu
Casa na pandemia
Comecei a usar bambu ainda moleque, lá em Cachoeiro, para fazer pipa, vara de pescar, gaiola e alçapão. De lá pra cá, junto com borracha de câmara de ar, o bambu mantém posição relevante no rol dos recursos de “pau pra toda obra”, de grande utilidade para soluções rápidas e eficientes. Gosto de dizer que sou colhereiro especializado, pois só faço colheres com bambu. Tento tirar proveito da sua constituição, sobretudo das suas fibras, que além de proporcionar flexibilidade, resistência e durabilidade, podem apresentar formas muito simpáticas.
Nestes tempos de recolhimento, inventei de fotografar as fibras do bambu, que se revelam na forma de linhas escuras, círculos e elipses, conforme a direcionamento do corte. Sua espessura e densidade variam bastante em função do tipo da planta e da posição que ocupam em relação à casca e ao longo do gomo, sobretudo nos nós, onde perdem os padrões de organização e distribuição.
Fui fotógrafo profissional por uns meses, num tempo de grandes descobertas e satisfações com a primeira Minolta, filmes de 135 ASA, imagens em preto e branco reveladas em laboratório caseiro. Agora, estou às voltas com os avanços tecnológicos da câmera fotográfica do celular xing ling último tipo. Tento dominar o uso das suas lentes poderosíssimas para fotografar as fibras bem de pertinho e conseguir captar a sua bela estética. A danação é a enorme quantidade de recursos técnicos disponíveis e acessíveis a um toque da tela, muitos deles escondidos sob siglas e ícones, e em lugar desconhecido por gente como eu.
Nessa peleja, nossa casa vai ganhando uma nova função: a de estúdio fotográfico. Isso depois de ter sido lar de família numerosa, lugar de adolescentes animadíssimos, inclusive de ensaio de banda de rock, ambiente de restabelecimento de infarto e operações, ambiente para test drive de casamento da caçula, espaço de festas e celebrações emocionantes, de feijoadas e cozidos para muitas bocas, colônia de férias de netos e muito mais. Nesta pandemia, com freqûencia limitadíssima e sem previsão de normalidade, já transformamos quarto vazio em estúdio para Carol se divertir e, aos poucos, a sala de televisão, onde muita gente se esparramava, vai se consolidando como minha adorável oficina multiuso. É nela que vou instalar a geringonça de fixar a câmera fotográfica que ganhei de Vítor Nogueira, o fotógrafo primeiro das minha colheres, e criar condições de iluminação propícias ao que pretendo realizar.
Só vai faltar aprender bastante sobre cada recurso da câmera e, muito mais difícil, dominar o uso conjugado de vários deles, para fotografar o bambu sob diferentes condições de iluminação e conseguir produzir imagens interessantes e surpreendentes.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
7.8.20
Tulum, México
CondoHotel em Tulum, no México
Para brasileiros que para entrarem nos Estados Unidos precisam fazer uma quarentena de 14 dias num país que não tenha sido bloqueado por conta do Covid19. É o caso do Guilherme que apesar de morar lé há dois anos, não pode voltar sem cumprir essa quarentena. Por que Tulum, e não a Cidade do México, ou Cancún, há uma hora de carro de Tulum? Amanhã eu conto.
Crônica diária
Artistas desesperados uni-vos !
![]() |
| Eloisa Tregnago |
![]() |
| Guilherme Lunardelli |
Uma
das grandes alegrias que tenho tido neste espaço de convivência
digital, é poder dialogar com velhos amigos, ou pessoas que não vejo há
muito tempo, ou moram em outros planetas, ou mesmo monstros sagrados em
diversas áreas, e que jamais teria oportunidade de conhecer
pessoalmente. Uma foto do meu filho Guilherme, que mora em Miami, de
férias em Parati, suscitou um comentário do escritor Roberto Klotz, que
leu uma definição de popa de barco, com seu amontoado de cabos, de
"Espaço Butantã". O autor da frase um monstro entre os velejadores do
mundo: Amyr Klink. Mandei a foto para ele, que curtiu. Outro monstro,
este, das artes plásticas, é o polonês mais brasileiro que conheço
Maciej Babinski. Comentou sobre duas esculturas da gaúcha Eloisa
Tregnago, dizendo literalmente: "Belas fotos, a escultura conversa com
os desenhos de Jair Glass, artistas desesperados, uni-vos." Quanto às
fotos a que ele se refere são da outra "monstra" da fotografia mundial,
carioca e filha do meu amigo José Antonio, Nana Moraes. Nada disso teria
acontecido se eu não escrevesse aqui no FB. Essas pessoas, que
provavelmente não se conhecem pessoalmente, entre agiram através da
minha postagem. Eu que não conhecia o Jair Glass fui atrás para
conhecer. Quanto alegria, quanto prazer.
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| Jair Glass |
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )



































