Crônica diária
Roberto, com adaga, não
Maldita hora que o Cassinho falou da existência do
concurso/oficina Desafio dos Escritores DF. Antes não tivesse eu inventado de
participar. Ele mesmo "amarelou". Fui eliminado na primeira semana.
Na primeira provocação, como o Roberto Klotz chama seus desafios. Mas de
brincadeira, como exercício, continuei escrevendo sem participar do grupo dos
21 concorrentes. O Cassinho comentou que o meu terceiro conto já estava mais
"encorpado". Meus leitores cativos gostaram dos três. Resolvi esperar
pelo quarto desafio. O Roberto esta complicando as coisas gradativamente. Veio
com um "cenário da Rua das Noivas". Em Brasília, evidentemente. Eu
não conheço, mas aposto, sem medo de errar, que deve ser brega e parecida com
todas as "ruas das noivas" de todas cidades do Brasil. "O
personagem, em vez de um, são dois: gêmeos". E explica que pode ser um
signo, ou dois irmãos do mesmo sexo, ou de sexo diferentes, idênticos ou não. E
para completar o objeto-chave desta vez é "uma adaga".
Onde o Roberto esta com a cabeça! Desconfio que anda lendo muito Paulo Coelho,
que segundo ele próprio, Roberto, as pessoas criticam, sem terem lido.
Mas "adaga" é coisa de conto "fantástico", de alusão a
poder, e simbolismo. Me nego a escrever um conto nessa linha. Poderia até
inventar uma história com muita ação, uma vez que fui criticado (e com razão,
diga-se de passagem) no primeiro conto, "O alemão obsessivo", por
falta de ação, e por ter ficado dentro do clichê. Mais uma vez,
"adaga" é um convite claro a um bom clichê. Nessa não caio mais. Mas
também não fujo da raia. Anotem aí, Cassinho e Roberto, vou lhes contar a
história dos dois anõezinhos gêmeos, que resolveram se casar. Moravam numa
chácara em Edilândia a 83 quilômetros de Brasília. Não pensem que ando influenciado
pelo Rubem Fonseca, que não deixa de colocar um anão em seus contos. Nem pelas
cenas circenses do Fellini, com seus anões portando adagas de madeira, em
exército de Brancaleone´s. Os anões gêmeos, da minha história, são ainda mais
singulares. Negros e idênticos. Univitelinos. Calcular idade de um anão não é
tarefa para principiante. Os nossos tinham trinta e dois anos. Sonhavam
um dia serem donos de uma pousada em Alto Paraíso de Goiás. Inseparáveis, com
muita afinidade, comunicavam-se entre si com um olhar. Um deles, e como eram
idênticos, não adianta tentar identifica-los, se apaixonou pela Lurdinha. Moça
simples do interior. Solteira com quarenta anos. Loira cacheada, de olhos
azuis, pele clara, de estatura média e peso acima do desejável. Filha de
gaúchos, descendentes de alemães, que vieram do Rio Grande do Sul cultivar soja
no cerrado. Um ano depois de namoro, por insistência da Lurdinha, o outro irmão
começou a sair com a amiga Gracinha, que de graça só tinha o nome. Magra
esquelética, cabelo ruim, olhos de lagarto, e para completar nariz adunco.
Feiosa, a coitadinha. Mas os quatro resolveram casar. Como os pais da Lurdinha
eram contra esses casamentos, resolveram enfrentar a família, por conta
própria. Alugaram o salão de festa da paróquia. Contrataram um buffet, e uma
dupla sertaneja para animar a festa. Os convites, para o casamento duplo, foram
impresso em papel pergaminho e letras em relevo numa gráfica de Brasília. E
para lá os quatro foram de ônibus fazer as reservas dos trajes da cerimônia. O
endereço era a Rua das Noivas. Duzentos metros (segundo o Roberto) de lojas com
tudo para casamento. Só não havia roupa para anões. Mas isso os dois irmãos já
sabiam. As noivas foram para alugar os respectivos vestido. Gracinha muito
magra, e Lurdinha acima do peso, queriam que os vestidos fossem idênticos, numa
homenagem ao mau gosto e às semelhanças dos noivos. Não encontraram nada
parecido para alugar. Tiveram que se contentar com vestidos diferentes. Os
irmãos foram comprar terno e camisa, num shopping, em lojas de roupa para
criança. Acabaram que meio fantasiados. As padronagens juvenis não tem
conotação matrimonial. Mas até as duas gravatas, que compraram numa loja de
adultos, eram iguais. Impossível distinguir um do outro. Mas como um deles havia
esquecido o celular no provador da loja, o outro resolveu ficar esperando num
bar próximo do shopping. Quando o irmão voltou, não encontrou o outro. Tentou
ligar para o celular do irmão, e caía na caixa postal. Resolveu tomar um táxi e
ir para a Rua das Noivas, na esperança de encontrar o irmão e as duas noivas.
Elas estavam na "Duquesa das Noivas", transpirando, mas com os
vestidos ajustados e o aluguel contratado. Mas nada do irmão. Esperaram por
mais de duas horas, andando para baixo e para cima. Já conheciam, pelo menos
pelas vitrines, todas as lojas da rua. E nada do irmão. Perder um anão
negro, sem nenhum preconceito ou ironia nessa afirmativa, numa cidade como
Brasília, não é coisa corriqueira. Resolveram fazer novamente o trajeto até o
bar próximo do Shopping na esperança de que o irmão estivesse na redondeza. A
noite já se apresentava, e nada do irmão. O celular continuava não atendendo.
Restava antes de voltarem para a chácara comunicar a polícia. Foi fácil
descrever o desaparecido por conta da semelhança do irmão. Chegavam a trocar as
fotos nos documentos oficiais sem que ninguém percebesse. E para dizer a
verdade, nem a Lurdinha, muito menos a Gracinha sabiam quem era um, quem era o
outro. Voltaram no dia seguinte a Brasília e percorreram todos os hospitais, e
delegacias possíveis. Nada de encontrar o irmão. O tempo foi passando e os
casamentos tiveram que ser desmarcados. Não havia clima para festa, e na
verdade faltava um noivo para a cerimônia. Como resolveram a questão?
Cancelaram o salão da paróquia, o buffet, a dupla caipira e o vestido de noiva
da Gracinha. O irmão que estava presente para casar escolheu a Lurdinha. Se o
noivo era ele, ninguém nunca ficou sabendo. Pelo sim, pelo não, quem
desapareceu foi o noivo da Gracinha.






