O ministro que virou peixe
Azulejos pintados por Portinari com peixes com a mesma fisionomia do
então ministro da Educação, Gustavo Capanema. (Foto: Divulgação)
Ícone da arquitetura modernista, o Palácio Gustavo Capanema,
no centro do Rio de Janeiro, passou décadas abandonado. O descaso com o
patrimônio público chegou a tal nível que a vida dos funcionários
públicos que ali trabalham e da população que caminha por suas calçadas
começou a correr risco. Elevadores estavam, literalmente, caindo aos
pedaços – houve casos em que despencaram com passageiros e por pura
sorte não houve um acidente mais sério, com vítimas. Azulejos da fachada
despencavam na cabeça de quem passava pela calçada. Pinturas e murais
em seu interior estavam descascando. Em 2015, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
começou o restauro do prédio, tombado pelo patrimônio histórico, a um
custo estimado de R$ 60 milhões. Além de recuperar a estrutura física do
edifício, o projeto vai restaurar os painéis de Cândido Portinari e
as esculturas de Celso Antônio, Bruno Giorgi e Victor Brecheret que
fazem parte do conjunto. Com tanto trabalho a fazer, os técnicos que
coordenam o projeto têm um dilema a resolver: o que fazer com um painel
de Portinari, depositado no almoxarifado do prédio, que o então ministro
da Educação, Gustavo Capanema, mandou encaixotar em 1942.
Gustavo
Capanema: ministro não gostou da semelhança de seu perfil com peixes de
Portinari e mandou retirar os azulejos (Foto: Folhapress)
A
história dessa obra inédita expõe uma fratura na relação entre
Portinari e Capanema. O painel tem desenhos de peixes estilizados que,
conforme se percebeu na época, imitam o rosto do ministro de perfil.
Portinari recriou nas figuras marinhas a testa proeminente e a boca
rasgada de Capanema. Quando o painel já estava sendo instalado, surgiram
notas maldosas na imprensa falando da “homenagem”. Capanema mandou
retirar os azulejos da parede e substituir o desenho por outro em forma
de estrelas-do-mar. Não ficou esclarecido se Portinari teve a intenção
de fazer uma caricatura do ministro ou se a semelhança foi fortuita. Mas
a obra acabou guardada e só foi redescoberta durante uma pesquisa em
1984. Desde então, o Iphan estuda o que fazer com ela.
Gustavo
Capanema quis construir uma sede para o Ministério da Educação que
fosse uma marca pessoal de sua gestão, que durou de 1934 a 1945 – a mais
longa entre todos os ministros da Educação que o país já teve. Por
isso, interferiu em cada detalhe da obra, a começar pelo projeto
arquitetônico. Capanema descartou a planta escolhida em concurso público
e convidou Lúcio Costa e Oscar Niemeyer para fazer novo desenho, a
partir das linhas modernas do francês Le Corbusier. Chamou Portinari
para pintar os maiores murais já feitos no Brasil. A iniciativa o
comparava ao ministro mexicano José de Vasconcellos, que duas décadas
antes convidara o pintor Diego Rivera para conceber os murais no prédio
da Secretaria de Educação, na Cidade do México. O edifício de Capanema
virou exemplo da pujança da nova arquitetura brasileira.
Portinari
também estava no auge, e as relações com Capanema eram amistosas. Mas
começaram a se desgastar por causa da excessiva intervenção de Capanema.
A documentação do período mostra quanto ele impunha seu gosto pessoal
em cada detalhe. Ao encomendar a pintura da sala de espera do gabinete,
escreveu a Portinari: “No grande painel, deverão figurar o gaúcho, o
sertanejo e o jangadeiro. Você deve ler o terceiro capítulo da segunda
parte de Os sertões, de Euclides da Cunha. Aí estão traçados da maneira
mais viva os tipos do gaúcho e do sertanejo”. Para o gabinete, pediu uma
cena bíblica do julgamento do rei Salomão e orientou o pintor: “Leia no
terceiro Livro dos Reis, capítulo III, versículos 16-28”.
Já
na metade da encomenda, em dezembro de 1943, Portinari desabafou em
carta a Mário de Andrade: “Estou ansioso para acabar os trabalhos que
faltam no Ministério – foi um trabalho que não me satisfez em nenhum
sentido. Mesmo que tivesse feito grátis, mas realizado sem tanta
intervenção, teria valido a pena”. Além das pinturas e dos murais
internos, os enormes painéis de azulejo que recobrem a parte externa do
prédio também foram confiados a Portinari. Le Corbusier defendia esse
tipo de revestimento na fachada, em vez do mármore importado, porque
isso valorizava materiais locais e remetia aos azulejos das igrejas
coloniais do Rio de Janeiro, arquitetura cara aos modernistas. Capanema
concordou que os painéis deveriam ser ornamentados com motivos marinhos,
como estrelas-do-mar, conchas, peixes e moluscos, pelo fato de o
edifício encontrar-se na época de frente para o mar. A área depois foi
aterrada.
Para a confecção desses
painéis, Portinari fazia desenhos em cartões, que eram aprovados por
Capanema e depois enviados a São Paulo, onde o artista Paulo Rossi Osir
produzia os azulejos. Os desenhos deveriam ser estampados nas cores azul
e branca como os azulejos da igreja do Outeiro da Glória. O trabalho
era tão minucioso que Paulo Osir passou meses fazendo experiências para
chegar ao mesmo tom de azul dos painéis da igreja. Usou um óxido de
cobalto que no século XVIII os portugueses importavam de Angola.
O
desenho dos peixes foi inicialmente aprovado por Capanema, sem que o
ministro percebesse semelhanças com sua fisionomia. O painel ficou
pronto e estava sendo instalado, quando ele mandou arrancar as peças que
já estavam na parede. Alegava que, em tamanho grande, seu resultado
estético não foi “satisfatório”. Num edifício tão personalista como o
que o ministro estava construindo, uma parede coberta por figuras que se
pareciam com ele soaria anedótico. Capanema, político experiente,
evitou a tragédia.
Paulo Rossi Osir,
fabricante dos azulejos, escreveu a Portinari: “Lastimo o incidente
peixe cara de gente”. A imprensa, sob censura do Estado Novo, não
noticiou o acontecido. Foram substituídas por estrelas-do-mar todas as
figuras de peixe que ornamentavam a parte interna do painel. O governo
teve de pagar a fábrica de São Paulo que trabalhou dobrado produzindo
novos azulejos com o desenho refeito por Portinari. O caso acabou
esquecido.

Cândido
Portinari em seu estúdio: qualquer semelhança do ministro Capanema com
os peixes do painel é mera coincidência? (Foto: Life Picture
Collection/Getty Images)
Em
1984, técnicos do Iphan fizeram um inventário nos depósitos do edifício e
encontraram azulejos que não pertenciam a nenhum painel instalado. Eram
1.600 peças com desenhos de peixes. Alguns deles tinham vestígios de
massa, indicando que já haviam sido assentados. Pesquisando a origem do
material, eles encontraram documentação sobre o incidente. Os técnicos
remontaram o painel – que deveria ter 72 metros quadrados – no pátio do
ministério. Verificou-se que era uma obra inédita, com alguns azulejos
quebrados e outros faltando. Em seguida ele foi desmontado e as peças
guardadas em 29 caixas no depósito.
Para
o lugar do painel com peixes, Portinari criou outro, com desenhos de
estrelas-do-mar, cavalos marinhos e conchas(Foto: Pulsar Imagens)
“Tão
logo as obras de restauro do prédio estejam concluídas, nossos técnicos
verificarão a possibilidade de montagem do painel”, diz Luiz Phillippe
Torelly, diretor do Departamento de Articulação e Fomento do Iphan. O
dilema é como remontá-lo. No relatório do Iphan de 1984, havia duas
sugestões. A primeira seria mandar fabricar os azulejos que estão
faltando e montar a obra conforme seu desenho original, em alguma parede
interna do prédio. Isso implicaria um custo elevado e dificuldade
técnica para replicar com exatidão os azulejos que se perderam. A
segunda seria usar apenas os azulejos preservados. Assim, se faria uma
remontagem artística com desenho aleatório, sem respeitar os traços de
Portinari. Nesse caso Capanema terá cumprido seu intento de não ver a
própria caricatura estampada no prédio que mandou construir.