21.3.20
Crônica diária
Batendo panela e chocando caminhão
Foi
comentando uma postagem da Betty Vidigal que contei essas duas
experiências. Ela contou as suas sobre o ato de protesto de bater
panelas. E perguntou quem tinha ou não batido.
Contra
a Dilma e contra o Lula eu bati panela. E dessa atividade
político/sonora tenho uma lembrança meio engraçada. Cansado de bater com
a mão direita fui trocar o cabo da panela de mão e deixei ela cair do
sétimo andar. Por sorte embaixo é um pátio cimentado e vazio. Só fez da
panela redonda uma oval. E outra vez que tive que trocar de mão e me dei
mal foi chocando um caminhão na Avenida Rebouças. Estava segurando a
carroçaria com a mão esquerda e o guidão da bicicleta dom a direita. Fiz
pequenos ensaios, e na hora de fazer a troca de verdade a roda virou e
cai no asfalto. Da queda não sofri nada, mas da brecada do carro que
vinha logo atrás, e dos impropérios do motorista lembro até hoje. Nasci
de novo. Tinha uns quinze, dezesseis anos.
Crônica do Alvaro Abreu
Estava
preparado para reclamar da falta de racionalidade no planejamento e no
gerenciamento das obras que estão sendo feitas na Avenida Vitória, uma
das três artérias que ligam o norte ao sul da ilha. Minha cabeça de
engenheiro de produção não aceita a estratégia, adotada pela Prefeitura,
de interditar uma das pistas de cada sentido da via e só começar a
fazer tudo o que tiver que ser feito depois de esburacá-las de fora a
fora. Imagino que já deve ter comerciante querendo esganar fiscal
municipal, motorista querendo atropelar guardinha de trânsito e que,
satisfeitos com a buraqueira, só mesmo os mosquitos. É bem provável que
já já apareça autoridade culpando o coronavírus pelo atraso das obras.
Pois
é, mas os tempos são de começo de pandemia, com previsões graves e meio
que assustadoras. Isso me faz lembrar que, em momentos de crise, sempre
surgem pessoas que marcam presença positiva e vão ganhando a admiração e
o respeito de quase todos. Pelo que vejo, essa é a condição que vai
assumindo o Ministro da Saúde. Já ficou patente o preparo, a seriedade e
a convicção que ele tem para orientar o enfrentamento da epidemia e,
também, para conviver com a personalidade e o comportamento do seu
chefe.
Como
se sabe, no domingo passado, o presidente ultrapassou limites do bom
senso de modo tão contundente que deve ter deixado muitos de seus
seguidores, sobretudo os da área de saúde, em situação totalmente
desconfortável. Fico imaginando a inveja que ele possa estar sentindo do
sucesso do ministro Mandetta, depois das consequências negativas por
ter saído por aí dando uma de macho popular e doidão do outro lado da
cerca. Torço para que não aconteça mais nenhuma pernada presidencial.
Seria desastroso.
Bem
sei que a crise está somente começando e que os cuidados individuais e
coletivos hão de ser amplos e obrigatórios. Com 72 anos, cardiopata e
ainda convalescente, estou na turma de maior risco. De bom, ganho dengos
da mulher e convictas demonstrações de carinho dos filhos, incluindo
broncas homéricas por telefone e favores providenciais como as compras
de supermercado.
Vitória, 19 de março de 2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
20.3.20
Crônica diária
Aeroporto de Jaguaruna, SC
Desencontros
acontecem, mas alguns são memoráveis. Deste não vamos nos esquecer. Uma
amiga de toda vida veio passar uma semana no Plaza Caldas Imperatriz Resort & Spa Santo Amaro Imperatriz
. Com ela veio um casal de amigos recém chegados do Japão onde fizeram
um tour de banhos com águas medicinais e ficaram encantados. O casal foi
quem escolheu o SPA e providenciou reservas e passagem. Ela só sabia
que desceriam em Florianópolis. Num rápido contato por telefone lembrei
das Termas de Gravatal, que fica ao sul da minha praia, e falei dele
para ela. Como não tinha ideia para onde estava indo concordou, e achei
que era para lá que estavam indo. Convidei-os para chegarem em casa, que
ficava no meio do caminho entre Florianópolis e Gravatal. Chegaram a
noite e foram de taxi. Dois dias depois me ligou encantada com os
milagres das águas e banhos do hotel. Nos convidou para almoçar ou
jantar, pois tinham atividades o dia todo. Agradeci, mas prometi ir dar
um abraço. Paula, minha mulher, e eu pegamos a estrada e seguimos rumo
sul para Gravatal. São 80 Km de casa. No caminho se passa pela bonita e
enorme ponte de Laguna, e depois de Tubarão vem Gravatal. No lobby do
hotel nos informaram que nem Linda, nem Janete e nem o Bruno eram
hospedes. Paula e eu nos entreolhamos, e intuímos o erro que tínhamos
cometido. Liguei para a Linda e depois dela se informar com alguém ao
seu lado confirmou o nome do SPA Santo Amaro Imperatriz. Rimos e
lamentamos o enorme mal entendido. Estávamos a 162 km de distância.
Imperatriz é ao lado de Floripa. Não daria mais tempo para a visita. Foi
quando surgiu a oportunidade de conhecer o pequeno aeroporto de
Jaguaruna, inaugurado em 2 de abril de 2014, a 43 Km de Gravatal. Com
uma ótima e deserta estrada de acesso a partir da BR101, se chega ao
aeroporto que tem uma sala de embarque e desembarque do tamanho de uma
rodoviária de cidade de interior, e um alambrado a céu aberto como
estacionamento para uns 100 carros. Praticamente a lotação de uma
aeronave. Três companhias com um ou dois voos diários, e só. Do
aeroporto em casa levei uma hora. Apesar de 10 Km mais longe do que o
de Floripa, por conta da estrada e transito, gasta-se no mínimo meia
hora a menos. Não há as mordomias do novo e mais bonito aeroporto do
Brasil, como aluguel de carros, restaurantes, supermercado e etc...mas é
uma nova e boa opção.
19.3.20
Crônica diária
Blogosto
Hoje
vou fazer um convite aos meus leitores. Talvez nem todos saibam que
muito antes de escrever crônicas diárias eu criava e alimentava blogs.
Comecei em 2006 e cheguei a ter mais sessenta blogs. Era chamado
"carinhosamente" pelos "amigos" de "Latifundiário dos blogs". Ou tive
que ouvir do blogueiro Fernando Diederichsen Stickel que meus sessenta
"eram todos iguais". O mais velho, hoje com 13 anos, com postagens
diárias e ininterruptas, é o Varal de Ideias. Outros dois ou três ainda
mantenho alimentando-os diária, ou esporadicamente. Quero convida-los a
conhecer o BLOGOSTO, um blog "para quem come para viver, e não vive para comer".
Ele não da receitas e nem ensina ninguém a cozinhar. Para isso chegam
os chefs e seus programas de TV. No meu blog posto fotos de pratos da
minha cozinha da Piacaba, e de restaurantes onde comi. Como também não
sou um "gourmet", a seleção de pratos expostos no blog, servem para dar
ideia das muitas variações que se pode introduzir na cozinha caseira.
Principalmente nestes tempos de Corona-virús, onde não é recomendável
aglomerações, entre elas em restaurantes com ambiente fechado, e com
muita gente. Os bons estão sempre lotados. Para chegar ao blog basta
acessar o site: www.blogsgosto.blogspot.com
Bom apetite.
18.3.20
Crônica diária
Carina Luft - "Fetiche"
Amiga do Eduardo Krause, autor do livro "Brava Serena", que li e gostei
muito, deve escrever bem. Vi os dois numa foto pela internet. Comprei
logo os dois livros dela, disponíveis na Estante Virtual. Sem saber ao
certo se eram os primeiros ou últimos. Comprei pela capa e título:
"Fetiche" por conta do lindo pé de moça em preto e branco. E era, por
acaso, seu primeiro romance policial (2010). Percebi claramente que o
texto, e sua estrutura, eram de uma frequentadora de oficinas
literárias. Não que escrevesse mal, mas faltava personalidade, estilo, e
sobrava descrições inúteis, sonegando ao leitor a melhor coisa da boa
literatura, que é deixar os detalhes por conta da imaginação de quem lê.
Quando a escrita exagera nas minúcias, e detalhes inúteis, o leitor
perde a oportunidade de intuir e participar integralmente do romance.
Fica parecendo história contada pelos pais, para fazer criança dormir.
Nesse seu primeiro romance os suspeitos, ou assassinos, aparecem logo no
início e o leitor fica só acompanhando as dúvidas e incertezas dos dois
policiais encarregados de desvendar o caso. Tudo é tão óbvio que dá a
impressão de que o delegado e o detetive são absolutamente
incompetentes, ou o leitor será surpreendido no final. Isso o leva até a
ultima página, e...se eu contar seria um spoiler.
17.3.20
Crônica diária
Voltando à rotina
Apesar das chuvas de janeiro e fevereiro a obra do meu novo deck
terminou. Madeira tratada tem garantia de 15 anos. O meu deck e escada
de entrada da minha casa estavam com 20. Com cinco anos de lucro fui
obrigado a substituí-lo por um novo e muito maior. A casa ganhou uma
horizontalidade que a topografia do terreno não permitia. O que era bom,
ficou ainda melhor. De volta aos meus hábitos praianos onde acordar com
os escandalosos gritos da família de aracuãs ( macho, fêmea e três
filhotes) às seis da manhã, com o sol, batendo no meu rosto, ao sair de
dentro do mar, no horizonte, confirmando que os terraplanistas estão
equivocados, fazer barba, tomar café, e ler as mensagens na internet,
precedem uma caminhada de meia hora na orla do mar. Daí para a frente o
dia esta reservado à leitura e a escrever. Desta vez trouxe 5 livros. O
ultimo do Ian McEwan, "A barata", que resenharei em breve, e é
seu oitavo livro que leio. Os outros quatro serão lidos pela ordem de
atração da capa. "Fetiche", de Carina Luft, tem um lindo pé de moça na
capa, e provavelmente será o próximo. E se antes do mês acabar, e der
tempo, vou ler "Apenas um olhar" do Harlan Coben, que ganhei no Natal da
minha secretária, que já perguntou duas vezes se eu já tinha lido. E eu
venho prometendo ler.
16.3.20
Crônica diária
Nós e o Coronavírus
Ontem foi domingo 15 de março. O Coronavírus é o mais importante assunto
do momento. Abalou a saúde e as economias do mundo. Cada um reage a ele
de uma forma. Os filhos preocupados com os pais idosos. "Fica aí, não
venha para a cidade". "Não viaje de avião". Em Miami o meu filho disse
que as aulas da minha neta já foram suspensas. Comentou que papel
higiênico e toalha de papel acabaram nos supermercados. A Irene Kantor
me enviou um vídeo de uma portuguesa fazendo piada sobre o consumo
desenfreado de papel higiênico e farinha, em Portugal. Pergunta ela: "o
que vão fazer com tanto papel e farinha? Origami?" De lá o Jorge
Pinheiro informa que desistiram de ir para Moçambique, e vão ficar em
Lisboa e assistir a epidemia lá mesmo. Comentei com a Paula, minha
mulher: "Que gente louca!" Dois minutos depois ela virou para mim: "Toma
seu café, pega a chave do carro e vamos estocar papel higiênico."
15.3.20
Crônica diária
De volta à praia
Depois de uma estada prolongada na cidade de São Paulo volto para a
Piacaba, minha casa na praia de Ibiraquera em Santa Catarina. Fevereiro
além de ser um mês curto, é o fim do verão, e com ele as chuvas. Este
ano, mais que nos anteriores, elas se precipitaram de forma concentrada e
devastadora. O previsto para todo um mês caiu em 24 horas. Espírito
Santo, Minas, Rio e São Paulo foram fortemente castigados. Mas não foram
as chuvas que me prenderam na cidade por tempo mais alongado. Foram
procedimentos cirúrgicos a que fui submetido. Eles se dividem em três
etapas. A cirúrgica, propriamente, durou uma hora. A anterior quase duas
semanas, com espera de aprovação pelo plano de saúde, e dia e hora do
médico e hospital. A terceira, duas semanas para retirar os pontos. Foi,
no entanto, um ótimo pretexto para passar os dias de carnaval longe da
praia. Duas épocas em que os donos de pousadas mais faturam. Fim de ano e
carnaval. Casa de praia dá a seus moradores a sensação de que o mar e a
areia lhes pertence. Não gostamos de intrusos, de turistas e de
barulho. O transito deixa de ser bicicletas, motos e carros de boi, e
passa a ser dos automóveis, ônibus e veranistas com suas pranchas, pouca
roupa, óculos de sol, chapéu e bebida.
14.3.20
Crônica diária
Ian McEwan e sua "A Barata"
O famoso escritor inglês se apropriou de A metamorfose de Kafka e transforma o primeiro ministro da Inglaterra num ser incorporado por uma barata, para poder, com um mínimo de lucidez, entender o debate e aprovação do Brexit. Termina seu pequeno livro com esta frase: "Se a razão não abrir os olhos e prevalecer, então talvez só nos reste o riso".
O famoso escritor inglês se apropriou de A metamorfose de Kafka e transforma o primeiro ministro da Inglaterra num ser incorporado por uma barata, para poder, com um mínimo de lucidez, entender o debate e aprovação do Brexit. Termina seu pequeno livro com esta frase: "Se a razão não abrir os olhos e prevalecer, então talvez só nos reste o riso".
13.3.20
Crônica diária
Não é possível
Agora é o termo "tomara que caia" que vira alvo das feministas contra o machismo e sexismo. Que absurdo. Onde vamos parar?
"A atriz Mariana Ximenes divulga ação, em parceria com a Hering e com a revista Bazaar, para que a moda deixe de usar o termo “tomara que caia” e passe a usar “blusa sem alça”. Dentro dos padrões femininos atuais, a ideia é abolir termos que remetem ao machismo e ao sexismo."
Acontece que a maioria dos "tomara que caia" são de "vestidos" e não de "blusa".
Esse termo foi criado depois que Rita Hayworth, em 1946, no filme Gilda, imortalizou o modelo de cetim preto, que valorizava suas curvas, com um laço lateral acompanhado de luvas. Um dos momentos mais icônicos do cinema é quando a personagem faz striptease apenas das luvas, numa performance sensual, enquanto cantava “Put The Blame on Mame”.
O vestido, criado pelo figurinista Jean Louis, foi inspirado no quadro “Madame X”, de John Singer Sargent, de 1884, que retratou a também americana Virginie Amélie Avegno Gautreau, que vivia em Paris. O quadro causou polêmica, porque o vestido tinha duas alças, mas uma das quais estava caída sobre os braços da modelo. Para o filme, elas sequer apareceram. E o modelo nunca mais saiu de moda. Muito usado em vestidos para a noite e de casamento.
É preciso dar um basta a tanta hipocrisia e pobreza de espírito.
Empregada doméstica agora é secretária do lar.
Criado mudo, é mesa de cabeceira.
Preto é cor, negro é gente.
Aeromoça, agora é comissaria de bordo.
Saia, vai ser chamada de FIQUE.
Só falta inventarem elevador para homens e outro para as mulheres, ao mesmo tempo que estão criando sanitários para gays ou travestis. Hoje no elevador me vi a sós com uma garota que trabalha no prédio, e fiquei preocupado. Como cumprimentei, "bom dia", isso poderia ser considerado assédio sexual. Ela nem respondeu.
Devemos lembrar que em 1884 os maiôs eram do joelho ao pescoço. Criou-se o "tomara que caia". Hoje os biquínis levaram à quase total nudes, nas praias do mundo todo, e à falência as praias de nudistas. Logo agora querem abolir essa deliciosa expressão.
Tomara que caia no esquecimento tamanha sandice.
Agora é o termo "tomara que caia" que vira alvo das feministas contra o machismo e sexismo. Que absurdo. Onde vamos parar?
"A atriz Mariana Ximenes divulga ação, em parceria com a Hering e com a revista Bazaar, para que a moda deixe de usar o termo “tomara que caia” e passe a usar “blusa sem alça”. Dentro dos padrões femininos atuais, a ideia é abolir termos que remetem ao machismo e ao sexismo."
Acontece que a maioria dos "tomara que caia" são de "vestidos" e não de "blusa".
Esse termo foi criado depois que Rita Hayworth, em 1946, no filme Gilda, imortalizou o modelo de cetim preto, que valorizava suas curvas, com um laço lateral acompanhado de luvas. Um dos momentos mais icônicos do cinema é quando a personagem faz striptease apenas das luvas, numa performance sensual, enquanto cantava “Put The Blame on Mame”.
O vestido, criado pelo figurinista Jean Louis, foi inspirado no quadro “Madame X”, de John Singer Sargent, de 1884, que retratou a também americana Virginie Amélie Avegno Gautreau, que vivia em Paris. O quadro causou polêmica, porque o vestido tinha duas alças, mas uma das quais estava caída sobre os braços da modelo. Para o filme, elas sequer apareceram. E o modelo nunca mais saiu de moda. Muito usado em vestidos para a noite e de casamento.
É preciso dar um basta a tanta hipocrisia e pobreza de espírito.
Empregada doméstica agora é secretária do lar.
Criado mudo, é mesa de cabeceira.
Preto é cor, negro é gente.
Aeromoça, agora é comissaria de bordo.
Saia, vai ser chamada de FIQUE.
Só falta inventarem elevador para homens e outro para as mulheres, ao mesmo tempo que estão criando sanitários para gays ou travestis. Hoje no elevador me vi a sós com uma garota que trabalha no prédio, e fiquei preocupado. Como cumprimentei, "bom dia", isso poderia ser considerado assédio sexual. Ela nem respondeu.
Devemos lembrar que em 1884 os maiôs eram do joelho ao pescoço. Criou-se o "tomara que caia". Hoje os biquínis levaram à quase total nudes, nas praias do mundo todo, e à falência as praias de nudistas. Logo agora querem abolir essa deliciosa expressão.
Tomara que caia no esquecimento tamanha sandice.
12.3.20
Crônica diária
Humor, e se for com ironia, ainda melhor
Admiro pessoas bem humoradas. E se tiverem uma pitada de ironia, ainda
melhor. Um exemplo disso é meu velho e muito sumido amigo lisboeta,
Jorge Pinheiro, parceiro de muitos blogs e atividades na área da
blogosfera. Recentemente tem voltado a fazer alguns comentários. Outra
coisa que gosto é de ler comentários sobre as minhas crônicas. Muitas
vezes melhores que as próprias. Sobre a execução do bicheiro Bid,
durante o carnaval, ele escreveu: "Por
esses lados continuam a ter uma forma muito saudável de resolver
problemas." Foram 40 tiros de metralhadora. Antes do Jorge a minha amiga
e leitora de Brasília, Célia Conrado escreveu: "Infelizmente renovação no crime se faz assim com eliminação." E para concluir comentários bem humorados e irônicos destaco o do Walter De Queiroz Guerreiro: "Falta
de profissionalismo, one shot one kill é a norma para o sniper , seals e
todos os especialistas." Finalizando com um fúnebre, transcrevo o do
sisudo Roberto Klotz: "Os tiros não executaram o Carnaval, iniciaram uma marchinha... fúnebre."
11.3.20
Crônica diária
"NOSSAS NOITES"
Esse foi o nome dado ao filme "Our Souls at Night", que na verdade a tradução literal teria sido mais fiel ao enredo: "Nossas almas à noite". Apesar de poder parecer um filme de terror, é só um trabalho magnífico de dois velhos atores. Robert Redfort e Jane Fonda ambos com 82, 83 anos. Não faz 50 anos eram jovens e lindos atores. Hoje são magníficos viúvos na tela, vivendo uma história de solidão, insônia, e últimos suspiros. Uma história improvável, com um desfecho previsível. Filhos e netos, e toda uma história de vida. Remorsos. Culpas. E a opinião dos vizinhos. Com todos esses ingredientes e uma direção segura e suave, o filme na Netflix entrega o que promete. Diversão ligeira.
Esse foi o nome dado ao filme "Our Souls at Night", que na verdade a tradução literal teria sido mais fiel ao enredo: "Nossas almas à noite". Apesar de poder parecer um filme de terror, é só um trabalho magnífico de dois velhos atores. Robert Redfort e Jane Fonda ambos com 82, 83 anos. Não faz 50 anos eram jovens e lindos atores. Hoje são magníficos viúvos na tela, vivendo uma história de solidão, insônia, e últimos suspiros. Uma história improvável, com um desfecho previsível. Filhos e netos, e toda uma história de vida. Remorsos. Culpas. E a opinião dos vizinhos. Com todos esses ingredientes e uma direção segura e suave, o filme na Netflix entrega o que promete. Diversão ligeira.
10.3.20
Crônica diária
Opinião do Javier Mariás sobre as redes sociais
O único livro que li do festejado escritor espanhol Javier Mariás foi "Assim começa o mal" do qual falei em três outras oportunidades. Uma em outubro, e duas em novembro de 2019. Uma delas sobre uma expressão que achei maravilhosa e vou relembrar: "relâmpago de coxas" para quem vê o cruzar de pernas de uma mulher. Gostava disso no tempo de colégio, e continuo gostando depois de velho. Hoje transcrevo uma pequena parte de uma entrevista dada a Ubiratan Brasil, e publicada no Caderno 2 do Estadão, dia 22 de fevereiro de 2020, quando do lançamento do seu novo livro no Brasil, "Berta Isla". O jornalista pergunta sobre o que pensa o escritor sobre a "imoralidade da figura do espião". E mais "se as redes sociais que promovem uma falsa felicidade, não está repleta de espiões?" A resposta foi a mais cruel e violenta crítica às redes sociais que já li. E pior, tive que concordar em grande parte.
"As
redes sociais são uma das invenções mais estúpidas e malignas do nosso
tempo. Não estão cheias de espiões (respeito essa antiquíssima
profissão), mas de fofoqueiros e detratores, indivíduos ressentidos,
ociosos e malignos que, com frequência, procuram prejudicar os outros
para combater sua frustração e sua mediocridade."
Depois
o escritor espanhol se alonga na defesa e reflexão sobre espiões. E o
novo livro com suas 552 páginas eu, com certeza, não vou ler. Superado o
inconveniente do peso desse tijolaço, com a possibilidade da leitura
digital nos Kindles, leves e portáteis, ficar durante um mês inteiro
sobre um mesmo tema e autor, não tenho mais paciência. Estou adorando
livros e autores que entregam um bom produto em 120 páginas, como Ian
McEwan em "A Barata".
Crônica do Alvaro Abreu
Varandas
Varandas
A
chuva de vento sul que caiu nesta segunda feira foi de espantar. Fazia
tempo que não via uma tão forte. A luz dos postes acendia os pingos
descendo em velocidade, formando fios brilhantes em contraste com o
preto do céu. Verdadeira chuva de corda, como diria tio Newton.
A varanda da
frente estava inteiramente alagada. Fui dormir certo de que acordaria
com a casa molhada, sobretudo na sala e no quarto onde sempre desce água
pelo ventilador. Goteira é algo que me remete à infância. Varanda também.
A varanda da
nossa casa em Cachoeiro era um lugar fresquinho e de onde se podia
avistar Teresa, metida nos seus patins de rodinhas de aço, fazendo
charme.
Na
de Marataízes, bem pequena, disputava-se lugar na rede depois da praia.
De barriga cheia, deitávamos no cimento vermelho e geladinho para
esperar a vez de balançar.
Da varanda da
casa que moramos quando chegamos a Vitória, via-se o bonde passando.
Nela quebrei o braço esquerdo ao tentar entrar na sala, pela janela.
Na rua Madeira de Freitas, todas as residências tinham varanda.
A da nossa era lugar próprio pra ficar conversando. A parede da frente,
em forma de arco, criava ambiente reservado, de aconchego. Foi nela que
minhas irmãs namoraram para casar.
Confesso que sempre tive inveja dos freqüentadores da varanda da casa branca dos Micheline,
que jogaram ao chão para construir um hotel enorme no lugar. Imagino
que eles deveriam se sentir no tombadilho de um navio navegando entre as
ilhas do Boi e do Frade e de onde se podia avistar as pedras das
Andorinhas, a bombordo.
Na casa antiga que alugamos em João Pessoa, diante do mar de Manaíra, a varanda era
ponto de encontro de professores e alunos. Bastava sentar na mureta que
aparecia alguém pra discutir assuntos da universidade.
Ao construir nossa casa em frente a uma praça projetada, fizemos uma varanda virada
pra dentro do terreno, em busca de sossego. Grande e na largura certa
para armar muitas redes, ela era coberta com telha colonial.
Freqüentador assíduo, eu armava minha rede em posição adequada para
melhor aproveitar a fresca, botar sentido na plantação de feijão de corda e acompanhar o trabalho cuidadoso dos marimbondos.
Era bem estreita e comprida a varanda do
último apartamento em Brasília, mas oferecia visão panorâmica do
Planalto Central. Foi nela que Aurora cresceu e de onde voou pela
primeira vez em direção ao gramado da quadra em frente.
Embora ofereça a vista do Convento por cima do muro alto, não gosto da nossa varanda atual.
É lugar de passagem, pega o sol da tarde e não dá pra pendurar rede.
Depois que ela recebeu a minha bancada de angelim-pedra, virou um ótimo
lugar de trabalho. Por necessidade, criamos na lateral da casa um lugar
próprio para a conversa correr frouxa, em volta de uma mesa grande.
Defendo que o projeto de uma residência comece pela varanda,
que disputa com a cozinha a condição de lugar mais importante na
moradia. Não é tarefa trivial conseguir um lugar adequado ao ócio
produtivo e ao prazer de viver que considere o movimento do sol, a
direção dos ventos, a textura do piso, a cor das paredes, a altura do
telhado, a posição das colunas, a paisagem, a relação com os cômodos da
casa e com o jardim, sem esquecer o pó de minério enriquecido, naturalmente.
Alvaro Abreu
Vitória, 03.03.2010
Escrita para A GAZETA
9.3.20
Crônica diária
Conversa de varanda
A poetiza Flora Figueiredo escreveu um Prefácio, a que chamamos de
"Abre-alas", e não foi só porque aconteceu no carnaval passado. Porque
ela, e eu, amamos as palavras, no inverno ou verão. Entre outras belezas
que escreveu, comparou minhas crônicas às conversas de varanda. Daí
para frente comecei a prestar atenção nos comentários que se sucediam ao
meu texto e percebi essa característica. Uma prosa despretensiosa,
amena, amigável, que num tempo não tão distante se dizia que era para
boi dormir, ou papo para jogar fora. Papo ou conversa de varanda. As
novas gerações nem conheceram as varandas, muito menos o que nelas
rolavam. Conversa sentada em rede, ou poltronas de palhinha, ao lado de
uma jarra de suco de tamarindo, ou fruta da época, no fim de tarde com a
luz do sol poente. Sem compromisso de temas, de ideologias, de tempo ou
paixões. Até de futebol ou política podia-se falar, mas respeitava-se
as opiniões alheias. A varanda é um lugar aberto, ventilado, onde as
ideias e os beija-flores transitam livremente. Era o lugar da casa,
quando quase todas tinham uma, e onde mais se ficava na hora da
conversa, da leitura, do chá da tarde, depois do banho a noite, e do
almoço de domingo. A arquitetura e a vida urbana aboliram as varandas.
Os prédios tem no máximo alpendres. A conversa foi para a sala, e ficou
mais sisuda, circunstancial, em muitos casos mal humorada. Mas não foi
só a falta da varanda quem encurtou a conversa. Ironicamente um
instrumento feito, originalmente para a comunicação oral, acabou
inibindo-a presencialmente. Foi o celular, o iPhone.
8.3.20
Crônica diária
Dona Rosa continua viva
Dona Rosa foi uma cartomante, e personagem, que criei num conto que se
passava em Brasília. A primeira postagem foi em 9 de junho de 2017. Seis
meses depois fui procurado por uma leitora que designei como JS na
crônica de 30 de dezembro de 2018, onde ela me pedia o endereço da
vidente. Foi com grande constrangimento que comuniquei à prezada leitora
a morte da Dona Rosa. A ocasião propiciou comentários sobre o direito
de criar e matar personagens que um autor literário tem. Oito meses
depois (18 de agosto de 2019) o meu amigo Leonardo comunica me a morte
do Afonsinho, e voltamos a falar da cartomante de Brasília. Em 11 de
janeiro de 2019 Roberto Klotz comentou, e eu transcrevi numa crônica,
que foi por conta da Dona Rosa que nos conhecemos e ficamos amigos. No
dia 4 deste mês de março de 2020 volto a receber uma carta, agora da
leitora de Brasília, Vanessa De Gasperin Madeira, que entre outros
adjetivos me chamou de SUI GENERIS, assim tudo em maiúscula. Também
queria saber se Dona Rosa ainda estava viva, e se eu tinha seu endereço.
Mais uma vez fui obrigado a dar a triste notícia da morte da
cartomante, seis meses depois da publicação do conto. Dona Rosa, assim
como Elvis Presley, vive.
7.3.20
Crônica diária
Que burrada !
Nos
dias atuais, se fotografa mais do que em qualquer outra época, apesar
da fotografia já ter sido decretada como morta, com o fim da cópia em
papel. Com o rádio aconteceu a mesma coisa. Decretaram seu fim com o
advento da TV. Mas ao contrário, esta mais vivo, e ativo, do que nunca. A
morte do livro em papel, vem sendo anunciada. Mas se fecham grandes
redes de livrarias, abrem-se outras tantas pequenas e charmosas lojas de
livros. Com a escrita acontece a mesma coisa. Não se escreve mais
cartas de amor, nem com mensagens de saudade. Hoje é tudo digital. E
nunca se escreveu tanto, como hoje em dia. Claro que é em outra língua.
Quando o papel e lápis cederam lugar ao teclado, seja ele qual for, os
caracteres usados passaram a ser próprios da urgência, pressa, e falta
de tempo, e às vezes cultura. Abrevia-se tudo. E mais uma vez as imagens
que antecederam às línguas escritas, como os aeroglifos das cavernas,
voltam em forma de emojis. Felicidade, sorriso, gargalhada, tristeza,
raiva não são mais escritos com as letras do alfabeto. Elas estão
disponíveis num único toque, e à cores. A que mais gosto é: "Que
burrada!"
Crônica do Alvaro Abreu
Para sempre
Depois das férias com a casa cheia e mais uma cirurgia, passei os últimos 20 dias em repouso quase absoluto, diante da TV. Por pouco fiquei viciado em séries repletas de bandidos e mocinhos, mortes escabrosas e drogas em profusão. Sorte que também assisti uma outra sobre as peripécias de uma menina canadense que perdeu os pais ainda bebê.
Lá fora, correu um tempo de muitas chuvas, enchentes e tragédias de verão, carnaval animado, morte de miliciano relevante, ameaças ao Congresso e, mais do que tudo, de coronavírus.
A enxurrada de notícias sobre o assunto foi tamanha que me recusei a continuar a ouvir homens de governo, autoridades internacionais, pesquisadores, gente medrosa com máscaras e suas instruções de como evitar contágio e propagação. O noticiário faz pensar que, em várias partes do mundo, um pânico do tipo politicamente correto se alastra mais rapidamente do que o vírus.
Os três ou quatro casos de contaminação já confirmados dão a dimensão real do problema por aqui. Sou dos que acreditam que o nosso sistema de saúde pública é perfeitamente capaz de dar conta dessa epidemia.
Chamou minha atenção uma notícia de grande interesse para os muitos que continuarão a viver em Vitória: estão pretendendo construir torres de 40 andares para abrigar 500 apartamentos e muitas salas comerciais. Até aí, nada demais, desde que fossem erguidas lá pras bandas da Rodovia do Contorno ou no caminho de Jacaraípe. A danação é que estão querendo fazer isso ali na Praia do Suá, naquela quadra que foi ocupada pelo Banco do Brasil, cercada por ruas estreitinhas, último terreno sem prédios altos naquela área.
Passo por ali com boa regularidade pra levar neto pra pescar no atracadouro, ir ao Hortomercado, comprar peixe, tomar vacina no posto de saúde. Pra quem vem do norte naquele trecho da avenida, é a única alternativa de retorno e de acesso ao estacionamento da Praça do Papa, à Capitania do Portos, ao Sebrae e tudo o mais.
É fundamental que a PMV considere que muitos dos impactos negativos do empreendimento serão definitivos e que a cidade ficará obrigada a conviver com eles para sempre.
Vitória, 05 de março de 2020
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
6.3.20
Crônica diária
Jânio e Getúlio inspiram Bolsonaro
Transcrevo só duas pequenas passagens de crônicas escritas e publicadas o ano passado, que a cada dia ficam mais evidentes. O comportamento político do Bolsonaro e suas semelhanças com a renúncia do Jânio, e populismo getulista.
Transcrevo só duas pequenas passagens de crônicas escritas e publicadas o ano passado, que a cada dia ficam mais evidentes. O comportamento político do Bolsonaro e suas semelhanças com a renúncia do Jânio, e populismo getulista.
Em
21 de março de 2019 termino minha crônica com essas linhas:
“Isso me faz
lembrar decretos do Presidente Jânio Quadros proibindo o uso de biquínis, briga
de galo e lança perfume. Deu no que deu. Quem tem minha idade, há de se
lembrar. Só espero que o Capitão não resolva revogar a lei que nos impôs as
tomas de três pontos. “
Em
24 de setembro de 2019, também terminei outra crônica assim:
“Já o comparei,
nos primeiros trinta dias, o seu jeito de governar com o do Jânio Quadros. Hoje
lembro o Getúlio Vargas, por conta do Hélio Negão. Bolsonaro ataca o populismo
mas fala e age como um deles. Essa sua ambivalência me preocupa. Espero estar
mais uma vez enganado em relação ao surpreendente Capitão.”
Hoje,
28 de fevereiro de 2010, escrevi na
página do Ricardo Rangel, o que venho escrevendo nos últimos dias. Sou
absolutamente contra a manifestação, apoiada pelo Bolsonaro, contra o Congresso
para o dia 15 de março. Um total disparate. E tenho exposto minhas razões. Hoje
circula na mídia, e redes sociais, que o Presidente não contempla a “renúncia”.
Ela foi sugerida pelo governador do Rio, Wilson Witzel. Não tenho nenhuma
simpatia por esse juiz, mas no caso presente ele tem razão. O Bolsonaro ao
pedir manifestações populares contra uma das casas da República, atenta contra
as instituições, e contra nossa constituição, que jurou defender. É crime. É passível
de impeachment, embora pessoalmente eu seja contra. Renúncia ou afastamento
legal, nesta altura, é entregar o governo aos militares. Isso eu não desejo
para o país.
5.3.20
Crônica diária
A morte do bicheiro
O caso é tratado como execução. De que outra forma pode ser tratada a morte após 40 tiros de metralhadora? Como teste da arma? Tiro ao alvo? Acidente de trabalho? Descuido no transporte da arma? Eu acho curioso quando o jornalista publica a matéria com as precauções de praxe. 40 tiros contra o bicheiro Alcides Paes Garcia, conhecido como Bid, e irmão do Maninho, Waldemir Paes Garcia, família de contraventores, quando o primeiro voltava da Marquês do Sapucaí, onde assistiu a segunda noite do desfile das escolas de samba. Bicheiro e escola de samba são farinha do mesmo saco. Mata-se um, mas não se acaba com o carnaval. Nem com o bicho.
O caso é tratado como execução. De que outra forma pode ser tratada a morte após 40 tiros de metralhadora? Como teste da arma? Tiro ao alvo? Acidente de trabalho? Descuido no transporte da arma? Eu acho curioso quando o jornalista publica a matéria com as precauções de praxe. 40 tiros contra o bicheiro Alcides Paes Garcia, conhecido como Bid, e irmão do Maninho, Waldemir Paes Garcia, família de contraventores, quando o primeiro voltava da Marquês do Sapucaí, onde assistiu a segunda noite do desfile das escolas de samba. Bicheiro e escola de samba são farinha do mesmo saco. Mata-se um, mas não se acaba com o carnaval. Nem com o bicho.
4.3.20
Crônica diária
Levar gato por lebre
Minha amiga Betty Vidigal perguntou dia desses como descobri que tinha
"levado" gato por lebre. Referia-se a uma tela do Parreiras, (Antônio
Diogo da Silva Parreiras, Niterói, 20 de janeiro de 1860 – Niterói, 17 de outubro de 1937- foi um pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor brasileiro).
Comprei num leilão do Baccaro, e era falsa. Distinguir gato por lebre é
fácil quando não é servido ao molho pardo. Basta olhar o tamanho do
rabo do gato. Em arte é mais complicado.
3.3.20
Crônica diária
L´Entrecôte de Paris, Casablanca
Depois
de mais de 2600 crônicas é difícil lembrar se já escrevi sobre um
restaurante de Casablanca. A verdade é que essa cidade foi imortalizada
pelo filme que levou seu nome. E da cidade, nessa viagem, só lembro
desse restaurante. Chegamos depois das 15 horas no hotel, e mortos de
fome tomamos um táxi a procura de um restaurante. Estavam todos fechados
por conta do horário. Mas insistimos com o motorista que haveria de
conhecer algum lugar onde pudéssemos matar a fome. Foi aí que percebemos
que o motorista conhecia Casablanca menos do que nós, recém chegados,
ou estava a fim de dar voltas, e mais voltas, sem nenhum sucesso.
Irritados pela fome e pela ignorância do taxista, mandamos parar o
carro, e saltamos. Andar a pé por Casablanca, a essa hora da tarde, com o
sol escaldante do Marrocos, não foi nada agradável. Todos fechados. Foi
quando passamos por um cuja porta pequena estava entreaberta. Minha
cunhada entrou, e minha mulher e eu ficamos na calçada aguardando a
resposta. Foi a melhor notícia do dia. Estava fechado, mas serviriam o
nosso almoço. Entramos e fomos surpreendidos com um ambiente curioso.
Absolutamente vazio, mas com as mesas preparadas para o jantar. Nos
copos guardanapos enormes e vermelhos pareciam velas. Engraçadíssimo. E a
surpresa do menu. Um prato só. Era uma cópia do "Le
Relais de Venise", restaurante parisiense famoso por servir apenas um
prato: "entrecôte" e batatas fritas, com um molho especial da casa. A
Paula minha mulher era fã do original francês, e comentamos (2008) como
não havia uma filial no Brasil. Posteriormente virei habitual
frequentador dos dois ou três similares em São Paulo. Foi uma festa
gastronômica. O molho do de Casablanca era perfeito, talvez o melhor e
mais parecido com o original. Um bom bife, e batata frita, podem ser
manjar dos deuses para quem esta morto de fome, as 16 horas, em
Casablanca.
2.3.20
Crônica diária
A embromação continua
Minha leitora e amiga Candida Botelho me escreve sugerindo republicar
uma crônica de número 193 cujo título era "Embromação", e publicada no
meu livro Pretextos. Ela justificou o pedido por achar que continua
atual. Foi postada inicialmente em 18 de julho de 2017. Não faz,
portanto, três anos. O Brasil só fez andar para trás nos governos
petistas, e não foi muito diferente no governo do Temer. Na crônica, e
naquela época, fazia referência ao texto do meu amigo Alvaro Abreu,
publicado na A Gazeta de Vitória. Referia-se à embromação dos órgãos
IBAMA, FUNAI e similares, que só serviam para atrasar a implantação de
rodovias, estradas, ou permitir seu melhoramento. Eram, como continuam
sendo, motivo de retardamento de ações governamentais imprescindíveis
para o desenvolvimento do país. E não estamos, o Alvaro, e eu, falando
da Amazônia. Ele falava do Espírito Santo, eu de Santa Catarina, onde
tenho casa. Muito provavelmente a Candida esta sendo incomodada com a
burocracia e embromação de um desses órgãos. Eles não mudam. Entra
governo, sai governo, o espírito de corpo dessas instituições continua
o mesmo. IBAMA, FÁTIMA, FUNAI, ICMbio, etc... não tem uma visão de
progresso, de desenvolvimento. Eles são preservacionistas. E como tais, o
argumento mais forte é a embromação. Cansam pela inoperância e
inércia.
1.3.20
Crônica diária
Paz de espírito
Tenho uma velho amigo, apesar de ser bem mais novo do que eu, chamado
Rui Silvares, que é artista plástico, escritor e professor de arte. Ele
mantém vivo há muitos anos um blog chamado 100 cabeças. Tem dois ou
três leitores que muito raramente comentam seus textos. Um deles sou eu.
Em 9 de fevereiro de 2020 postou e comentei:
"Não pode permanecer sem comentário um pensamento matinal dessa
magnitude. Ainda que possa ser chamado de "cotidiano delirante". Leiam
com atenção: "O desconhecido pode provocar em nós angústias
injustificadas. Só poderemos ter consciência dessa injustificação caso o
desconhecido seja revelado. Se, por acaso, essa revelação nunca
acontecer poderemos viver numa ignorância constante, em permanente
equilíbrio sobre o fio da navalha mas sempre com um plácido sorriso nos
lábios e uma pena de pintainho no lugar do coração." "A imagem forte mas
verdadeira da pena do pintinho amarelo, no lugar do coração, mas
conservando um plácido e imbecil sorriso nos lábios, é suficiente para
continuar dando vida constante ao ignorante inconsciente de suas
justificáveis angústias. Ou mutatis, mutantes.
Adorei a reflexão."
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )


















