2.10.21

Crônica do Alvaro Abreu


Depois da Covid

 

Recebi mensagens de cinco pessoas amigas, perguntando se eu tinha parado de escrever as crônicas quinzenais. Tratei de explicar que não tinha conseguido concatenar as ideias e emoções necessárias para produzir as duas últimas que deveria ter enviado para o jornal.

 

A explicação é simples: mesmo que devidamente vacinado e tomado os devidos cuidados, acabei contraindo a danada da Covid, sem ao menos saber de quem. Eu e Maria Paula, minha cunhada, que veio passar uns dias conosco. A experiência dela foi bem diferente da minha, incluindo febre, tosse, coriza, dor de cabeça e no corpo durante uns cinco dias, e a deixou de cama por uma semana e logo ficou boa.

 

Comigo a coisa começou com uma febrezinha de 37, durante 2 dias, acompanhada de dores pelo corpo inteiro, que foram se instalando progressivamente. Depois disso, comecei a sentir a cabeça pesada, como se ela tivesse recebido uma boa quantidade de um líquido pastoso. Para completar a danação, as forças dos braços e das pernas meio que desapareceram, fazendo de mim uma criatura frágil e titubeante diante das demandas por esforços e providências. Entender as conversas triviais passou a exigir esforço redobrado. Argumentar tornou-se inviável muitas e muitas vezes. 

 

Fazer colher, atividade rotineira e recorrente, mostrou-se algo impraticável. Para o meu pessoal, eu fiquei com a aparência de um sujeito completamente sem energia e, o que é bem pior, quase um moribundo.

 

A cama passou à condição de recurso estratégico e as imagens da TV funcionavam como indicativo de que o mundo continuava a funcionar. As palavras ditas por apresentadores, muitas vezes se mostraram inúteis, pela dificuldade de compreender o sentido delas e, sobretudo, pelo desinteresse em saber o que elas significavam. A minha atenção com as coisas da política ajudou-me a me manter minimamente informado com a leitura, no ritmo possível, dos jornais no computador.

 

Apesar das limitações, comecei a me dar conta de que estava se armando algo muito significativo, para acontecer na Semana da Pátria. Aos poucos foi se instalando uma sensação de perigo iminente, dando a impressão de que alguma coisa poderia fazer um vulcão inerte entrar em ebulição. Pelo que se sabe, a corda que tanto havia sido esticada não aguentou e já não se fala mais em militares nem se pensa em golpes. Com isso, o dia 7 de setembro de 2021 entra para a história como sendo o término de um ciclo. 

 

As pesquisas de opinião indicam que a bola do presidente continua murchando. Dá pra imaginar que as denúncias das atrocidades cometidas pela Prevent Senior envolvendo o kit-covid e as suas relações com o tal gabinete paralelo devem provocar novos e relevantes estragos políticos.

 

Vitória, 30 de setembro de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

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