Crônica diária
Colecionar arte
Não acontece todos os dias, muito pelo contrário, as vezes passam-se
anos, décadas sem acontecer. É mais ou menos como amor a primeira vista.
Acontece, e não tem explicação. Mas a sensação que provoca é deliciosa.
Poderia dizer que anestésica. Dopante. O meu corretor automático
desconhece essa palavra: "dopante". Mas ela existe e se refere ao fato
de ter as faculdades mentais puras, integras, alterada por alguma
substância. Essa é exatamente a sensação que tem um apaixonado. Suas
emoções fogem do controle racional. Refiro-me a um fato que ao longo da
minha vida aconteceram algumas vezes. Me apaixonar por algum desenho,
pintura, escultura ou objeto de arte. Tenho entre meus amigos e leitores
muitos artistas e colecionadores de arte. Pergunto a eles se não é
assim que acontece em suas vidas? Colecionar arte é como colecionar
qualquer coisa. Já tive algumas coleções incipientes, como as de
flamulas, que hoje nem mais existem. Eram bandeiras em formato
triangular que toda escola, ou time de futebol tinham. Antes do início
do jogo, no centro do campo o juiz da partida sorteava, com uma moeda, o
lado que determinado time iria iniciar a partida, e havia então a troca
de flamulas, e aperto de mão, entre os dois capitães dos times
adversários. Colecionei selos e moedas. Mas foi obras de arte minha
maior coleção e paixão a vida toda. Como nunca dispus de recursos para
obras caras, minha coleção sempre foi focada em descobrir e apostar em
talentos. Nessa linha já passaram pela minha coleção artistas, hoje
famosos, que estiveram ao meu alcance, um dia. Ou pelo valor monetário
da época, ou por sorte no garimpo. Entre eles cito apenas dois: Alfredo
Volpi, e Ismael Nery. Minha coleção contou com inúmeros artistas
iniciantes e amigos pessoais como Wesley Duke Lee, seus quatro pupilos
Luiz Paulo Baravelli, Frederico Nasser, Carlos Fajardo e José Resende,
além dos dois primeiros artistas cujas obras me despertaram paixão: Luiz Jazmin (1940 - 2013) e Ubirajara Ribeiro (1930 - 2002).
Depois vieram baianos abstratos, artesãos que trabalhavam com argila
no Embu, e até alguns acadêmicos brasileiros. Amanhã escrevo sobre minha
mais nova paixão, cujo atelier vou conhecer hoje. Mantenho seu nome em
segredo, mesmo porque esta crônica esta ficando muito longa, e minha
coleção tem muita gente de quem quero falar.

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