22.8.20

Crônica diária

A mãe do namorado

Um dia eu capotei. Já aconteceu com algum de vocês? Minha namorada, minha filha, um namorado dela e eu dirigindo capotamos na altura de Sorocaba. A pista estava molhada, passei pelo posto da Polícia Rodoviária, e logo em seguida o carro aquaplanou, deslizou pelo asfalto como pedra de gelo no mármore, entrou o acostamento subiu um barranco de grama, o que foi a sorte, pois perdeu totalmente a velocidade, e lentamente capotou. Alguém de vocês já ficou de cabeça para baixo presos no assento pelo cinto de segurança? Naquele tempo não havia air bag. A situação é no mínimo constrangedora. Você leva uns segundos para entender o mundo por aquele ângulo. Olhei para o lado e a Paula estava na mesma situação. Mas bem. Sem conseguir olhar para o banco traseiro perguntei: " Estão todos bem?" A resposta foi positiva. As rodas pararam de rodar. O motor continuava funcionando, mas minha luta era com o cinto. Meu peso e a ação da gravidade conspiravam contra meu desejo. A Paula foi mais feliz nessa empreitada. Conseguiu desatar o seu cinto e caiu na capota. Aí me ajudou soltar o meu, e cai também. Olhamos para trás e minha filha sangrando na cabeça, era ajudada pelo namorado a sair pelo vidro traseiro, que espatifará no capotamento. Abrir a porta sentado na capota interior foi a luta seguinte. Mas saímos do carro. Garoava, e as primeiras pessoas começaram a parar e vir ver o que tinha acontecido. A Policia chegou em seguida. Com o cabelo da minha filha empapado de sangue, chamaram uma ambulância e os três foram para o hospital de Sorocaba, a pouca distância do ocorrido. Fiquei na chuva fina a espera dos procedimentos policiais. Me liberaram e não lembro como fui para o hospital encontrar a Paula, minha filha e o namorado dela. Feita radiografia (depois soubemos que de péssima qualidade) ficamos numa varanda úmida assistindo o entra e sai de ambulâncias e doentes, a espera de alta dos médicos. Um helicóptero foi aventado para levar minha filha para São Paulo. O mau tempo impedia. Finalmente a Paula e o namorado da minha filha foram de táxi para casa, e eu acompanhei na ambulância minha filha que não havia sofrido nada além de pequenos ferimentos provocados pelos estilhaços do vidro. Mas no dia seguinte fizemos uma nova chapa da cabeça. Foi quando os médicos comentaram o péssimo estado do raio X de Sorocaba. Espero que ninguém tenha passado por uma experiência dessas. Alguns dias depois, com o seguro dando como perda total do carro, fui chamado à justiça, num procedimento padrão,  onde me apresentei sem advogado. Ouviram minha filha, e o namorado, e eu em separado. Me senti um assassino. O juiz me tratou decentemente, apesar da notícia de que a mãe do namorado, que nada sofreu, quisesse me incriminar. Essa talvez tenha sido a pior parte. Moral da história: nunca capote com os namorados de sua filha a bordo. Eles tem mãe.

4 comentários:

valter ferraz disse...

O povo quer saber: e sua filha casou com o namorado?

Eduardo P.L. disse...

Com esse não.

valter ferraz disse...

Que sorte a tua!

João Menéres disse...

Também torci para que essa senhora não lhe calhasse como comadre !

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