15.5.21

Crônica diária

 

Quem me dera
 

Bateu uma baita nostalgia, dessas graves, que se alastram e podem provocar tristezas homéricas. Trata-se de uma emoção provocada por desgovernos e seus desdobramentos nefastos nesses últimos tempos e, desgraçadamente, pelo desânimo ao tentar imaginar o que pode estar vindo por aí, a galope. 

 

Está complicado achar graça dos palhaços do circo que se foi armando, aceitar os novos anões do orçamento fazendo malabarismos no picadeiro e assistir à movimentação dos paus mandados nos bastidores e do lado de fora da lona. Impossível supor que o espetáculo possa melhorar, nem por um passe de mágica. 

 

Já me bastam as tristezas pessoais e das pessoas próximas, as limitações de poder ir e vir, de abraçar apertado em segurança e as quebras de expectativas surgidas em função da pandemia que não sei se e quando acabará. 

 

Pensando bem, perdi o direito de passar ao menos um dia inteiro sem ouvir, ver e ler notícias ruins e alarmantes na política e nas áreas de meio ambiente, da saúde e da educação. Ideal, mesmo, seria passar semanas sem gente importante falando abobrinhas, ameaçando cidadãos e instituições, alardeando providências descabidas, comprando apoios provisórios a peso do nosso ouro, tentando manter o apoio de quem pensa parecido. 

 

É duro ter que conviver com as recentes maracutaias orçamentárias que garantiram os votos de parlamentares gulosos na eleição de comparsas para a presidência das casas. É cruel saber que há senadores da república defendendo que se deixe o assunto longe dos holofotes, para evitar problemas de segurança do Estado e, isso é hilário, riscos à suas respectivas honras e às de suas famílias. Já foram identificados problemas graves na aplicação de dinheiros do tal orçamento secreto na aquisição de tratores, por duas vezes e meia o preço de tabela. Ainda falta saber em quais bolsos foram parar os reais da diferença pra mais. Isso sem falar na quebra da equidade obrigatória entre os congressistas.

 

Sem medo de ser chamado de sonhador, digo que seria muito bom voltar a viver num lugar bonito por natureza, habitado por uma população gentil e animada e com a coisa pública sendo exercida por pessoas sérias, serenas, amistosas e prestativas. 

 

A nostalgia só aumenta ao lembrar que vivi muitos anos em cidades tranquilas, jogando pelada na rua, andando de bicicleta sem capacete, dançando de rosto colado e circulando livremente por muitos lugares. Seria muito bom poder voltar a viver tempos de muito pouco dinheiro, quando os crimes mais graves eram por acerto de contas e os mais comuns eram bateção de carteira e roubo de galinha. Época em que a gratidão dos beneficiados por escolas rurais, viabilizadas por meu pai quando à frente da Secretaria de Educação, chegava lá em casa às vésperas do Natal, na forma de perus vivos.

 

Vitória, 13 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA


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