Crônica do Alvaro Abreu
Tempos bicudos
Para
não falar de assuntos desagradáveis, grandes tragédias e temores
crescentes, achei por bem escrever sobre Amora, minha querida arara
Canindé, que ganhei de presente no meu aniversário de 70 anos de meus
filhos, irmãos e amigos próximos. Disseram que era pra me fazer
companhia e matar as saudades da Aurora, que tinha vindo pra nós ainda
bem novinha lá em Brasília. Ela veio conosco pra Vitória se equilibrando
na barra de alumínio, um poleiro improvisado, atrás da minha cadeira de
motorista do nosso ônibus. Viveu conosco por uns sete anos, circulando
livremente pela varanda, no quintal e sobre os muros. Fugiu e foi levada
umas oito vezes e eu não consegui recuperá-la na última vez.
Amora
foi comprada de um criador credenciado no Estado do Rio e chegou no
aeroporto de Vitória totalmente estressada e agressiva, com uma anilha
numerada na canela direita. Gastei uma manhã inteira para ganhar sua
confiança, usando uma varinha de bambu para lhe oferecer água fresca e
mamão maduro. Um treinador me disse que comida e carinho são elementos
básicos para firmar amizade duradoura com os animais e me informou que
as araras vivem setenta anos.
O
viveiro de bom tamanho que ganhamos permanece sempre aberto e está
colocado diante da janela da cozinha para que Amora possa ficar, de cima
de seu telhado, acompanhando a movimentação, sempre fazendo graça, se
exibindo e pedindo comida.
Fiz
um balanço de dois andares com paus de enxada, que ganhei de Manoel
Araújo, antes que fechasse a sua utilíssima loja na Av. Leitão da Silva,
e o pendurei com arame na viga da varanda. Amora adora ficar nele,
sobretudo quando tem gente por lá. Para chamar a atenção ou se divertir,
ela bate as asas com força suficiente para ganhar impulso e poder ficar
balançando pra lá e pra cá, de cabeça pra baixo e peito aberto, dando
gritinhos.
Para
que ela pudesse viver solta e perto da gente, inventei um super-poleiro
móvel, montado sobre um pé de cadeira de escritório com cinco rodinhas,
que permite levá-la pra todo lado, em especial ao lado da minha
bancada, para ela poder ficar observando atentamente o que eu esteja
fazendo. Ali, vou lhe dando lascas de bambu, que ela mastiga e
estraçalha sem dó. Me impressiona o enorme poder de destruição de seu
bico, com o qual consegue esticar arame, partir coquinho e arrancar
prego. Nisso, as araras são como cachorros em crescimento, que roem pés
de mesa, esburacam tapetes e destroem brinquedos, só pra coçar os
dentes.
Ninguém
previu que aquele presente, meio inusitado, seria tão útil na
quarentena. Tanto, que vou precisar de mais uma crônica para contar as
suas peripécias e a evolução da nossa amizade.
Vitória, 20 de agosto de 2020
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA


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