3.5.20

Crônica do Alvaro Abreu

Vizinhança

Fui criado em ruas onde todos se conheciam, sabiam onde cada um morava e de qual família era. Filho de beltrano, pai de fulano, mulher de sicrano. O trecho da rua 25 de Março, antes da ponte, em Cachoeiro, era ocupado pelas mesmas famílias há décadas. Em Vitória, a antiga rua da Árvore e a Madeira de Freitas tinham apenas 2 quadras. Nelas, afora uns poucos que se cumprimentavam de longe, seus moradores eram vizinhos.

Por vizinhos entenda-se aqueles que frequentavam a varanda do outro, eram convidados para as festas e, mais do que isso, faziam circular entre suas casas pacote de açúcar, meia dúzia de ovos, pedaço de broa, jambos, rabanadas e, também, bujão de gás, pregos, serrote e tudo o mais. Namoricos no nosso quarteirão eram raros, mas amizades consistentes era o que mais se via.

Pois esta quarentena faz brotar demonstrações de boa vizinhança. No meu caso, comecei fazendo, a pedido de Carol, duas colheres para nossa vizinha de muro e retribuiu com pães fresquinhos da Monte Líbano. Depois, ofereci pro meu vizinho de duas casas adiante, e ele aceitou com satisfação, um dos abacaxis miúdos de Marataízes que acabara de comprar. No domingo, um casal de amigos, que dariam ótimos vizinhos, trouxe um saco de cajás deliciosos. Dei a metade pra meu irmão mais velho, que adora essa fruta de antigamente.

Ontem nos encontramos com um antigo colega de trabalho, que sempre caminhava em ritmo acelerado pelas ruas do bairro. De pé, no jardim da sua casa, ele empunhava um copinho de bebida. Puxando conversa, perguntei se era whisky e ele, com cara de entendido, respondeu que era a melhor cachaça do Brasil, feita lá em João Neiva, onde ele nasceu. 

Fazendo cara de invejoso, falei que aquela era a cachaça oficial da nossa casa e que, naquele momento, meu garrafão estava totalmente vazio. Pois ele foi firme em dizer, agora com cara de orgulho, que iria lá dentro apanhar uma garrafa de dois litros pra mim. Enquanto esperava, tratei de finalizar a faquinha que estava fazendo para dar pra ele, tão logo recebesse aquele inesperado presente. 

Deu tudo certo. Alisando aquela pequena peça de bambu com a ponta dos dedos, ele fazia cara de satisfação, igual a que devia estar fazendo ao segurar, com as duas mãos, a minha garrafa de cachaça. 

Vitória, 30 de abril de 2020
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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