31.8.19
Crônica diária
Inteligência artificial
Tenho lido muito sobre a inteligência artificial. Ruy Castro fez uma divertida crônica sobre o programa chamado Charisma que pretende acabar com o bloqueio criativo dos ficcionistas. O programa recebe as informações do que já foi criado no texto, e propõe mais de uma alternativa para sua conclusão. Vai ser o paraíso dos romancistas. Programas similares já foram postos em prática mas com resultados desastrosos. Foi concebido para o idioma inglês. Aplicado por um jornal carioca deu merda. O computador não lia acentos, e quando a palavra tinha algum, ele pulava a letra e ócio virou cio. A notícia era de que "as mulheres da sociedade carioca estavam no cio em Teresópolis". O Charisma é muito mais confiável e sofisticado, embora tenha sido criado em inglês. Não por acaso o assunto da inteligência artificial também é o tema do livro que acabo de comprar. Ian McEwan cria um romance onde um robot passa a dividir a vida com um casal. O tema promete. E o assunto da inteligência artificial esta só começando.
30.8.19
Crônica diária
Cafona é sempre o outro
Eu
não fui leitor da Fernanda Young. Exatamente no dia do seu enterro,
morte que lamentei pela precocidade (49 anos), o jornal O Globo publicou
seu ultimo texto. "Bando de cafonas". Nunca fui seu leitor porque sua
imagem na TV não me agradava. Em seu obituário os dois adjetivos que
mais foram usados: "ácida e provocativa" talvez definam as razões que me
levaram a não leva-la a sério. Ora loira, ora morena, corpo
inteiramente tatuado, desbocada, e mulher de pouco humor, ao contrário
de uma Rita Lee, por exemplo. Mas do seu ultimo texto destaco algumas
pérolas:
"Dos
cafonas. Do império da cafonice que nos
domina. ... do mau gosto existencial. ...Do que há de
cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na
ignorância por opção....O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro
e sem compostura. Acha
que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética
que caiba a ele.... Gentileza, educação,
delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.
...É rude na língua...A cafonice detesta a arte...Porque só o bom gosto
pode salvar este país."
Outros
adjetivos e definições de cafonas, no texto da Fernanda, estão
contaminados com ideias de esquerda, que acham que cafonas são os
outros. Então digo eu: cafona sé sempre o outro.
29.8.19
Crônica diária
Silvana Tinelli e a gastronomia italiana
Falar
da minha amiga Silvana sem parecer nota do Glamurama, ou da Sonia Racy,
ou ainda do Amaury Jr levou-me a pensar duas vezes. Sou amigo dela há
muito tempo. Desde os banhos de piscina na casa da Linda, no Guarujá,
até meus contatos como cliente do seu marido e dono do frigorífico em
Andradina, SP. Foi lá que mataram 1000 bois magros, desapropriados com
helicóptero da polícia e exercito, nos pastos da minha fazenda Bela
Vista, SP, no governo militar do Médici. Levei mais de dez anos para
receber a desapropriação criminosa. Impossível dissociar as duas coisas.
Mas a Silvana, em maio deste ano, lançou um livro com 12 fascículos
representando cidades ou regiões italianas com suas receitas culinárias
locais. Silvana nasceu no Egito, mas toda sua vida é ligada ao Brasil e
Itália onde morou com seu marido Attilio Tinelli. Mulher a frente de
seu tempo, sempre trabalhou sem necessidade de faze-lo. Socialite,
Fotógrafa, Publicitária, ceramista, e dona de uma Galeria de Arte, agora
autora de um livro ricamente ilustrado com fotos suas, de sua família e
de amigos na Itália, ou de pratos que costuma preparar para almoços e
jantares em sua casa. Genova, Capri, Napoli, Toscana, Cortina, Roma,
Sicília, Veneza, Puglia, Milão, Parma e Bolonha são catalogados pelos
principais ingredientes, massas, legumes, e carnes de cada região. Há
receitas detalhadas de como prepara-los. O livro tem nas capas do "box",
que protege os 12 fascículos, a foto da autora aqui reproduzida. Em seu
interior, a Silvana por inteiro. Ela, suas amigas, filho e netos. Espero
tenha feito uma breve resenha do livro, e não mais uma nota social.
28.8.19
Crônica diária
Como peixe, Bolsonaro morrerá pela boca
Vocês lembram de algum presidente que falasse tanto como o Bolsonaro? É
provável que em seus 20 anos de baixo clero, quase mudo, não fossem as
baixarias verbais contra seus pares, nunca teríamos ouvido a voz, ou uma
notícia do deputado. Eleito presidente passou a falar pelos cotovelos.
Ele e seus filhos. Os generais do palácio aconselharam o capitão a
afastar principalmente o Carlos. Depois passaram a tutelar as
entrevistas do presidente. Não foi suficiente. Continuava a falar e
colocar em saia justa generais calados e sisudos. Foi quando inventaram
um porta-voz. Todos os dias o general, incumbido, falava em nome do
presidente. Aí a coisa ficou duplicada. Além do briefing do porta-voz, o
presidente continuou falando, e algumas vezes desmentindo a fala do seu
porta-voz. Resolveram sair de cena os sisudos generais, e o comportado
porta-voz. Mas o presidente intensificou suas falas. Todas as manhãs,
ao sair de casa, da uma coletiva. Esbraveja quando algum jornalista dá
um "quebra queixo". E produz logo pela manhã uma nova crise. Frita seu
ministro da Justiça, defende seu filho para o posto de Embaixador em
Washington, interfere nos segundo e terceiros escalões dos seus
ministérios, na PF, e tudo por conta de sua família, que esta acima de
tudo e de todos. Confunde seu lema de campanha, o Brasil acima de tudo e
Deus acima de todos. Demonstra não conhecer o significado de nepotismo,
e instala um escritório para gerenciar crises no Palácio. Crises
produzidas em sua grande maioria por ele mesmo. Nega com absoluta
convicção novos impostos, como a CPMF, por exemplo, mas em seguida
admite estuda-la com o Paulo Guedes. Nenhum presidente da república, que
eu me recorde, falou tanto, o tempo todo, com a imprensa, quanto ele,
que a abomina.
27.8.19
Crônica diária
Fernanda Young e os precatórios
Uma escritora de 49 anos não
tem idade para morrer de asma. A não ser que estivéssemos nos séculos
XVII ou XVIII. Mas aí a moça não teria o corpo todo tatuado, da palma
das mãos aos pés. Nem seria qualificada de "ácida e provocativa".
Naqueles tempos a mulher não gozava da liberdade dos tempos que Fernanda
Young viveu. Apesar disso foi "ácida e provocativa". Não foi a toa que
processou um idiota que a chamou de "vadia". Ganhou a ação na justiça,
mas teve a indenização reduzida porque o juiz entendeu que sua
"reputação era elástica". Mas é sempre triste e lamentável a morte
prematura. Foi enterrada na segunda feira, mesmo dia em que publicou em
sua coluna, no O Globo, seu ultimo texto:
"Bando de cafonas".
Mas as manchetes do dia não foram sobre a morte da escritora. Foram sobre o adiamento dos precatórios dos estados e municípios por mais alguns anos. Exigência dos governadores para aderirem a Reforma da Previdência. Resumindo, os governantes sempre acham um jeito de colocar a conta na mesa do contribuinte ou do seu credor. É sabido que quem tem valores a receber do estado, principalmente os tais precatórios, acaba morrendo sem tocar no dinheiro. E com mais do dobro da idade da Fernanda.
"Bando de cafonas".
Mas as manchetes do dia não foram sobre a morte da escritora. Foram sobre o adiamento dos precatórios dos estados e municípios por mais alguns anos. Exigência dos governadores para aderirem a Reforma da Previdência. Resumindo, os governantes sempre acham um jeito de colocar a conta na mesa do contribuinte ou do seu credor. É sabido que quem tem valores a receber do estado, principalmente os tais precatórios, acaba morrendo sem tocar no dinheiro. E com mais do dobro da idade da Fernanda.
26.8.19
Crônica diária
Onde há fumaça, há fogo
Os jornais de sábado para cá estão amarelo-avermelhado com largas
imagens coloridas de queimadas e fumaça amazônica. Muita imagem de 2008,
outras de dois anos atrás, postadas nas redes sociais por governantes
franceses, alemães, e personalidades do mundo artístico e cultural de
todo o planeta. O Ricardo Salles, Ministro do Meio Ambiente, e o
Bolsonaro são o foco de todas as manifestações globais. Manifestos em
frente embaixadas brasileiras pelo mundo a fora reclamam providências do
governo brasileiro. Os eleitores primordiais do presidente da República
já estão insatisfeitos com o resultado nefasto para o comercio de seus
produtos, em razão do boicote europeu para com países poluidores, ou que
agridem a Amazônia, que acreditam deva ser, perenemente preservada,
como pulmão do mundo. O Bolsonaro é um criador de crises diárias. Ele
não necessita de oposição ao seu governo. Atento em defender sua
família, acima de todos e de tudo, dispara contra seu Ministro da
Justiça, que recebe sua fritura, que já anunciei há dias, calado como um
bom menino. Dispara contra a PF, contra o candidato Argentino, na
frente das pesquisas, contra a primeira ministra alemã, contra o
Presidente da França, tudo ao mesmo tempo. Nem Jânio, nem Collor
conseguiram ser tão polêmicos em tão curto período de mandato. E quem
conhece um pouco de nossa história recente, sabe como terminaram. Uma
coisa é certa, onde há fumaça há fogo. Combustão por falta de chuva e
secas prolongadas. Fogo posto em áreas derrubadas, clandestinas ou
legais. O Brasil é um dos países que tem leis ambientais mais severas e
restritivas do planeta. O agronegócio é o responsável pela maior receita
do país. Seus produtos muito competitivos no mundo todo. Elegeram um
presidente para fortalecer seus negócios, muito prejudicados por
ambientalistas xiitas. Mas acontece que o tiro parece estar saindo pela
culatra. O maior prejudicado numa campanha difamatória contra o Brasil,
no âmbito ambiental será o agronegócio e a balança comercial brasileira,
tão duramente conquistada.
25.8.19
Crônica diária
Jo Nesbo - Macbeth
É mais do que o nome do escritor norueguês, que vive em Oslo. Músico e
economista é um dos maiores autores aclamados e bem-sucedidos de toda
Europa. Seu nome virou marca de um produto que nas vitrines das
livrarias é venda e sucesso garantido. Neste livro lançado este ano pela
Record, onde já publicou mais 14 outros, Macbeth entrega o que
prometeu. Prende o leitor da primeira a ultima página das suas 515. A
fórmula usada por Nesbo esse, e nos outros romances policiais é o ritmo
de metralhadoras giratórias. Seus personagens transitam pela história
tentando matar e não morrer. E não há economia de mortes e de tentativas
de sobrevivência que não prenda o leitor pela forma como a narrativa
se desenvolve.
24.8.19
Crônica diária
As queimadas da Amazonia
Meu amigo holandês Vincent Michels escreve de Amsterdã perguntando se
tudo que lê e ouve sobre a Amazônia, na gestão Bolsonaro, é verdade.
Minha resposta "in box" à sua pergunta não o satisfez. Me enviou cópia
de correspondência de um amigo seu, cujo filho mora em Belém do Pará, e
que narra que o ar da cidade esta de tal forma contaminado pela fumaça
das queimadas que esta difícil respirar. Contra fatos não há argumentos.
Realmente as fotos dos satélites, são imagens indiscutíveis. Por outro
lado toda moeda tem duas faces. É indiscutível também, mesmo porque o
próprio Vincente usou em sua argumentação, que as florestas precisam
ser preservadas e a melhor forma de faze-lo é criando reservas indígenas
e parques florestais. Uma visão da esquerda e europeia. Não é segredo
para ninguém que o Bolsonaro tinha em sua base de campanha exatamente
teses contrárias. Acabar com a esquerda brasileira e dar todo apoio ao
produtor rural. Uma das primeiras medidas após eleito foi cortar as
verbas destinadas às ONGS e fazer uma auditoria nelas. É sabido que a
esquerda (mas não só ela) usa as ONGS para fins escusos. O dinheiro da
Noruega e Alemanha entrou nesse pacote. Os madeireiros clandestinos e
posseiros se sentiram animados com a nova postura do governo e
intensificaram suas ações deletéria e predadora. Somado à falta de
recursos para os órgãos ambientais intensificarem a fiscalização a
fumaça apareceu de modo extraordinário. Portanto é verdade que houve um
aumento de desmatamento e focos de queimada, como é verdade que a
esquerda esta colaborando com o incêndio e fumaça verbal. Toda mudança
de rumo de políticas públicas causam transtornos. As queimadas na
Amazônia é uma delas. Há na verdade muita terra para pouco índio. O
interesse protecionista europeu esta muito a baixo das raízes da
floresta.
Crônica do Alvaro Abreu
Saudosismo na veia
Newton
Braga inventou a Festa de Cachoeiro há uns 80 anos para celebrar
reencontros. Naquele tempo, quem tinha condições ia estudar no Rio e
vinha passar as férias em casa. Como o dia de São Pedro, padroeiro da
cidade, é 29 de junho, bem na boca das férias escolares, ele resolveu
aproveitar a data e marcar a festa. Deu certo. Dá gosto de ver meus
conterrâneos se abraçando, rindo e falando alto quando se encontram lá
na terrinha.
Pois
então. Amanhã acontecerá a sexta edição do Encontro dos Amigos da Praia
do Canto, lá na curva da Jurema. É um movimento idealizado por Marisa
Guimarães, minha colega de piscina, para reunir em lugar aberto, perto
do mar, pessoas das mais diferentes turmas e patotas de antigamente. Não
sei como a ideia vingou, mas deve ter sido por conta do saudosismo
fundamentado que acomete muita gente madura como eu, que passou a sua
juventude na Praia do Canto e, também, na Praia de Santa Helena e na
Praia Comprida, que saiu do mapa.
Sem
exageros, esse pedaço da ilha de Vitória era lugar próprio para criar
amizades e encontrar amores, andar de bonde e de bicicleta sem freio,
subir morro para ver o mundo do alto, pegar lagosta miúda, pescar
carapau valente, remar mar adentro, velejar por curtição e em regatas
oficiais, jogar pelada e vôlei na rua e frescobol nas areias da praia do
Barracão, nadar contra o relógio no Praia Tênis Club, pegar onda em
Camburí, não perde festa de debutante, esperar a vez na fila do galeto
no Iate Club, ouvir músicas inspiradoras, namorar muito, dançar
apertadinho e voltar pra casa a pé, sem medo.
É
bom saber que será lançado um livro com histórias e relatos escritos
por pessoas que tiveram o privilégio de morar naqueles bairros tão
especiais, então livres de prédios enormes e trânsito pesado. Quero crer
que a vida mansa, alegre e cordial que vivemos ali tenha sido
idealizada pelo sanitarista Saturnino de Brito ao projetar, lá pelos
idos de 1890, o chamado Novo Arrabalde, com ruas largas e traçado que
valorizava as enormes formações rochosas existentes. Quem viveu, viveu.
Vitória, 21 de agosto de 2019
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
23.8.19
Crônica diária
Desalento
Uma das tarefas do cronista é manter seus leitores com ânimo, esperança,
e quando possível algum humor. Nos dias gelados do inverno, as noites
escuras e dias chuvosos não favorecem aquecer ânimos desidratados, mas
de nada adianta lamentar. Riscar um fósforo e fazer um monte de palha
seca pegar fogo, e brasa, numa fogueirinha, aquece as mãos, o corpo, e
as luz amarela das chamas, a alma. As palavras do cronista tem essa
função. Geralmente falamos dos problemas universais, dos desajustes
internacionais, das mazelas do pais, e nos esquecemos que o homem vivi
de seu estômago, e coração. Essa a razão do sucesso das palavras de auto
ajuda. Das religiões e das drogas. E quando o leitor encontra-se em
situações extremas, não há humor que possa servir de alento.
Solidariedade é uma ferramenta importante nas horas do apuro. Mas nem
sempre estamos atentos e abertos para essa postura. Lamentavelmente. Por
isto admiro a pureza da criança, que em sua santa inocência não sofre o
que o adulto, desanimado, desesperançado, e mal humorado preveem para o
futuro.
22.8.19
Crônica diária
Luiz Alfredo Garcia-Rosa (1936)
Consagrado escritor carioca acaba de nos brindar com novo romance
policial do seu esperto e humano delegado Espinosa, personagem central
de quase todos seus livros. "A última mulher" publicado em julho
de 2019, com 117 páginas, tipos grandes, espaço entre linhas generoso.
Quatro horas de intensa e divertida leitura. Cada dia gosto mais de
leituras assim. Boa qualidade literária, curta e que prenda o leitor do
começo ao fim, sem detalhes ou descrições dispensáveis. O que chamo de
"romance clean". Garcia-Rosa tem essas qualidades. Prosa simples,
direta, sem peripécias literárias, personagens incomuns, com histórias
relativamente banais com grande quantidade de suspense e final
imprevisível. Mais um livro que recomendo para quatro horas agradáveis.
Você não vai conseguir larga-lo.
21.8.19
Crônica diária
Nada de desânimo
Dias atrás fiz uma crônica com um retrato 3X4 do país. Ninguém discordou
do diagnóstico. Mas muita gente usou as expressões: "desânimo",
"infelizmente", "unfortunatelly", "desgraçadamente", "quadro dramático de nossa sociedade hipócrita",
e por aí a fora. Nada disso. Triste são as situações sem diagnóstico. O
Brasil tem seus males conhecidos por todos. Só nos resta ataca-los.
Começando pela educação, pai e mãe de todos os outros problemas. A China
deu o salto qualitativo com educação em massa. Com ela os outros males
serão debelados. Saúde, segurança, e corrupção. O Pelé foi massacrado
quando dentro de sua sinceridade ingênua declarou que o brasileiro não
sabia votar. E estava repleto de razão. Mas os políticos e os governos
não tinham interesse em dar escolaridade a seus eleitores de cabresto.
Sempre foram voltados para seus propósitos ideológicos e corruptos, onde
uma população ignara faz parte periférica do projeto. O atual governo
depois das reformas em curso deveria voltar os olhos para educação e
saúde. A segurança vem como consequência. A economia voltando a
florescer, por conta das reformas, em vinte anos teremos outra geração
de brasileiros. E voltaremos a ter esperança. O diagnóstico esta feito. O
remédio recomendado. Agora é mãos a obra. Vamos construir escolas ao
invés de presídios. Escolas e hospitais. Vamos cortar para um terço o
salário e o número de vereadores, deputados e senadores. Vamos triplicar
a remuneração dos professores. Foco no ensino básico e intermediário.
Menos filosofia e mais medicina e engenharia. Menos universitários e
mais eletricistas, encanadores, e mecânicos. Mais gente voltando para o
campo, onde os governos devem priorizar a segurança, saúde e educação. E
o Brasil voltará a ser o que minha geração esperava que fosse. E não
foi.
20.8.19
Crônica diária
Revista Piauí - 155 - Agosto
Ontem escrevi que não havia mais revista semanal que merecesse leitura. Ressalvei o suplemento do Valor Econômico de sexta-feira, como uma excelente exceção. Hoje vou lhes falar da revista mensal Piauí. O número 155 (mais de 12 anos) de agosto de 2019 com capa do Caio Borges que se apropriou da famosa tela "Os embaixadores" 1533 - Hans Holbein, e nela colocou uma chapeira com hamburguês, e boné com as cores dos Estados Unidos na cabeça de um deles, numa divertida referência ao filho 03 do presidente. Além da capa, a revista esta repleta de ótimas matérias e artigos. Me lembrou a revista Senhor dos bons tempos. Comentarei só "O infortúnio do João Gostoso" assinado por Armando Antenore, editor da Piauí. O artigo trata de uma longa e curiosa pesquisa sobre o poema de Manoel Bandeira, baseada numa notícia de jornal. Poema publicado pela primeira vez no vespertino A Noite, em 31 de dezembro de 1925. Cinco anos depois incluiu na primeira edição do livro "Libertinagem" com sutis modificações. "João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número/ Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/Bebeu/Cantou/Dançou/Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado."
Ontem escrevi que não havia mais revista semanal que merecesse leitura. Ressalvei o suplemento do Valor Econômico de sexta-feira, como uma excelente exceção. Hoje vou lhes falar da revista mensal Piauí. O número 155 (mais de 12 anos) de agosto de 2019 com capa do Caio Borges que se apropriou da famosa tela "Os embaixadores" 1533 - Hans Holbein, e nela colocou uma chapeira com hamburguês, e boné com as cores dos Estados Unidos na cabeça de um deles, numa divertida referência ao filho 03 do presidente. Além da capa, a revista esta repleta de ótimas matérias e artigos. Me lembrou a revista Senhor dos bons tempos. Comentarei só "O infortúnio do João Gostoso" assinado por Armando Antenore, editor da Piauí. O artigo trata de uma longa e curiosa pesquisa sobre o poema de Manoel Bandeira, baseada numa notícia de jornal. Poema publicado pela primeira vez no vespertino A Noite, em 31 de dezembro de 1925. Cinco anos depois incluiu na primeira edição do livro "Libertinagem" com sutis modificações. "João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número/ Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/Bebeu/Cantou/Dançou/Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado."
Esse
poema com 38 palavras e cinco versos tornou-se um marco do modernismo
brasileiro. Em junho passado o editor Claudio Soares fez uma descoberta
preciosa. Bandeira se inspirou na notícia da morte do João Gostoso, como
conhecia um fato anterior (1916) quando João foi notícia, pela primeira
vez, no A Noite, por ter agredido com uma pedra, por ciúmes, sua amásia
Rosa Maria da Conceição.
19.8.19
Crônica diária
EU & FIM de SEMANA - Valor Econômico
Mario de Andrade , Ian MacEwan e Oswald de Andrade
Foi
meu velho amigo Germano Ferh (o pai) quem me chamou atenção para esse
suplemento publicado às sextas-feiras pelo jornal Valor Econômico. Como
nunca leio esse jornal não sabia de sua existência. Sexta dia 9 passado
li um quase de cabo a rabo. Muito bom. As revistas semanais estão um
lixo. O Roberto Civita deve estar se revirando no túmulo. A Veja esta
imprestável. As outras nem se diga. Mas EU & Destaques trás matéria
sobre o Eduardo Constantini, idealizador do MALBA - maior museu de arte
sul americana das Américas, e dono do nosso Abaporu, da festejada
Tarsila do Amaral. Perguntado se venderia a obra da artista modernista
brasileira, respondeu que por valor nenhum. Na matéria de capa André
Lara Resende fala sobre: "Equivoco dos juros". Fernando Abrucio escreve
sobre o governo Bolsonaro que chama de excludente. Na coluna cinema
Juliette Binoche. Arte aborda a exposição "À Nordeste". Foto e matéria
sobre Vladimir Herzog, que pouco antes de ser preso e morto pensava em
se tornar cineasta. Há coluna de Vinhos. Na de literatura matéria sobre
Mario de Andrade, por Eduardo Magossi, creditando a ele o mérito, até
pouco tempo dado ao Oswald, de responsável pelo Movimento Modernista no
país. Trata também da sexualidade do Mario, que até hoje fui meio tabu,
para não desagradar seus parentes. Além de muitas mulheres, teve um caso
com H, muito além de amizade. E por fim uma interessantíssima resenha
do ultimo livro do Ian MacEwan, denominado "Máquinas como Eu", onde
trata do relacionamento entre um homem, uma mulher e um robô. Precisa
mais? Obrigado Germano. Toda sexta que puder, vou ler EU & Fim de
semana, do Valor.
18.8.19
Crônica diária
A conversa continuou
O Leonardo depois de dar a notícia da morte do Afonsinho disse que tinha
ido a uma cartomante em Brasília. Lembrei da história da cartomante
Dona Rosa, que também morreu, e muita gente até hoje me pede seu
endereço. Mas você foi até lá só por conta da cartomante? perguntei.
"Não, eu tive que ir a negócios a Goiânia, e como estava de carro,
voltei por Brasília. A cidade cresceu muito desde a ultima vez que
estive lá." De piada perguntei se foi na inauguração? Rimos e subimos
para tomar um café na sobre loja da Livraria da Vila, da Rua Lorena. O
que conta a cartomante? perguntei. " Você não vai acreditar". Eu sei,
nunca acreditei em cartomantes. "Mas dessa vez tomara que ela esteja
mesmo enganada". Por que? " Ela disse que o Bolsonaro, e na verdade
chamou-o de Johnny Bravo, vai concorrer a reeleição contra o Dória e o
Wilson Witzel do Rio de Janeiro. Ela citou outros dois ou três
candidatos da esquerda, mas sem nenhuma chance. A esquerda em 2022
estará aniquilada."E quem vencerá a eleição? "Ela disse que a apuração
ainda não tinha terminado". Risos . Encontrar com o Leonardo é sempre um
prazer enorme.
17.8.19
Crônica diária
Placa de bronze
Depois de algum tempo sem ver ou falar com o Leonardo cruzo com ele na
Livraria da Vila da Rua Lorena. Quanto tempo! Pois é, o nosso amigo
Carlito Maia, de saudosa memória, já dizia: "São Paulo junta bandidos e
separa amigos". E nos abraçamos. Você esta muito bem! E você também.
Trocado os abraços e comentários de praxe, ele comentou: "Tio Afonsinho
morreu". Respondi: início de inverno é uma merda. Velho morre de
pneumonia. "Não foi não, morreu atropelado". Não diga, retruquei. "Pois
foi, por um patinete amarelo". Não acredito. "Pois é. Acredite. Fraturou
dois ossos do braço esquerdo, e uma grave fratura da bacia." Bacia
nessa idade é complicado. E sabe mais? A maior causa de morte no mundo
não é câncer ou doença nenhuma. É queda. Velho cai, quebra, é
anestesiado, operado, e vem a óbito por complicações variadas. "É
verdade", anuiu o Leonardo. E meio que rindo lembrou que seu tio
Afonsinho era um jogador viciado." Jogava em tudo. Em cavalos, no bicho,
Mega-Sena, bingo, e carteado. Neste ultimo costumava jogar pesado.
Nunca perdeu". Como assim, nunca perdeu? perguntei. "Pois é, foi nisso
que a mulher e os filhos sempre acreditaram. Ele ao comprar os cacifes
pagava com cheque e sempre valor maior. Recebia o troco em dinheiro.
Chegava em casa sempre com dinheiro vivo no bolso, que dizia ser o lucro
da noite. Esse era o Afonsinho. O ultimo desejo, antes de morrer foi
que mandassem fazer uma placa de bronze: "Aqui jaz um que morreu de
tanto viver."
16.8.19
Crônica diária
Saca essa rolha
Esse é o título da coluna da jornalista cearense, muito jovem, apesar de
mais de 15 anos de uma carreira com muitos feitos na imprensa nacional e
como correspondente no exterior, Isabelle Moreira Lima. Não sou leitor
diário do Estadão, e portanto não acompanho o caderno Paladar, onde ela
escreve. Casualmente a matéria tratada dia 8 de agosto de 2019, Vinhos
Extremos chamou minha atenção pelo título. Seria a Isabelle uma enóloga
tão jovem? E fui procurar saber um pouco de sua biografia. Tem de tudo
um pouco. Coberturas e entrevistas políticas, com artistas
internacionais, com personalidades de várias áreas inclusive vaquejadas.
Mas entrevistou gente muito importante no mundo do vinho. Só isso a
credenciou me levar a leitura interessantíssima dessa matéria. Aqui o
espaço não permite transcrever o artigo em sua integralidade. E o resumo
do resumo, para quem não conhece a arte de produzir vinhos, e no caso
vinhos extremos, ela sintetiza que "a videira não deve ser tratada a pão
de ló". Me fisgou na primeira frase. E ela explica que no solo pobre
obriga as raízes da videira a se esforçarem mais, buscando nutrientes, e
alcançando mais riqueza mineral do que a superfície pode oferecer. Isso
resulta numa fruta mais interessante e concentrada. "A uva tende a
ganhar personalidade quando cultivada em geografias ou climas inusuais,
ou quando vem de planta muito velha ou selvagem, ou quando é produzida
com muita dificuldade física". Nelson Rodrigues diria lendo essa
descrição da Isabelle, que uva é como mulher: gosta de apanhar, ser mal
tratada. A jornalista cita vários exemplos, desses
vinheteiros-guerrilheiros que produzem em condições extremas. Vinhos do
deserto, de cavernas, de uvas congeladas. Fornece o nome, a vinha, preço
e local de venda em São Paulo. Vão de R$153,00, (um vinho Italiano) R$
198,00 (da região de café paulista) até R$450,00 com pisa a pé, colheita
manual, e rendimento de 40% das uvas do Atacama.
15.8.19
Crônica diária
Sugestões impagáveis
Como pode ter gente que ainda defenda o PT? Inimaginável. Mas tem. E tem gente que faz enquetes, ou procuram por algo nas redes sociais. É uma forma divertida de ler disparates, e ouvir conselhos de "sem noção". Vou só citar dois exemplos que vi hoje. Um indivíduo pergunta: "Quero morar na Europa sem sair do Brasil. Alguma dica?" E foram muitas as dicas. O Jardim Europa, muito citado. Rua França, no mesmo bairro. Algumas cidades de Santa Catarina na maioria Gramados e Serra Gaúcha. Esta última a mais provável e coerente delas. Mas teve os "sem noção" que sugeriram Pernambuco, e outra Rua Pamplona.
Como pode ter gente que ainda defenda o PT? Inimaginável. Mas tem. E tem gente que faz enquetes, ou procuram por algo nas redes sociais. É uma forma divertida de ler disparates, e ouvir conselhos de "sem noção". Vou só citar dois exemplos que vi hoje. Um indivíduo pergunta: "Quero morar na Europa sem sair do Brasil. Alguma dica?" E foram muitas as dicas. O Jardim Europa, muito citado. Rua França, no mesmo bairro. Algumas cidades de Santa Catarina na maioria Gramados e Serra Gaúcha. Esta última a mais provável e coerente delas. Mas teve os "sem noção" que sugeriram Pernambuco, e outra Rua Pamplona.
Outro
exemplo o camarada escreveu um livro e procura quem possa indicar um
revisor. O primeiro sabidinho disse que o Word tem um programa que faz
tudo. Revisa, diagrama, etc. Claro que não era isso que o escritor
queria. O Word tem revisor ortográfico. Revisão de um livro é coisa
muitíssimo diferente. Nos meus faço com duas revisoras profissionais, e
acaba passando gato por lebre. É o maior prazer dos que eu chamo de
"Procurando Wally". A sorte do camarada é que não faltaram revisores,
orçamentos e conselhos.
14.8.19
Crônica diária
DR rendeu muitos comentários
Ainda
sobre os comentários dos leitores. Quando postei a crônica "Fui vítima
de dois DRs", o meu querido amigo e arquiteto Fernando Cals lá pelas
tantas, depois de dezena de comentários que davam boas dicas, fez
irritado (imagino eu) o seguinte comentário: "Fiz a pergunta, ninguém respondeu: what porra is DR? Please!" A leitora Sara Guedes gentilmente respondeu: "Fernando Cals discutir relação." Logo em seguida, o amigo comum, meu e do Fernando, Valter Ferraz voltou a postar:
"Discutir a relação, Fernando Cals." E o Fernando mais nada escreveu. Mas deve ter pensado "Que porra mais ridícula." Ele é um pouco mais velho do que eu, e somos do tempo que em Pernambuco, Rio ou em São Paulo, essas coisas entre casais se resolviam de três formas: na cama, no $ Banco, ou na bala. risos...
"Discutir a relação, Fernando Cals." E o Fernando mais nada escreveu. Mas deve ter pensado "Que porra mais ridícula." Ele é um pouco mais velho do que eu, e somos do tempo que em Pernambuco, Rio ou em São Paulo, essas coisas entre casais se resolviam de três formas: na cama, no $ Banco, ou na bala. risos...
Mas
houve comentários de leitoras, sobre DR, muito interessantes. Com uma
visão completamente feminina do assunto. A começar pela leitora Alessandra Zacarias que escreveu: "Acho
que sou homem, porque se tem uma coisa que me causa completa exaustão é
a tal da DR!!!" Se eu escrevesse isso seria chamado de machista, mas
traduz a pura verdade. Claro que sempre há exceções. Homens que querem
pontuar entre as mulheres.
Mas outras leitoras como minha querida prima Py Pacheco E Silva, comentou: "Eduardo, já fui vitima de uma pedrada no meu carro. Hoje dou risada mas na época foi bem tenso...."
E o ciúme foi abordado em vários comentários. A insegurança masculina, ou até de broxa acusaram os meus detratores.
E por fim, por falta de DR, acontece hoje o que chamam de feminicídio, e foi observado pelo meu querido leitor José Eduardo Nogueira que escreveu: "Eu acho que você é
um homem de sorte. A 45 anos poderia ter sido morto por "legítima
defesa da honra"! Veja o texto: Mas há um mito no Brasil de que existe
algo chamado legítima defesa da honra. Ela aconteceria quando o cônjuge
ou namorado(a) traído matasse o(a)
parceiro(a) que trai e/ou a pessoa com quem trai. Segundo esse mito, a
legítima defesa da honra seria um tipo de legítima defesa e, portanto,
faria com que a justiça absolvesse o acusado. A lógica seria que a honra
faz parte da pessoa, da mesma forma que a vida ou o corpo, e por isso a
pessoa pode matar para protegê-la".
Nesse
caso eu teria sido vítima duas vezes, uma por não ter absolutamente
nada com a esposa do assassino, e outra de postumamente ser acusado de
ter "atentado contra a honra".
Continua o José Eduardo: "O famoso caso do Doca Street foi um caso em que o homicida se deu mal: Doca Street foi julgado em 1980, tendo sido defendido pelo advogado Evandro Lins e Silva. A defesa foi baseada na tese de legítima defesa da honra, responsabilizando-se a vítima, Ângela Diniz, por ter provocado tal violência, em razão do próprio comportamento. Inicialmente, a pena de Doca Street foi de dois anos, com direito à sursis. O caso teve grande repercussão e foi o estopim para organização de um movimento de mulheres contra a violência doméstica, com o slogan "Quem ama não mata". Após a mobilização social, houve um segundo julgamento, e a pena do assassino foi elevada para 15 anos de reclusão".
Continua o José Eduardo: "O famoso caso do Doca Street foi um caso em que o homicida se deu mal: Doca Street foi julgado em 1980, tendo sido defendido pelo advogado Evandro Lins e Silva. A defesa foi baseada na tese de legítima defesa da honra, responsabilizando-se a vítima, Ângela Diniz, por ter provocado tal violência, em razão do próprio comportamento. Inicialmente, a pena de Doca Street foi de dois anos, com direito à sursis. O caso teve grande repercussão e foi o estopim para organização de um movimento de mulheres contra a violência doméstica, com o slogan "Quem ama não mata". Após a mobilização social, houve um segundo julgamento, e a pena do assassino foi elevada para 15 anos de reclusão".
José Eduardo ainda lembra: "Tem o caso também da Elza Leonetti que assassinou o seu amante Robert Lee. Ela nunca foi para a cadeia!"
Mas
esquecemos que homens e mulheres se matam todos os dias, e no mundo
todo. Optam pela força, pela faca ou pela bala., ao invés de uma
saudável DR. Ou de uma DR mal resolvida.
Completa Francisco Giaffone "É a vida. Não há o que se fazer. Dizem os argentinos que para dançar um tango se precisa de dois".
13.8.19
Crônica diária
A crônica e seus comentários
Sempre
me reporto aos velhos cronistas que me inspiraram, como Rubem Braga,
Luiz Martins (LM) e tantos outros que escreviam nos jornais diários. Mas
lá não tinham o retorno dos comentários em tempo real. As redes sociais
e os blogs permitiram essa prática. Senão vejamos:
"Maria Vitória Lago: Adoro suas crônicas , mas me divirto mesmo é com os comentários ..."
"Valter Ferraz: Maria Vitória Lago , por isso uma postagem sem comentários não tem graça nenhuma!"
Eduardo P. Lunardelli: Resumo da ópera: o bom cronista é aquele que junta ao seu texto gente inteligente que faz comentários engraçados...
12.8.19
Crônica diária
Sobre a hora da postagem
Durante 2418 dias postei 2418 crônicas às sete da manhã. Por que? Porque
era a hora que lia nos jornais, os meus cronistas favoritos: Rubem
Braga, Luiz Martins (LM), e todos os outros que escreviam suas colunas
diárias. Era a hora que os jornais chegavam em casa. Na minha cabeça
ficou ligado crônica às primeiras horas do dia. E deu certo. Tenho o
depoimento de muitos leitores que fazem isso com meus textos. Digerem
antes ou durante o café da manhã. Outra razão subjacente é que sou
absolutamente matinal. Diurno. Nunca leio ou escrevo a noite. Minhas
melhores ideias, meus melhores momentos intelectuais, são pela manhã.
Por alguma razão, que não vem ao caso, postei duas ou três crônicas no
início da noite. O resultado foi expressivo. Mudou ligeiramente o perfil
e ordem dos comentários. Quem comentava dez minutos depois de postado,
só foi postar na manhã seguinte. Aqueles que postavam durante o dia,
final de tarde, apareceram na dianteira. E houve também uma sutil
mudança no espírito dos comentários. Os noturnos, mais elaborados, com
menos pressa, e talvez menos humor. Mas é só uma reles observação, sem
valor estatístico. Mas tem uma razão óbvia. Le a noite quem dorme tarde.
Quem não acorda cedo, e quem não tem tempo durante o dia. E as noites,
para quem não dorme cedo, e tem insônia, são longas. Daí os textos, nos
comentários, maiores.
11.8.19
Crônica diária
Moro na frigideira
| Jair Bolsonsro |
| Sergio Moro |
A Revista Crusoé já estampa manchetes como:
"Bolsonaro frita Moro" (9/8/19). Quem acompanha a movimentação do xadrez
político já percebeu que o ex-juiz, idolatrado e considerado nas
manifestações de rua em todo Brasil como o herói, salvador da Pátria, e
mito da Lava-jato, passa por momentos de grande dificuldade. A decepção
fica a cada dia mais estampada na face do atual ministro. O
arrependimento por ter abandonado uma carreira, promissora, de 20 anos
de magistratura, para ocupar um cargo de confiança no governo Bolsonaro,
fica mais visível no rosto do Moro. Ver seu projeto de combate à
corrupção a todo instante ser criticado e censurado pelo próprio
governo, e pior postergado em sua aprovação pelo Congresso, desanima
qualquer pessoa cheia de boas intenções. Ter sido um dos atingidos pelo
escândalo dos hackers, foi mais um golpe importante. Mesmo que nada de
ilegal e fora das rotinas usuais entre juízes e promotores, ficou a
mácula, e manchou sua reputação, pelo menos momentaneamente. O
presidente que sempre invejou a popularidade do seu ministro, tem dado
sinais dúbios de seu irrestrito apoio. E recentemente, conforme noticia a
Cruzoé, o Bolsonaro tem demonstrado contrariedade com a resistência do
Moro em aceitar tranquilamente a transferência do Coaf para o Banco do
Brasil, despolitizando o órgão, e distanciando-o da Justiça, e portanto
enfraquecendo o seu ministro da área. Não será nenhuma surpresa
amanhecermos com a renúncia do ex-juiz, e hoje enfraquecido Moro. Como
pode um ministro do seu porte, chegar em casa e olhar nos olhos da
esposa, diante de uma manchete como essa da Crusoé? Um jovem juiz de
reputação ilibada, tendo que passar pelo que esta passando. Acostumado
com pressões que o cargo de juiz, e da Lava Jato, lhes impunha, tinha um
cargo vitalício e proteções institucionais, que um ex-ministro da
justiça, desempregado, e sem pretensões, ou vocação política, devem
preocupa-lo. E por outro lado, manter-se ainda que contrariado e
desprestigiado, no cargo, não me parece que faz parte de seu histórico e
biografia. Os corruptos e o crime organizado mais uma vez vencendo. Foi
assim na Itália, e não seria diferente aqui. E pior é que o Moro sabia
disso. As próximas horas ou dias nos darão as respostas. Eu é que não
gostaria de estar na pele dele. A frigideira esta quente. E tanto o pai
como o filho e futuro embaixador nos Estados Unidos, entendem de
frituras.
Crônica do Alvaro Abreu
No hospital
Estive
fora do ar por mais de trinta dias, a ponto de não conseguir mandar
três crônicas para os editores deste jornal. Preocupei muita gente, mas
ganhei uma torcida atenta e carinhosa. A maior parte desse tempo passei
às voltas com exames, clínicas e médicos por conta de incômodos
provenientes do funcionamento imperfeito dos intestinos. Os demais dias
foram vividos no hospital, sendo a metade deles dedicados à investigação
da natureza e da extensão de algo diagnosticado inicialmente como sendo
uma diverticulite. Sob demandas de um anjo da guarda de jaleco, novos
exames deram o caminho das pedras para que o cirurgião fizesse seu
trabalho.
Já
deitado na maca, ao informar à enfermeira quem iria me operar, recebi
dela um comentário efusivo e altamente tranquilizador para quem está a
caminho do centro cirúrgico: “Ai, que bom! Esse doutor faz operações
maravilhosas!”. Dito e feito. Saí de lá sem um pedaço das tripas e livre
de uma tal bolsa externa. O sorriso e a segurança do cirurgião fizeram
com que os cinco dias de risco de uma eventual complicação, e todos os
demais, corressem sem qualquer preocupação.
Ao
entrar no hospital decidi que seria um paciente exemplar, desses que
têm paciência e boa disposição para enfrentar a tiração sistemática de
sangue, a medição da temperatura, da pressão e da glicose, a aplicação
de injeções para evitar coágulos, a tomação, com hora marcada, de
remédios líquidos e em pílulas, sem contar a fazeção de exercícios para
fortalecer os pulmões e o incômodo de ficar preso a um porta-frasco de
soro e de antibiótico difícil de empurrar de um lado para outro.
Na
falta do que fazer, passei a prestar atenção nas sobrancelhas das
enfermeiras. Muitas delas optaram por desenhos discretos enquanto
outras, talvez as mais entusiasmadas, adotaram uma solução chamativa e
radical: uma sobrancelha que começa com uma reta vertical próxima ao
nariz, com espessura bem larga que vai afinando, em curva, em direção à
orelha. Fiquei com a impressão de que todas elas estão usando esse
truque para se fazerem mais charmosas.
Vitória, 31 de julho de 2019.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
10.8.19
Crônica diária
Mulher brasileira, futuro e presente
Deus
criou a mulher brasileira com fartos e generosos glúteos para poder
esperar sentada o futuro. E foi um presente para os homens. 9.8.19
Crônica diária
Uniforme e dormir no emprego
Minha mãe há cinquenta anos dizia: "empregada domestica vai acabar".
Naquele tempo uma ou duas dormiam no emprego. Eu achava pessimismo da
minha mãe. Ela viveu o suficiente para assistir o fim das empregadas
dormindo no emprego. Foi ainda durante sua vida que acompanhou a
sistemática depreciação que a mídia, principalmente cinema e televisão,
fizeram das chamadas "domésticas" ou "criadas". Eram invariavelmente
debochadas, e menosprezadas. Até o nome da função mudou,
eufemisticamente, para "assistentes do lar", ou "secretárias da casa" ou
colaboradora. Chama-las de empregada fico politicamente incorreto. Mas
não dormem no emprego. Ganham duas ou três vezes mais do que as que
fazem serviços similares em hotéis, hospitais, no comércio ou na
indústria. Mas não querem, o que consideram uma pecha, ter a carteira
assinada como "domésticas". Gastam horas em conduções de péssima
qualidade, para ficar umas poucas horas em suas casas, em geral de
qualidade muito inferior. Mas não dormem no emprego. E tem vergonha dos
uniformes. Uniforme de doméstica foi usado pelas mais belas e sexis
atrizes. Na verdade o uniforme, como a própria etimologia da palavra
indica, uniformiza as pessoas, procurando esconder ou suavizar suas
diferenças ou dotes. Muito homem tem fetiche por uniforme de empregada,
como mulher tem por farda de militar ou policial. Mas isso é outra
história.
8.8.19
Crônia diária
"Sessenta e seis elos" - Luiz Eduardo de Carvalho
Do mesmo autor conhecia e já comentei o livro " Xadrez". É maravilhoso. Agora acabo de ler este romance. Longo e curioso. Longo porque tem 484 páginas. Curioso porque parece livro encomendado para exaltar a cultura do negro escravo. Corrobora com essa impressão o formato do livro, sua diagramação, o papel branco, brilhante, encorpado, que faz o livro ficar pesado. Em nada parece um romance. Mas é só a impressão. Sua leitura leva o leitor a duvidar da veracidade de todos os fatos narrados, e ao mesmo tempo não acreditar que tudo seja ficção. Para quem com eu que li à beira da Lagoa de Ibiraquera, onde na página 353, parte dos personagens transita, a parte histórica faz todo sentido. Luiz Eduardo, como no "Xadrez", reserva uma dose de suspense e surpresa de tirar o fôlego. A trama, muitíssimo mais complexa, envolve sessenta e seis elos de forma magnífica.
Do mesmo autor conhecia e já comentei o livro " Xadrez". É maravilhoso. Agora acabo de ler este romance. Longo e curioso. Longo porque tem 484 páginas. Curioso porque parece livro encomendado para exaltar a cultura do negro escravo. Corrobora com essa impressão o formato do livro, sua diagramação, o papel branco, brilhante, encorpado, que faz o livro ficar pesado. Em nada parece um romance. Mas é só a impressão. Sua leitura leva o leitor a duvidar da veracidade de todos os fatos narrados, e ao mesmo tempo não acreditar que tudo seja ficção. Para quem com eu que li à beira da Lagoa de Ibiraquera, onde na página 353, parte dos personagens transita, a parte histórica faz todo sentido. Luiz Eduardo, como no "Xadrez", reserva uma dose de suspense e surpresa de tirar o fôlego. A trama, muitíssimo mais complexa, envolve sessenta e seis elos de forma magnífica.
7.8.19
Crônica diária
A nova palavra da moda
Volto a falar das palavras ou expressões da moda. Tem uma recém-lançada, e que tem tudo para pegar. Virilizam com rapidez epidêmica. A exemplo das que já estão deixando de serem usadas por exaustão, como "janela de oportunidade", "manter o foco", "nos bastidores", e etc...surge com força a palavra: "TOTAL". Quer dizer: concordo, é verdade. Esta ultima já foi abreviada na linguagem digital por "vdd". Os jovens, e publicitários criam, e usam no seu trabalho. De um filmete de TV, para a boca da Maria Beltrão, apresentadora de programas de debate, notícias e política, para a boca do povo, é um passo.
Volto a falar das palavras ou expressões da moda. Tem uma recém-lançada, e que tem tudo para pegar. Virilizam com rapidez epidêmica. A exemplo das que já estão deixando de serem usadas por exaustão, como "janela de oportunidade", "manter o foco", "nos bastidores", e etc...surge com força a palavra: "TOTAL". Quer dizer: concordo, é verdade. Esta ultima já foi abreviada na linguagem digital por "vdd". Os jovens, e publicitários criam, e usam no seu trabalho. De um filmete de TV, para a boca da Maria Beltrão, apresentadora de programas de debate, notícias e política, para a boca do povo, é um passo.
Total.
Assinar:
Postagens (Atom)
Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )
















