Crônica diária
Rubem Braga aos 26 anos
Vem da sua terra, Espírito Santo, um intelectual generoso e
divulgador de artistas e escritores, e entre eles, com ênfase especial,
para Rubem Braga, chamado Rainer Castelo. Dia desses postou uma crônica
de Abril de 1939, portanto 82 anos atrás, cheia de humor, criatividade, e
eterna.
"A CHAMADA, "CULTURA DE ALMANAQUE"."
Ele com 26 anos de idade já se considerava "com uma certa idade" e com sua "ignorância sobrecarregada de noções inúteis" , e achava "um encanto especial em descobrir que a esmeralda não é um cristal feito
com os olhos verdes das virgens que morreram de amor, mas um silicato de
alumínio e glucínio, e irmã gêmea da água-marinha e do berilo, ao passo
que a ametista é apenas um quartzo com seus 15% de óxido de manganês.
Naquele tempo o Almanaque era o Google de hoje em dia. E o cronista enchia seus "domingos com uma longa e vária cultura de almanaque; é uma sabença
que não oprime, toda cômoda e folgada como um pijama velho".
"Sabença" ele tinha, e sabia usar como usava "folgados pijamas velhos". Hoje soa como poesia.
Já naquele tempo diziam que era "cultura inútil". E o Rubem se defendia dizendo:
..."não sois capaz de sentir a pequena e pura emoção intelectual que dá
em saber que os cocóis são cabelos de madeira pregados nos alcatrates, e
que servem de esforço às aberturas das falcas.
Eu
também não; mas a verdade é que nos momentos de crise íntima eu me
sinto um tanto reconfortado e um pouco mais tranquilo sabendo que os
cocóis pregados nos alcatrates reforçam bastante as aberturas das
falcas.
Um dia hei de comprar um bom par de cocóis; meu velho sonho era ter um barco, isso nunca pôde ser; mas comecemos pelos cocóis."
Fui
incapaz de interromper essas frases, para comenta-las, tão lindas e
poéticas que são. Uma aula para quem escreve, um balsamo para quem lê.
Quando eu crescer quero ser como era o Braga aos 26 anos. O resto vai
ser lucro.

Um comentário:
Um verdadeiro encanto essa história da cultura dos antigos almanaques.
Eu também os apreciava muito.
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