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31.1.19
4.11.12
Cataguases, cidade de escritores
UMA
CIDADE DE ESCRITORES
Há uma cidade na região da Zona
da Mata de Minas chamada Cataguases, com cerca de 70 mil habitantes, que nos
desconcerta pela quantidade de escritores que produz. Fundada em 1877, já
possuía em 1908 energia elétrica e fábricas de tecido, base, até hoje, da
economia local. No fim da década de 1920, um grupo de adolescentes, capitaneado
por um engenheiro mais velho, poeta parnasiano e pai de família contaminado por
ideias extravagantes, chamado Henrique de Resende (depois, ele abandonaria o
"h" e o "de"), inventou de fundar uma revista modernista, a
"Verde". Paralelamente, por um desses estranhos desígnios, na mesma
cidade, mas independentemente, um eletricista e jogador de futebol, Humberto Mauro,
dava os primeiros passos para a criação do cinema brasileiro.
Em 1927, "Verde" era
a única revista de divulgação do novo ideário em circulação no país, o que
carreou para suas páginas textos dos mais importantes escritores modernistas em
ação naquele momento. Se Mário de Andrade e Alcântara Machado a recomendavam
com entusiasmo aos colegas espalhados pelo Brasil, Oswald de Andrade levou sua
admiração ao extremo: tomou um trem e desceu, pantagruélico, na estação da
cidadezinha acanhada só para conhecer os meninos mal saídos dos cueiros. No
correio, chegavam pacotes e pacotes de livros, revistas e jornais, inclusive do
exterior, consumidos com avidez pelo grupo. Cataguases, de uma hora para outra,
ganhava espaço entre a intelectualidade brasileira.
Dos que assinaram o Manifesto
Verde, um precioso documento de ingênua rebeldia que acompanhou o terceiro
número da revista, alguns inscreveram seus nomes em definitivo na história da
literatura nacional: o poeta Ascânio Lopes, morto prematuramente, com menos de
21 anos; o contista Camilo Soares, que ainda aguarda que alguém lhe reúna a
obra dispersa; o poeta, romancista, historiador e crítico literário Guilhermino
César (que a partir da década de 1930 adotou o Rio Grande do Sul como pátria);
o romancista Rosário Fusco, autor dos cultuados "O Agressor" e
"Carta à Noiva"; e o contista Francisco Inácio Peixoto, filho de
industriais, ele mesmo industrial, responsável pela introdução da arquitetura
modernista que marca e diferencia Cataguases como patrimônio cultural
brasileiro - onde Oscar Niemeyer e discípulos desenharam uma espécie de
rascunho do que seria mais tarde Brasília.
De lá para cá, a cidade tem se
esmerado em manter a tradição literária. No fim da década de 1930, o solitário
Henrique da Silveira publicou seus textos em jornais locais - seu livro,
"Poemas Desta Guerra", só seria editado na década de 1970. No fim da
década de 1940, acompanhando a tendência de reação aos excessos do modernismo,
Cataguases viu nascer a revista "Meia-Pataca", revelando os poetas
Francisco Marcelo Cabral e Lina Tâmega, que iriam desenvolver suas carreiras no
Rio, o primeiro, em Brasília, a segunda. Pouco depois, surgem duas poetas, de
igual sensibilidade e importância no cenário nacional, Celina Ferreira e Maria
do Carmo Ferreira.
Na década de 1960, inicialmente
influenciados pelo movimento concretista, os irmãos Branco (Joaquim e Aquiles e
P.J. Ribeiro) e Ronaldo Werneck fundam um suplemento literário,
"SDL", mais tarde desdobrado no jornal "Totem", que se
tornou um dos mais importantes órgãos de divulgação da poesia de vanguarda
brasileira, ampliando seus interesses para além do concretismo. Ao longo de
toda década de 1970, por suas páginas de diagramação vertiginosa desfilaram
autores brasileiros e estrangeiros comprometidos com as mais radicais
tendências da experimentação da linguagem poética, como o poema-processo, e do
suporte material, como a arte-postal. Do núcleo inicial, além dos já citados
poetas Joaquim Branco, Aquiles Branco e Ronaldo Werneck e o contista P.J.
Ribeiro, sobressaíram a poeta e ficcionista Marcia Carrano e o poeta Fernando
Abritta.
Cataguases sempre espelhou os
movimentos que ocorriam em nível nacional: modernismo, neoparnasianismo,
vanguarda. Na década de 1970, ao lado da experimentação formal do grupo ligado
ao "Totem", apareceram os poetas marginais com seus jornais mimeografados,
com destaque para dois títulos principais, "Lodo" e "Nexo",
que serviram de laboratório para a geração seguinte, curiosamente dedicada, em
contraposição às anteriores, mais à prosa de ficção que à poesia.
Assim, temos os romancistas
Fernando Cesário ("Os Olhos Vesgos de Maquiavel") e Marcos Vinicius
Ferreira de Oliveira ("E Se Estivesse Escuro?"), os contistas Ronaldo
Cagiano ("O Sol nas Feridas") e Eltania André ("Manhãs
Adiadas"), e o mais conhecido de todos, Marcos Bagno, que, além de ser uma
das maiores autoridades em linguística do Brasil - seu "Preconceito
Linguístico" alcança a inacreditável marca de 55 edições em pouco mais de
dez anos - e consagrado autor de livros infantis e juvenis, é também poeta,
contista e romancista - seu livro "As Memórias de Eugênia" foi
finalista neste ano do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante.
Cabe aqui lembrar ainda os nomes de José Santos e Tadeu Costa, que se dedicam à
literatura infantil e juvenil, e do poeta Marcelo Benini.
Bom, também eu nasci em
Cataguases. Filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, passei a infância
brincando de pique em torno de uma pracinha, que ostenta um painel de Portinari
e uma escultura de Bruno Giorgi. Carregava trouxas de roupa lavada e passada,
equilibrando-as na garupeira de uma bicicleta, para casas de arquitetura
modernista das avenidas Humberto Mauro e Astolfo Dutra. Acompanhava minha mãe
às missas na Igreja de Santa Rita com seu painel de Djanira, passeava na praça
Rui Barbosa com o coreto projetado por Francisco Bolonha, frequentava as
matinês do Cine-Teatro Edgar, projeto de Carlos Leão e Aldary Toledo, visitava
meus amigos no Bairro-Jardim, conjunto de casas operárias desenhadas por
Francisco Bolonha (na minha época, estranhamente, o lugar era conhecido como
Favela...).
Eu não sabia de nada disso,
evidentemente. Para mim eram casas, pinturas, árvores... Nem sabia também que o
suplemento que vinha encartado no jornal oficial da cidade era o
"Totem" e que eu, ignorante, começava consumindo a literatura de
vanguarda sem ter visitado nenhuma outra anteriormente... Exponho tudo isso
para me inserir no quadro da tradição de Cataguases... Exponho tudo isso, na
verdade, para confessar uma enorme frustração. Se eu tivesse nascido alguns
quilômetros depois, ou antes, de Cataguases, digamos, em Ubá ou Laranjal,
talvez hoje pudesse me orgulhar de ser o escritor mais conhecido de minha
cidade - e, por falta de concorrência, quem sabe, até o melhor. Nascido em
Cataguases, só me resta lamentar e me enfileirar atrás dos grandes. Mas, pensando
bem, se não houvesse nascido em Cataguases, muito provavelmente eu nem seria
escritor...
Luiz Ruffato é escritor. Autor de "Eles Eram
Muitos Cavalos", "Estive em Lisboa e Lembrei de Você" e do
projeto "Inferno Provisório". Foi traduzido em países como Itália,
França, Portugal, Argentina, Colômbia, México e Alemanha.
Fonte: VALOR ECONÔMICO, 2/11/2012Enviado por José Luiz Fernandes
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