31.5.20

Vasculhando o arquivo

Porto Alegre

Crônica diária

 22 de abril

Essa data ficará marcada na história do país por dois fatos relevantes. Em 1500 o descobrimento, que não é considerado feriado nacional, e em 2020 pela reunião de ministros do governo Bolsonaro. A divulgação da fita gravada durante a reunião, prova solicitada pelos advogados do ex-ministro da justiça Sergio Moro, levou mais de trinta dias para vir a publico, acatando ordem judicial. Exibida quase que na sua integralidade acabou com uma novela e mesa de apostas se seria autorizada, e se sendo, na sua integralidade, ou com cortes, por razões de segurança nacional. A China e o Uruguai foram cortados, mas o "resto", para escândalo do Ministro Celso de Mello, e pela metade da população, uma reunião de duas horas absolutamente inacreditável. Para outra parcela de eleitores e brasileiros, uma reunião que "dá selo de qualidade ao Presidente da República", e garante sua reeleição. A prova que juntada aos autos do processo do Moro, por tudo que o Bolsonaro verbaliza clara e objetivamente, é interpretada por seus apoiadores como peças de sua defesa e não de acusação. Aquilo que seria a "bala de prata" corroborando com tudo que o ex-ministro acusou o Presidente, é vista e entendida como um "traque", um "pum", um "tiro de festim". Uma reunião semelhante às que estávamos acostumados a ver entre Chaves, Maduro e seus apoiadores na Venezuela,  acontecendo no palácio do governo brasileiro. Linguajar de taberna de puteiro, onde o chefe visivelmente exaltado fala das suas hemorroidas, da avó da sua mulher que plantava maconha, da mãe que foi condenada por falsificação, do filho que teria "provas plantadas" em sua casa, e pede, reiteradamente ao então ministro da justiça, Sergio Moro,  a mudança do diretor da policia federal no Rio de Janeiro. Se isso não é interferir na PF, não sei mais o que poderia ser. A fita demonstra o presidente fazendo esse apelo, ostensivamente, e em defesa da sua família e de amigos. E no final, e em tom elevado, não solicita, DETERMINA que sua vontade seja feita, sob pena de demitir o diretor, ou se fosse preciso o próprio ministro. Ministro que deixou o cargo de juiz, e uma aposentadoria de mais de vinte anos, recebendo "carta branca" para continuar o combate à corrupção. Acabou recebendo "bilhete azul", e execrado pelo presidente. A fita e reunião teve duas horas de duração, e teríamos outras tantas para comentar essa fatídica reunião, que ainda mais estarrecedor, não produziu entre parte da população, o resultado desejado.  O primeiro 22 de abril de 1500 poderia ter sido tudo que aquela carta de Caminha preconizava, mas o vídeo de 22 de abril de 2020 esta provando o contrário.

30.5.20

Uma biruta e quatro bandeiras

Arquivo

Crônica diária

Para dar sorte

A segunda crônica do meu livro anterior ao "Ansiedade crônica", "Nono livro de crônicas", era sobre meu amigo e poeta Ronaldo Werneck. Na primeira falei do John Lennon, Roberto Klotz e Millôr Fernandes. Ontem, por acaso, o Millôr voltou a ser mencionado. E logo na primeira crônica. Isso vai dar sorte.
Ronaldo Werneck é autor de inúmeros livros, sendo que cunhou para um deles o título:"Há controvérsias", com crônicas de 1987 a 2003, e um segundo volume, com o mesmo título, publicado em 2009. "Há controvérsias" ficará ligado ao nome do poeta para sempre. Assim como "subitamente" ficou ao nome do artista plástico e editor Frederico Nasser, de saudosa memória.
Ronaldo Werneck continua morando e fazendo de Cataguases o centro do mundo, mundo esse em que morou e viveu em várias partes. Quando lá estudamos tinha uma população de 42 mil habitantes, hoje deve passar de 75 mil, mas continua sendo uma cidade pequena, cheia de grandes memórias. Berço do "Movimento Verde" da literatura brasileira. Cidade onde nasceu o pai do nosso cinema, Humberto Mauro. E graças à família Peixoto, uma cidade industrial, e com várias obras arquitetônicas de Oscar Niemeyer, e de onde saiu o maior painel de Portinari: "Tiradentes".
Foi no Colégio de Cataguases que fundamos um jornalzinho mimeografado chamado "Pirilampo" e experimentamos nossa primeiras letras. Um ano depois frequentei as oficinas do jornal da cidade para imprimir um número do "O Estudante", esse já impresso, e da minha gestão na presidência do Grêmio Literário Machado de Assis.
Essa experiência juvenil serviu para anos depois participar da criação de um jornal na cidade de São Paulo, o Notícias Populares, (15 de outubro de 1963 e 20 de janeiro de 2001). Seu diretor Jean Melle recebeu a incumbência, dos donos do jornal (Gazeta Mercantil), de produzir um jornal popular para concorrer como a Ultima Hora, fundado pelo jornalista Samuel Wainer, em 12 de junho de 1951, e de tendência populista e comunista. 
Mas nenhuma dessas participações junto ao jornalismo me fizeram conviver nas redações como faziam os cronistas da época. E ao ler suas crônicas morria de inveja. Nem mais esse ambiente existe mais. Hoje tudo é digital. Digitalizado e enviado digitalmente. Sem o charme das escrivaninhas de madeira, Olivettes manuais, telefones pretos de baquelite, e cigarro no canto da boca. Ninguém melhor do que Nelson Rodrigues para simbolizar esse tempo.  

C^rônica do Alvaro Abreu

 Constrangimento, s.m. 
 

Sei de constrangidos confessos e imagino os muitos enrustidos nestes tempos de embates. A palavra constrangimento está na ordem do dia. Confirmei no Google que ela expressa muitos estados de alma, todos negativos e desagradáveis, incluindo: aborrecimento, acovardamento, aflição, arrependimento, desconforto, depressão, desconfiança, embaraço, encabulamento, impotência, insatisfação, introversão, raiva, recolhimento, vergonha.

Convivemos com situações constrangedoras as mais variadas, pontuais e abrangentes, eventuais e permanentes, de menor e maior alcance e impacto. As piores envolvem ameaça, assédio, imposição, coação, intimidação, opressão, repressão, violência física ou moral, atitudes muito associadas ao jogo de poder. Embora possa se abater sobre qualquer um, o constrangimento atinge mais pesadamente as pessoas de boa fé, crédulas, ingênuas, inseguras, temerosas e tímidas.

Ao se repetirem com frequência, esses acontecimentos podem gerar emoções silenciosas e cumulativas, em cadeia. Embora sentidas individualmente, podem afetar muitas pessoas ao mesmo tempo. Constranger sistematicamente é uma estratégia de enfrentamento temerária, nem sempre bem aceita. Na esfera do governo federal, por exemplo, seria interessante saber o grau de constrangimento dos que assinam notas de apoio, medem palavras em depoimentos, participam de reuniões toscas, não concordam que se arme a população nem que se façam visitas e ingerências indevidas, desaprovam o uso de fake news, agressões a jornalistas e a instituições, e barganha com cargos públicos.

Sei, por experiência, que sensações de alívio, indignação, rebeldia e de desejos de revanche são próprias dos que se livraram dos constrangimentos a que foram submetidos. Imagino que coletivos de ex-constrangidos podem surgir por empatia, identificação, compaixão, solidariedade e sensação de pertencimento, em favor de causas coletivas.

E daí? Otimista que sou, torço para que o bom senso e o discernimento ajudem a agregar, mobilizar e organizar os que vêm sendo constrangidos, os insatisfeitos e os indignados, onde estiverem. E assim, fortalecer poderes legítimos para enfrentar as fontes de constrangimentos e agir para ajustar o curso da política, enquanto é tempo.

Vitória, 28 de maio de 2020
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

29.5.20

Uma escultura na Europa

EPL  - Foto de arquivo)

Crônica diária

"Primeira crônica"

Aproveito para abrir meu novo livro "Ansiedade crônica" com uma piada. Como sabemos em geral as anedotas nunca são novas. São quase sempre adaptadas à ocasião. A mesma espinha dorsal,  com uma nova roupagem. O objetivo final é zombar de alguém, ou de alguma coisa, e provocar risos. Raramente surgem gênios como Millôr Fernandes que criou milhares delas.
O cronista Ricardo Rangel publicou nas redes sociais uma piada, tomando o cuidado de informar que desconhecia seu autor, e foi alvo dos raivosos mantras dos seguidores do Bolsonaro.


"Um bolsonarista morre e se encontra com Deus, que diz:

— Não era a sua hora ainda! Vou te mandar de volta!

— Que bela surpresa, Deus! Mas, antes de ir, o Senhor poderia me tirar uma dúvida?
— Claro, filho! Pode falar.
— A cloroquina funciona para tratar a COVID-19?
— É claro que não! Todos os estudos mostram o contrário. Tem efeitos colaterais graves. Inclusive, você morreu por causa dela!
Ressuscitado, ele liga correndo para os correligionários:
— Amigos, tenho novidades incríveis!
— O que houve?
— Vocês não imaginam quem também é comunista!!!"
Esta é a primeira de 300 crônicas, que se eu estiver vivo até lá, farão parte do novo livro. Estamos em plena pandemia do Covid19, e no Brasil com mais de 20 000 mortes. Ontem li a crônica do acadêmico Inácio de Loyola avisando que se morresse do Corona era assassinato. Eu não chegaria a tanto, mas fazemos parte do grupo de risco, e debitaria a morte a um descuido. Recomendo aos meus leitores, inclusive aos bolsonaristas que fiquem em casa e usem máscara. O seu líder é completamente maluco.

Em tempo: Vale a pena repetir, embora seja inútil, eu não sou e nunca fui comunista. E acredito que o Ricardo Rangel também não.

28.5.20

A lagartixa

A lagartixa que mora atrás do quadro. EPL Foto de arquivo

Crônica diária

"Ansiedade crônica"
Hoje completo, como anunciei ontem, com esta crônica, 2 700 postagens diárias, reunidas a cada 300 em um livro de papel. Parece simples, mas foi uma longa jornada. Foram nove anos onde um pouco de tudo aconteceu. O fato de estarem em livros facilita a leitura nos dias de hoje, e servirão de memória amanhã. E por falar em amanhã, a crônica iniciará uma nova série de 300 textos sob o título de "Ansiedade crônica". Coincidentemente os próximos 300 dias nos reservam um mundo diferente daquele vivido nos últimos nove anos. Mundo pós pandemia do Covid19. Sobre o vírus que nos abateu nada sabemos ainda. Talvez tenhamos uma vacina até o final do ano. Quantas mortes ainda contabilizaremos, e quais as gravíssimas sequelas na economia mundial levaremos alguns anos para contabilizar. E tudo isso nos enche de ansiedade. Espero poder estar vivo para comentar tudo isso. O próximo livro já pronto com um lindo prefácio da poeta Flora Figueiredo sairá em breve com o título de "Oitavo, livro de crônicas". O que termino hoje, levará o titulo de "NONO livro de crônicas", e espero publica-lo em 2021. Em primeira mão para meus leitores fiéis, mostro as respectivas capas, e agradeço a eles a companhia dessa já longa jornada.

São Paulo, 28 de maio de 2020

27.5.20

Auto retrato

Detalhe de uma tela do autor do blog

Crônica diária



Antes de terminar amanhã com a 300ª crônica, que fecha um novo livro, não posso deixar de falar sobre política. Nos últimos meses abstive-me de tocar no assunto, por razões que tento deixar claro neste texto. Digo tento, porque é praticamente impossível argumentar, sobre fatos incontestes e evidentes, com pessoas fanáticas ou desinformadas. Entre as desinformadas inclui-se aquelas que não me conhecem, e não sabem que não sou comunista. Sim, porque todos que votaram no Bolsonaro, e o críticam, são  tachados de comunistas, traidores, e coisas piores. Quanto aos fanáticos não há realmente nada a fazer. Aos brasileiros de espírito aberto, e desarmados, quero deixar algumas reflexões, e preocupações. Considero que o presidente realmente não tem condições emocionais e intelectuais para exercer o cargo. Se nunca tive dúvidas, agora depois de assistir ao vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, a certeza é total. Quanto a isso não há controvérsias. Infelizmente. Mas não defendo seu "impinchamento", ou qualquer outro expediente que o afaste do poder. Mas tem que ser tutelado pelos generais que ele próprio levou para o palácio. E isso não tem acontecido. Generais que tinham uma alta e  ilibada reputação não tem sido capazes de domar o capitão. Ao contrário, parecem insufla-lo. Ainda que centena de militares já tenham ocupado diversos níveis da administração pública federal, desmontando a quadrilha comandada pelo PT, e partidos de esquerda, o presidente vem perdendo seus melhores quadros e ministros civis, por desavenças rasas e insanas. Dois ministros da saúde e um da justiça, por causas indefensáveis. E pior, com o aval, ou pelo menos o silêncio de generais e conselheiros que estão demonstrando estarem de joelhos sobre o milho, como ficavam as crianças, de mau comportamento, antigamente. Com essas observações deixo aos meus leitores, de todos os vieses ideológicos, minha preocupação com o que será a segunda etapa da recuperação econômica do país, após a fase de "salvar vidas", que espero prevaleça a opinião da maioria dos cientistas do mundo a fora, e dos nossos governadores e prefeitos, apesar do presidente em exercício.

26.5.20

Uma exposição do Israel Kislansky

Uma das muitas exposições do artista ISRAEL KISLANSKY em São Paulo

Crônica diária

A procura de um tema

Qualquer coisa pode virar uma crônica. Uma janela aberta, um beija-flor, ou o ato de abrir uma gaveta há muito fechada. Mesmo que a vista da janela seja a fachada de cimento envelhecido do prédio ao lado, mesmo que não haja beija-flores nas cidade, ou ainda a falta de conteúdo na gaveta há muito trancada, podem ser temas para o cronista.  Gavetas, com ou sem chave, podem ficar anos sem serem abertas. Podem conter de A a Z, tudo que sua dimensão permita. Quando muito tempo fechadas adquirem um cheiro particular, a maioria das vezes exalado pela madeira, quando eram feitas de material maciço, como jacarandá ou outras preciosidades. Podem também cheirar mofo. Em geral eram forradas com papel colorido, que apesar de se preservarem por muitos anos, pela ausência da luz, costumavam mostrar um pó de ferrugem, nos quatro cantos, onde foram afixados percevejos, e sinais de traça ou cupim.  Uma argola oxidada, com duas ou três chaves, que nunca mais se soube de onde eram, são muito comuns serem encontradas nessas gavetas. Uma caderneta com espiral e anotações diversas pode fazer parte do seu conteúdo. Uma caixa de papelão amarela com fotos em preto e branco, hoje quase sépia, já eram antigas quando foram guardadas. Serrilhadas nos quatro lado, como era praxe os laboratórios fazerem naquele tempo. Mas que tempo seria esse? Os personagens das fotos são desconhecidos. Certamente familiares antepassados. No verso das fotos nenhum nome ou data, apenas um carimbo com o nome e endereço da Photoptica que fez as ampliações. Resta nesse caso voltar tudo para a gaveta, e tentar girar a chave. A ferrugem e falta de uso não permitem mais. Ficará destrancada por muito tempo ainda,  guardando fotos, chaves e uma caderneta inútil. Mas a bem da verdade, suficientes para salvar a crônica de hoje.

25.5.20

O VARAL do Aloisio de Almeida Prado

Com foto de Maria Vitória Lago ( Arquivos do Varal)

Crônica diária

ORGANO HUMANOS,OU HUMANOS  ENGANOS
                                                                               2011
Esse foi o nome dado a uma das minhas esculturas em torno de 2004. Das nome às coisas sempre foi minha fixação. Tanto assim que desenvolvi uma tese de que o nome das pessoas tem sobre elas mais influência do que a data do nascimento, ou outros elementos usados em horóscopos, Tarot ou Mapa astral. O nome, e seus elementos tem peso, som, e intensidade masculina ou feminina. Forte ou fraco. Há os neutros. E por essa razão são, a meu ver, tão importantes. A escultura que recebeu esse nome transmite formas orgânicas, humanas, contemplando eventuais enganos. Originalmente era composta de quatro elementos. Dez ou doze anos depois a figura claramente masculina tombou por conta de forte vento numa tempestade. Salvei a cabeça. Na sua base nasceram flores. As outras três continuam sofrendo ação do tempo e ganhando em reformas quando necessário.
  

24.5.20

Spencer Tunick

Spencer Tunick em 23 de junho de  2012 fotógrafo das dezena de nus

ou só de duas pessoas.

 

Crônica diária

Breve história do Carvãozinho
Carvãozinho
Vida e Mel
Fui escrever sobre plantas, e bonsais e me deparei com uma foto antiga, talvez de 2002, tirada pelo meu filho Guilherme onde o nosso cão Carvãozinho aparece com toda sua majestade. Ele foi encontrado abandonado, com poucos dias de vida, numa gelada manhã de junho, e recolhido pela Paula que meu apresentou-o agasalhado sob seu casaco de couro preto. Era só um pequeno focinho e dois olhinhos negros. Impossível não se apaixonar. Mas com o tempo revelou muitíssimas outras qualidades. Só não falava. O resto o Carvãozinho fazia com destreza e capricho. Ficou amigo dos nossos amigos e famoso pela simpatia. Certo dia se apaixonou por uma cadela enorme que vivia zanzando na praia. Muito mais velha do que ele também não resistiu ao seu charme. Nos obrigou a adota-la. A desproporção de tamanho dificultava o acasalamento. Mas o Carvãozinho não desistia, e sempre que um barranco, à beira da lagoa, lhe favorecia, ele aproveitava. A namorada chamava-se Vida. Certa manhã, ela no cio, eles foram passear na praia, e ele foi morto por um outro cachorro da raça e altura da Vida. Um pecado. Carvãozinho morreu de ciúmes da sua paixão. Nove meses depois a Vida pariu duas cadelinhas, Mel e Prim, filhas do assassino. Criamos as duas em memória do Carvãozinho. Hoje estão todos mortos, e não quero mais me apegar a animais. Estou preferindo o amor platônico das plantas.

23.5.20

Vírus do Planeta

O uso só aumentou a 1 mês e o oceano já tem toneladas delas...
O homem é o Vírus do Planeta
 

Crônica (fotográfica)

Outro dia postei uma crônica sobre bonsai. Hoje duas imagens de verdadeiros bonsais humanos:

 Colaboração Marcelo Aranha
Autor desconhecido

22.5.20

Montanha de cobre e Tuia jacaré

2020

Crônica diária

Coisa de avô (mini-crônica)

Estava num estado de completa distração quando um par de pernas veio caminhando em minha direção. Sobre elas uma nádega perfeita e uma barriga exemplar. Dois seios nem grandes nem pequenos, mas no lugar. Um rosto perfeito emoldurado por cabelos esvoaçantes. Subitamente lembrei que sou avô de duas meninas assim. 

21.5.20

Carol Abreu, fazendo e doando máscaras



Carol Abreu, e suas 40 máscaras, sendo lavadas e doadas em Vitória, Espírito Santo. Fique em casa, mas continuem pensando nos outros. A pandemia vai passar, e no momento o mais importante é salvar vidas. O uso das máscaras é uma defesa, mas também um respeito ao outro, sobretudo.

Crônica diária

A arte do bonsai

 Pintura acrílica sobre tela, série Montanhas, e pedra da minha coleção (2005) Cadaques, Espanha.
                                                Montanha com pedra                                  Montanha com árvore
                                                                                                             
                                                      Futuros bonsais com montanha (Jabuticabeira), e Tuia jacaré

A quarentena, por conta do Corona vírus, foi a responsável pelo meu interesse de por em prática essa arte milenar.  
Algumas felizes descobertas explicam como cheguei lá. 
A história mais aceita como verdadeira tem como berço do bonsai a China antes do século VIII. Os chineses já tinham interesse por pedras decorativas- que representavam montanhas- e por manter árvores naturalmente miniaturizadas em vasos. 
A partir do século XIII, a difusão do Zen no Japão ajudou a difundir o gosto pelas miniaturas envasadas, sendo que no final do século XVI se inicia a prática de trabalhar a forma e aspecto das árvores.
 A palavra bonsai traduzida para o português: "plantado numa bandeja". Hoje conhece-se arvores plantadas em vaso com mais de 1000 anos. 
Pedras e montanhas estão ligadas à minha história pessoal há mais de 50 anos. Sou colecionador de pedras há muito tempo, e minhas obras de pintura e escultura (recentes) foram série de "montanhas". Até aí nada tinha a ver com o bonsai. Nada, aparentemente, como venho descobrir nesta leituras recentes, sobre a história do bonsai. 
No meu caso o aspecto espiritual, que costumam atribuir a essa prática, não esta presente. 
É puramente estético. 
As minhas estacas para formação de pré-bonsai continuam sendo cultivadas. 
A compra de uma muda de Jabuticabeira e de uma Tuia jacaré, em vaso de bonsai instintivamente me levaram a fotografa-las ao lado de duas das minhas esculturas. Isso sem contar que várias montanhas há mais de três anos já continham pequenas árvores na sua composição. Pedras e montanhas também faziam parte do meu repertório, como podem ver nas fotos. 
Essas felizes e naturais coincidências me levaram ao bonsai, nesta quarentena, e espero um dia, depois de dez ou quinze anos de aprendizado e cultivo, ter um verdadeiro bonsai para mostrar.

20.5.20

Pintura sobre papel

Essas quatro pinturas fiz há mais de 25 anos atrás. Agora estou plantando essas mesmas flores nos jardins da Piacaba. Aprendendo a controlar a acidez do solo e fazendo hortênsias  azuis, brancas e rosas.

Crônica diária

Fatos inesquecíveis

Não fosse minhas estacas para plantar, e regar todos os dias, minhas madeiras velhas para serrar e fazer com elas bancos e mesas e estantes não sei como teria sido passar mais de 60 dias em quarentena absoluta (meu auto Lookdown) sem sair de casa a não ser para ir ao mercado e farmácia, sem nenhum contato social, sem ir à praia e falando com a família pelo telefone ou Skype. Não lembro de ter passado tanto tempo recluso, em momento nenhum da minha vida, e com absoluta certeza nos últimos 20 anos, nunca passei mais de 25 dias na praia ou em São Paulo. Foi uma experiência nova, e dela tirei proveito, Este é um ano inesquecível para todo mundo, e no mundo todo.
Guardo na memória algumas dessas datas e fatos:
Quarto Centenário da Cidade de São Paulo (1954) Eu tinha 11 anos.
A morte do Getúlio ( Agosto de 1954)
A Revolução de 1964
Quando conheci Londres e a amiga Guaracy Mirgalowska estava lá e me apresentou a sede da Appel, dos Beatles, a Pringle of Scotland (1815) dos suéters, e fomos ao apartamento onde estavam exilados Gil e Caetano.
Meu primeiro casamento. (1969).
O nascimento dos meus filhos, 1973 e  1975
11 de setembro.
2008 quando fui diagnosticado com mielodisplasia.
A prisão do Lula em 7 de abril de 2018
A cobertura da demissão do Sérgio Moro, Ministro da Justiça, abril 2020


19.5.20

VARAL de MASCARAS

E não é carnaval. Mascaras no varal enviadas por Alvaro Abreu.Covid 19 - 2020

Crônica diária

Inventor de moda

Agora virou moda me adjetivarem. Depois do improvavel "imortal" recebo um bilhete, que costumamos trocar, do amigo Alvaro Abreu me chamando de "inventor de moda". Achei graça. Logo ele que é engenheiro de produção, escritor, cronista, publica quinzenalmente no A Gazeta de Vitória, no Espírito Santo, onde mora e cuida da Amora, sua arara amarela e azul, além de fazer colheres de bambu. É o maior colhereiro do Brasil. E eu, pobre de mim, como dizia o Braga, tio do Alvaro, que dizia do Antonio Maria, é que sou inventor de moda?
Quem inventou o casal Carol e Alvaro, para mim, foi a nossa amiga comum Graziela Debbane. Digo inventou porque a forma como nos apresentou foi inusitada. Aliás a Graziela é imprevisível. Não nos víamos fazia algum tempo, me liga que estaria em São Paulo para o parto de uma amiga. Respondo que também estou na cidade e sem nenhum parto a vista. Marcamos um encontro na Livraria da Vila. Chegamos praticamente juntos. Mal sentamos no bistrô no segundo andar tocou o celular e ela atendeu. Fala e desliga.
--Olha só, um casal muito amigo lá de Vitória esta aqui na esquina e convidei para virem, porque quero te apresentar Você vai gostar dele. Faz colheres de bambu.
Foi assim que nos tornamos amigos. 
"Foi das coisas mais importantes que me aconteceram em 2016", escrevi numa crônica intitulada Rita Lee, em 17 de janeiro de 2017, sobre esse nosso encontro.
Ganhei colheres e o adjetivo de "inventor de moda". Logo eu que de música sou analfabeto das duas orelhas, ou "orelha de pau", como diziam antigamente.

18.5.20

Acho linda esta cena

Autor desconhecido

Crônica diária

Rastacueragem 

Rubem Braga escreveu uma crônica publicada no Diário de Notícias recriminando veementemente o uso obrigatório de casaca por ocasião dos 50 anos do Theatro Municipal (como escrevia-se à época). Chamou o ato de "restacueragem". Resultado, os críticos musicais não compareceram pelo simples fato de que nenhum possuia casaca. Esse aniversário foi no dia 14 de julho de 1959, portanto precisamente a 170 depois da queda da Bastilha. De quem terá sido essa ideia de novo-rico? Pergunta Braga em sua crônica, e chama de ridículo encasacamento. Dez anos depois dessa crônica, eu casei de fraque, feito pelo Valério Taddei, meu alfaiate, e seis anos depois nasceu minha filha Sandra no mesmo dia 14 de julho de 1975. O Teatro Municipal (agora sem H) completa este ano 111 anos, e não sei que traje usarão hoje em dia, mas rastacueragem e encasacamento sempre foram padrão da alta classe brasileira. Já em 1959 o Braga advogava que comemorassem o aniversário do Municipal, casa de arte, e não de granfinagem, com concertos gratuitos de boa música para o grande público. 


17.5.20

Organo humanos ou humanos enganos e o Carvãozinho


 Fotos do meu arquivo, tiradas pelo Guilherme, meu filho, trabalhando numa escultura no jardim da Piacaba. Naquele tempo meu fiel companheiro era o Carvãozinho, que aparece nas duas fotos acima. Hoje prefiro as plantas.
Dezoito anos depois, já sem a quarta figura.

Crônica diária

O silêncio das plantas

Já gostei mais de animais do que de plantas. Já tive cachorros, criei cavalos, gado nelore, carneiros,  algumas aves, peixes e até minhoca. Hoje prefiro plantas. Elas dão menos trabalho e não cobram a mesma atenção. São silenciosas. Respondem aos nossos atos (molhar, adubar, podar, transplantar) mas não se manifestam de forma ruidosa ou ostensiva. Nascem, vivem e morrem em absoluto silêncio. Eu ando apreciando esse silêncio e cultivando esse prazer que não cobra atenção e carinho, abanando o rabo ou lambendo as minhas pernas.

16.5.20

Montanha com pedra

Agora só falta um bonsai verdadeiro para completar a paisagem miniturizada

Crônica diária

 Crônica do deck novo

Ando todo faceiro com a conclusão de um deck novo na minha casa de Ibiraquera, SC. O antigo apodreceu depois de 20 anos de uso intensivo. Era de Itaúba, madeira que tratada tem garantia de quinze anos, portanto já estava no lucro. O novo é de Pinus tratado. Maior e planejado para futuras reformas. Depois de todos esses anos conhecia as sombras e ventos do lugar. O canto em que planejei colocar minha cadeira, e mesa ao lado, ficou perfeito. A única coisa não prevista foi o barulho e cheiro de pneu queimado na rampa da rua ao lado. Mas não chega a ser um pesadelo. Há barulhos e odores piores. Com a madeira velha, que espero vender para arquitetos e decoradores, fiz um tampo de mesa novo e um enorme banco que ficaram show. Nas manhãs de sol, e tardes e começo de noite, este novo posto de observação da natureza, e este céu "acachapantemente azul", como escreveu Rubem Braga, não tem preço. Mas tem aracuã voando com a família, e degustando semente de açaí, goiaba madura, e não se importando com o ronco dos motores nem do barulho dos pneus. Para não dizer que não tem um defeito, faltou lugar para prender uma rede. Mas aí já seria um acinte.

Crônica do Alvaro Abreu

Muito chato, chatíssimo
 

Sempre fui um homem caseiro, desses que não têm agonia de ir pra rua todo santo dia. Sei de muita gente que tem uma espécie de coceira quando fica muito tempo sem sair de casa. Saem pelas mais diversas razões e justificativas, plausíveis mas nem sempre verdadeiras. Mamãe era uma delas. Volta e meia telefonava pra dizer que estava com uma vontade danada de dar uma voltinha pra aproveitar a fresca e ver o fim da tarde ou, simplesmente, pra tomar um sorvete. Usava a argumentação de sempre, dizia que estava enjoada de ficar dentro de casa, independente de onde estivesse: na dela mesmo ou na de qualquer um dos filhos. Aqui em Vitória, em Guarapari ou no Rio de Janeiro. 

De alma leve e sempre muito disposta, imagino que ela devia falar coisa parecida pra papai, no começo da vida de casada, lá em Cachoeiro: “Bolivar, meu querido, vamos dar uma voltinha na praça, pra ver o movimento?” Nas férias, em Marataízes, o convite podia ser alguma coisa do tipo: “Ai, Bolo, estou com muita vontade de ver o mar. Deve estar uma beleza! Vamos lá?”

Depois de um infarto, fraco do peito e das pernas, fui obrigado a reduzir o ritmo da vida e a ficar em casa, de repouso, em busca de recuperação. Acabei aprendendo a fazer colheres de bambu e escrevendo muitas páginas sobre o que estava se passando na minha cabeça. Em alguma delas está escrito que eu tinha a certeza de que não estava na hora de morrer. É que naquele início de 1995, estavam começando os governos de Paulo Hartung em Vitória, de Vitor Buaiz no Estado e de Fernando Henrique Cardoso lá em Brasília. Lembro muito bem das boas emoções que sentia vendo aquilo. Cada qual no seu estilo, eles transmitiam confiança, seriedade e a impressão de que governariam pensando grande, para o bem comum. A sensação era a de que os próximos anos seriam um tempo muito bom pra quem estivesse vivinho da silva.

Pois bem, cá estou eu, novamente dentro de casa, também por imposição de cuidados com a saúde, fazendo uma colher após a outra, só que agora sem as boas perspectivas. Ando totalmente desesperançoso com o que vejo. Estou cansado de bravatas diárias e de disse-me-disses chatíssimos, tendo que assistir o toma-lá-dá-cá de sempre. Em plena pandemia, aqui estou eu: sem pai, sem mãe e sem governo pra chamar de meu. 

Vitória, 14 maio de 2020
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

15.5.20

Um Varal em 2012

EPL

Crônica diária

O uso de máscara

Imbituba, cidade de 45 mil habitantes, ao sul do estado de Santa Catarina, tem um porto marítimo e uma população idosa. Tenho casa numa de suas praias, e fui surpreendido pela pandemia do Covid19 em março, sem luva e sem máscara. O prefeito que é médico foi um dos primeiros e mais rigorosos no fechamento do município. Barreiras sanitárias com o controle rígido de quem entrava na cidade. Agentes de saúde do município, devidamente protegidos abordavam carros e motos com termômetro em punho. Decretado o confinamento o transporte coletivo também foi abolido. Só farmácias e mercados foram considerados comércio de primeira necessidade. Eu estava numa loja de produtos agro-pecuniários e assisti a polícia dando ordem de fechar imediatamente o estabelecimento às onze da manhã.
Diante desse quadro, saí a procura de luvas e máscaras.
As farmácias faziam lista com nome e telefone, prometendo ligar assim que chegassem. Nunca me ligaram. 
A busca continuou, uma vez que seu uso tornou-se obrigatório.
Procura daqui, procura dali, e em cidade pequena as notícias correm de boca-em-boca. Fiquei sabendo que a sogra da dona da padaria do centrinho de Ibiraquera estava vendendo máscaras de pano. Fui até lá, comprei uma "feminina" para minha mulher, e encomendei uma preta, para mim. Mascara sob encomenda.
Para quem não lembra ou não sabe o uso de máscaras cirúrgicas começaram a ser usadas em meados do século 20 no Japão, com o objetivo de proteger a saúde contra alergias e propagações de doenças, porém a prática realmente decolou depois do surto de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa) em 2003, seguidas de surtos da Gripe Aviária e Gripe Suína.
O problema é que nesse período, as máscaras ficaram escassas e para atender à grande demanda, foi importada uma grande quantidade de máscaras da China. Com medo de um novo surto dessas doenças, milhões de japoneses passaram a estocar as máscaras em casa e gradualmente foram incorporando esse hábito no dia a dia.
Hoje existem até Museu das Máscaras.
Aqui entre nós, nas grandes cidades, a adesão foi instantânea. Em São Paulo os vendedores de esquina passaram a vender máscaras.
Vamos ver como vamos nos comportar depois da pandemia passar. Será que a máscara veio para ficar? Como no Japão? Ou só será usada no próximo carnaval, com motivos irônicos, ou políticos? 

14.5.20

Bonsais humanos

                                                         Eu ando muito Zen ultimamente

Micro-crônica

Imortal

Andam me chamando, de brincadeira, de imortal. Não pretendo morrer, mas se isso for inevitável, que seja nos braços de uma mulher, e não de uma cadeira.

13.5.20

Aspidistra ontem e hoje


Crônica diária


A escolha



Nos primeiros dias da epidemia do Covid19 havia leitos de UTI para os casos mais graves. A epidemia tomou proporções de pandemia e os sistemas de saúde no mundo todo entraram em colapso. Na China, onde tudo começou, construiram 2000 leitos em duas semanas. Faltaram respiradores e ventiladores mecânicos em todos os países. E foi decretado o isolamento social, através da quarentena, para minimizar o contágio e dar tempo para a saúde publica e privada se aparelharem para um número de casos crescentes. Mas houve um momento, em vários países, em que o médico ou a equipe de enfermagem foram obrigados a fazer a escolha de quem iria para um leito de UTI, e os que iriam morrer por falta de atendimento e equipamentos necessários.
O drama desses profissionais da saúde foi terrível. Treinados para salvar vidas, foram obrigados a fazer escolhas.
A idade do infectado era uma das condicionantes. Salvar os menos idosos uma opção.
Priorizar os que não tinham outras morbidades.
Que missão cruel.
Que situação desesperadora a do infectado com grave infecção pulmonar, com grande dificuldade respiratória, mas consciente e vendo ser preterido no atendimento. Que desespero perceber que foi escolhido para morrer. Morrer longe de casa, da família ou de qualquer argumento que pudesse modificar sua sentença.
Não havendo UTI, não há solução. E o infectado esta condenado à morte. Sem velório, sem enterro, mas simplesmente depositado numa vala comum.
Esse o drama da guerra contra o Covid19.
As únicas armas de defesa são luva, máscara e isolamento social. Não há, por hora, uma arma contra o inimigo.

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