18.2.20

Crônica diária


                                                          Betty Vidigal e Claudino Nóbrega

Ontem contei sobre o comentário do Claudino Nóbrega que pediu para achar, e envia-lo, um texto que ele chamou de "genial". Havia sido postada em  15 de fevereiro de 2014 no FB e em dois dos meus blogs. Publicada no livro "Dance comigo" nas páginas 229 e 230 como a crônica 178.  Como achar uma crônica sem lembrar o título? "Muito fácil", respondeu a minha amiga Betty Vidigal. E na segunda tentativa acertou em cheio. Assim não foi preciso tentar falsificar ou auto-plagiar meu texto. Para quem não leu há seis anos, republico, sem antes agradecer a memória e carinho com que o Claudino vem me prestigiando. 

No templo da carne

Após quinze dias em São Paulo e três semanas num regime alimentar (de fome completa) meu estado irritadiço chegou ao ponto máximo. Não foi a primeira nem a segunda vez que fui a esse açougue. Um verdadeiro templo da carne. ( E não me refiro a prostíbulo). Os clientes ficam pacientemente num silêncio bovino a espera de serem atendidos. Não há senhas e portanto fica-se à mercê da educação e critérios de terceiros. Não raro umas senhorinhas chegam depois e são atendidas primeiro. Os açougueiros trabalham de costas para o balcão. Ninguém se atreve a interromper o delicado trabalho de corte, limpeza e embalagem das carnes. Somos atendidos quando eles podem e querem. Para evitar esse desagradável ritual a minha mulher solicita por telefone, o Clóvis anota o pedido e marca hora para a retirada. Nesse caso a hora agendada foi doze horas. Cheguei uma hora atrasado. Fui direto ao caixa e perguntei pelo pedido da Paula. A moça que me atendeu estava, ou era, ligeiramente antipática. Fez pouco caso na falta do pedido, e só se movimentou quando o tom da minha irritação subiu. Aí me chamou de "ignorante". " O que? Você esta aí para procurar e achar os pedidos". E ela foi para dentro atendendo meu conselho. Volta sem nada encontrar. Então eu disse que perguntasse ao Clóvis. Não precisou ela ir até ele. O açougueiro de idade indefinida entre 70 anos em mau estado, ou 80 muito conservado, com óculos redondo de aro de aço, com dois olhos saltando das pálpebras, apareceu com um saco nas mãos. Muito exaltado perguntou diretamente a mim o que se passava. Antes que eu pudesse responder, emendou uma descompostura dizendo que o horário marcado por ele foi ao meio dia, e que quinze minutos antes a carne estava pronta e embalada. Me desculpei pelo atraso, mas ele já estava de costas e nem deve ter ouvido. Voltou ao seu trabalho falando alto. Há lugares que se acham melhores que seus fregueses. Tratam seus clientes com se estivessem fazendo um grande favor. E parece que a técnica funciona. O templo da carne vive cheio. Não contará mais com minha presença. Aliás já estava na hora de voltar para a Piacaba.

Um comentário:

João Menéres disse...

Agora, relendo, estou bem lembrado !
Estupenda crónica : as vicissitudes de uma grande cidade...

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