10.3.20

Crônica do Alvaro Abreu

Varandas

Varandas


A chuva de vento sul que caiu nesta segunda feira foi de espantar. Fazia tempo que não via uma tão forte. A luz dos postes acendia os pingos descendo em velocidade, formando fios brilhantes em contraste com o preto do céu. Verdadeira chuva de corda, como diria tio Newton.
varanda da frente estava inteiramente alagada. Fui dormir certo de que acordaria com a casa molhada, sobretudo na sala e no quarto onde sempre desce água pelo ventilador. Goteira é algo que me remete à infância. Varanda também.
varanda da nossa casa em Cachoeiro era um lugar fresquinho e de onde se podia avistar Teresa, metida nos seus patins de rodinhas de aço, fazendo charme.
Na de Marataízes, bem pequena, disputava-se lugar na rede depois da praia. De barriga cheia, deitávamos no cimento vermelho e geladinho para esperar a vez de balançar.
Da varanda da casa que moramos quando chegamos a Vitória, via-se o bonde passando. Nela quebrei o braço esquerdo ao tentar entrar na sala, pela janela.
Na rua Madeira de Freitas, todas as residências tinham varanda. A da nossa era lugar próprio pra ficar conversando. A parede da frente, em forma de arco, criava ambiente reservado, de aconchego. Foi nela que minhas irmãs namoraram para casar.
Confesso que sempre tive inveja dos freqüentadores da varanda da casa branca dos Micheline, que jogaram ao chão para construir um hotel enorme no lugar. Imagino que eles deveriam se sentir no tombadilho de um navio navegando entre as ilhas do Boi e do Frade e de onde se podia avistar as pedras das Andorinhas, a bombordo.
Na casa antiga que alugamos em João Pessoa, diante do mar de Manaíra, a varanda era ponto de encontro de professores e alunos. Bastava sentar na mureta que aparecia alguém pra discutir assuntos da universidade.
Ao construir nossa casa em frente a uma praça projetada, fizemos uma varanda virada pra dentro do terreno, em busca de sossego. Grande e na largura certa para armar muitas redes, ela era coberta com telha colonial. Freqüentador assíduo, eu armava minha rede em posição adequada para melhor aproveitar a fresca, botar sentido na plantação de feijão de corda e acompanhar o trabalho cuidadoso dos marimbondos.
Era bem estreita e comprida a varanda do último apartamento em Brasília, mas oferecia visão panorâmica do Planalto Central. Foi nela que Aurora cresceu e de onde voou pela primeira vez em direção ao gramado da quadra em frente.
Embora ofereça a vista do Convento por cima do muro alto, não gosto da nossa varanda atual. É lugar de passagem, pega o sol da tarde e não dá pra pendurar rede. Depois que ela recebeu a minha bancada de angelim-pedra, virou um ótimo lugar de trabalho. Por necessidade, criamos na lateral da casa um lugar próprio para a conversa correr frouxa, em volta de uma mesa grande.
Defendo que o projeto de uma residência comece pela varanda, que disputa com a cozinha a condição de lugar mais importante na moradia. Não é tarefa trivial conseguir um lugar adequado ao ócio produtivo e ao prazer de viver que considere o movimento do sol, a direção dos ventos, a textura do piso, a cor das paredes, a altura do telhado, a posição das colunas, a paisagem, a relação com os cômodos da casa e com o jardim, sem esquecer o pó de minério enriquecido, naturalmente.

Alvaro Abreu 
Vitória, 03.03.2010
Escrita para A GAZETA


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