31.5.21

Crônica diária

 A moto serra do Villa

 



Minha parceria com Luiz Villa é no mínimo divertida. Eu escrevo e ele ilustra. Hoje vi um cartoon dele que inspirou esta crônica. Normalmente tenho sempre três ou mais crônicas já prontas e na primeira hora da manhã, quando posto a do dia, envio para ele a crônica do dia seguinte. Em questão de minutos tenho a resposta ilustrada que me espanta. Nunca corresponde minimamente com o que eu imaginava pudesse ser. Sua imaginação, velocidade de criação e muitas vezes interpretação do texto supera qualquer expectativa. E surpreende positivamente. Houve nesse tempo poucos casos de oferecer à minha escolha duas ou três opções. Uma melhor do que a outra. É a resposta que dá à algumas provocações. Quando mando o texto penso com meus botões: "Quero ver como ele vai se sair dessa!" E ele, provavelmente, ao mandar mais de uma opção pensa o mesmo! Ontem, domingo, dormi até mais tarde, e ao postar a crônica do dia percebi que não tinha a do dia seguinte para enviar. A semana havia sido muito corrida cheia de atividades fora da minha rotina. Não vi TV, nem tive tempo de ler meus amigos aqui no FB. Faltou assunto. Mas ao deparar com o cartoon da "moto serra", e o comentário do leitor do Villa, que corrigiu o barulho da mesma, gargalhei. Disse o Francisco Valente " ... uma moto serra faz "nhééééén...nhéééé...o que faz "vrrruuum" é Ferrari, Lamborghini..."

30.5.21

Crônica diária

 O Papa tem razão

 


 Não porque se bebe muita cachaça e se reza pouco, mas porque continuamos a cometer os mesmos erros de sempre. Rui Barbosa nunca conseguiu chegar à presidência. Eduardo Gomes não se elegeu. Tancredo Neves morre antes de assumir. Bolsonaro nunca governou, desde que foi empossado só fez campanha populista para sua reeleição. Lula sai da cadeia onde estava por conta de crimes praticados, e nem o menos informado dos seus seguidores podem negar seus crimes. Os dois em plena campanha continuam polarizando a disputa pela segunda vez. A terceira via já esta sendo inviabilizada pela indefinição do seu representante. Sobram candidatos e falta consenso. Falta humildade e desprendimento. Patriotismo e inteligência. Por não chegarem a um acordo, mais uma vez, em 22 teremos mais do mesmo. O Papa argentino tem razão. 

29.5.21

Crônica diária

 "Intestino grosso"


 Esse é o título de um conto do Rubem Fonseca, no livro  já comentado "Feliz Ano Novo". Volto a falar sobre o autor pela sua importância na literatura brasileira. Nesse conto o autor fala na primeira pessoa e entrevista a si mesmo, um escritor famoso. O assunto principal da entrevista é a pornografia. Isso porque Fonseca sempre foi acusado de ser um escritor pornográfico. Se defende dizendo que pornografia é a fome, a miséria, a pobreza. Filosofa sobre o tema, e exemplifica com o preconceito com certas palavras que denotam aquilo que o ser humano tenta esconder: sua origem animal. Nosso antepassados não usavam foder, mas faziam amor, praticavam relações, congresso sexual, conjunção carnal, coito, cópula, faziam tudo isso, só não fodiam. Daí todos os que passaram a tratar a realidade como ela é, são chamados de pornográficos. E sobre realidade escreve uma frase lapidar: "...o que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita." Isso explica, maravilhosamente, a polarização política, pornográfica, dos dias atuais.

28.5.21

Crônica diária

 Papo com o Leonardo

 

 Faz mais de um ano que não falo com o Leonardo. Estava preocupado porque não atendeu minha primeira chamada. Nos dias de hoje com tantas mortes de parentes e amigos qualquer ausência preocupa. Uma hora depois ele retornou a ligação. 

E aí velho? É como costuma me chamar. Respondi que ia bem e que acabava de ler o Torto Arado. 

Li também, e adorei. 

Lembrei de você porque estou relendo o "Feliz Ano Novo, do grande Rubem Fonseca. Sei que você adora ele.

Sim, não canso de reler seus contos

Achei graça porque num deles o Rubem volta a falar do chulé de um detetive.

Ahh, chulé palavra feia, odor pior, e nós três não gostamos...(Risos)

Eu lembro de você contando que havia brigado com uma namorada porque ela tinha um chulé fortíssimo. 

É usava tênis sem meia. Isso é insuportável. Tinha além de chulé um joanete pornográfico.

Mas Leonardo, joanete é tudo, menos pornográfico. Pornografia esta diretamente relacionada a sexo, e joanete é a coisa mais broxante que existe. 

Por fala nisso...bom...nem é bom falar...

Perguntei se já tinha lido o "Romance da Minha Vida" do seu xará cubano Padura, e ele disse que estava na lista de espera. Pilha de espera é como tratamos os livros comprados e ainda não lidos. Nisso caiu a ligação. Foi o meu celular que acabou a bateria.   

 

Crônica do Alvaro Abreu


Vem, vem

 

 

Escrevo na última quarta feira de maio, data muito significativa para os apaixonados e os que se guiam pelos astros. É que hoje acontece uma conjugação astral muito excepcional: uma tal superlua, com direito a um eclipse lunar total.

 

Como nem tudo é perfeito, segundo a meteorologia, o céu estará encoberto nestas nossas bandas do hemisfério sul e para completar, segundo a astronomia, o eclipse completo somente poderá ser visto no extremo sudoeste do país.  

 

Pra quem não sabe, a chamada superlua acontece em função da Lua estar passando pelo ponto mais próximo da Terra, o que faz com que apareça maior e mais brilhante do que as demais luas cheias. O eclipse, por sua vez, acontece pelo fato do nosso planeta impedir que os raios de sol possam atingir e se refletir na superfície que nós vemos daqui.  

 

Eu mesmo nunca tinha ouvido falar em superlua até bem pouco tempo, embora tenha tido várias vezes a impressão de que ela estava bem maior do que de costume. Como pescador insistente que fui, as movimentações da Lua sempre estiveram sob minhas atenções. É que delas dependem os horários das marés e as flutuações de nível do mar ao longo de cada ciclo. 

 

Por superstições e razões técnicas que desconheço, aprendi que os peixes comem com mais voracidade nos dias de lua no quarto crescente, sobretudo quando as marés estão subindo. Nos dias de lua minguante e maré morta, as iscas voltam intactas, indicando que os peixes passam longe delas, fazendo pouco caso da nossa oferta traiçoeira.

 

Tem quem acredite que tempo de lua cheia também é tempo de nascimento de crianças, mas, ao conferir na internet, constatei que os partos de nenhum dos nossos 5 filhos confirmam a crença. Apesar do alarme da noite passada, a ultrassonografia feita no começo da manhã indica que Yara, filha de Nélio, vai estrear daqui uns bons dias, trazida à luz por Diana, nossa caçula. 

 

Ela vai chegar sob ótimas emoções e encontrar tudo muito organizado, imaginado, preparado, testado, construído, montado, lixado, pregado, amarrado, pintado, retocado, costurado, cerzido, pendurado, lavado, esfregado, instalado, arrumado, empilhado e alisado pelo pessoal de casa e muitos pacotes de fraldas trazidos por amigos e parentes dos pais. 

 

Além de primogênita, ela é a primeira “filha de filha” de Carol, o que me faz pensar que corro o risco de perder espaço na agenda dessa super avó de oito. 

 

Contrariando as previsões meteorológicas, o tempo melhorou. Aproveitei para ir ver, com a minha companheira de sempre, a lua nascer enorme e vermelha, por cima dos navios fundeados na barra.

 

Vitória, 26 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA.

27.5.21

Crônica diária

 Arvore genealógica

 Não vou contar quem da família me perguntou se arvore genealógica se podava? Eu respondi que caso positivo qual era sua intenção, e me disse para apresentar a minha lista primeiro. Achei graça mas nunca tinha pensado nisso. Agora nos tempos do Bolsonaro fica fácil listar os galhos podres dessa arvore. E esses galhos devem achar que podres são os outros. Nunca tantos familiares se indispuseram como agora. Antes todos eram contra o Lula e a corrupção. Todos a favor do Brasil. Modéstia a parte, somos um família de gente boa. Sobre corrupção ninguém fala mais nada. Espero que nas próximas eleições apareça um candidato que volte a unir os parentes, pacificar a nação e reconstruir a esperança. Assim não haverá mais necessidade de poda na arvore genealógica.

26.5.21

Crônica diária

 Não sei se me entende

 Tem coisas que não se aprende na escola. Ninguém encontra explicitadas nos livros. Uma delas é como construir um personagem sem os tradicionais e usuais meios descritivos. Rubem Fonseca cinquenta anos atrás já fazia de forma sutil e magistral. Nada de descrever a altura, peso, cor dos olhos ou cabelo, ou se tinha mau hálito. Ele apenas dava um nome, e sempre inusual, e fala em sua boca. "Não sei se me entende". Essa era uma delas. De tanto esse personagem repetir: "Não sei se me entende", o leitor constrói o personagem com seu tipo e características perfeitamente definidas. Não sei se me entende.

25.5.21

Crônica diária



 Eu já tinha lido há quarenta anos mas naquele tempo li como aficionado e não como escritor. Agora reli o Rubem Fonseca com um respeito e olhar diferente. Um mestre do conto. Nessa nova edição de 2020 seu livro livro mais polêmico, e talvez da literatura contemporânea seja "Feliz Ano Novo". Foi proibido em 1977 e só reeditado doze anos depois. Foi objeto de grande celeuma no meio militar, e intelectual da época. Foi censurado e motivo de processo de perdas e danos morais. Um livro arrebatador, polêmico, e engraçado por apenas tratar da realidade brasileira. Inaugurou entre nós a literatura noir, ao mesmo tempo clássica e pop, brutalista e sutil. Na presente edição vem com prefácio do Toni Bellotto que lembra uma frase do Charles Bukowski: "Fazer algo com estilo. Isso é que eu chamo de arte". Rubem Fonseca, com este livro, confirmou o sentido dessa frase. Sergio Augusto escreve o posfácio, onde em sete páginas ricamente documentadas, conta a história dessa coletânea de contos

24.5.21

Crônica diária

 CPI, espetáculo do momento (Spoiler Alert)


 CPI, o espetáculo do momento (Spoiler Alert)

Com alto índice  de audiência, concorrendo com programas como o BBB, ou a novela das oito, de antigamente, os capítulos de terça, quarta e quinta da atual CPI da Covid no Senado não tem decepcionado seus espectadores. Com um roteiro manjado, onde os proponentes da CPI atacam, mas sempre dizendo que só procuram a verdade dos fatos, e a oposição à CPI tenta atrapalha-la no que for possível, é um show de mentiras, inverdades, malabarismo retórico, agressões, difamações, e palanque eleitoral declarado. O que a CPI tem como objetivo desde sua proposição todo mundo sabe. Portanto é a novela com enredo conhecido e final quase sempre decepcionante. Mas todo mundo finge que ninguém sabe o desfecho. Raramente surpreende, mas como há essa hipótese, ninguém deixa de acompanhar, e torcer para não dar o óbvio, e esperam uma zebra. O único e exclusivo culpado é de todos conhecido, e neste caso em particular, tem cara de mordomo, tem jeito de mordomo, se comporta como mordomo, mas é o dono do palácio. E mais incrível é que os outros figurantes dessa comédia, sobre quem é o responsável pela morte de 447 000 pessoas, mentem o tempo todo, inclusive se incriminando, para salvar o presidente. Claro que temem o poder de fogo, e aqui essa palavra não é força de expressão, mas tiro de verdade, dos milicianos amigos da família do presidente. Chamam para depor como testemunha, que em CPI não pode mentir, a não ser que venham com habeas corpus do Supremo, a Ema do Palácio, e ela nega que o Presidente lhe tenha oferecido Cloroquina. Chamam para depor o cavalo em que o presidente montou em recentes manifestações com grande número de terraplanistas, madeireiros, milicianos, todos sem máscaras, e sem observar o devido distanciamento social, recomendado pela Organização Mundial da Saúde, e seu ministério, e o cavalo nega que o presidente o tenha cavalgado, que estivesse sem máscara e que tenha participado dessa manifestação filmada e registrada por toda a imprensa. A moto do presidente foi convocada a depor, tentou alegar falha na bateria para não comparecer como testemunha, e mesmo com laudos da perícia mostrando digitais do seu proprietário, negou que ele a tenha usado sem capacete, ou levado um periquito verde na garupa, igualmente sem a proteção, que as leis de transito exigem. Até o presente capitulo dessa CPI não foram feitas acareações entre os depoentes, mesmo porque todo mundo iria repetir as mesmas mentiras. Chegarão ao ponto de negarem que foram ou são ministros da saúde, que trabalharam ou trabalham para o responsável por toda essa tragédia, e uníssonos em coro dirão que o Bolsonaro é completamente inocente. Nunca criticou publicamente a China, a vacina, o uso da máscara, o distanciamento social, a recomendação de ficar em casa, nunca atacou os governadores e prefeitos, que para salvar vidas, seguiram as recomendações da ciência. Negaram, em uma só voz, que Bolsonaro tenha dito que é ele quem manda, e quem tem juízo obedece. E que a imunidade do rebanho aconteceria naturalmente, e era a única e salvadora opção. Finalmente como todo mundo na CPI esta procurando um culpado, não sou eu quem vai estragar o prazer e nomina-lo antes do fim. Seria um spoiler imperdoável.


23.5.21

Crônica diária

 O sonho de passar a boiada pela porteira de madeira ilegal

O ultimo ministro do clã dos Bolsonaros, pai e quatro filhos, é o do Meio Ambiente. Todos os outros foram demitidos, ou forçados a se demitirem por divergências  com o  clã, ou com o centrão ou ainda pela opinião pública. A opinião pública é construída pelos meios de comunicação. O presidente Bolsonaro esta com seu menor índice de popularidade. Uma das promessas de campanha foi acabar com a corrupção. Associar-se ao centrão, para obter governabilidade, já põe por terra outra promessa, de não ceder ao toma lá dá cá de sempre. Nessa circunstância o escândalo de busca e apreensão nas casa e escritórios do Ministro Ricardo Salles o torna nitroglicerina para um governo fragilizado por uma CPI e nuvens negras no horizonte. Se Salles tinha alguma pretensão a se candidatar ao governo de São Paulo em 22, pode tirar a tropa da chuva. Seus dias no ministério estão contados no relógio. A PF informou-o de que as investigações correm em sigilo por determinação do ministro Alexandre de Moraes, e a pedido dos Estados Unidos que querem informação de madeira exportada para lá sem os certificados habituais exigidos. A acusação é grave, e as suspeitas também

 

22.5.21

Crônica diária

 Quando o exagero, desmoraliza


Todo exagero é nocivo. O politicamente correto, provoca uma reação contrária, como todos os outros. Os excessos das feministas, dos defensores da LGBT, e dos ecologistas, para citar alguns. Sobre esses últimos comentei dias atrás a bobagem que foi, por força de lei, proibir prefeituras de usarem asfalto nas ruas e estradas do município. A prática demonstrou o óbvio. Elas voltaram a asfaltar e deixar de gastar suas finanças em permanente recuperação das pavimentadas com os bloquetes sobre areia. Quem ganhou muito com elas foram as lojas de peças e oficinas mecânicas. Buraco em estrada de terra desgasta amortecedores mas não quebra os aros dos pneus e acaba com a suspensão dos veículos. Mas outras bobagens como essa fazem mal à natureza, que pretendem defender. Escrevo esta crônica ao pé de uma lareira tradicional. Queima lenha e gravetos recolhidos no meu jardim. As cinzas voltam para a terra, corrigindo suas deficiências. Outras plantas e árvores nativas brotarão, o vento derrubará folhas secas e galhos, que aquecerão minha casa num convívio harmônico, saudável e milenar. Mas há leitores que já me condenaram por acharem que estou contribuindo para o aquecimento global. Há também quem diga que tomar vacina é pecado, e outros que ao tomar você vira jacaré.

 

21.5.21

Crônica diária

 Torto Arado

 A volta para Ibiraquera trouxe também minha rotina de caminhadas na praia, e um bom tempo para leitura. O Jorge Pinheiro, deve ter se assustado com a ausência de comentários sobre livros, literatura e autores, que costumava fazer antes da pandemia e do meu  "auto - exílio" em São Paulo. A rotina paulista, não sei exatamente porque não me favorece a leitura. Talvez seja por tudo que a cidade grande oferece, ou meu canto ao lado da lareira, com iluminação apropriada e silêncio marítimo, sem TV, sem internet. Chei no domingo e estou economizando a leitura para não acabar. Um delicioso romance do baiano Itamar Vieira Junior, de 2019 chmado Torto Arado.  Conta a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, marcadas por um acidente de infância, e que vivem em condições de trabalho escravo contemporâneo em uma fazenda no sertão da Chapada Diamantina. Lembrei quando li pela primeira vez Guimarães Rosa. Não tenho dúvida que acabo de conhecer um grande escritor, e um livro memorável, pela qualidade literária do autor. Sou obrigado a confessar que estive com ele nas mãos assim que chegou às livrarias, mas autor desconhecido, a capa não me disse nada, e o título menos ainda. Foi só depois de uma postagem do Milton Ribeiro, jornalista, escritor e livreiro em Porto Alegre, tecendo grandes elogios é que comprei. Obrigado Itamar, obrigado Milton, estou adorando a leitura.menos pelo tema do que pela forma e estilo literário.

20.5.21

Crônica diária

 Uma onda de esperança, no mar de Ibiraquera


Para quem não sabe, um pouco da minha história. Há vinte e dois anos atrás, em 1999 minha mulher e eu resolvemos comprar um cantinho no litoral brasileiro. Era meu sonho de criança um dia morar numa praia, e ter um atelier de pintura. Pintei durante cinquenta anos sem nunca ter tido um lugar apropriado. No início, ainda solteiro, cheguei a alugar uma casa do pai de uma namorada, onde pintava, mas depois de casado, o cavalete andou do segundo quarto do pequeno apartamento, para o lavabo, quando nasceu meu primeiro filho, e depois para meu próprio quarto quando moramos em Belém do Pará. E esse sonho só foi se realizar com cinquenta e seis anos quando compramos terreno e construímos casa atelier em Ibiraquera, Santa Catarina. Levei quase um ano para desbloquear, e voltar a pintar, e fazer esculturas. Minha mulher transformou um terreno, que por décadas fora lavoura de mandioca, aqui chamado de aipim,  num jardim paradisíaco. Oito anos depois fui diagnosticado com Mielodisplasia, doença produzida pelo chumbo das tintas a óleo, que matou o Portinari. Desde então não pintei mais. Continuei num ritmo muito menor produzindo esculturas, cuja ultima série foram as "Montanhas". Em janeiro passado minha mulher e eu voltamos para São Paulo, onde sempre mantivemos um apartamento,  e meu irmão Paulo foi acometido de Covid. Tem setenta e cinco anos, dois menos do que eu. Prometi que não arredaria pé de São Paulo enquanto ele não saísse do hospital. Quarta feira passada, depois de 105 dias no Einstein, mais de 25 dias entubado, tendo pneumonia e contraído todas as bactérias hospitalares, saiu com vida. No domingo voltei para Ibiraquera depois de cinco meses. Voltei a ver o mar, caminhar numa praia plana, e absolutamente vazia, ouvir o barulho do mar, e o frio típico desta região. Felizmente tenho lareiras e lenha do próprio terreno, e posso voltar a ler e escrever neste paraíso. Ficar cinco meses fora desta casa, nunca tinha ficado. Encontrei muita coisa nova. Muito asfalto novo, onde as prefeituras viviam lutando com os bloquetes, que os ecologistas exigiam, por conta da drenagem, mas que viviam em permanente estado de reparo. O prejuízo que essa exigência causou no Brasil todo, é um absurdo. As prefeituras e nós usuários pagamos por essa bobagem ecológica. Muitas obras e construções novas. Para quem durante cinco meses andou nos quadriláteros da Bela Cintra, Oscar Freire, e Augusta, testemunhou milhares de lojas fechadas, negócios quebrados, proprietários sem locadores, e vê aqui esse progresso, volta a acreditar que depois da pandemia e do Bolsonaro,  o Brasil ainda tem jeito.

19.5.21

Crônica diária

 Minhas descobertas


 

 
Adoro descobrir coisas ou saber delas. Nos últimos meses foi um grande artista, ainda não muito conhecido, que reside em Campinas, SP, chamado Fabiano Carriero. Já venho colhendo frutos. Meu amigo e mecenas Rainer Castello, já o adotou como ilustrador de seus textos. Muitos outros colecionadores e amante das artes vão nos seguir. Isso para mim já basta.
Fiquei sabendo recentemente da existência de um limão chamado "Caviar", que é muito consumido na alta gastronomia, restaurantes e hotéis. Há mais de 20 anos chefs importavam da Austrália. Hoje já tem produção nacional mas a unidade custa no Santa Luzia R$ 19,00. O quilo é vendido no Mercado Livre por R$ 1 000,00. Leva de quatro a cinco anos para produzir, e requer alguns cuidados especiais. Por ter mais espinhos que os outros cítricos, precisa ser plantado em um pomar onde estejam protegidas do vento. As feridas dos espinhos inutiliza o fruto. Vai bem cultivada em vasos, e com permanente adubação, em terra bastante permeável. Como atinge até oito metros requer no plantio em pomares um distanciamento compatível. Não serve para suco, ou uso de seu líquido. Tem o nome, aparência, e a membrana que envolve o suco, de um caviar. Tamanho e formato de um pequeno quiabo. Muito utilizado como decoração na gastronomia japonesa, e nos pratos de camarão, ostras e frutos do mar. Fica aqui a dica para os chefs amadores e curiosos como eu. 

 

18.5.21

A vida continua

 

 
 No domingo o Silvano, meu taxista, voltou para me levar à Congonhas as cinco e meia da manhã, e o avião saiu no horário previsto. Com  um assento vazio entre todos os passageiros. Mascara rigorosamente fiscalizadas. Meu celular em terra não funcionou. Eu precisava dele para chamar o transporte do estacionamento, onde meu carro ficou cinco meses. Um funcionário do aeroporto gentilmente ligou e solicitou o Translado. O carro estava coberto de poeira e só pegou com o auxílio de uma bateria externa. O meu drama começava aí. Do aeroporto até o supermercado Angelone são dez minutos, não suficientes para carregar uma bateria. Após quarenta minutos de compras, carne, verduras, frutas, pão, queijo presunto, café e iogurte, voltei para o carro e nada. Nem sinal da bateria. Um casal de meia idade viu minha situação e se prontificou em arrumar uma "chupeta", encostar seu carro ao lado do meu, e tentamos alguma faisca. Nada. A bateria do carro do casal era muito menor e não funcionou. Sem o meu celular para acionar a seguradora, não fosse o André, eu estaria lá até agora. Ligou para a Porto Seguro que em 40 minutos mandou um mecânico e resolveu meu problema. Pelo menos para chegar em casa que fica a 80 quilômetros de Florianópolis. Se a bateria vai segurar a carga só saberei amanhã. E a vida continua. 

17.5.21

Crônica diária

 Que mundo louco o nosso

 
Ontem aconteceu pela terceira vez, e apesar disso,  não posso debitar à senilidade. Levantei as quatro da manhã. Tomei banho, fiz barba, escovei os dentes, tomei café da manhã, mandei minha crônica do dia seguinte para o Luiz Villa, dei uma espiada nas postagens que o Google me bloqueou, respondi a alguns e-mails, publiquei a crônica diária, coloquei o laptop na pasta, os remédios  na mala, e as cinco e meia o Silvano, velho amigo e motorista, estava na porta do prédio. Vinte minutos estávamos no aeroporto de Congonhas. Absolutamente vazio, até para esse horário. Tentaram que eu fizesse meu check-in nas máquinas. Relutei mas a moça foi categórica: " Agora é lá para quem não vai despachar bagagem." Era o meu caso. Tentei em duas máquinas disponíveis, e elas não me atenderam. A moça voltou e me convidou ir fazer no balcão, como sempre fiz. Fila dos prioritários vazia. Fui atendido rapidamente. Meu CPF não funcionou, nem meu RG. Perguntado se eu tinha o localizador, disse "que de cabeça não". Mas tive que abrir a mala para olha-lo na agenda. O localizador não acusou nenhum voo as sete da manhã, só em Guarulhos. Mas como eram seis, não daria tempo de embarcar. O seu voo será amanhã no mesmo horário. Tentei ainda ligar para o Silvano, mas ele já estava há mais de vinte minutos do aeroporto e me aconselhou tomar outro táxi. Na volta para casa, frustrado mais uma vez, pois isso já me aconteceu pelo menos duas vezes antes, e quando eu nem tinha cinquenta anos. Chegar no aeroporto um dia antes da data marcada. E voo internacional, com todas as consequências de desembarcar no país de destino com o hotel reservado para o dia seguinte e etc... Na esquina da avenida Brasil com a Rua Venezuela, onde o semáforo obrigou o taxista a parar, há um ponto de ônibus, e ao lado um outdoor com os seguintes dizeres em branco contra fundo preto: " Eu com negro não vou. E o passageiro foi  impedido de usar o Uber". Que mundo louco o nosso.

16.5.21

Crônica diária

 Conselho da amiga da Licia

Minha "amiga leitora"Licia Egge postou dias atrás um texto delicioso. Desses que a gente gostaria de ler mais vezes nestas páginas do FB. Vou, portanto, me apropriar do tema, e contar para vocês do que se trata. Disse ela com muita graça e elegância que as mulheres "vacinadas" (que linda analogia) se sentem profundamente inseguras ao tirarem a roupa pela primeira vez na frente de um homem. E completa que uma sua amiga, para lá de experiente, defende a teoria de que só é complicado na primeira vez. Aí sou obrigado a discordar da amiga da Licia. Tenho 77 anos e algumas trilhas e estradas percorridas, e posso afirmar que tem mulheres que na idade, que ainda não puderam tomar vacina, eram tímidas e inseguras nesse item. E elas, depois dos 60, continuaram inseguras exatamente pelas razões que a Licia expôs: "Não porque o homem vai ficar olhando os detalhes e sim porque a maioria das mulheres é boba e acha que ele vai ficar olhando justo o que ela não gosta nela". Com muito humor, a amiga experiente, ainda levanta a hipótese do homem maduro enxergar mal. Ela tem razão, o homem nessa fase da vida tem mais insegurança, com relação à primeira vez, do que pensam as mulheres. A insegurança masculina não esta na barriga enorme, nas rugas, mas na possibilidade da falta de ereção. A mulher ficou livre desse pesadelo, portanto pode seguir os conselhos de tirar a roupa, deixar a vergonha de lado, e se "atirar como uma deusa  na experiência". Termina recomendando que depois de certa idade, fica ridículo dizer que se sente intimidada. E completo eu, nem deve se sentir culpada do  idoso parceiro não corresponder a contento na hora H. São coisas da vida, que nada tem a ver com a nudez.

Mais uma caricatura

 

                                                                        Eu por Max

                                                                      Luiz Villa por mim


15.5.21

Crônica EXTRA e URGENTE

 Desde março o Google esta sob nova política de proteção de dados e uma severa fiscalização no conteúdo do que é publicado. Sofri indevidamente vários bloqueios e desativações de postagens e comentários por conta do nome de um blog que mantenho ativo e operante há 12 anos: Vítima da Quinta. Caso eu coloque o link desse blog, imediatamente a postagem ou comentário é banido e recebo um aviso de que foi desativado por conta dessa política. Cabe recurso. Tenho recorrido. Mas por conta da pandemia, e provavelmente do enorme número de contestações, as análises dos recursos podem demorar. É essa a informação dada por eles. Até hoje nunca me comunicaram o resultado dessas análises. Hoje fui surpreendido com mais seis publicações sumariamente censuradas, e duas delas restauradas após uma verificação posterior. Assim esta impossível continuar postando no FB e nos meus blogs. Tudo que eu escrevo ou posto,  passou a ser suspeito de contrariar as regras do Google. Tudo passou a ser uma "possibilidade" de estar violando a privacidade ou propriedade intelectual de alguém. Postei uma caricatura "minha" feita por Luiz Villa, dei, é claro, o crédito da autoria, além da imagem da caricatura estar assinada. Bloquearam. Postei a crônica do Alvaro Abreu, que faço de quinze em quinze dias, há anos, com crédito no título da postagem, e fui bloqueado. Não sei mais o que fazer. Virei alvo e suspeito de plágio, danos aos direitos de propriedade intelectual, e outros delitos...

Crônica diária

 As vítimas e os vilões


Ontem falei dos desenhos da Disney da década de 50/60. Hoje falo dos westerns da mesma época. Torcia-se pelos xerifes e cowboys do bem, contra bandidos, e ataques de índios às vilas e carruagens carregadas de ouro ou armas. Hoje nossa torcida é pelos índios contra ataques de garimpeiros em suas comunidades, como, por exemplo, a de Palimú, no território Yanomami em Roraima.  Segundo líderes locais, três garimpeiros morreram e quatro ficaram feridos. Os agressores chegaram em canoas e abriram fogo contra os índios, que revidaram com tiros e flechadas. Pelo lado dos yanomamis, um homem foi ferido de raspão na cabeça. Fontes da Polícia Federal confirmaram as informações. No dia seguinte agentes da Polícia Federal foram atacados pelos garimpeiros. Os policiais estavam investigando o ataque  do dia anterior, quando um grupo passou de barco e abriu fogo, iniciando uma troca de tiros, da qual não houve feridos. Líderes indígenas temem que os garimpeiros, que estariam fortemente armados, tentem novos ataques por vingança. (Globo) Os homens continuam os mesmos, lutando pelas mesmas causas há séculos. O que mudou foi a nossa concepção de justiça.

Crônica diária

 

Quem me dera
 

Bateu uma baita nostalgia, dessas graves, que se alastram e podem provocar tristezas homéricas. Trata-se de uma emoção provocada por desgovernos e seus desdobramentos nefastos nesses últimos tempos e, desgraçadamente, pelo desânimo ao tentar imaginar o que pode estar vindo por aí, a galope. 

 

Está complicado achar graça dos palhaços do circo que se foi armando, aceitar os novos anões do orçamento fazendo malabarismos no picadeiro e assistir à movimentação dos paus mandados nos bastidores e do lado de fora da lona. Impossível supor que o espetáculo possa melhorar, nem por um passe de mágica. 

 

Já me bastam as tristezas pessoais e das pessoas próximas, as limitações de poder ir e vir, de abraçar apertado em segurança e as quebras de expectativas surgidas em função da pandemia que não sei se e quando acabará. 

 

Pensando bem, perdi o direito de passar ao menos um dia inteiro sem ouvir, ver e ler notícias ruins e alarmantes na política e nas áreas de meio ambiente, da saúde e da educação. Ideal, mesmo, seria passar semanas sem gente importante falando abobrinhas, ameaçando cidadãos e instituições, alardeando providências descabidas, comprando apoios provisórios a peso do nosso ouro, tentando manter o apoio de quem pensa parecido. 

 

É duro ter que conviver com as recentes maracutaias orçamentárias que garantiram os votos de parlamentares gulosos na eleição de comparsas para a presidência das casas. É cruel saber que há senadores da república defendendo que se deixe o assunto longe dos holofotes, para evitar problemas de segurança do Estado e, isso é hilário, riscos à suas respectivas honras e às de suas famílias. Já foram identificados problemas graves na aplicação de dinheiros do tal orçamento secreto na aquisição de tratores, por duas vezes e meia o preço de tabela. Ainda falta saber em quais bolsos foram parar os reais da diferença pra mais. Isso sem falar na quebra da equidade obrigatória entre os congressistas.

 

Sem medo de ser chamado de sonhador, digo que seria muito bom voltar a viver num lugar bonito por natureza, habitado por uma população gentil e animada e com a coisa pública sendo exercida por pessoas sérias, serenas, amistosas e prestativas. 

 

A nostalgia só aumenta ao lembrar que vivi muitos anos em cidades tranquilas, jogando pelada na rua, andando de bicicleta sem capacete, dançando de rosto colado e circulando livremente por muitos lugares. Seria muito bom poder voltar a viver tempos de muito pouco dinheiro, quando os crimes mais graves eram por acerto de contas e os mais comuns eram bateção de carteira e roubo de galinha. Época em que a gratidão dos beneficiados por escolas rurais, viabilizadas por meu pai quando à frente da Secretaria de Educação, chegava lá em casa às vésperas do Natal, na forma de perus vivos.

 

Vitória, 13 de maio de 2021

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA


14.5.21

Crônica diáia

 Tom e Jerry total

 O momento político atual me fez lembrar, como muita alegria e prazer dos desenhos animados do Walter Disney. Que gênio era esse homem. E foi da série Tom e Jerry que vi claramente as cenas do atual cenário político brasileiro. Muito longe do Zé Carioca, aquele alegre papagaio criado pelo Disney. O som também não é mais da Aquarela do Brasil, nem da exótica Carmen Miranda, com sua cesta de frutas na cabeça. Hoje o som é techno brega e a cantora tem tatuagem no cu. No tempo das matinês do Magestic no baixo Augusta, e dos desenhos do Tom e Jerry, não se falava e não se escrevia cu, embora todo mundo tivesse, e soubesse que existia, ninguém tatuava e ao se  referir a ele era  assim: "c...". Mas os tempos mudaram. Os desenhos de hoje, já  não são exibidos nos cinemas, que viraram templos evangélicos, e não existem mais matinês. É na internet, e na TV, que se as nossas crianças ficam fascinadas com os novos personagens, politicamente corretos, coloridos, e muito bobos, perto do Gato e Rato, do Disney, daquele tempo. A política não. Essa era quase infantil. Ingênua, perto da praticada hoje. Aqui, e agora, o povo torce pelo rato, e o rato continua dando demonstrações de rara esperteza em relação ao gato. Tom e Jerry total.

13.5.21

Crônica diária

 CPI, essa conhecida

CPI é um instrumento conhecido e muito temido pelas autoridades, e gestores desde muito tempo. Fui secretário particular do Presidente da UDN, Deputado Federal Herbert Levy, quando ele presidia uma CPI na década de 60 do século passado. Naquele tempo as CPIs já eram temidas e suas consequenciais absolutamente imprevisíveis. Podem acabar de duas maneiras: em pizza ou impeachment. Curiosamente não temos duas palavras em português para definir o resultado dessas comissões. Todas invariavelmente momentosas. Vide as ultimas, as dos Correios, a das Pedaladas, e assim por diante. Uma CPI começa com aguerrida luta interna na Câmara ou no Senado onde irá se processar. Luta para saber quem a presidirá, e seu relator. Depois a composição de seus membros. Essa fase é decisiva para o resultado. Se a maioria for de oposição, a situação do investigado é temerária. O investigado pode se calar, e invariavelmente todos que nela depõe, não depõe, ficam calados. Mas as testemunhas são obrigadas a falar, e falar a verdade. O presidente de uma CPI tem, por força de lei, o poder de mandar prender testemunha que minta ou omita durante um depoimento. O curioso é que o presidente ou relator que são senadores ou deputados, dependendo da casa onde acontece a CPI, podem ter processos e muitas vezes condenações. É o roto condenando o esfarrapado. Nesse clima de aparente normalidade, os debates e discussões são acaloradas. Delas dependem a sorte dos investigados. Muitas vezes o azar dos condenados. O país para literalmente durante sua existência. Nem reformas urgentes tramitam no Congresso, nem grandes investidores internacionais se aventuram a fazer negócio com o país sob a vigência de uma CPI. Tudo pode acontecer, assim como pode virar pizza. Millôr já dizia que no Brasil a culpa nem sempre é do rato, mas do queijo. 

12.5.21

Crônica diária

 O presidente de rabo preso

O assunto do momento é o comportamento do governo diante de uma CPI no congresso. No início o presidente fingiu não estar incomodado, mas colocou sua "policia pessoal, e secreta": ABIN, procurando mal feitos entre governadores, para ter munição e contra atacar no caso da artilharia da oposição mirasse exclusivamente na sua pessoa. A CPI não pretende convoca-lo, mas todos os depoentes na condição de como testemunha acabam incriminando-o, queira ele culpar seus ministros da saúde, ou governadores dos estados. O general sem pescoço, até por não tê-lo (pescoço) não se livrará da corda da forca. Até o exercito, do qual faz parte na ativa, já se posicionou que ele era ministro do capitão, e não general de quatro estrelas comandado por um terraplanista, e defensor da Cloroquina. Remédio esse que nem as emas do Palácio aceitaram tomar. Amanhã falo sobre a CPI especificamente, já que o assunto é vacina e o perigo que representa uma CPI para os governantes de rabo preso.


11.5.21

Pablo Servigne: “Não acredito que minha geração receberá aposentadoria”

O cientista francês, coautor do ensaio ‘Colapsología’, avalia que antes de 2030 haverá um “naufrágio social” que obrigará a dizer adeus à confiança no progresso

O cientista e ensaísta francês Pablo Servigne, autor de 'Colapsología', retratado nesta segunda-feira em Barcelona.
O cientista e ensaísta francês Pablo Servigne, autor de 'Colapsología', retratado nesta segunda-feira em Barcelona.MASSIMILIANO MINOCRI

Anos atrás Servigne largou o emprego de pesquisador, farto de estar trancado na torre de marfim de seu laboratório. Este engenheiro agrônomo e doutor em Biologia fez as malas e saiu da cidade com a mulher e os dois filhos. “Queríamos que eles crescessem perto de florestas, esquilos e javalis, e não entre ambulâncias e caminhões de lixo. Neste século será imprescindível se conectar outra vez com o selvagem e também com o coletivo, saindo do anonimato das cidades. Quanto mais você escala a montanha, mais ajuda mútua você vê”, relata. Quanto mais frio fica o inverno, mais gente sai para ajudar os vizinhos a cortar lenha. Isso o lembrou de algo que já conhecia, por ter se especializado por sete anos na sociabilidade de formigas. “O estudo dos insetos me permitiu romper com aquela ideologia absurda de competição generalizada, com toda aquela retórica neoliberal”, diz.

Ler autores como Rob Hopkins o fez querer participar do debate público. Deixou o emprego em 2008 e começou a escrever o que intuía: que, sem uma mobilização urgente e de massa, o planeta caminhava para a perdição. Um relatório ao Parlamento Europeu encomendado em 2013 pelo ex-ministro do Meio Ambiente Yves Cochet, que desde então se tornou um dos principais divulgadores de sua tese, o levou a chegar a esta conclusão: o colapso ecológico, energético e climático ocorrerá antes do final de sua geração. “Ninguém estava consciente disso, exceto os cientistas. Para alterar essa situação, criamos a colapsologia”, diz sobre essa nova disciplina, forjada em conjunto com Stevens, especialista em transição ecológica e coautor de seu ensaio, e Gauthier Chapelle, teórico da biomimética, ciência que se inspira na natureza para resolver problemas humanos. “O objetivo é informar da forma mais clara possível o maior número de pessoas para se prepararem da melhor maneira para os grandes confrontos que estão por vir. Quanto mais nos preparamos, menos catastróficos eles serão”, resume.

Sua missão é reformular postulados que, até pouco tempo atrás, eram considerados extremistas, utópicos ou dignos de excêntricos e malucos. “Nós os tornamos audíveis para as classes intelectuais e urbanas. E os aproximamos de todos os grupos sociais e de todos os setores econômicos, partidos políticos, grupos religiosos e até mesmo do exército”, explica Servigne. Apesar das críticas que continuam a chover sobre ele por seu aparente profetismo, a crescente gravidade da crise climática fez com que essas teses ultraminoritárias se infiltrassem na agenda global.

A tomada de consciência ocorreu, segundo Servigne, em três etapas. A primeira foi o alarme gerado pelo inverno nuclear, ao mesmo tempo em que era criado o Clube de Roma em 1968, que já alertava para os perigos do desenvolvimentismo e seu crescimento ilimitado. Resultou no surgimento de correntes como o catastrofismo e o survivalismo, que “primeiro era de extrema esquerda e, depois, de extrema direita”. A segunda se deu na última década, com as ondas de forte calor na Europa, o relatório muito pessimista sobre o aquecimento global feito pelo IPCC —o grupo de cientistas que assessora a ONU sobre mudanças climáticas—, o aparecimento de grupos como o Extinction Rebellion ou os coletes amarelos na França e o “monstro midiático” que Greta Thunberg se tornou. “Foi quando o terceiro episódio chegou: a pandemia”, enuncia Servigne. Confirmou seus piores prognósticos. “Mas, quando aconteceu, não fiquei com medo, porque estou me preparando para isso há 15 anos. É como um luto: você deve esgotar suas emoções para não se deixar levar por elas.”

Para ele, é neste luto partilhado que nos encontramos hoje: no processo traumático de dizer adeus a uma ideia de futuro, a uma fé cega no progresso. “Desprender-se desse imaginário é muito doloroso, mas já cheguei nesse ponto. Não acredito que minha geração vá receber aposentadoria ou que meus filhos conheçam girafas”, diz. Não é que esteja desanimado, ele diz isso com total desapego. “É tarde demais para falar de otimismo ou pessimismo. Quando há um incêndio, a pessoa se limita a passar à ação”, diz Servigne, que antecipa um futuro marcado pela desintoxicação em relação às substâncias que considera nocivas. “Como os viciados em drogas, teremos que aprender a deixar drogas como o petróleo, a riqueza ou o PIB.”

Outra de suas referências, o geógrafo e antropólogo Jared Diamond, escreveu que todas as civilizações que sucumbiram no passado, seja por guerras sangrentas, catástrofes climáticas ou desastres comerciais, compartilhavam um denominador comum: as péssimas decisões que seus líderes tomaram para sair de cada uma dessas crises. “Vivem em uma bolha de conforto que os convence de que a estrada continuará em linha reta. Até que se vejam caindo no precipício, como o Coyote perseguindo o Papa-Léguas”, sorri Servigne.

A data do fim do mundo

Para o cientista, a solução passaria pela experimentação com “pequenos sistemas de resiliência” como as cooperativas e as ecovilas, por meio de uma doutrina do choque invertido em que as brechas abertas por cada crise são exploradas para formular soluções alternativas ao capitalismo. O Estado lhe parece uma instituição destinada a desaparecer. “Isso é muito custoso. Pode afundar por causa de uma crise de energia, quando o petróleo começar a acabar, e também pela falta de confiança que inspira seu relato comum. Se deixarmos de acreditar na França ou na Europa, elas desaparecerão.” Não lhe parece um crepúsculo desejável, apesar de sua cultura anarquista. “É uma aspiração de longo prazo, porque o Estado é o produto de 500 anos de história violenta, capitalista e colonial. Mas, no curto prazo, não me parece desejável. O Estado detém o monopólio da coesão social. As sociedades não estão preparadas para viver sem ele”, admite.

Servigne reluta em dar uma data para o fim do mundo. “Não sou um astrólogo. Não se pode prever o futuro de modo científico”, protesta gentilmente. O que ele concorda em compartilhar é uma de suas intuições. “Em 2030, o mundo terá mudado totalmente. Minha sensação é que antes desse ano haverá um colapso social”, diz Servigne, que inclui nisso o preocupante ressurgimento do fascismo em várias partes do planeta. Ainda assim, não é tão apocalíptico como suas palavras parecem indicar. Não acredita, por exemplo, naquela inevitável guerra civil que certas séries de televisão descrevem. “Nas piores crises, a solidariedade sempre ressurgiu. A natureza humana não é a maldade. O problema é que somos regidos por instituições antissociais que apregoam agressão e desmantelam os cuidados”, opina. “A única maneira de sobreviver neste século será a ajuda mútua. Além do mais, os que não ajudarem os demais serão os primeiros a morrer.”

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