19.12.18

Manoel de Barros


Crônica diária

Mistérios insolúveis

Antes eram coisas aparentemente toscas mas que para minha cabeça eram mistérios profundos. Como, por exemplo, o som da voz que podia caminhar por milhares de quilômetros por um fio telefônico. Cheguei a fazer, quando moleque, telefone com duas latinhas de extrato de tomate e uma linha de costura. E funcionava, mas não com a distância transatlântica ou continental. Depois, e ainda pior, como a voz poderia ser transmitida nos telefones sem fio? E os mistérios continuaram a evoluir. Veio a TV num móvel, naquele tempo, de madeira e enorme, que podia aparecer uma imagem e som captados por uma antenas em V? Outro mistério enorme. Aí o homem foi para a lua. Pelo menos é o que dizem. Tive um colega de apelido Miraí que nunca acreditou nisso. Dizia que era propaganda da Coca-Cola. Se fosse hoje, diria que era fake news. E a tecnologia não parou de evoluir. Junto, na minha cabeça, os mistérios. Como pode um aparelho do tamanho e formato de uma bolacha conter tudo que o iPhone, hoje em dia, contém? Imagens, som, máquina fotográficas, telefone, calculadora,  relógio, despertador, internet (que é um misto de jornal, livro, correio, TV, enciclopédia, agenda, e etc, etc,), tudo isso sem fio e sem antena em V,  aparente? Um mistério. Mas minha cabeça ainda não conseguiu entender coisas mais simples, banais e naturais. Exemplo? Como aquelas minúsculas formiguinhas, que até ontem não eram percebidas, ou vistas, em nenhum lugar da casa (18º andar de um edifício) conseguem descobrir e infestar a tampa da bisnaga de mel, na mesa do meu café da manhã? Mistérios indesvendáveis.

18.12.18

Guimarães Rosa

2018

Crônica diária

Vou ser músico. Ou se nasce, ou nunca será.

Foi antes do concerto do Tito Martino no "Tupi or not tupi", casa de comes, bebes e show de São Paulo, que comentei com minha mulher: "uma das frustrações da minha vida é não tocar um instrumento". E lembrei que músico e artista em geral nasce, não se torna. Eu definitivamente não nasci com dom para música. Fiz, até, duas desastrosas tentativas. Uma com uns doze anos de idade, tendo piano em casa, fiz minha meus pais comprarem uma harmônica preta, linda, que não passou da quinta aula. Lembro de chegar às lágrimas por ter que tomar a sexta aula, ou fazer os exercícios que a professora mandava. E não foi o suficiente para evitar uma segunda tentativa, seis anos depois, em Cataguases, no colégio interno, quando comprei um violão, e antes do sexto dia, já tinha percebido que jamais iria conseguir tirar um som como faziam meus colegas de quarto, principalmente o Bananal (Chico Buarque). Mas estando próximo, quase entre, saxofones, clarinetas, piano e baixo, durante o show do Tito Martino, era impossível não invejar um Wood Allen, um Fernando Veríssimo, e os convidados do Tito, tirando sons maravilhosos daqueles instrumentos. Foi uma pena não ter nascido com esse dom.  
                          Luis Fernando Verissimo *                     Wood Allen *                            Wood Allen

17.12.18

Rubem Fonseca

2018

Crônica diária

Interpretando um sonho

Um bode na sala eu já ouvi falar. Mas um hipopótamo, em casa, nunca tinha me passado pela cabeça. Era um sábado com cara de domingo. Não sei exatamente porque, talvez por ter almoçado num lindo e novo restaurante, à convite de  minha irmã Elisa, bebido um Campari tônica, e conversado até as cinco da tarde, na casa dela. Sou mais velho quatro anos e temos muitas afinidades, lembranças e coisas de família para recordar. Foi uma tarde deliciosa. Em plena sexta feira. No sábado acordei cedo como de costume, coloquei minha crônica no Face Book, dei uma olhada na caixa postal, tomei meu café, escovei os dentes, e quase que mecanicamente completei a rotina fazendo a barba. O ato seguinte seria tomar um chuveiro, mas olhando para o espelho, disse para mim mesmo, vou dar mais uma dormidinha. E fui. Sonhei com um hipopótamo adulto, enorme, entrando apressadamente, todo lustroso e molhado, e deitando-se no canto do banheiro. Nem era o nosso banheiro, que na verdade não caberia um hipopótamo. Era um banheiro daqueles enormes, de casa velhas de fazenda, verdadeiras salas de banho, como o chamavam. Acordei achando graça do sonho, e pensando vou escreve-lo antes que esqueça. Fui para o computador e comecei o relato sem saber exatamente como iria terminar. Como iniciei falando da Elisa, e do nosso papo na sua casa, subitamente me veio a imagem de um hipopótamozinho de madeira,  sobre uma pilha de quatro a cinco livros, luxuosamente encadernados, sobre a mesa em frente ao sofá onde ficamos sentados. Matei a charada. Um hipopótamo passou pelos meus olhos, entrou na minha cabeça, sem eu ter reparado.

16.12.18

José Carlos Ferreira (Boi)


Leila Ferraz

Feliz aniversário Zé Boi querido! Parabéns pelos teus 74 anos... um beijo! Mesmo que você não possa me ouvir e já não saiba quem eu sou. Leila. (16/09/2018)

José Carlos Cezar Ferreira-Boi

Linda homenagem que sua ex mulher e minha querida amiga Leila Ferraz presta no dia do seus 74 anos. O Boi sempre foi um amigo suave. Muito inteligente e sensível. Tive e tenho algumas obras suas. A comunicação nos últimos anos anda difícil. Ele optou por ouvir menos. Obrigado Leila por palavras tão lindas nesta data.

Ontem (15/12/2018) ele nos deixou, e com grande pesar mando aqui, de Santa Catarina, meu abraço para a querida Leila, Pedro e toda família.

Luiz Alfredo Garcia-Rosa

2018

Crônica diária

Um burro coça o outro

O título poderia ser qualquer outro, mas nunca tão verdadeiro. O Roberto Klotz me enviou um texto que segundo Tutty Vasques, a atriz e cantora do teatro de revista Virgínia Lane, deu uma entrevista para Roberto Canázio, da Rádio Globo, onde falaram sobre marchinhas de carnaval, e sobre o fascínio que suas pernas ainda exerciam sobre o público. Em dado momento a entrevista descambou para o delírio absoluto. Lane passou a falar da sua relação com o Presidente Getúlio Vargas, tendo declarado que foi sua paixão, e com ele estava na cama, no dia da sua morte. Isso mesmo. Alegou na cara dura que não houve suicídio nenhum. Que o Gegê foi assassinado. Quatro homens encapuzados entraram no quarto, e antes do "velho" receber o tiro no coração, chegou a gritar pelo Gregório Fortunato, seu guarda costa. Mas não deu tempo. Ela, a fizeram pular pela janela, arrancaram sua roupa no jardim, e ainda a xingaram:“vai, vagabunda, vai arrumar outro presidente.

Ricardo Blauth e o INTIMIDADES CRÔNICAS

Faça como o Ricardo, e peça o seu pelo tel: 11 30794433 ou por e-mail: epl.escrir@gmail.com

15.12.18

Patrícia Melo

2018

Crônica diária

 “Il est interdit d’interdire”

Em sete de novembro passado escrevi umas linhas abordando as razões que levaram às manifestações de maio de 1968 em Paris na França. Meu amigo Tariel Djigaouri comentou:

 "Maio 1968. Paris. Eu estava lá me formando. A razão que empurrou todos nos foi se libertar das imposições e do peso de uma sociedade engessada.
Só há uma frase que resuma tudo : “Il est interdit d’interdire”.
O resto é romantismo."
Ao que respondi: Importante depoimento de quem estava lá e viveu os históricos acontecimentos. Tati, Cony e eu só romanceamos.
E ele retrucou: " Mas tem razão, as memórias desta época marcante merecem ser lembradas e embelezadas. Só não podem ser endeusadas e perpetuadas como fazem conhecidas alas "progressistas".

14.12.18

Conceição Duarte

Conceição Duarte

Uma das frases mais incríveis que lí, divido aqui com vcs. Ela se refere, no texto, a escolha de um livro, dentre tantas outras... mas essa frase é a essência de tudo!
Neste texto livre e leve do escritor e dono do blog http://cimitan.blogspot.com/?m=1
Conhecido também como “Varal de Idéias”, com seu blog cultural, genial e amigo.
Dos tempos que muitos de nós tínhamos nossos blogs.
E o dele ainda permanece ativo - Eduardo Penteado Lunardelli alinhavou , arrecadou e (uniu) mais e mais amigos e alguns inesquecíveis, pude conhecer e trocar algumas humildes escritas, dessa época fantástica que vivemos...
Eduardo, Paula Leite Do Canto, a Paulinha! Tosan, Mira.... João Menéres, Francisco A. Coelho e tantos tantos outros lá de Portugal e daqui e dos quatro cantos do mundo, falavam, escreviam e visitavam e ainda mantém contato com ele.
Os acompanho por aqui. Estamos sempre ligados, apesar da distância física.
Essa foi a minha escolha de hoje (também). Certamente, a melhor!


PS- Postado no FB dia 12 de dezembro de 2018, por Conceição Duarte

Edyr Augusto

2018

Crônica diária

Partindo para uma viagem

Quando o livro que estou lendo, e sempre preciso estar com um em andamento, esta no fim, começo a ficar preocupado, se não tiver outro na espera. Há épocas em que tenho meia dúzia na fila. Outras que não encontro nada novo para ler. Aí vou ficando angustiado. Visito livrarias, olho vitrines, leio resenhas nos jornais e revistas à procura de algum livro que me apeteça. Consulto um ou dois amigos apaixonados por livros. Muitas vezes funciona. Outras o que estão lendo não me apetece. Sou enjoado na escolha. Best-seller não me interessa. Tão pouco o autor ou livro da moda. Acabo sempre lendo os vinte mesmos autores vivos, de quem não perco um lançamento. Nacionais e estrangeiros. Mas acontece deles  ficarem um ou dois anos sem lançarem nada de novo. Então recorro à aventura. E compro um livro de autor desconhecido, jovem, cuja capa, título e algumas linhas da orelha (do livro, claro!) me digam algo. No presente instante estou com dois aqui ao lado: "A Uruguaia" do Pedro Mairal, e "A bicicleta de carga" do Miguel Sanches Neto. Assim que acabar as leituras digo o que achei.Toda leitura é uma viagem. Umas monótonas e aborrecidas, outras maravilhosas. Como toda viagem.

                                                              Pedro Mairal by E.P.L.

Há exatos 12 meses

Vale a pena ler de novo: 
Jorge Pinheiro deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária":

O mais difícil de limpar são as cobiças inconfessáveis. 


Postado por Jorge Pinheiro no blog . em quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

13.12.18

A receita da calcinha




Tudo começou com a postagem de uma receita de calcinha de tricô da minha avó Nina (Sebastiana Camargo Penteado).

 Em minha crônica fazia a pergunta: " Existirão ainda alguém que faça tricô?
Para minha surpresa muitas leitoras responderam positivamente à pergunta e algumas se dispuseram a tentar interpretar a receita e fazer uma "Calcinha".
Para minha alegria, a primeira calcinha veio através do meu velho amigo José Jaime que delegou para sua esposa Nilda a tarefa. E é ela quem nos explica como foi:
"Daquele café matinal, dia deste, garrei a pensar na simplicidade .
Um escritor, amigo virtual do meu marido JJ, Eduardo P. Lunardelli,  apresentara na sua crônica daquele dia, lida costumeiramente a mesa do café, um assunto para mim surpreendente.
A prova da simplicidade “afetiva”, vamos por assim dizer, veio a tona num papel amarelado talvez por habitar num fundão de gaveta, o incrível TRICO.
Arte milenar, que vem se destacando cada vez mais na moda e como  terapia , além do que cutuca o nosso cérebro: Matemática, bailamos os pontos nas 4 operações. Linguagem, com leitura das receitas. História, sua origem e variações. Criatividade, construção de peças. E assim a conversa vaiiiiiiii.
Como curiosidade, admiração e assiduidade diária nas prosas mútuas, atendi ao pedido do meu JJ e carinhosamente, tentei reproduzir aquela receita de tricô, do papel amarelado, da caneta tinteiro, a receita da VÓ.
Devo dizer que originalmente seria mesmo o tricô para aquecer, com o passar do tempo o trabalho é feito também para o verão com fios de algodão, etc.
Respondendo sua pergunta, ”será que ainda existe “
Sim, existimos. kkk.
Temos muitos grupos de tricô, no Brasil e exterior. Trocamos mensagens sobre novos fios, agulhas e vasto material (inclusive importados ), grupos se reúnem nos seus estados de origem , sendo que meu grupo no ultimo sábado de cada mês, se encontra já por alguns anos num lugar que você deve conhecer bem, Rua Augusta com Rua Antonio Carlos, no Café Athenas, cujo dono é um grego muito simpático e nosso fã, nos reserva um lugar especial.
Alguns homens tricotam magistralmente, mesmo porque o tricô é democrático, charmoso e encantador.
15 de junho ( com algumas variações) é dia mundial de tricotar em publico.
Tricoteira fervorosa que sou corri a colocar minhas agulhas a trabalhar  .
Sua avó, onde   estiver ,  que nos abençoe em nome do tricô.
Att
Nilda Barroso Siqueira"
E são da Nilda e do José Jaime as fotos da calcinha. Eu vou recebe-la pelo correio, e quero desde já agradecer MUITO ao casal. Habemus calcinha!

Euclides da Cunha

2018

Crônica diária

Éramos infelizes e não sabíamos

Foi meu amigo Roberto L.N. quem, outro dia, chamou atenção para o fato de que o Brasil tinha dado um salto qualitativo enorme, com a eleição do tosco capitão Bolsonaro, que nós ainda não nos demos conta. Veja você quem dirigia o destino deste país há um ano atrás: Dilma, Lula, Gleisi Hoffmann, José Dirceu, Palocci e um número expressivo de condenados pela Lava Jato. É quase impensável o perigo e risco de venezuelização que corríamos. O "mito" trouxe uma brisa de esperança para um povo empobrecido e desenganado. Para um país a beira do abismo. Agora cabe a todo brasileiro de boa fé ajuda-lo na árdua tarefa da reconstrução. O Brasil virou uma triste e obscura página da sua história.

12.12.18

AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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Falaram do Varal:

"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes

(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)

..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )

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