Cartomante em Brasília
Com oitenta e sete anos, quase completos, o padre
Quevedo, hoje aposentado e morando numa casa para idosos em Belo
Horizonte, cuida de sua precária saúde.
Nascido em Madri na Espanha, naturalizou-se brasileiro e como uma das maiores
autoridades do mundo em Parapsicologia, dedicou sua vida em difundir suas
teorias, estudos e pesquisas que visavam combater os posicionamentos de
religiosos e paranormais que afirmam poder prever
o futuro, e considera tais práticas como ilusionismo, e
charlatanismo. Por
ironia do destino os videntes e cartomantes mais conhecidos também tem
sotaque estrangeiro. Tratar do assunto, contra ou a favor, com sotaque, parece aumentar a credibilidade.
Brasília desde sempre foi uma capital mística. O
poder e o misticismo parecem estar sempre juntos. Dona Rosa, filha de
candangos nasceu pelas mãos de parteira. Moravam no acampamento Vila Amaury,
reservado para os trabalhadores da construção da cidade. Quando as águas da
lagoa Paranoá submergiram a Vila, dona Rosa já não morava mais lá. Sua mãe abandonada
pelo marido foi trabalhar como faxineira na Embaixada do Paraguai. A filha foi
praticamente criada pelo pessoal da embaixada. Fala português tão bem (ou mal)
quanto o espanhol. Até um pouco de Guarani. Nunca saiu do Distrito Federal, mas
tem ares de viajada. Desde menina pequena e franzina encantava as pessoas com
seu olhar vivo, e inteligência aguda. Possuía uma sensibilidade diferente. Adorava
inventar histórias. Quando sua mãe morreu, já era mocinha, e recebeu para morar
uma casinha na Asa Norte, como gratidão dos funcionários da embaixada. A alta
sensibilidade da dona Rosa nunca a deixou se apaixonar por ninguém. Nunca
se casou. Se tivesse tido orientação espiritual talvez a vocação fosse para freira.
No início aconselhava gratuitamente os vizinhos, e depois os amigos dos
vizinhos e logo sua fama de cartomante se espalhou. Dona Rosa é muito
solicitada em Brasília. Poderia estar rica se cobrasse o que cobram seus
concorrentes. Mas ela só aceita doações para sobreviver, e manter uma creche
com trinta e seis crianças. Fala português, a maior parte do tempo, mas quando esta
atendendo um cliente, mescla o espanhol. E não faz isso por esperteza ou
sagacidade, alegando serem determinações dos espíritos.
A maioria de carros de clientes, atualmente param em
frente a casinha de dona Rosa, com motorista e chapa branca. Carros oficiais.
Os políticos se socorrem da vidente em busca de luzes no futuro. Um deles
chegou a propor uma sala próxima a seu gabinete no Congresso Nacional. Nunca
aceitou nada além de módicas contribuições.
Na manhã de
um domingo, sem aviso telefônico prévio, parou na sua porta, um carro preto,
com vidros fumê, e dele saíram três truculentos homens vestidos com ternos e
gravatas igualmente pretas. Suas intenções eram claras nos gestos enérgicos e
decididos.
--Viemos busca-la dona Rosa.
Ela parecendo conseguir ler os pensamentos dos seus algozes,
não os questionou, apenas pegou uma pequena bolsa, e se disse pronta a
acompanha-los.
Em grande velocidade, sem qualquer necessidade ou
pressa aparente, mas como é de hábito os carros oficiais se locomoverem, o
destino foi o Congresso Nacional.
Entraram pela rampa da garagem reservada aos
parlamentares. Apesar de ser um domingo parecia haver muita gente trabalhando.
Ela foi conduzida por três dos quatro homens de terno para o terceiro andar.
Era a primeira vez que estava no coração do poder legislativo do seu país. Em
que pese, seu pai ter trabalhado como candango naquela obra, jamais pensara um
dia poder estar “a convite” num salão tão nobre.
A razão do “convite” em pouco tempo se
esclareceu. O presidente do Senado
estava com uma pasta azul, com muitas folhas no seu interior. Ele e cinco assessores
sentaram-se à mesa onde dona Rosa já os aguardava. Sentiu-se uma pessoa
importante. Lembrou as recepções que
aconteciam na embaixada onde passou a infância.
Tomando a palavra, de forma afetada, como costumam
se expressar os políticos nessa posição, o Senador foi direto ao ponto:
--É um prazer recebe-la dona Rosa, que tão prontamente
atendeu nosso convite, e não é necessário enfatizar a gravidade do momento que
vivemos.
--É mesmo, Senador? Exclamou, ingenuamente, dona
Rosa.
--Na verdade estamos aqui com um projeto de lei que
irá modificar profundamente nossas instituições, e gostaria que a senhora nos
dissesse o que será do nosso futuro.
--Senador, meus conhecimentos são sobre a alma
humana, e não tenho essas informações que deseja.
--...mas dona Rosa, dizem que a senhora enxerga o
futuro...
--Senador,
posso dizer algumas coisas sobre sua
vida, e a vida de algumas pessoas aqui presentes, mas não sobre o futuro
desse monte de papel. Os espíritos, e nesse ponto começou a falar em
espanhol,
não cuidam de leis.
Os cinco assessores do presidente, (três mulheres) até
este ponto concentrados em seus postos, reagiram com largos sorrisos. Pareciam
estar comemorando uma vitória. Como trocar seus doutos e profundos
conhecimentos técnicos, por uma reles e inculta opinião de uma cartomante.
O senador, visivelmente contrariado, fechou a pasta,
e levantando-se deu a reunião por encerrada. Contrariando a praxe, nenhum assessor o acompanhou. Ao contrário, todos com os olhos colados na frágil dona Rosa, continuaram sentados, dispostos a conhecerem seus próprios futuros. A
manhã passou muito rápida. Eram mais de treze horas quando o motorista de terno
preto, sem nenhum dos outros três seguranças, levou a vidente de volta para
casa.
Os cinco assessores saíram para almoçar, e a tarde
foi toda dedicada às profecias que
haviam escutado naquela manhã de domingo. E nada parecia tão grave como o
Presidente do Senado havia previsto. A vida de cada um deles seguiria o seu curso normal. Casamentos, filhos, novos amores, e
muito dinheiro.