31.3.20
Crônica diária
Rubem, o cronista
Como estou quase no 14º dia da quarentena e acabei de ler os livros que se somavam desde dezembro a espera de sua vez, e não tendo como comprar novos, com as livrarias fechadas, e aqui em Santa Catarina, os correios também, não tinha escolha, e elegi como releitura uma caixinha com três livros de crônicas do Rubem Braga. Essa coletânea me fez lembrar o dia que conheci o casal Carol e Alvaro Abreu. Foi na Livraria da Vila da Alameda Lorena. Eles compraram essa caixinha o que me deu o ensejo de fazer uma breve dissertação sobre a importância do Rubem para a crônica brasileira. O que eu não sabia era que o Alvaro é sobrinho do Rubem, escritor como o tio, e além disso o maior "fazedor" de colheres de bambu. Mas voltando ao tio, a primeira crônica do livro sobre Arte e Artistas, escrita em 1953 para a Manchete, era sobre o Oscar, o arquiteto. Não cita o sobrenome nenhuma vez. Faz um rápida biografia ressaltando mais os defeitos, do que as qualidades, e termina condenando a embaixada norte americana por ter negado visto ao biografado, chamando esse ato de "galeguice fundamental da diplomacia americana". Completa dizendo que o Oscar era ..."um dos brasileiros de mais cartaz no mundo". Isso em 1953. "E foi escoteiro, mas ninguém diria."
30.3.20
Crônica diária
"Apenas um olhar" - Harlan Coben
Harlan Coben sempre foi um autor de best-sellers que nunca li. Tenho por
princípio duvidar desses escritores que fazem da literatura uma grande
indústria. Prefiro os autores artesanais. Mas ganhei em dezembro, da
minha secretária, o livro "Apenas um olhar". Veio com o selo de troca
válido por 30 dias. Achei que seria uma desfeita e prometi a ela que
iria ler. Em fevereiro me cobrou se tinha gostado. Disse que o livro
continuava na espera de uma pilha de outros. E segui a ordem de compra.
Com a quarentena, e mais tempo para ler, chegou a vez do Harlan Coben. E
confirmei minha impressão de livro destinado a grandes massas de
leitores e em seguida transformado em filme e série da Netflix. Um
suspense em cada capitulo. Muitas histórias correndo paralelamente. Tudo
dentro das fórmulas de sucesso garantido. Tanto na venda de livros,
como de adaptação para o cinema. Tanto assim que nunca havia lido, mas
já tinha assistido a série: "Não fale com estranhos" que foi baseado no
livro, com o mesmo nome, do Harlan. Há autores que são imbatíveis na
forma de escrever. Outros podem perfeitamente serem adaptados para o
cinema.
29.3.20
Crônica diária
Boletim da Quarentena III
A falta de contato com o mundo exterior faz do cronista um alienado. O mundo é sua casa, e o outro é a casa do vizinho. Mas durante a quarentena até a casa do vizinho fica proibida. Se o tal vírus pode estar na sola do sapato, na maçaneta da porta, ou no botão do elevador, vivo e a espera de um hospedeiro, imagine o perigo de uma visita nesta altura. O único consolo é que são, ou contaminado, todos estamos no mesmo barco, e dele só poderemos sair quando o governo mandar. As redes sociais tem sido, mais do que nunca, o veículo de comunicação entre os quarentenados, e elas, as redes, mais do que os filmes e seriados da TV, me divertem. O brasileiro faz piada de tudo. O humor nessas horas é ainda mais importante. Entre centena de outras escolhi essa ao acaso:
A falta de contato com o mundo exterior faz do cronista um alienado. O mundo é sua casa, e o outro é a casa do vizinho. Mas durante a quarentena até a casa do vizinho fica proibida. Se o tal vírus pode estar na sola do sapato, na maçaneta da porta, ou no botão do elevador, vivo e a espera de um hospedeiro, imagine o perigo de uma visita nesta altura. O único consolo é que são, ou contaminado, todos estamos no mesmo barco, e dele só poderemos sair quando o governo mandar. As redes sociais tem sido, mais do que nunca, o veículo de comunicação entre os quarentenados, e elas, as redes, mais do que os filmes e seriados da TV, me divertem. O brasileiro faz piada de tudo. O humor nessas horas é ainda mais importante. Entre centena de outras escolhi essa ao acaso:
"Depois
de 14 dias de quarentena uma amiga visita a outra. Pergunta pelo marido
e a amiga responde: Esta no jardim. A outra reage: Ué, eu passei por lá
e não o vi! A amiga completa: Você desenterrou?"
28.3.20
Crônica diária
Duas reflexões
1º Toda família deveria ficar incumbida de comunicar aos
provedores das redes sociais a morte de um dos seus usuários. Tenho
amigos que faleceram há anos e continuam fazendo aniversário. E pior,
muita gente os cumprimenta por mais um ano de vida
.
2º O
fato de uma pessoa posar ao lado de outra não avaliza nada. Outro dia
comprei dois livros de uma escritora porque a vi ao lado de um outro
escritor, cujos livros gosto muito. Ele não precisa se sentir culpado.
27.3.20
Crônica diária
"Marrom e Amarelo" - Paulo Scott
Depois da leitura de dois livros da jovem Carina Luft li este do também
gaúcho Paulo Scott (1966). É impressionante o número de jovens
escritores nascidos em Porto Alegre. E o Paulo me surpreendeu exatamente
com o que faltou nos textos da Carina, cujas resenhas postei a alguns
dias atrás. Paulo tem um estilo e forma de escrever absolutamente
seguros tratados com muita competência e originalidade. O assunto
fundamental do livro não me interessa absolutamente, pois trata das
quotas para negros nas universidades. Trata de forma mais ampla do
racismo no Brasil. O autor e eu temos opiniões diferentes sobre o
assunto, mas isso não impediu que a leitura fluisse, exatamente por
conta da forma como escreve.. Dosa o assunto central com histórias de
família, amores, sexo, política e polícia. Esse mix tornou a leitura uma
delícia.
26.3.20
Crônica diária
Bom senso e bonsai
O cronista Alvaro Abreu, que publica na A Gazeta, de Vitória, dia 19
ultimo escreveu uma crônica cujo título era "Bom senso e insensatez".
Paulinha minha mulher e eu resolvemos nesses dias de confinamento
compulsório, por conta do Coronavírus, brincar fazendo mudas para
bonsai. Bom senso e bonsai rimam, e nós rimos da coincidência. Muito do
mito dessa arte japonesa pode ser desmistificado através de vídeos de
produtores dessas miniaturas da natureza. E muitos "segredinhos" podem
ser desvendados. É certo que nosso confinamento deverá durar menos do
que o cultivo de um bonsai, mas esta servindo para aprendermos a
escolher as espécies, poda-las, e prepara-las para daqui um ou dois anos
transforma-las numa árvore frutífera, ou não, com dimensão pequena e
formato de velha.
25.3.20
Crônica diária
Coronavírus, a guerra do silêncio
Esse poderá ser o título de futuros (logo, logo) livros, filmes, e de
séries da Netflix. Uma situação como estamos vivenciando no momento é
absolutamente inédita e ficará marcada na história da humanidade, como
ficaram, em outras ocasiões e proporções, independentes das
consequências, as epidemias anteriores. Um vírus com o grau de
contaminação e rapidez com que atingiu quase todos os continentes, não é
comum. Tanto o vírus como o mundo tem mudado muito rapidamente. De uma
província do interior da China, para o mais obscuro rincão brasileiro,
levou menos de quatro meses para disseminar. Os meios de comunicação, e
facilidade de transporte, são os responsáveis por parte dessa
velocidade. Quando países como os Estado Unidos e Brasil se preparam
para evitar um surto muito abrupto, fechando fronteiras, comercio, e
impondo quarentena, e proibindo aglomerações, para conseguir atender os
infectados, com alto risco, em seus leitos hospitalares, a China que
construiu dois hospitais de 1200 leitos cada, em uma semana, já os
desativou. O pico do surto já passou. Mas o estrago na economia mundial
levará muito mais tempo para se recuperar. Foi um efeito de uma guerra
planetária. Silenciosa. Sem ruído de tiros ou bombas. Sem um inimigo
visível. Uma simples gripe afetou de forma extraordinária a vida
econômica e social do planeta. Um vírus seletivo. Mata os mais idosos. E
deixará para as futuras gerações uma experiência ímpar e muito
importante. Porque é certo de que outros vírus virão.
24.3.20
Crônica diária
Boletim da quarentena II
Durante a quarentena confinado na Piacaba, minha casa em Ibiraquera, Imbituba, Santa Catarina.
Seis casos de coronavírus confirmados na cidade, todos moradores que contraíram o vírus abordo numa excursão.
--Alô Leonardo? Como vai sua quarentena?
--Bem, Eduardo. Dentro de casa e do possível.
--O que esta achando do Ministro da Saúde? Perguntei.
--Revelou-se um Ministro preparado, competente e seu trabalho esta sendo elogiado pela mídia.
--Projetou-se de forma nacional e esta fazendo sombra para o Presidente.
O Leonardo respondeu: Exatamente. E esse é um problema para o Bolsonaro que não admite sombras.
Aí eu disse: Até li no Ricardo Rangel que o Presidente esta "fritando" o Mandetta.
O Leonardo respondeu: Além de atrapalhar no que pode a campanha contra o vírus, que chama de Chinês, à exemplo do seu ídolo Trump, faz tudo que um líder e "timoneiro" deveria evitar. Da mal exemplo.
--É verdade, disse eu. e o povo já voltou a bater panelas.
--Que pena. Nós sabíamos que era um cara despreparado, mas nunca poderíamos supor que chegasse a esse ponto.
-- O Witzel e o Dória continuam fazendo seus papeis de governadores, cada um querendo aparecer melhor na foto de candidatos à presidência, mas hoje meu candidato é o Mandetta.
--Concordo com você. Disse o Leonardo. O meu também.
Completei: O Moro já pode ocupar uma vaga no STF sem nenhum remorso.
E o Leonardo concluiu: Também acho, politicamente o Mandetta da de 10 a zero no Moro.
--Te cuida Leonardo.
--Você também.
Durante a quarentena confinado na Piacaba, minha casa em Ibiraquera, Imbituba, Santa Catarina.
Seis casos de coronavírus confirmados na cidade, todos moradores que contraíram o vírus abordo numa excursão.
--Alô Leonardo? Como vai sua quarentena?
--Bem, Eduardo. Dentro de casa e do possível.
--O que esta achando do Ministro da Saúde? Perguntei.
--Revelou-se um Ministro preparado, competente e seu trabalho esta sendo elogiado pela mídia.
--Projetou-se de forma nacional e esta fazendo sombra para o Presidente.
O Leonardo respondeu: Exatamente. E esse é um problema para o Bolsonaro que não admite sombras.
Aí eu disse: Até li no Ricardo Rangel que o Presidente esta "fritando" o Mandetta.
O Leonardo respondeu: Além de atrapalhar no que pode a campanha contra o vírus, que chama de Chinês, à exemplo do seu ídolo Trump, faz tudo que um líder e "timoneiro" deveria evitar. Da mal exemplo.
--É verdade, disse eu. e o povo já voltou a bater panelas.
--Que pena. Nós sabíamos que era um cara despreparado, mas nunca poderíamos supor que chegasse a esse ponto.
-- O Witzel e o Dória continuam fazendo seus papeis de governadores, cada um querendo aparecer melhor na foto de candidatos à presidência, mas hoje meu candidato é o Mandetta.
--Concordo com você. Disse o Leonardo. O meu também.
Completei: O Moro já pode ocupar uma vaga no STF sem nenhum remorso.
E o Leonardo concluiu: Também acho, politicamente o Mandetta da de 10 a zero no Moro.
--Te cuida Leonardo.
--Você também.
23.3.20
Crônica diária
A minha quarentena
Devo dizer que sou um privilegiado apesar de estar entre os brasileiros
de alto risco. Com 76 anos e com mielodisplasia tenho que evitar a
contaminação a qualquer custo. O fato de morar numa casa ampla, cujos
vizinhos estão a muitos metros de distância e no momento com as praias
interditadas não passam de meia dúzia de pessoas, e por serem,
relativamente, esclarecidos, não se visitam, e se eventualmente se
cruzam na rua ( que esta sendo evitado por todos) cumprimentam-se à
distância. Mas o isolamento é teórico. Na prática alguém tem que ir ao
mercado ou à farmácia, únicos comércios abertos em Santa Catarina por
força de lei. O contato com os carrinhos do mercado, com as maquininhas
do cartão nos caixas ou eventuais esbarrões são suficientes para trazer
para casa o perigoso Coronavírus que usa os humanos contagiados ( com ou
sem sintomas) para propaga-los. Um inimigo realmente perigoso,
invisível, e traiçoeiro. Permanecer no meu jardim não é nenhum
sacrifício, mas não é nenhuma garantia. Poderia ficar anos nessa
quarentena. Tenho livros para ler, outros para escrever. Tenho TV e
computador para assistir três a quatro horas de filmes ou séries
policiais nórdicos, os melhores da Netflix, durante o dia e as noites.
Tenho uma caseira que mora com o filho na minha propriedade.
Modestamente capaz de cozinhar melhor do que qualquer restaurante da
região. No momento estão todos fechados. Não há nada aberto no Estado de
Santa Catarina. Nem a agência do correio, o que me impediu de retirar
um Sedex com meus remédios, despachados de São Paulo. Mas nenhum desses
problemas podem ser comparados aos que com minha idade, ou mais, são
obrigados a dividir cômodos minúsculos, mal ventilados, com cinco ou
mais pessoas nas comunidades das grandes cidades. Usei propositadamente o
eufemismo "comunidade" em lugar de "favelas" em respeito aos
brasileiros da minha geração que não tiveram a mesma sorte minha. E
termino este depoimento saudando o Ministro da Saúde Luiz Henrique
Mandetta pelo magnífico trabalho à frente do Ministério.
22.3.20
Crônica diária
"Verme" - Carina Luft
Não houve da minha parte escolha pois só haviam duas opções: "Fetiche",
seu primeiro romance policial (2010), e este"Verme". A autora nos
quatro anos que separam suas publicações amadureceu o que faltou de
"estilo literário" no livro inicial. Este ainda tem resquícios das
"oficinas literárias" e muita descrição inútil, ainda que o texto flua
melhor. De certa forma é uma continuação das histórias do delegado
Werber e do seu auxiliar Nestor. E o melhor do livro é a confissão do
delegado que o caso narrado no "Fetiche" ficou de certa forma
inconcluso. Confirmou assim o que escrevi em minha resenha. Werber e
Nestor pareciam dois idiotas diante de três suspeitos e prováveis
assassinos. Só um segredo agora revelado neste segundo romance pode
trazer luzes para aquele comportamento. Foi proposital? Ou um remendo?
21.3.20
ALVARO ABREU e seu livro "Cronica do MEU PRIMEIRO INFARTO", de GRAÇA
Lançamento da Edição Digital do
CRÔNICA DO MEU PRIMEIRO INFARTO
Está no ar a campanha de lançamento da edição digital do meu livro CRÔNICA DO MEU PRIMEIRO INFARTO, em comemoração aos 25 anos do evento que mudou muita coisa na minha vida.
Para quem não sabe, foi a partir do infarto que me tornei escritor e comecei a fazer as minhas primeiras colheres de bambu.
Em tempos de quarentena, acredito que o livro possa servir de inspiração para as dificuldades que teremos pela frente, pois relata situações um tanto quanto dramáticas de forma leve e bem humorada.
O livro estará disponível GRATUITAMENTE durante esse fim de semana para quem quiser aproveitar a promoção.
Para adquirir o seu exemplar, clique agora no botão abaixo para ser direcionado para o site da Amazon.
Conto com você para me ajudar a divulgar essa oportunidade para amigos e parentes.
Um forte abraço e boa leitura!
Crônica diária
Batendo panela e chocando caminhão
Foi
comentando uma postagem da Betty Vidigal que contei essas duas
experiências. Ela contou as suas sobre o ato de protesto de bater
panelas. E perguntou quem tinha ou não batido.
Contra
a Dilma e contra o Lula eu bati panela. E dessa atividade
político/sonora tenho uma lembrança meio engraçada. Cansado de bater com
a mão direita fui trocar o cabo da panela de mão e deixei ela cair do
sétimo andar. Por sorte embaixo é um pátio cimentado e vazio. Só fez da
panela redonda uma oval. E outra vez que tive que trocar de mão e me dei
mal foi chocando um caminhão na Avenida Rebouças. Estava segurando a
carroçaria com a mão esquerda e o guidão da bicicleta dom a direita. Fiz
pequenos ensaios, e na hora de fazer a troca de verdade a roda virou e
cai no asfalto. Da queda não sofri nada, mas da brecada do carro que
vinha logo atrás, e dos impropérios do motorista lembro até hoje. Nasci
de novo. Tinha uns quinze, dezesseis anos.
Crônica do Alvaro Abreu
Estava
preparado para reclamar da falta de racionalidade no planejamento e no
gerenciamento das obras que estão sendo feitas na Avenida Vitória, uma
das três artérias que ligam o norte ao sul da ilha. Minha cabeça de
engenheiro de produção não aceita a estratégia, adotada pela Prefeitura,
de interditar uma das pistas de cada sentido da via e só começar a
fazer tudo o que tiver que ser feito depois de esburacá-las de fora a
fora. Imagino que já deve ter comerciante querendo esganar fiscal
municipal, motorista querendo atropelar guardinha de trânsito e que,
satisfeitos com a buraqueira, só mesmo os mosquitos. É bem provável que
já já apareça autoridade culpando o coronavírus pelo atraso das obras.
Pois
é, mas os tempos são de começo de pandemia, com previsões graves e meio
que assustadoras. Isso me faz lembrar que, em momentos de crise, sempre
surgem pessoas que marcam presença positiva e vão ganhando a admiração e
o respeito de quase todos. Pelo que vejo, essa é a condição que vai
assumindo o Ministro da Saúde. Já ficou patente o preparo, a seriedade e
a convicção que ele tem para orientar o enfrentamento da epidemia e,
também, para conviver com a personalidade e o comportamento do seu
chefe.
Como
se sabe, no domingo passado, o presidente ultrapassou limites do bom
senso de modo tão contundente que deve ter deixado muitos de seus
seguidores, sobretudo os da área de saúde, em situação totalmente
desconfortável. Fico imaginando a inveja que ele possa estar sentindo do
sucesso do ministro Mandetta, depois das consequências negativas por
ter saído por aí dando uma de macho popular e doidão do outro lado da
cerca. Torço para que não aconteça mais nenhuma pernada presidencial.
Seria desastroso.
Bem
sei que a crise está somente começando e que os cuidados individuais e
coletivos hão de ser amplos e obrigatórios. Com 72 anos, cardiopata e
ainda convalescente, estou na turma de maior risco. De bom, ganho dengos
da mulher e convictas demonstrações de carinho dos filhos, incluindo
broncas homéricas por telefone e favores providenciais como as compras
de supermercado.
Vitória, 19 de março de 2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
20.3.20
Crônica diária
Aeroporto de Jaguaruna, SC
Desencontros
acontecem, mas alguns são memoráveis. Deste não vamos nos esquecer. Uma
amiga de toda vida veio passar uma semana no Plaza Caldas Imperatriz Resort & Spa Santo Amaro Imperatriz
. Com ela veio um casal de amigos recém chegados do Japão onde fizeram
um tour de banhos com águas medicinais e ficaram encantados. O casal foi
quem escolheu o SPA e providenciou reservas e passagem. Ela só sabia
que desceriam em Florianópolis. Num rápido contato por telefone lembrei
das Termas de Gravatal, que fica ao sul da minha praia, e falei dele
para ela. Como não tinha ideia para onde estava indo concordou, e achei
que era para lá que estavam indo. Convidei-os para chegarem em casa, que
ficava no meio do caminho entre Florianópolis e Gravatal. Chegaram a
noite e foram de taxi. Dois dias depois me ligou encantada com os
milagres das águas e banhos do hotel. Nos convidou para almoçar ou
jantar, pois tinham atividades o dia todo. Agradeci, mas prometi ir dar
um abraço. Paula, minha mulher, e eu pegamos a estrada e seguimos rumo
sul para Gravatal. São 80 Km de casa. No caminho se passa pela bonita e
enorme ponte de Laguna, e depois de Tubarão vem Gravatal. No lobby do
hotel nos informaram que nem Linda, nem Janete e nem o Bruno eram
hospedes. Paula e eu nos entreolhamos, e intuímos o erro que tínhamos
cometido. Liguei para a Linda e depois dela se informar com alguém ao
seu lado confirmou o nome do SPA Santo Amaro Imperatriz. Rimos e
lamentamos o enorme mal entendido. Estávamos a 162 km de distância.
Imperatriz é ao lado de Floripa. Não daria mais tempo para a visita. Foi
quando surgiu a oportunidade de conhecer o pequeno aeroporto de
Jaguaruna, inaugurado em 2 de abril de 2014, a 43 Km de Gravatal. Com
uma ótima e deserta estrada de acesso a partir da BR101, se chega ao
aeroporto que tem uma sala de embarque e desembarque do tamanho de uma
rodoviária de cidade de interior, e um alambrado a céu aberto como
estacionamento para uns 100 carros. Praticamente a lotação de uma
aeronave. Três companhias com um ou dois voos diários, e só. Do
aeroporto em casa levei uma hora. Apesar de 10 Km mais longe do que o
de Floripa, por conta da estrada e transito, gasta-se no mínimo meia
hora a menos. Não há as mordomias do novo e mais bonito aeroporto do
Brasil, como aluguel de carros, restaurantes, supermercado e etc...mas é
uma nova e boa opção.
19.3.20
Crônica diária
Blogosto
Hoje
vou fazer um convite aos meus leitores. Talvez nem todos saibam que
muito antes de escrever crônicas diárias eu criava e alimentava blogs.
Comecei em 2006 e cheguei a ter mais sessenta blogs. Era chamado
"carinhosamente" pelos "amigos" de "Latifundiário dos blogs". Ou tive
que ouvir do blogueiro Fernando Diederichsen Stickel que meus sessenta
"eram todos iguais". O mais velho, hoje com 13 anos, com postagens
diárias e ininterruptas, é o Varal de Ideias. Outros dois ou três ainda
mantenho alimentando-os diária, ou esporadicamente. Quero convida-los a
conhecer o BLOGOSTO, um blog "para quem come para viver, e não vive para comer".
Ele não da receitas e nem ensina ninguém a cozinhar. Para isso chegam
os chefs e seus programas de TV. No meu blog posto fotos de pratos da
minha cozinha da Piacaba, e de restaurantes onde comi. Como também não
sou um "gourmet", a seleção de pratos expostos no blog, servem para dar
ideia das muitas variações que se pode introduzir na cozinha caseira.
Principalmente nestes tempos de Corona-virús, onde não é recomendável
aglomerações, entre elas em restaurantes com ambiente fechado, e com
muita gente. Os bons estão sempre lotados. Para chegar ao blog basta
acessar o site: www.blogsgosto.blogspot.com
Bom apetite.
18.3.20
Crônica diária
Carina Luft - "Fetiche"
Amiga do Eduardo Krause, autor do livro "Brava Serena", que li e gostei
muito, deve escrever bem. Vi os dois numa foto pela internet. Comprei
logo os dois livros dela, disponíveis na Estante Virtual. Sem saber ao
certo se eram os primeiros ou últimos. Comprei pela capa e título:
"Fetiche" por conta do lindo pé de moça em preto e branco. E era, por
acaso, seu primeiro romance policial (2010). Percebi claramente que o
texto, e sua estrutura, eram de uma frequentadora de oficinas
literárias. Não que escrevesse mal, mas faltava personalidade, estilo, e
sobrava descrições inúteis, sonegando ao leitor a melhor coisa da boa
literatura, que é deixar os detalhes por conta da imaginação de quem lê.
Quando a escrita exagera nas minúcias, e detalhes inúteis, o leitor
perde a oportunidade de intuir e participar integralmente do romance.
Fica parecendo história contada pelos pais, para fazer criança dormir.
Nesse seu primeiro romance os suspeitos, ou assassinos, aparecem logo no
início e o leitor fica só acompanhando as dúvidas e incertezas dos dois
policiais encarregados de desvendar o caso. Tudo é tão óbvio que dá a
impressão de que o delegado e o detetive são absolutamente
incompetentes, ou o leitor será surpreendido no final. Isso o leva até a
ultima página, e...se eu contar seria um spoiler.
17.3.20
Crônica diária
Voltando à rotina
Apesar das chuvas de janeiro e fevereiro a obra do meu novo deck
terminou. Madeira tratada tem garantia de 15 anos. O meu deck e escada
de entrada da minha casa estavam com 20. Com cinco anos de lucro fui
obrigado a substituí-lo por um novo e muito maior. A casa ganhou uma
horizontalidade que a topografia do terreno não permitia. O que era bom,
ficou ainda melhor. De volta aos meus hábitos praianos onde acordar com
os escandalosos gritos da família de aracuãs ( macho, fêmea e três
filhotes) às seis da manhã, com o sol, batendo no meu rosto, ao sair de
dentro do mar, no horizonte, confirmando que os terraplanistas estão
equivocados, fazer barba, tomar café, e ler as mensagens na internet,
precedem uma caminhada de meia hora na orla do mar. Daí para a frente o
dia esta reservado à leitura e a escrever. Desta vez trouxe 5 livros. O
ultimo do Ian McEwan, "A barata", que resenharei em breve, e é
seu oitavo livro que leio. Os outros quatro serão lidos pela ordem de
atração da capa. "Fetiche", de Carina Luft, tem um lindo pé de moça na
capa, e provavelmente será o próximo. E se antes do mês acabar, e der
tempo, vou ler "Apenas um olhar" do Harlan Coben, que ganhei no Natal da
minha secretária, que já perguntou duas vezes se eu já tinha lido. E eu
venho prometendo ler.
16.3.20
Crônica diária
Nós e o Coronavírus
Ontem foi domingo 15 de março. O Coronavírus é o mais importante assunto
do momento. Abalou a saúde e as economias do mundo. Cada um reage a ele
de uma forma. Os filhos preocupados com os pais idosos. "Fica aí, não
venha para a cidade". "Não viaje de avião". Em Miami o meu filho disse
que as aulas da minha neta já foram suspensas. Comentou que papel
higiênico e toalha de papel acabaram nos supermercados. A Irene Kantor
me enviou um vídeo de uma portuguesa fazendo piada sobre o consumo
desenfreado de papel higiênico e farinha, em Portugal. Pergunta ela: "o
que vão fazer com tanto papel e farinha? Origami?" De lá o Jorge
Pinheiro informa que desistiram de ir para Moçambique, e vão ficar em
Lisboa e assistir a epidemia lá mesmo. Comentei com a Paula, minha
mulher: "Que gente louca!" Dois minutos depois ela virou para mim: "Toma
seu café, pega a chave do carro e vamos estocar papel higiênico."
15.3.20
Crônica diária
De volta à praia
Depois de uma estada prolongada na cidade de São Paulo volto para a
Piacaba, minha casa na praia de Ibiraquera em Santa Catarina. Fevereiro
além de ser um mês curto, é o fim do verão, e com ele as chuvas. Este
ano, mais que nos anteriores, elas se precipitaram de forma concentrada e
devastadora. O previsto para todo um mês caiu em 24 horas. Espírito
Santo, Minas, Rio e São Paulo foram fortemente castigados. Mas não foram
as chuvas que me prenderam na cidade por tempo mais alongado. Foram
procedimentos cirúrgicos a que fui submetido. Eles se dividem em três
etapas. A cirúrgica, propriamente, durou uma hora. A anterior quase duas
semanas, com espera de aprovação pelo plano de saúde, e dia e hora do
médico e hospital. A terceira, duas semanas para retirar os pontos. Foi,
no entanto, um ótimo pretexto para passar os dias de carnaval longe da
praia. Duas épocas em que os donos de pousadas mais faturam. Fim de ano e
carnaval. Casa de praia dá a seus moradores a sensação de que o mar e a
areia lhes pertence. Não gostamos de intrusos, de turistas e de
barulho. O transito deixa de ser bicicletas, motos e carros de boi, e
passa a ser dos automóveis, ônibus e veranistas com suas pranchas, pouca
roupa, óculos de sol, chapéu e bebida.
14.3.20
Crônica diária
Ian McEwan e sua "A Barata"
O famoso escritor inglês se apropriou de A metamorfose de Kafka e transforma o primeiro ministro da Inglaterra num ser incorporado por uma barata, para poder, com um mínimo de lucidez, entender o debate e aprovação do Brexit. Termina seu pequeno livro com esta frase: "Se a razão não abrir os olhos e prevalecer, então talvez só nos reste o riso".
O famoso escritor inglês se apropriou de A metamorfose de Kafka e transforma o primeiro ministro da Inglaterra num ser incorporado por uma barata, para poder, com um mínimo de lucidez, entender o debate e aprovação do Brexit. Termina seu pequeno livro com esta frase: "Se a razão não abrir os olhos e prevalecer, então talvez só nos reste o riso".
13.3.20
Crônica diária
Não é possível
Agora é o termo "tomara que caia" que vira alvo das feministas contra o machismo e sexismo. Que absurdo. Onde vamos parar?
"A atriz Mariana Ximenes divulga ação, em parceria com a Hering e com a revista Bazaar, para que a moda deixe de usar o termo “tomara que caia” e passe a usar “blusa sem alça”. Dentro dos padrões femininos atuais, a ideia é abolir termos que remetem ao machismo e ao sexismo."
Acontece que a maioria dos "tomara que caia" são de "vestidos" e não de "blusa".
Esse termo foi criado depois que Rita Hayworth, em 1946, no filme Gilda, imortalizou o modelo de cetim preto, que valorizava suas curvas, com um laço lateral acompanhado de luvas. Um dos momentos mais icônicos do cinema é quando a personagem faz striptease apenas das luvas, numa performance sensual, enquanto cantava “Put The Blame on Mame”.
O vestido, criado pelo figurinista Jean Louis, foi inspirado no quadro “Madame X”, de John Singer Sargent, de 1884, que retratou a também americana Virginie Amélie Avegno Gautreau, que vivia em Paris. O quadro causou polêmica, porque o vestido tinha duas alças, mas uma das quais estava caída sobre os braços da modelo. Para o filme, elas sequer apareceram. E o modelo nunca mais saiu de moda. Muito usado em vestidos para a noite e de casamento.
É preciso dar um basta a tanta hipocrisia e pobreza de espírito.
Empregada doméstica agora é secretária do lar.
Criado mudo, é mesa de cabeceira.
Preto é cor, negro é gente.
Aeromoça, agora é comissaria de bordo.
Saia, vai ser chamada de FIQUE.
Só falta inventarem elevador para homens e outro para as mulheres, ao mesmo tempo que estão criando sanitários para gays ou travestis. Hoje no elevador me vi a sós com uma garota que trabalha no prédio, e fiquei preocupado. Como cumprimentei, "bom dia", isso poderia ser considerado assédio sexual. Ela nem respondeu.
Devemos lembrar que em 1884 os maiôs eram do joelho ao pescoço. Criou-se o "tomara que caia". Hoje os biquínis levaram à quase total nudes, nas praias do mundo todo, e à falência as praias de nudistas. Logo agora querem abolir essa deliciosa expressão.
Tomara que caia no esquecimento tamanha sandice.
Agora é o termo "tomara que caia" que vira alvo das feministas contra o machismo e sexismo. Que absurdo. Onde vamos parar?
"A atriz Mariana Ximenes divulga ação, em parceria com a Hering e com a revista Bazaar, para que a moda deixe de usar o termo “tomara que caia” e passe a usar “blusa sem alça”. Dentro dos padrões femininos atuais, a ideia é abolir termos que remetem ao machismo e ao sexismo."
Acontece que a maioria dos "tomara que caia" são de "vestidos" e não de "blusa".
Esse termo foi criado depois que Rita Hayworth, em 1946, no filme Gilda, imortalizou o modelo de cetim preto, que valorizava suas curvas, com um laço lateral acompanhado de luvas. Um dos momentos mais icônicos do cinema é quando a personagem faz striptease apenas das luvas, numa performance sensual, enquanto cantava “Put The Blame on Mame”.
O vestido, criado pelo figurinista Jean Louis, foi inspirado no quadro “Madame X”, de John Singer Sargent, de 1884, que retratou a também americana Virginie Amélie Avegno Gautreau, que vivia em Paris. O quadro causou polêmica, porque o vestido tinha duas alças, mas uma das quais estava caída sobre os braços da modelo. Para o filme, elas sequer apareceram. E o modelo nunca mais saiu de moda. Muito usado em vestidos para a noite e de casamento.
É preciso dar um basta a tanta hipocrisia e pobreza de espírito.
Empregada doméstica agora é secretária do lar.
Criado mudo, é mesa de cabeceira.
Preto é cor, negro é gente.
Aeromoça, agora é comissaria de bordo.
Saia, vai ser chamada de FIQUE.
Só falta inventarem elevador para homens e outro para as mulheres, ao mesmo tempo que estão criando sanitários para gays ou travestis. Hoje no elevador me vi a sós com uma garota que trabalha no prédio, e fiquei preocupado. Como cumprimentei, "bom dia", isso poderia ser considerado assédio sexual. Ela nem respondeu.
Devemos lembrar que em 1884 os maiôs eram do joelho ao pescoço. Criou-se o "tomara que caia". Hoje os biquínis levaram à quase total nudes, nas praias do mundo todo, e à falência as praias de nudistas. Logo agora querem abolir essa deliciosa expressão.
Tomara que caia no esquecimento tamanha sandice.
12.3.20
Crônica diária
Humor, e se for com ironia, ainda melhor
Admiro pessoas bem humoradas. E se tiverem uma pitada de ironia, ainda
melhor. Um exemplo disso é meu velho e muito sumido amigo lisboeta,
Jorge Pinheiro, parceiro de muitos blogs e atividades na área da
blogosfera. Recentemente tem voltado a fazer alguns comentários. Outra
coisa que gosto é de ler comentários sobre as minhas crônicas. Muitas
vezes melhores que as próprias. Sobre a execução do bicheiro Bid,
durante o carnaval, ele escreveu: "Por
esses lados continuam a ter uma forma muito saudável de resolver
problemas." Foram 40 tiros de metralhadora. Antes do Jorge a minha amiga
e leitora de Brasília, Célia Conrado escreveu: "Infelizmente renovação no crime se faz assim com eliminação." E para concluir comentários bem humorados e irônicos destaco o do Walter De Queiroz Guerreiro: "Falta
de profissionalismo, one shot one kill é a norma para o sniper , seals e
todos os especialistas." Finalizando com um fúnebre, transcrevo o do
sisudo Roberto Klotz: "Os tiros não executaram o Carnaval, iniciaram uma marchinha... fúnebre."
11.3.20
Crônica diária
"NOSSAS NOITES"
Esse foi o nome dado ao filme "Our Souls at Night", que na verdade a tradução literal teria sido mais fiel ao enredo: "Nossas almas à noite". Apesar de poder parecer um filme de terror, é só um trabalho magnífico de dois velhos atores. Robert Redfort e Jane Fonda ambos com 82, 83 anos. Não faz 50 anos eram jovens e lindos atores. Hoje são magníficos viúvos na tela, vivendo uma história de solidão, insônia, e últimos suspiros. Uma história improvável, com um desfecho previsível. Filhos e netos, e toda uma história de vida. Remorsos. Culpas. E a opinião dos vizinhos. Com todos esses ingredientes e uma direção segura e suave, o filme na Netflix entrega o que promete. Diversão ligeira.
Esse foi o nome dado ao filme "Our Souls at Night", que na verdade a tradução literal teria sido mais fiel ao enredo: "Nossas almas à noite". Apesar de poder parecer um filme de terror, é só um trabalho magnífico de dois velhos atores. Robert Redfort e Jane Fonda ambos com 82, 83 anos. Não faz 50 anos eram jovens e lindos atores. Hoje são magníficos viúvos na tela, vivendo uma história de solidão, insônia, e últimos suspiros. Uma história improvável, com um desfecho previsível. Filhos e netos, e toda uma história de vida. Remorsos. Culpas. E a opinião dos vizinhos. Com todos esses ingredientes e uma direção segura e suave, o filme na Netflix entrega o que promete. Diversão ligeira.
10.3.20
Crônica diária
Opinião do Javier Mariás sobre as redes sociais
O único livro que li do festejado escritor espanhol Javier Mariás foi "Assim começa o mal" do qual falei em três outras oportunidades. Uma em outubro, e duas em novembro de 2019. Uma delas sobre uma expressão que achei maravilhosa e vou relembrar: "relâmpago de coxas" para quem vê o cruzar de pernas de uma mulher. Gostava disso no tempo de colégio, e continuo gostando depois de velho. Hoje transcrevo uma pequena parte de uma entrevista dada a Ubiratan Brasil, e publicada no Caderno 2 do Estadão, dia 22 de fevereiro de 2020, quando do lançamento do seu novo livro no Brasil, "Berta Isla". O jornalista pergunta sobre o que pensa o escritor sobre a "imoralidade da figura do espião". E mais "se as redes sociais que promovem uma falsa felicidade, não está repleta de espiões?" A resposta foi a mais cruel e violenta crítica às redes sociais que já li. E pior, tive que concordar em grande parte.
"As
redes sociais são uma das invenções mais estúpidas e malignas do nosso
tempo. Não estão cheias de espiões (respeito essa antiquíssima
profissão), mas de fofoqueiros e detratores, indivíduos ressentidos,
ociosos e malignos que, com frequência, procuram prejudicar os outros
para combater sua frustração e sua mediocridade."
Depois
o escritor espanhol se alonga na defesa e reflexão sobre espiões. E o
novo livro com suas 552 páginas eu, com certeza, não vou ler. Superado o
inconveniente do peso desse tijolaço, com a possibilidade da leitura
digital nos Kindles, leves e portáteis, ficar durante um mês inteiro
sobre um mesmo tema e autor, não tenho mais paciência. Estou adorando
livros e autores que entregam um bom produto em 120 páginas, como Ian
McEwan em "A Barata".
Crônica do Alvaro Abreu
Varandas
Varandas
A
chuva de vento sul que caiu nesta segunda feira foi de espantar. Fazia
tempo que não via uma tão forte. A luz dos postes acendia os pingos
descendo em velocidade, formando fios brilhantes em contraste com o
preto do céu. Verdadeira chuva de corda, como diria tio Newton.
A varanda da
frente estava inteiramente alagada. Fui dormir certo de que acordaria
com a casa molhada, sobretudo na sala e no quarto onde sempre desce água
pelo ventilador. Goteira é algo que me remete à infância. Varanda também.
A varanda da
nossa casa em Cachoeiro era um lugar fresquinho e de onde se podia
avistar Teresa, metida nos seus patins de rodinhas de aço, fazendo
charme.
Na
de Marataízes, bem pequena, disputava-se lugar na rede depois da praia.
De barriga cheia, deitávamos no cimento vermelho e geladinho para
esperar a vez de balançar.
Da varanda da
casa que moramos quando chegamos a Vitória, via-se o bonde passando.
Nela quebrei o braço esquerdo ao tentar entrar na sala, pela janela.
Na rua Madeira de Freitas, todas as residências tinham varanda.
A da nossa era lugar próprio pra ficar conversando. A parede da frente,
em forma de arco, criava ambiente reservado, de aconchego. Foi nela que
minhas irmãs namoraram para casar.
Confesso que sempre tive inveja dos freqüentadores da varanda da casa branca dos Micheline,
que jogaram ao chão para construir um hotel enorme no lugar. Imagino
que eles deveriam se sentir no tombadilho de um navio navegando entre as
ilhas do Boi e do Frade e de onde se podia avistar as pedras das
Andorinhas, a bombordo.
Na casa antiga que alugamos em João Pessoa, diante do mar de Manaíra, a varanda era
ponto de encontro de professores e alunos. Bastava sentar na mureta que
aparecia alguém pra discutir assuntos da universidade.
Ao construir nossa casa em frente a uma praça projetada, fizemos uma varanda virada
pra dentro do terreno, em busca de sossego. Grande e na largura certa
para armar muitas redes, ela era coberta com telha colonial.
Freqüentador assíduo, eu armava minha rede em posição adequada para
melhor aproveitar a fresca, botar sentido na plantação de feijão de corda e acompanhar o trabalho cuidadoso dos marimbondos.
Era bem estreita e comprida a varanda do
último apartamento em Brasília, mas oferecia visão panorâmica do
Planalto Central. Foi nela que Aurora cresceu e de onde voou pela
primeira vez em direção ao gramado da quadra em frente.
Embora ofereça a vista do Convento por cima do muro alto, não gosto da nossa varanda atual.
É lugar de passagem, pega o sol da tarde e não dá pra pendurar rede.
Depois que ela recebeu a minha bancada de angelim-pedra, virou um ótimo
lugar de trabalho. Por necessidade, criamos na lateral da casa um lugar
próprio para a conversa correr frouxa, em volta de uma mesa grande.
Defendo que o projeto de uma residência comece pela varanda,
que disputa com a cozinha a condição de lugar mais importante na
moradia. Não é tarefa trivial conseguir um lugar adequado ao ócio
produtivo e ao prazer de viver que considere o movimento do sol, a
direção dos ventos, a textura do piso, a cor das paredes, a altura do
telhado, a posição das colunas, a paisagem, a relação com os cômodos da
casa e com o jardim, sem esquecer o pó de minério enriquecido, naturalmente.
Alvaro Abreu
Vitória, 03.03.2010
Escrita para A GAZETA
9.3.20
Crônica diária
Conversa de varanda
A poetiza Flora Figueiredo escreveu um Prefácio, a que chamamos de
"Abre-alas", e não foi só porque aconteceu no carnaval passado. Porque
ela, e eu, amamos as palavras, no inverno ou verão. Entre outras belezas
que escreveu, comparou minhas crônicas às conversas de varanda. Daí
para frente comecei a prestar atenção nos comentários que se sucediam ao
meu texto e percebi essa característica. Uma prosa despretensiosa,
amena, amigável, que num tempo não tão distante se dizia que era para
boi dormir, ou papo para jogar fora. Papo ou conversa de varanda. As
novas gerações nem conheceram as varandas, muito menos o que nelas
rolavam. Conversa sentada em rede, ou poltronas de palhinha, ao lado de
uma jarra de suco de tamarindo, ou fruta da época, no fim de tarde com a
luz do sol poente. Sem compromisso de temas, de ideologias, de tempo ou
paixões. Até de futebol ou política podia-se falar, mas respeitava-se
as opiniões alheias. A varanda é um lugar aberto, ventilado, onde as
ideias e os beija-flores transitam livremente. Era o lugar da casa,
quando quase todas tinham uma, e onde mais se ficava na hora da
conversa, da leitura, do chá da tarde, depois do banho a noite, e do
almoço de domingo. A arquitetura e a vida urbana aboliram as varandas.
Os prédios tem no máximo alpendres. A conversa foi para a sala, e ficou
mais sisuda, circunstancial, em muitos casos mal humorada. Mas não foi
só a falta da varanda quem encurtou a conversa. Ironicamente um
instrumento feito, originalmente para a comunicação oral, acabou
inibindo-a presencialmente. Foi o celular, o iPhone.
8.3.20
Crônica diária
Dona Rosa continua viva
Dona Rosa foi uma cartomante, e personagem, que criei num conto que se
passava em Brasília. A primeira postagem foi em 9 de junho de 2017. Seis
meses depois fui procurado por uma leitora que designei como JS na
crônica de 30 de dezembro de 2018, onde ela me pedia o endereço da
vidente. Foi com grande constrangimento que comuniquei à prezada leitora
a morte da Dona Rosa. A ocasião propiciou comentários sobre o direito
de criar e matar personagens que um autor literário tem. Oito meses
depois (18 de agosto de 2019) o meu amigo Leonardo comunica me a morte
do Afonsinho, e voltamos a falar da cartomante de Brasília. Em 11 de
janeiro de 2019 Roberto Klotz comentou, e eu transcrevi numa crônica,
que foi por conta da Dona Rosa que nos conhecemos e ficamos amigos. No
dia 4 deste mês de março de 2020 volto a receber uma carta, agora da
leitora de Brasília, Vanessa De Gasperin Madeira, que entre outros
adjetivos me chamou de SUI GENERIS, assim tudo em maiúscula. Também
queria saber se Dona Rosa ainda estava viva, e se eu tinha seu endereço.
Mais uma vez fui obrigado a dar a triste notícia da morte da
cartomante, seis meses depois da publicação do conto. Dona Rosa, assim
como Elvis Presley, vive.
7.3.20
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )

















