Frutas de Estação
Não sei se repararam, mas dias desses estavam
vendendo carambolas enormes nas esquinas da cidade. Carambola profissional,
tipo exportação, especial para consumidores diferenciados,
como dizem por aí.
Mais uma vitória dos pesquisadores que vivem de
aprimorar e recriar frutas. Mais doces, mais coloridas, mais homogêneas, mais
rentáveis. Coisas do chamado agro-bussines.
Da minha parte, fiz um excelente investimento
no verão passado. Paguei R$ 5,00 por 15 mangas espadas da mangueira da
calçada do prédio onde eu trabalho.
Durante anos acompanhei a vida daquela árvore,
mas nunca havia tido o gostinho de experimentar uma de suas frutas. As mangas de
vez sumiam de um dia para outro. No máximo, via gente tentando derrubar
algumas delas, na base da pedrada.
Contratei os serviços do rapaz que se iniciava
na carreira de flanelinha. Esperto, o danado subiu na árvore com
facilidade, até as grimpas. Da janela da nossa sala, fui passando
instruções para que ele alcançasse as mangas mais escondidas.
Ele me entregou dois sacos cheios de mangas,
como se fossem troféus. Notei orgulho no seu gesto. Eram frutas perfeitas, sem
um amassado sequer, porque tiradas a mão. Algumas tinham pintas pretas na
casca, indicando que estavam prontas para o consumo. Outras davam tal indicação
com um amarelo degradé, mais forte em
volta do cabo. O cheiro forte completava o quadro de tentação.
Chupei duas delas com o caldo escorrendo pelos
braços. Meu colega de sala escolheu uma bem grande para matar o desejo. Os
outros, vejam só, agradeceram a oferta com cara de pouco caso. Imagino que eles
devem gostar de pocan, fruta que
parece inventada para agradar multidões, como esses cantores que surgem por aí,
a cada semana.
Tenho birra de pocan, desde que a conheci.
Confesso-me consumidor convicto das mexericas de casca lisa, azedinhas, cheias
de caroço. Mexeria pequena, da roça. É que fui criado com frutas tiradas nos
quintais da vizinhança. Esperava a chegada do tempo do cajá-manga, que via
crescer e começar a amarelar. Acho que a impaciência me fez aprender a comer
cajá com sal, com água na boca, achando uma delícia.
Mamãe costuma dizer que em Cachoeiro só se
comia frutas e verduras que davam em cada estação, quase sempre trazidas de
fazendas próximas. Comida não entrava nas despesas da casa. Nada vinha de muito
longe.
No verão, em Marataízes, comprava-se a carga que cabia em balaios trazidos
no lombo das éguas, puxadas por maratimbas, gente muito branca, de fala bem
arrastada e meio cantada. Todos usavam de chapéu de palha.Os cargueiros vinham
pela areia da praia lá da Ponta do Siri. O carregamento era quase sempre o
mesmo: manguita redonda, cujo gosto não me sai da memória, abacaxi miúdo e
muito doce, melancia comprida cheia de caroço e um melão perfumado, mas de
pouco gosto, que se comia com vinho e açúcar.
Talvez por tudo isso, tenho certa dificuldade
em comprar goiaba, carambola, beribá e abiu roxo. Em compensação, compro kiwi,
morango e cereja sem qualquer problema psicológico. Uva também.
Vitória 19.08.2009
Alvaro
Abreu
Crônica escrita para a Gazeta