22.3.18
Crônica diária
O país em seu mais baixo nível
O
deputado Beto Mansur, amigo do Presidente Temer, declarou ao O
Antagonista dia 19 passado que o Presidente, com quem falou por
telefone, vai ser candidato. E argumentou:
“Se não for candidato, ele ficará fora do jogo e ninguém vai querer
sentar para conversar com ele. Veja, Michel está com a caneta na mão, é
presidente da República, tem coisas para mostrar. O cara está com 77
anos, não tem nada a perder. Ou ganha ou vai para casa. Ou você acha que
ele vai ser candidato a deputado, senador? Michel, repito, vai ser
candidato: vai usar o tempo de televisão do partido, vai para o debate,
vai dar porrada…”
Eu faço outra leitura. Temer
quer ser eleito para não ser preso. Ir para casa seria o paraíso para
quem não estivesse sendo investigado pela Lava Jato. Sem foro
privilegiado, sem a caneta, e portanto sem amigos, poderá ser
processado, julgado, e se condenado, preso. Como presidente, continua safando-se da justiça.
Mantenho
minha coerência. Fui defensor da sua saída da presidência quando do
escândalo do Joesley Batista. Então seus defensores argumentavam que
seria melhor ele cumprir mais um ano e meio de governo, e responder
pelos crimes depois. Sempre achei um absurdo manter quem quer que seja
em seu cargo, ou função, apesar das graves acusações de que é alvo, sob
alegação de que sua substituição seria mais traumática para o país. Nada
é mais traumático e imoral do que a impunidade. Estamos onde chegamos
por conta dessa teoria. E agora quais seriam os argumentos para permitir
um ficha (teoricamente) suja, (até que se prove o contrário), concorrer
a reeleição? Lula condenado pela segunda instância ainda solto. O STF
preparando para que caso seja preso, saia em uma semana. A eleição do
Temer, que tem o maior índice de rejeição, entre os possíveis
candidatos, seria o escárnio total. Era só o que faltava. Seria
a perpetuação do que há de pior na política e justiça brasileira. A
perspectiva de uma improvável vitória do Temer, justifica o crescimento
do deboche que é a candidatura do Bolsonaro. Mas o país não merece tão baixo nível de opções.
21.3.18
Crônica diária
O balanço do jardim da casa da minha avó
Há onze dias escrevi uma crônica sobre o jardim da casa da 13 de maio,
onde moravam minha avó e madrinha Nina, e meus tios Silvia e Totó. Minha
prima Dora Penteado teve a gentileza de postar uma foto do balanço a
que me referi no texto. Encontrei a imagem por acaso dando uma volta
pelo FB. Reconheci de imediato o balanço, e depois no texto identifiquei
a Dora e a dedicatória. Valeu, minha querida prima. Quantas gerações
não passaram por ele! Não sabe como foi
bom rever essa pontinha do velho passado. E bom saber que a família
guarda essas recordações. Para seu conhecimento tenho da casa da 13 de
maio a Santa Ceia de bronze que ficava na sala de jantar. É minha ponte
permanente com a memória da vovó Nina. Outra lembrança que trago, já não
é da casa, mas do apartamento da rua Piauí. Na parede do corredor de
entrada havia uma pequena tela de uma ninhada de gatinhos. Autoria, tia
Edith, irmã mais velha de minha mãe. Antes da minha mãe morrer, tentei
rever essa tela, que na ocasião estava na casa do Salvio ou da Nedy.
Hoje deve estar com um dos seus filhos. Gostaria muito que fotografassem
e me enviassem. Foi uma pintura acadêmica que marcou-me na infância.
Fica aqui o registro. E não poderia deixar de lembrar do apartamento da
rua Piauí, sem mencionar dona Yayá, dama de companhia da vovó, que
depois da sua morte voltou a morar em Piracicaba.
20.3.18
Crônica diária
As mentiras contra Marielle
Não acredite em tudo que vê ou lê aqui nas redes sociais. Tenho lido e visto notícias absurdas, fotografias montadas, difamando pessoas, denegrindo suas imagens, espalhando mentiras e inverdades. Só acredite na imprensa séria que informa a fonte e responde criminalmente pelas notícias veiculadas. Um dos alvos preferenciais dessas fake news são os políticos. Difama-los enquanto vivos, ainda que reprovável, é compreensível, pois eles próprios podem se defender. O impensável é denegrir a imagem de um político, e no caso uma vereadora, negra, ex-favelada, mãe, e brutalmente assassinada por profissionais extremamente preparados e competentes. A vereadora não foi uma pessoa qualquer. Em seu primeiro mandato, com mais de 45 000 votos, a vereadora mais votada do Brasil, e a quinta em número de votos no Rio de Janeiro. Só perdeu para outros quatro vereadores homens. E é mentira que tenha sido eleita pelo voto do trafego da Maré. Lá, e em outras favelas teve pouco mais de 300 votos. Não foi o crime que a elegeu. Mas foi vítima de um bárbaro assassinato que precisa ser esclarecido e punido exemplarmente.
Não acredite em tudo que vê ou lê aqui nas redes sociais. Tenho lido e visto notícias absurdas, fotografias montadas, difamando pessoas, denegrindo suas imagens, espalhando mentiras e inverdades. Só acredite na imprensa séria que informa a fonte e responde criminalmente pelas notícias veiculadas. Um dos alvos preferenciais dessas fake news são os políticos. Difama-los enquanto vivos, ainda que reprovável, é compreensível, pois eles próprios podem se defender. O impensável é denegrir a imagem de um político, e no caso uma vereadora, negra, ex-favelada, mãe, e brutalmente assassinada por profissionais extremamente preparados e competentes. A vereadora não foi uma pessoa qualquer. Em seu primeiro mandato, com mais de 45 000 votos, a vereadora mais votada do Brasil, e a quinta em número de votos no Rio de Janeiro. Só perdeu para outros quatro vereadores homens. E é mentira que tenha sido eleita pelo voto do trafego da Maré. Lá, e em outras favelas teve pouco mais de 300 votos. Não foi o crime que a elegeu. Mas foi vítima de um bárbaro assassinato que precisa ser esclarecido e punido exemplarmente.
19.3.18
Crônica diária
A volta do povo na rua
Não há como fugir do tema. As redes sociais viralizam versões, opiniões,
teses, e poemas sobre a morte da vereadora no Rio de Janeiro. É a Maré
do momento. Sobram perguntas na falta de respostas. Quem matou Marielle?
Com que objetivo? Até agora ninguém sabe. Há especulações de todos os
tipos e de todos os matizes. Gente da esquerda interpretando pelo seu
viés ideológico. Gente da direita fazendo o mesmo. Ainda é cedo para
saber. Porém esse lamentável fato político/policial atingiu os alicerces
da democracia, e isso é gravíssimo num ano eleitoral. Pode ter sido o
estopim para voltar a colocar o povo na rua. A quem interessa esta
instabilidade? Nos próximos dias saberemos. Mesmo que nunca venhamos
saber quem foram os mandantes, e suas intenções.
18.3.18
Crônica diária
Botão na braguilha
O Leonardo ligou-me para comentar a crônica sobre calças Lee que
escrevi dias atrás. Disse ter sido testemunha de duas passagens onde os
jeans foram coadjuvantes. Uma delas num elevado lotado no centro da
cidade, num dia de verão intenso, quando subitamente um forte cheiro de
enxofre tomou o ar. Todos a bordo do elevador começaram a se entreolhar, e
um rapazinho, office boy, que trajava uma surrada calça jeans ergueu a
mão e disse: "Não fui eu!". A gargalhada foi geral. Em outra ocasião,
também num elevador, mas esse com uma ascensorista anã, um indivíduo de
costas para ela, cuja cabeça batia próxima das nádegas do sujeito
trajando calça jeans, ela falou: "Deveria ser proibido transportar gases
no elevador social." Novamente gargalhada das vítimas. E o Leonardo
completou lembrando quantas vezes ouviu histórias de gente que sofreu
com o zipper das calças. Ele mesmo disse que sempre preferiu não correr
riscos e usava as com botão na braguilha.
17.3.18
Crônica diária
Amor pela leitura e pelos livros
Estava lendo um livro comprado no sebo quando a lombada se descolou. A cola com o passar do tempo resseca. Por sorte tinha à mão um bastão de Pritt fechado na embalagem. Abri, passei o bastão na lombada e na capa. Bati forte contra o tampo da mesa três vezes. Peguei dois sargentos e prendi com força capa e contra capa até a cola secar. Foi nesse instante que me veio à memória a cena da minha mãe fazendo encadernações quando nós, filhos, éramos jovens. Ela era uma leitora constante. E nessa época encadernou, no melhor estilo da época, os romances que lia. Estão até hoje numa estante da fazenda.
Comentários que valem um post
João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Uma praia chamada do Luz":
Excelente imagem !
Feliz momento com a embarcação com os "pés" na areia, tal como o desportista.
A prancha encarnada a dar o toque final de um colorido vivo.
Postado por João Menéres no blog . em sexta-feira, 16 de março de 2018 06:56:00 BRT
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16.3.18
Ctrônica diária
Cena de sexo na literatura
Foi José Nêumanne quem escreveu que o amigo de Jorge Amado e autor
português do "Os cus de Judas", António Lobo Antunes, afirmava que não
há possibilidade de se escrever uma cena de sexo que não seja vulgar.
Nem as cenas do decantado escritor baiano deixaram de ser. Por essa
razão Antunes justificava a completa abstinência de sexo em seus
romances. Dizia que em toda sua vida só havia lido duas descrições
bem-feitas de intercessor: uma, a de dois idosos em "O amor nos tempos
de cólera", de Gabriel Garcia Marques. Outra, num best-seller de Jackie
Collins que nem valeria a pena citar.
15.3.18
Crônica diária
Ponto de observação da Piacaba
Tomo emprestado o título do livro da Betty Vidigal para esta crônica
sobre meu deck, um verdadeiro posto de observação em minha casa. Piacaba
é o nome dela, não por acaso, quer dizer em tupi-guarani "Mirante,
miradouro, lugar que se avista". Tenho lá uma poltrona de madeira muito
confortável. Em dois momentos do dia esse posto de observação pode
conferir, pela manhã a revoada dos pássaros de cor escura, e os de penas
brancas, que não se misturam e voam em bandos, muito numerosos, ou em
pequenos grupos, chegando a voarem em dupla. Saem da Ilha do Batuta, no
mar em frente de casa, para a lagoa de Ibiraquera onde vão passar o dia
comendo, posando para fotos de turistas e bebendo água salobra da lagoa.
Dormem na ilha, que é um ninhal. Lugar seguro, livre de predadores, mas
sem água ou alimento. As sete da manhã pode-se ver milhares de pássaros
escuros em altura de voo semelhante, fazendo suas formações ora em
flecha ora em linhas tortuosas, e subitamente em flecha de novo.
Alternadamente, como se tivessem combinado, em altitude menor, vem os
bandos de milhares de pássaros brancos. Saem da pequena ilha e vão
buscar lugar na vasta lagoa. Esse balé se repete às seis da tarde. Em
sentido contrário. Da lagoa onde passaram o dia, para a ilha. Novamente o
voo dos escuros é mais alto, e seu número é maior. Flechas, linhas,
círculos mal feitos, uma aparente desorientação e voltam a formar as
flechas, parecendo obedecerem uma voz de comando único. Numa altura
inferior, voltam pra ilha os brancos sempre em número suficiente para
formações cheias de graça. De quando em quando, no por do sol e contra
um céu laranja avermelhado, uma dupla voa em sentido contrário. Parecem
procurar por alguém, ou fiscalizar algum retardatário. Logo se vê eles
de volta em alturas e bater de asas diferente. Essa rotina se repete
todos os dias, faça sol ou esteja chovendo. Na Piacaba tenho um deck que
é meu posto de observação.
14.3.18
Crônica diária
Foi por um triz
Na ladeira e bem na curva que antecede o meu portão aparece na contra
mão um veículo branco. A última coisa que lembro ter ouvido foi o cantar
dos quatro pneus com a forte brecada. O carro branco passou a poucos
milímetros dos espelhos retrovisores laterais. "Filho da puta" devo ter
balbuciado junto com o ar que saiu do meu estômago. Parei em frente ao
portão que deveria estar aberto e toquei três vezes a buzina mais de
nervoso do que necessidade. Foi por um triz.
13.3.18
Crônica diária
"Paixão via internet - e outros delírios improváveis"
Este mais um livro da poeta Betty Vidigal. Ganhei com dedicatória e
levei três meses lendo, relendo e tendo muita dificuldade em comenta-lo.
Poesia de rara atualidade. Betty em nenhum momento resvala no comum,
apesar de falar sobre amor, no banal apesar de tratar de assuntos
cotidianos. Usa as palavras como uma especialista. A autora nega (li em
algum lugar) que escreva sobre si própria. No entanto seus poemas são
tão íntimos, verdadeiros, que chegam a ser despudorados. Ela diz o tempo
todo o que eu gostaria de ter dito, e não ouvido da mulher amada. Ela é
de uma coragem selvagem, um destemor assombroso, e uma segurança
amedrontadora. Em todos os poemas revela-se (embora negue, e eu li isso
em algum lugar). Sou obrigado a discordar da maioria das opiniões dos
ilustres intelectuais que opinaram sobre ela na contra capa. Não há nada
de "lírico", de "sutil", nem "voz triste", nem "melancólico" em sua
poesia. Ela é afirmativa, categórica, corajosa, valente, sensual, segura
e convencida. Adoro mulheres assim. Adorei a poesia, ainda que tenha
delírios improváveis. E para justificar tudo que digo, confiram na
página 127 o "Poema cabotino". Uma pérola antológica.
12.3.18
Crônica diária
Laselva faliu
Dia 28 de fevereiro ao embarcar no aeroporto de Florianópolis para São
Paulo fui surpreendido com a loja da Laselva fechada. Sem nome na
fachada e sem uma nota explicativa. Perguntei para os vizinhos e ninguém
sabia mais do que eu. Estranhíssimo um aeroporto sem uma revista, um
jornal ou um livro. Na segunda feira dia 5 de março foi decretada a
falência da maior rede de livrarias de aeroportos do país. Ao embarcar
de volta para Florianópolis as de Congonhas já tinham sido desativadas.
Um pouco da história pode explicar: fundada em 1947 por Onófrio Laselva
chegou a ter 83 lojas, e em 2013 entrou em recuperação judicial com um
passivo de R$120 milhões. Com cerca de 800 empregados, quando despediu
37 não pagou os direitos trabalhistas. Por falta de pagamento das
parcelas da recuperação, e de mais de 300 credores a justiça foi
obrigada a decretar a falência. Parte do problema começou em 2010 quando
venceu uma concorrência para mais 37 novos postos em aeroportos. Mas
não conseguiu financiamento para montar as lojas, e arcou com os altos
aluguéis. Fez várias tentativas de venda ou associação para salvar a
empresa mas os interessados barravam na precariedade dos contratos da
infraero. Somado ao alto custo desses aluguéis. Agora todos os
aeroportos atendidos pela Laselva estão sem jornal, sem livros e
revistas. Uma falência lamentável. Uma sensação de aeroporto da
Venezuela. Determinados serviços como engraxates, e bancas de jornal a
infraero deveria cobrar aluguéis compatíveis, sob pena de ficarmos sem
eles. Ou pagando, como nos cafés e pão de queijo, valores exorbitantes.
Não é só o valor das passagens aéreas que é alto, os serviços dos
aeroportos também.
11.3.18
Crônica diária
Jeito de ser
Foi há quatorze anos numa viagem a NY que decidi
que não usaria mais calças jeans. Minha mulher e o casal com quem viajávamos se
fartaram de comprar as autênticas Lee e Levi´s. Provavelmente
manufaturadas na China. Por que dessa decisão? Porque completara nesse ano meus
sessenta anos. Achei por bem a partir dessa idade não usar mais jeans. Não que
velhos e idosos não as usem, ou não possam usa-las, nada disso, Só por uma
questão de estilo. Não queria mais fazer o tipo da moda. Calças largas, calças justas,
bocas de sino, cano apertado e curto, cintura alta, cintura baixa, e etc...
Passei a usar calças de algodão bege, brancas ou pretas. Todas folgadas e
confortáveis. Raramente andei a cavalo nesses quatorze anos. Nunca mais usei
botas, na verdade nem sapato de couro tenho usado ultimamente. Uso uns tênis de
couro. Confortáveis, não escorregam, e de pé, parecem sapatos. Na praia, onde
moro, só ando de bermuda bege, camiseta branca de algodão e havaianas. Acho
graça de quem usa as tais sandálias Crocs, ou as de couro como usavam o baiano
Jorge Amado e o paraibano Suassuna. Mas cada um com seu estilo.
PS- Foi depois de ter escrito o texto acima que
lembrei que tenho outra história com calças. E vou aqui fazer uma homenagem a
minha amiga Guaracy Mirgalowska, leitora assídua destas crônicas, e a Lidya
Chammes, que nunca mais vi, mas foram as responsáveis como sócias da Mirga
Confecções pela criação da Bípede, loja só de calças, ao lado da Boutique
Paraphernália que existe até hoje na Alameda Franca, quase esquina da Augusta,
onde esta nascendo um grande empreendimento hoteleiro capitaneado pelo
famoso chef Alex Atala, para concorrer com o Hotel Fasano. Participei
modestamente da empreitada da Bípede, enorme sucesso à época. Precisamos falar
mais dessa efeméride que, por curiosidade procurei, não consta do Google.
Comentários que valem um post
João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem ""Contém Glúteos, mas vai tirando o olho"":
Em idênticas situações, também me passeio pela secção das bebidas, mas no meu caso, nos VINHOS.
Em cervejas ou em vinhos, ainda não encontrei nenhum rótulo que apelasse a tal propósito.
Mas se calhar ando distraído...
Postado por João Menéres no blog . em sábado, 10 de março de 2018 06:02:00 BRT
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10.3.18
"Contém Glúteos, mas vai tirando o olho"
GORDELÍCIA - Cerveja
Enquanto minha mulher fazia as compras do mês no mercado fui dar uma olhada na seção de bebidas. Adoro olhar rótulos. E desta vez descobri a GORDELÍCIA, uma cerveja cujo rótulo informa: "Contém Glúteos, mas vai tirando o olho". Essa é uma tendência desse segmento de cervejas artesanais. O apelo sexual no rótulo. As cachaças já usavam desse artifício de gosto duvidoso: Naxoxota,
Prima Pode, Queima rosca. Agora as cervejas: Sporra, Gordelícia, Que Fim Levou Juliana Klein?, Vedett, Devassa, e na propaganda de Loiras geladas e Negras encorpadas palavras de sentido duplo são usadas para a divulgação de cervejas.
Crônica diária
Os jardins das casas dos meus avós
Tanto os paternos como os avós maternos moravam 200 metros uns dos outros.
O paterno na esquina da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio com a Rua dos
Ingleses, e o materno na primeira quadra da Rua Treze de Maio, esquina
da Brigadeiro. Minha mãe era colega de colégio das irmãs do meu pai. Daí
se conheceram, namoraram e se casaram. Ambas as casas tinham jardins.
Minha memória inicia na casa dos avós maternos onde moravam meu tio
Totó, irmão da minha mãe, casado com minha tia Sylvia e mãe do Fernando e
da Anna Sylvia (prima e leitora fiel). Minha avó, e madrinha, já era viúva. A casa tinha entrada lateral
para automóveis, mas não tenho lembrança de ter visto nenhum. No fundo a
garagem, lavanderia, e quarto de empregado. Embaixo da escada desse quarto um balanço de dois lugares. Jabuticabeiras e o viveiro do
meu avô Delfino. Trocar água e repor alpiste e couve,
colhidas ao lado, eram rotinas diárias. O Fernando por ser mais velho era
nosso ídolo. Criava uma tartaruguinha no quarto, e tirava veneno das
taturanas das jabuticabeiras com uma seringa para injetar nos
passarinhos. O Paulo, meu irmão, e eu prendíamos carta de baralho nos
aros da bicicleta para imitar o barulho de motos. Moramos uns dias na
casa da vovó Nina quando nossos pais foram de navio para os Estados
Unidos. Provavelmente um mês. Dessa época não tenho memória do jardim da
casa dos outros avós. Mas lembro do litro de leite e do pão entregues de manhã. Lembro ainda do
sapateiro que ficava logo na esquina. Naquele tempo se trocava
meia sola dos sapatos.
Crônica do Álvaro Abreu
Com arara e sem parque
Amora
chegou no começo da noite de sexta feira. Fomos em comitiva apanhá-la
no setor de cargas do aeroporto. Estava estressadíssima dentro de uma
pequena caixa de madeira comprida, onde passou muitas horas vendo um
mundo totalmente estranho, através de uma tela de arame. Nossa primeira
troca de olhares não foi nada animadora. Ela gritou com força e me fez
ficar preocupado com a possibilidade de ter sido criada uma antipatia
definitiva. Em casa, achei por bem deixá-la ficar diante da gaiola com
as quatro calopsitas de Manu. Pelo silêncio, acho que percebeu que
estava em ambiente familiar, mas não quis sair da caixa enquanto
estivemos por perto. O criador nos disse que ela poderia ficar dois dias
sem querer comer ou beber.
Passei
o sábado por conta dela, tentando provar ser pessoa confiável. Para
tanto, lancei mão de uma varinha de bambu e lasquei uma das extremidades
em muitas varetas, algo bastante atraente para quem gosta de bicar o
que esteja por perto. Antes mesmo de ter gasto toda a sua raiva atacando
a varinha, mergulhei a ponta na água e ofereci pra ela. Deu gosto vê-la
bebendo as duas primeiras gotas. Passei um bom tempo repetindo a
operação com movimentos suaves até que matasse a sede. Em seguida,
prendi um pedacinho de mamão entre as lascas e estendi pra ela que,
depois de vencer o que restava de desconfiança, recolheu a comida com a
parte superior do bico e comeu com esganação. O fato é que, de gota em
gota e de pedaço em pedaço, ela foi enchendo o papo amarelo e abrindo o
coração, a ponto de deixar que eu usasse a tal varinha para dar as
primeiras coçadas na cabeça dela. Se arara sorrisse, Amora teria sorrido
pra mim. Tranquila a bordo do seu poleiro móvel, tomou um bom banho de
mangueira e passou o resto do dia prestando atenção na conversa de
adultos animadíssimos, comendo jabuticabas tiradas do pé, servidas na
ponta dos dedos.
Vi
que compensa esperar um filhote de arara por alguns meses, mas começo a
acreditar que foi totalmente em vão esperar 26 anos pelo Parque
Tecnológico de Vitória.
Vitória, 07 de março de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
9.3.18
Crônica diária
"Ponto de observação" de Betty Vidigal
No formato de pocket book esse livro de "contos para a happy-hour" que
Betty publicou em 1996, e o meu exemplar, comprado num sebo, tem
dedicatória da autora, com letras desenhadas em arabescos, como as
siglas da editora GRD na página de rosto, com um furo de traça da pagina
77 até a contra capa. São dezessete contos e um prefácio de Marcos Rey.
Cento e dez páginas. Tudo perfeito. Apesar da Betty, ou por isso mesmo,
ser considerada antes de tudo uma poeta, sua prosa é impecável.
Correta. Bem construída. Bem humorada. Inteligente. E sempre revelando o
lado sensual do ser humano. O livro esta esgotado,
mas por sorte da autora, e de seus novos leitores, há disponíveis na
Estante Virtual, site que congrega os melhores sebos brasileiros. Eleger
um dos contos é tarefa complicada. Vou ficar com o que dá título ao
livro. O ultimo e talvez o mais longo. Um conto memorável. Construção e
ritmo impecáveis. Um exemplo do que é um excelente conto.
8.3.18
Crônica diária
Olhem o lado positivo
Escrevi sobre o
metatarso do Neymar , e o bilau do Temer, abordando a vasta cobertura da imprensa em
ambos os casos. O resultado foram alegres e descontraídos comentários de
leitores que riram, e alguns até escreveram que “morreram de rir”. Que bom poder
fazer a alegria das pessoas. Mas, na vida, sempre tem um mas, outras tantas
leitoras recriminaram o lado divertido da crônica e cobraram mais publicidade
sobre o estado deplorável do SUS, dos hospitais, e da saúde no país. Tem gente
que prefere chorar a rir. E neste caso como se a imprensa não falasse diuturnamente
desse grave e crônico problema brasileiro. A qualidade da saúde publica no
Brasil. E aí me pergunto: que culpa tem o Neymar de ser rico? Existe hoje, mais
do que em qualquer tempo, ódio contra quem tem dinheiro. Que bom que o Neymar é
muito rico. Que bom que veio operar em Belo Horizonte. Que bom que a seguradora
do seu time, e a do atleta, acreditam nos médicos brasileiros. Que bom, que bom. Mas
tem gente que odeia rir, odeia rico, e odeia ver a vida pelo seu melhor ângulo.
7.3.18
Crônica diária
Meu comportamento em restaurantes
Sei que este assunto vai levantar críticas e censuras ao meu
comportamento. Mas não consigo ser hipócrita, cínico, ou desleal aos
meus princípios. Trato muitíssimo bem todas as pessoas. Costumo ser
ainda mais gentil, cortes, e educado, com os mais simples e
necessitados. Mas quando sento à mesa de um restaurante, principalmente
caro e cheio de pompas, exijo reciprocidade, ao menos pelo valor que cobram. E gosto de ser tratado como um cliente de um restaurante caro. O
que significa isso? Significa que o maître deve ser mais simpático e
atencioso do que o fregueses. Nem sempre o são. Alguns, até, muito
antipáticos, parecendo serem os Reis da Pérsia, e você um tolo comensal. Aí começa minha irritação. A título de informação, os
clientes desses restaurantes são medidos desde que chegam ao
estabelecimento. O manobrista os classifica desde a chegada pela marca e
modelo do carro. Depois pela forma como estão trajados. Roupas da moda e
cheias de etiquetas contam muito na avaliação (cretina) dos
manobristas. Essa informação é passada para a recepcionista que vai
fazer a pergunta padrão: O senhor tem reserva? Nunca tenho. A sua
mesa será a pior do salão, em termos de ruído, comodidade, iluminação, ar condicionado e
serviço. Logo a atenção do maître é secundária. Depois segue-se o
atendimento por cumim (auxiliar de garçom), e pelos garçons. Em geral são
mais amáveis e simpáticos do que o maître, porém o drama mal começou.
Interrompem a conversa dos comensais a todo instante, partindo do
princípio de que tem muita coisa a fazer e não pode esperar uma frase
ser concluída para perguntar se a água é com ou sem gás. Depois oferecem
o couvert. Se você não aceita, esta confirmada a classificação que o
manobrista havia feito logo na entrada. O saleiro não funciona. Peço
outro e o garçom duvida da minha palavra, e testa ostensivamente na
minha frente. Constata que apesar de fortes sacudidelas não sai sal
pelos orifícios. Com má vontade vai apanhar outro. Esse também não
funciona, mas desisto de reclamar. Abro a rosca, cai sal pela mesa, sirvo-me, e volto a rosquear a tampa. Feito os pedidos ao maître, ou
garçons, que os anotaram não identificam os comensais no pedido. Quando os mesmos,
ou outros garçons, vem com o prato, interrompem mais uma vez a conversa
para perguntar de quem é cada prato. Esse é o detalhe mortal para mim. Restaurantes que cobram o que cobram não podem servir mal. A
taxa de serviço é proporcional ao valor do consumo. Portanto alta. E não
há reciprocidade entre esse valor e os serviços prestados, independente da qualidade da comida. Os coitados
dos cumins e garçons não são os culpados, mas levam a culpa. São pessoas
simples e pessimamente treinadas. Não pagar pelo mau serviço seria
penaliza-los. Nunca faço, mas demonstro minha irritação durante toda a
refeição. E ao sair ainda pago uma fortuna para o manobrista que só
trata bem gente "cafona" com carro de luxo.
6.3.18
Crônica diária
Minhas opções de leitura
De cinco ou seis anos para cá tenho preferido livros com no máximo 200
páginas. E digo sem nenhum constrangimento intelectual. É por uma
questão prática e objetiva. Eu só não havia me dado conta disso. Li
muito livro com 500 a 1000 páginas. Não faço mais. Por que? Respondo com
tranquilidade. Desde que passei a escrever, e postar diariamente, sou
obrigado a ter temas e assuntos variados para não enfadar meus leitores.
Quando mergulho em uma obra longa, como estou no momento, a tendência é
falar repetidamente do que estou lendo. "O silêncio do delator" do José
Nêumanne, já citado anteriormente, é um divertido romance. Todo, pelo
menos até o momento, passado num velório, e pautado quase que
exclusivamente por um disco dos Beatles: Sergeant Pepper´s lonely heart club band.
O morto ouve e dialoga com as visitas. Passam a limpo as vidas de um
grupo de amigos, quando relembram fatos e faixas do disco. Muitos outros
músicos, músicas e discos são relembrados. Uma geração marcada pela
boa música. Pelo rock. E no Brasil, marcadas pela ditadura militar. O
que vivemos hoje é consequência direta daqueles anos. E desta realidade
tenho falado e escrito ultimamente. Mas tenho muita coisa nova para ler.
É só terem um pouco mais de paciência.
5.3.18
Crônica diária
O metatarso do Neymar
Tenho amigos criticando o espaço que as mídias deram para a operação do
metatarso do Neymar. Ora bolas, esse osso realmente é muito mais
importante do que o bilau do Temer, pelo menos em termos educativos para
os brasileiros. No entanto, as internações do Temer tiveram cobertura
semelhante e não vi ninguém achando excessiva. Esse ossinho, ou "o quinto metatarso, é o osso que vem logo antes do dedinho
do pé” pode vir a ser decisivo para o país na próxima copa na Rússia. E
tem algum evento mais importante para os brasileiros, depois de passado
o carnaval, do que a copa? Até o resultado das eleições de outubro
poderão ser afetado por conta do sucesso, ou não, dessa cirurgia. E tem
mais, o povão já sabe o que é um metatarso. E isso não é pouco, em
termos de conhecimento. O bilau do Temer que todo mundo viu em gráficos e
desenhos explicativos não trouxe novidade nenhuma. Todo mundo conhece,
tem ou já viu esse detalhe do corpo humano. Novidade mesmo é o
metatarso.
4.3.18
Crônica diária
Odores de propina
A propósito da notícia de que o STF liberou a polícia da necessidade de
ordem judicial para invadir uma propriedade quando o odor de maconha
aconselhar uma invasão é, no mínimo, preocupante. Num país onde o odor
da propina é muito mais forte e disseminado do que o da Cannabis, é bem
provável que a polícia passe a usar spray de maconha, contaminando o
ar, antes de invadir um imóvel. Com escusas aos bons policiais, mas suas
corporações, tem junto à população, este conceito. Plantam armas e
drogas para justificar prisões indevidas ou justificar mortes de
inocentes. Entre manter as imunidades constitucionais e liberar invasões
baseadas em beque, fino ou baseado, há uma distância enorme.
3.3.18
Crônica diária
Partido Novo
Vou, afinal, ter que posicionar-me sobre a questão do Partido Novo. Fui filiado a um único partido na minha juventude: UDN Estudantil. Como tal fiz campanha do governador da Guanabara, Carlos Lacerda à presidência da republica. Participei ativamente da revolução de 64 e depois nunca mais me envolvi com política. Tenho votado em candidatos do DEM e do PSDB, e sido um crítico feroz de muitos deles. Sou considerado esquerda pela direita e reacionário pela esquerda. Mas hoje no Brasil essas expressões só servem para indicar as direções de ruas e avenidas. Os militares, a quem também combati, fizeram um grande desserviço ao país, acabando com os partidos políticos existentes em 1964. Líderes e partidos não se criam da noite para o dia. Experiências de esquerda, nunca deram certo em nenhum lugar do mundo. Experiências liberais híbridas nunca funcionaram. Aqui, e em nenhum lugar. Sou republicano nascido em 15 de novembro, democrata e liberal. Posto isso, posso declarar que não reconheço nenhum partido que me represente. Nem um político a quem possa dar uma procuração. Muito menos meu voto. Com 74 anos já estou dispensado de votar. Mas não abrirei mão de exercer esse direito, e dever, para poder continuar opinando e criticando, esquerda e direita, ao meu bel prazer. Tenho fortes simpatias, e gravíssimas antipatias, chegando a ter os mais baixos instintos, contra certas figuras do nosso mundo político partidário. O meu candidato, por empatia, mais do que conhecimento biográfico era o atual Prefeito de Manaus, ferrenho e competente adversário do Lula, Arthur Virgílio Neto. Mas nem ele posso seguir nesta próxima eleição quando leio que pensa em apoiar o paranaense Álvaro Dias. Aí me perguntam por que não votar no Partido Novo? Porque não tem a menor chance de chegar ao segundo turno. Porque é preciso que ele, PN, faça uma bancada de vereadores, deputados estaduais, prefeitos, deputados federais, governadores, senadores, e seus líderes apareçam e demonstrem, na teoria e prática, a que vieram. Isso leva de quinze a vinte anos. Eu tenho pressa, urgência em resolver os graves problemas nacionais. Com a minha idade o Partido Novo é uma boa opção para meus netos, se até lá entregarem o que prometem. A partir de maio até outubro teremos seis meses para escolher em quem depositar os destinos do país. Até lá estarei aberto e atento às propostas, e ouvindo partidos e candidatos que se apresentarão. E de promessas e conversa estou cheio.
2.3.18
Crônica diária
Goiabada que virou crônica
Nada melhor do que o mais brasileiro dos doces para começar o ano de
2018. E ainda melhor quando é um presente do velho amigo e fiel leitor
Fernando Ulhôa Levy. Uma recomendação do Fernando tem peso valor e peso de ouro.
Comedido, discreto, e profundo conhecedor das coisas, suas
recomendações, tanto políticas, como gastronômicas, devem ser levadas a
sério. E foi assim que degustei a maravilhosa Goiabada Ponte Nova (31
3284-6705 ou 31 98899-8818) produzida artesanalmente em Belo Horizonte,
foi a melhor que já comi. Uma alegria entre tantas preocupações. O governo
Temer resolveu investir em segurança com o mesmo ímpeto com que se
dedicou por mais de dois anos à reforma da previdência. E deu no que
deu, isto é, em nada. Esta clara a intenção eleitoreira dessa medida
improvisada. Comendo minha goiabada com requeijão derretido torço que os
resultados sejam satisfatórios. E que não sirvam apenas para nos
entreter neste ano eleitoral.
1.3.18
Crônica diária
2018 vai começar
O muito esperado ano de 2018 na prática começa hoje. Ano eleitoral é
mais um ano parcialmente perdido. Depois dos três meses de "férias"
dezembro, janeiro, e fevereiro, passado o carnaval, começa hoje a
corrida para o Palácio da Alvorada. Na classe política, em seu mais
baixo nível de aceitação e popularidade, há uma caça desesperada pelo
novo. Mas em política nada se improvisa. Não se cria partidos do dia
para a noite, não se inventa estadista com passe de mágica. As velhas e
carcomidas raposas estão agindo em suas próprias defesas. Nada de novo
no horizonte, que possa arregimentar um contingente eleitoral que
garanta maioria a um partido ou candidato, que vença no primeiro turno.
Dois irão para o segundo, mas muito provavelmente, o mesmos de sempre.
Vamos ser mais uma vez derrotados pela mediocridade. Ou vamos ter que
optar pelo mal menor. Uma lástima.
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )































