ALUNOS DA 4ª SÉRIE GINASIAL DO COLÉGIO DE CATAGUASES – 1959
42 ALUNOS (escritos em preto os nomes dos internos)
- ACRISIO FÚLVIO MIRANDA DORRÊA JÚNIOR
- AÉCIO FLÁVIO GUIMARÃES
- AIMAR DE OLIVEIRA CAETANO
- ALAIDE ROSA DE BARROS RAMOS
- ALFREDO NAPOLEÃO MOURA BEZERRA
- ALUISIO FARIA DE SIQUEIRA
- AQUILES BRANCO RIBEIRO
- CARLOS AUGUSTO LOPES
- CÉLIA SIQUEIRA JUNQUEIRA
- CÉSAR CALAZANS DE ALENCAR MATTOS
- CLÁUDIO QUEIROZ PEREIRA
- EDISON RESENDE FILHO
- EVANDRO RAMOS LOURENÇO
- EDUARDO ABEL DE LEMOS JUNQUEIRA
- FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA
- FRANCISCO DAS CHAGAS BASTOS CORREIA
- GERALDO AMIN SAMOR FILHO
- GUSTAVO ADOLFO LADEIRA PESSOA
- HAROLD ROHR MURRAY
- JEFFERSON SIQUEIRA
- JONES HESKETH NETO
- JOAO BAPTISTA DA COSTA NETTO (“Bambolê”)
- JOSÉ CARLOS TEIXEIRA CARDOSO
- JOSÉ EDUARDO VALVERDE
- JOSÉ LUIZ DA CUNHA FERNANDES
- JOSÉ LUIZ SOBRAL
- LUIZ AUGUSTO PORTILHO MAGALHÃES
- LUIZ AURELIANO GAMA DE ANDRADE
- LUIS ROBERTO SORENSEN
- LUIZ TITO WALKER DE MEDEIROS
- MÁRCIO DA CUNHA MELO
- MARCOS TULIO BARRETO ROCHA BRAGA
- MÁRIO MAGALHÃES DE SOUSA
- MANUEL DAS NEVES PEIXOTO FILHO
- MURILO PEREIRA DE SOUSA
- PAULO BASTOS MARTINS
- PAULO DE CARVALHO DEOTTI
- PAULO ELIAS CHUQUER
- RONALDO PINHO FERREIRA DE ABREU
- VIRGILIO PESSOA TORRES
- VICTOR CURVELO NETO
- WELLINGTON DE AQUINO SARMENTO
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Palavras
do Dr. Manuel das Neves Peixoto aos quartanistas de 1959 (antigo Curso
Ginasial do Colégio de Cataguases) - publicadas no jornal O ESTUDANTE,
1959.
Foi
com grande surpresa que soube da escolha para paraninfá-los na
solenidade de hoje. Surpresa porque em nossas aulas tive a oportunidade
de verificar que havia um certo desinteresse da turma pela solenidade de
formatura. Parecia que um acanhamento coletivo havia descido na quarta
série, impedindo seus componentes de se agitarem, como já é comum, a
partir dos idos de setembro ou de outubro de cada ano.
Depois
de estar praticamente assentado que nada haveria, o convite teve algo
de inesperado. De certo modo é no inesperado que apanhamos as emoções
mais fortes. Boas ou más. A que vocês me proporcionaram me foi muito
agradável, muito embora sentisse, no primeiro impacto, não o prazer
imediato, a alegria de congregá-los e sim a existência de mais tarefas,
mais esforços sobrecarregando ainda mais minha dupla atividade de
professor às voltas com correção de provas escritas e orais, e de
bacharel às voltas com audiências.
Não
senti o prazer, perdoem a confissão que lhes faço. É bem possível que a
carapaça de egoísmo que a vida nos coloca todos os dias, de modo quase
imperceptível, mas ininterrupto, não me tenha proporcionado outra reação
inicial, além dessa que lhes relato agora.
Mas
quando comecei a conversar com vocês no papel, quando minha pena ia,
ora tortuosa e rude, ora mais lépida correndo, o homem mau foi-se
afastando de mim e o homem bom, que subsiste em grande parte dos homens,
apesar de tudo, foi me levando a vocês, não mais de modo protocolar ou
discursador, não mais como quem faz uma visita desagradável, porém
inevitável.
Senti
que se aproximava de vocês o velho professor, o companheiro que sofria
angústias em não encontrá-los na sala certa, por custar, com algumas
risadas de vocês, a perceber que agora os professores têm salas, os
alunos, não. Ou melhor, um certo número de professores.
À
medida que ia ficando sozinho, no escritório, despedindo apressado os
que procuravam o enfático bacharel, a solidão criava o paradoxo da grata
presença de todos vocês que começaram a caminhar no vidro do meu birô,
caminhavam de verdade, pois minha pena estacava e meus olhos ficavam
grudados num ponto qualquer para vê-los melhor e amá-los mais ainda.
Agora,
parei mesmo de escrever. Não posso mais. Meu birô está cheio de vocês.
Encosto o queixo na mão esquerda, a mão direita segura a pena que não
corre mais no papel e é quase certo que vocês todos viram que fiquei com
os olhos cheios de lágrimas, fiquei além de todos os problemas
cotidianos de ganhar, de perder, de cavar isso ou aquilo.
Fiquei
entregue a vocês que subiam nas minhas mãos, pelos meus braços, davam
tapas no meu rosto, me davam outra vida, outra fonte.
Tenho
medo de fazer qualquer movimento só para que vocês não se afastem, não
corram para a outra vida que vocês têm, e me deixem sozinho, sem vocês,
pois só vivo para vocês, com franqueza, enquanto vocês vivem para o
mundo. Vou pensando...
Por
coincidência muito grande eu tinha acabado de descer a colina do
Colégio com os meus tarecos, e quase no mesmo instante vocês subiam a
colina para as grandes emoções dos exames de admissão e dos primeiros
instantes ginasiais. Se não tive a alegria de ser o diretor de vocês, em
compensação meu contato foi maior pelas nossas aulas de História nestes
quatro anos da quadra ginasial. Fiquei mais íntimo, participei, todas
as semanas, até hoje, da marcha, das preocupações e do relativo
amadurecimento da turma.
Vi
o Luís Aureliano crescer violentamente, as espinhas tomando conta de
seu rosto, a voz mudando, a gilete procurando a barba inexistente, e a
criança mantendo-se incólume nesta verdadeira montanha russa que é o
despertar da adolescência.
Vi
Aécio Flávio crescendo discretamente, um pouquinho só, sem se perceber
no perigoso vazio que costuma ser o período dos 15 anos. Vi Evandro
enfrentar o elogiável esforço dos que desejavam deslocá-lo da liderança
da turma. Da primeira série à quarta, o mesmo esforço do garoto da
Minalda, a mesma obstinação em permanecer onde está, o mesmo espírito.
Vi
os tiques do Manuel Filho, o meu rapaz, sua testa franzida, seu
temperamento agitado, suas decepções às vezes. Vi Aquiles, vi Edson, via
a Célia pedindo prazo para terminar a prova, escrevendo sem ordem nas
entrelinhas, riscando, riscando, riscando - espere um pouco, Dr. Manuel,
um pouquinho só.
Vi
mais do que isso, meus jovens. Vi que vocês continuam os mesmos, não
descambaram. Estão atravessando o terreno perigoso, minado, e não
perderam as purezas do amanhecer.
Com
infinito cuidado para não afastá-los de mim, encosto a testa nos meus
braços que estão agora saídos do birô, e vejo-os melhor ainda, vejo-os
por fora e por dentro, analiso-os com muito mais precisão, com uma
segurança que só o exame envolto pela solidão proporciona.
Só
encontro motivos para acreditar em vocês. Seus gestos, seus atos e até
mesmo seus pensamentos são claros e não podem prenunciar ocorrências
outras senão aquelas de que vocês caminharão sempre pela vida com passos
largos, firmes, seguros, os passos próprios dos capazes.
Eu
lhes disse prenúncios, prestem atenção, eu lhes falei em vidas
manipuladas até agora. Tudo pode desaparecer, os caminhos tornarem-se
tortuosos, a claridade que emana de vocês ser substituída por
tonalidades de maus augúrios, e vocês se anularem e nos proporcionarem, a
nós, seus pais, professores e amigos, um doloroso malogro das nossas
justificáveis esperanças. Vocês precisam pensar seriamente que não
asseguraram coisa alguma na vida. Vocês nos trazem muitas esperanças,
por isso mesmo confiamos em vocês, mas há um caminho enorme pela frente
até que vocês amadureçam, e o amadurecimento pode verificar-se na terra
boa ou na terra daninha. Todas as melhores premissas, que são
inegavelmente vocês, poderão desaparecer graças a poderosas influências e
vocês se anularem em definitivo.
É
preciso que vocês se mantenham honestos como até agora. Esta tarefa não
será difícil porque, além das qualidades acumuladas em vocês e já
cimentadas, há ainda a esperança de que este envoltório de paz, de
pureza, de adolescência bem iniciada, possa preservá-los das inúmeras
influências malsãs.
A
manutenção da pureza é uma etapa importantíssima. Atingida esta área,
vocês estarão numa posição já singular no mundo corrompido em que
vivemos, não somente o nosso mundo, mas o mundo em todos os seus
períodos, por força mesmo da humanidade em si. Agora é procurar a
completa independência, o olhar alto, que é a conquista da segunda área,
o valor pessoal nas profissões a que nossas tendências inatas nos
levarem. É comum o chavão de que os inteligentes não precisam
esforçar-se em demasia, pois todas as flutuações do conhecimento
específico serão compensadas pela acuidade desse ou daquele que tem
rapidez de raciocínio.
Baseado
nesse raciocínio falho é comum encontrarmos criaturas que poderiam
definir-se como excelentes profissionais e que, em função do caminho
errado, tornaram-se criaturas dependentes, porque inseguras nas
profissões que abraçaram. A insegurança advém do despreparo, da falta de
estudo.
Quero
ser objetivo. Vocês não podem matricular-se nas escolas tão-somente. É
fundamental que estudem todos os dias, que tenham a preocupação de um
bom curso de humanidades. Se o aluno conquistar com firmeza o primeiro
ciclo secundário, o curso colegial será fácil. O perigo está na quebra
do elã, da vontade de estudar.
Aos
primeiros cigarros, vêm as primeiras namoradas, os primeiros bailes, as
primeiras deformações provocadas pelo mundo. Dançar é melhor do que
estudar. Além disso, o rapaz estudioso é tido e havido como sujeito
antiquado, fora do compasso atual. Os copos de álcool começam a
funcionar. O rapaz simples vai sofrendo uma transformação crescente. O
chiclete dança já o rock na sua boca. Se tem lambreta, vai lambretar, se
não tem, se mora no interior, começa a levar a vida besta - que ele
acha formidável, de encher os bilhares, fazer os joguinhos a dinheiro e
"otras cositas mas".
O
rapaz está em franco período de desagregação. Há pouco tempo para o
estudo, que já não tem mais aquele fascínio de antigamente. É um estudo
forçado, de quem está com grilhetas, de quem está realizando uma tarefa
enfadonha. Urge que esta tarefa seja a mais rápida possível. O negócio
agora é estudar para passar, se for possível. Se não for possível, a
reprovação não tem mais aquele aspecto lúgubre de outrora. Surgem os
"slogans" que resolvem momentâneos aborrecimentos: "a reprovação é
própria do aluno" ou "bomba não foi feita para cachorro", etc..
Talvez
por falta de bons filtros em seus sentimentos afetivos, muitos pais
tornam-se coniventes com os insucessos de seus filhos, não sabem usar de
sua autoridade nos momentos necessários, acham mesmo que a palavra
enérgica e precisa machuca o jovem, afasta-o de si. Outros, já
consumidas suas energias em suas atividades cotidianas, chegam em casa
exaustos e olham os problemas de seus filhos pela rama, por alto, com o
olhar cansado, com o corpo mole de quem não quer lutar, de quem quer
afundar o corpo esbodegado na poltrona, pegar o seu jornal e deixar
correr o marfim.
Os
jovens mais e mais avançam em sua transformação, tornam-se donos da
situação,gastam mais, não têm mais o respeito que devotavam a seus
pais, interpelam-nos com freqüência e se afastam cada vez mais da vida
simples, alicerçada com as melhores bases dos lares que mantiveram sua
autoridade.
Depois
de vencida a montanha russa de tantos acontecimentos, os velhos pais se
aproximam e perguntam: que é daquele rapaz tão estudioso? O gato comeu
...
Espero
ardentemente que o gato não coma vocês. Como ficarei alegre de
encontrá-los, mais tarde, donos das mesmas qualidades que fizeram desta
4a. Série uma das mais eficientes do Colégio, em todos os tempos!
Para
conservar tais qualidades, não lhes peço que abdiquem os prazeres
inerentes aos moços, não lhes peço uma vida anti-natural de privações,
de cilícios, para a aquisição da bem-aventurança.
Quero,
ao contrário, que vocês sintam alegria em realizar os atos normais da
vida. Alegria de dançar, de viajar, alegria de ler um bom livro, alegria
de estudar, de enfrentar os acontecimentos, de superar obstáculos,
alegria de ser sincero, bom ...
Não
lhes estou falando em tristezas, não lhes sugiro nada além da pura
alegria de viver. Fiquem certos de que não tem alegria de viver quem se
preocupa em enganar o próximo, quem se preocupa em ferir, em magoar ...
Os
jovens que desnaturaram os melhores propósitos sofrem e fazem seus pais
sofrerem. Manuseiem jornais e revistas e vocês encontrarão rapazes que
têm marcas dos tristes, dos que sofrem, porque julgaram que a alegria
estava na libertação desbragada dos instintos.
Quero
vê-los alegres, puros, caminhando com segurança e alcançando a
competência profissional. Ela é o resultado da pesquisa, da preocupação
constante de estudar. A competência, meus jovens, vem devagar, vem
lenta, é um tesouro que não se desenterra com os braços musculosos dos
piratas da perna de pau. É como um filete aurífero que vem serpenteando
quase imperceptível pelos cilindros cheios de areia, acumulando, sem
pressa, o fulvo metal.
Não
é difícil o caminho que os leva ao mérito. Ele é até muito simples.
Consiste no trabalho lento de acumular as essências dos dias bem
vividos. O difícil é preservar a simplicidade, mantê-la intacta,
caminhar querendo bem à noite, às estrelas, mas sem fazer das noitadas a
razão de ser da vida. Dentro em breve muitos caminhos excitantes
aparecerão a vocês, e vocês naturalmente irão percorrê-los, e fazem
muito bem. O que não está certo é viver assim, buscando somente o sexo,
os vórtices, as dissipações. Essas coisas todas trazem, com o tempo, um
vazio enorme, um tédio, um desengano, e, mais do que isso, uma
frivolidade que dói!
Vocês
até agora estão preparados para conquistar amplas áreas. Têm um
razoável curso ginasial, muitos estão sendo plasmados neste Colégio,
desde os exames de admissão.
Todos
são simples e bons. Sobem sorridentes a colina da Granjaria, passam
rápidos defronte a casa do Diretor. Paulinho está rindo das conversas
entre dentes, em classe, de Jéferson e de Aimar, relatadas pelo irônico
José Luiz, que está cortando uma volta com seu cabelo em pé, rebelde,
cabelo que não está aceitando bem a linha moderna de cabelos não mais
partidos. José Luiz me faz lembrar também os barquinhos de papel
atravessando impávidos o Canal da Mancha...
Lembro
que o professor de História chegava em classe e lhes desejava um bom
dia. O professor deseja sempre bons dias a vocês, mas espera que vocês
saibam conquistá-los.
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Texto enviado por José Luiz Fernandes
Nota:
- foi precisamente dessa turma que participou Chico Buarque (1959), sem
entretanto tomar parte na formatura, transferido que foi de volta para
São Paulo;