Um plano B
Não gosto de gente que responde à pergunta protocolar de "como vai?" Em
geral contam umas histórias tristes de doença, crises financeiras,
problemas familiares. Também não gosto de quem, sem ninguém perguntar,
descrevem seus problemas. Mas é impossível contar minha recente
experiência com anestesia sem falar que padeço de mielodisplasia. Há
cinco anos tomo um medicamento chamado Ciclosporina. A medula voltou a
funcionar às mil maravilhas, mas o remédio tem efeitos colaterais.
Pudera, cinco anos de drogas diárias! Um deles é gerar ou criar, não sei
o termo técnico, carcinomas malignos na pele. Da primeira vez o médico
optou por anestesia geral. Era no cocuruto da careca. Não fosse ter
saído tão rápido do sono anestésico teria sido uma maravilha. Como a
anestesia foi leve, ao sair muito rapidamente, senti muitas dores antes
de receber analgésicos. Uma pequena barbeiragem do anestesista. De resto
ficou ótimo. Isso foi em 2014. A semana passada fui submetido a mais
três cirurgias. Dois carcinomas no nariz e um maior na canela da perna
esquerda. Outro cirurgião, outro procedimento. Optamos por anestesia
local. Digo optamos porque assinei concordando. Era uma coisa à toa, e
não valia a pena anestesia geral. Ledo engano. Assistir ao festival de
bisturis elétricos, agulhas e pontos, não é uma experiência nada
agradável. Nós quatro, Claudia a enfermeira, o cirurgião e seu
assistente passamos mais de duas horas numa enorme sala cirúrgica. Ela
era quem dava as cartas, isto é os instrumentos. Ela é quem sabia de
tudo naquela sala. Subiram no meu nariz como a luva do Mike Tyson fazia
com os narizes de seus desafetos. Desde as doloridas picadas, muitas, de
anestesia local, e cheiro de carne assada, fazem dessa parte da
história muito desagradável. Ao mesmo tempo, tudo acontecia na minha
perna esquerda. Picadas, bisturi, e carne assada. Depois meia hora de
conversa esperando o resultado do patologista, que é quem dá a ultima
palavra. Demorou tanto que a Claudia, a enfermeira, saiu para almoçar.
Depois fui removido para a enfermaria, e recebi alta. Minha impressão de
que o Mike Tyson havia me atropelado ficou patente dois dias depois. O
olho e metade do rosto eram irreconhecíveis. A canela doía. No box não
se atinge a canela. Resumindo, estou na dúvida se não é melhor deixar de
tomar a tal Ciclosporina, a continuar, a cada dois anos, ter que operar
os carcinomas. Mas há, felizmente, um plano B. Depois eu conto.