31.1.19
Crônica diária
Três escritores, três caricaturas, três comentários
Tenho feito caricaturas de escritores, que por ter lido seus livros passei a respeitar. Hoje falo de algumas curiosidades de três deles, como pretexto de mostrar suas caricaturas.
Tenho feito caricaturas de escritores, que por ter lido seus livros passei a respeitar. Hoje falo de algumas curiosidades de três deles, como pretexto de mostrar suas caricaturas.
Raduan
Nassar, que tem uma biografia, no mínimo curiosa, é autor de "um livro e
meio", segundo ele próprio. Isso porque depois do sucesso de "Lavoura
arcaica", "Um copo de cólera", é tão fino que foi inicialmente rejeitado
por editores, que cobravam outros contos, para publica-lo. Ele nunca
aceitou, até ganhar prêmios, e abandonar completamente a carreira
literária e se dedicar à pecuária e agricultura. Uma celebridade como
escritor, ainda publicou "Menina a caminho". Um exemplo como agricultor
bem sucedido. Depois de recuperar uma fazenda degradada, no Estado de
São Paulo, doou uma pequena parte para seu empregado, e a outra para
uma universidade. Sobre seus dois livros fiz resenhas. Além das
considerações literárias que cometi, preciso registrar minha total
divergência quanto sua ligação com o PT e com Lula, de quem é amigo.
Haruki
Murakami, que acabo de ler "Assassinato do Comendador", primeiro volume
de uma trilogia, recentemente resenhado, considera que a matéria prima
do romancista é o sonho, e acredita ter sonhos por mais dez anos. Como
apaixonado por música, passou a ter um programa em rádio de Tóquio. O
segundo volume da trilogia ainda não saiu no Brasil.
Marcelo
Moutinho, jovem escritor carioca, colaborador do Jornal O Globo,
escreveu entre outros "Ferrugem". Em 2017 ao fazer a resenha fui cruel
com o autor. Nunca me arrependi tanto. Foi o único, ou um dos únicos
escritores, que se manifestou a respeito da análise crítica que faço em
minhas crônicas. E seu comentário foi: " :) ". Um verdadeiro soco no
estômago.
30.1.19
Crônica diária
Não há falta de assunto
Uma coisa puxa a outra. Não há falta de assunto. É como amigos que se
conhecem a vida toda, e depois de aposentados, sentam-se à mesa de um
bar de esquina, e continuam a "conversa". Todo dia tem assunto. Alguns
da esfera da cidade dessas pessoas, do clima, da policia, da política,
da justiça, e muito geralmente do futebol. Uma coisa puxa a outra. Há os
assuntos nacionais, internacionais, dependendo da gravidade, ou
importância dos fatos. Terremotos, tornados, vulcões, enchentes,
guerras, desastres aéreos, e tragédias ecológicas costumam tomar tempo
da imprensa, e das conversas de botequim. Os temas variam dependendo da
"moda". Há tempos que o esporte monopoliza os noticiários, mas há outros
epidêmicos assuntos que viralizam de forma global. Os molestadores
sexuais estão na ordem do dia. Todos os dias surgem novas denúncias. E
os acusados são execrados e condenados antes de qualquer julgamento
formal. A voz do povo é a voz de Deus. O João ( de Deus) continua na
cadeia, e não param as denúncias. Mas já deixou de ser assunto do
momento. Agora é a família do Bolsonaro, Brumadinho, e a ajuda de Israel
na tragédia de Minas Gerais. Como veem há assuntos para todo gosto. Ao
cronista só basta escolher a pauta do dia.
29.1.19
Crônica diária
Borracha de PVC
Enquanto ouço no rádio do carro, aliás único lugar que ouvimos rádio
hoje em dia, que a música que irão tocar é da banda mais subvalorizada
do mundo. Uma pena que perdi o nome da banda. A música era muito boa.
Quem apresentou foi Marina Izaura Jeha Person
. Filha do cineasta Luiz Sérgio Person que fazia cinema quando eu era
assistente de direção do Ozualdo Candeias. Fizemos um filme chamado
"Trilogia do terror" com Candeias, Person e Zé do Caixão. Essa é uma
parte da minha biografia que nunca lembro de citar. Dias atrás fui
instado a fazer uma brevíssima bio para o amigo escritor Roberto Klotz.
Coloquei tudo em duas linhas. Ele dobrou, por conta dele. Mas por certo
não sabia das minhas juvenis incursões pelo cinema. Mas não era nada
disso que eu iria contar. Estava no carro indo a uma papelaria. Já
escrevi, em crônicas, nunca em biografia, que adoro loja de ferramenta e
papelaria. Dessa vez a procura de uma borracha M A R A V I L H O S A !
Essas maiúsculas espaçadas deveriam valer um cache do fabricante. Pentel
é a marca. "Apaga sem esforço e sem borrar". É o que dizem na
embalagem. E como já estou usando uma, posso afirmar que realmente é
muito boa. A principal característica, para mim, é que não fica suja com
o grafite que apaga. Esta sempre com cara de limpa e nova. As de
borracha tradicionais vão acumulando grafite a ponto de sujarem mais do
que apagarem os traços indesejados. Para meus leitores, que são do ramo,
dou as especificações técnicas: HI-POLYMER Eraser Soft, Composição PVC e
papel reciclado.
28.1.19
Crônica diária
Sou implicante?
Durante a vida fui acusado de inúmeros adjetivos, em inúmeras situações.
Alguns completamente injustos, outros nem tanto. Esta semana colecionei
mais um: "implicante". Tenho um amigo, conhecido escritor, Alvaro
Abreu, que publica uma crônica quinzenal do jornal "A Gazeta" de
Vitória, no Espírito Santo. Raramente comenta meus textos, mas sempre
que o faz são elogiosos. Este também foi, porém, discordando de um
adjetivo que usei na ultima frase. Tentei defender meu adjetivo, e tive
como resposta o que se segue:"Você é um implicante do tipo que marca
em cima, cutuca com vara curta e enfrenta as reações com sabedoria. Pode
consultar dicionários antigos e o próprio Google". Não foi preciso
consultar o dicionário. Sei exatamente o significado de implicante. Só
que não me acho. Ou se tenho uma pequena dose de implicância, não chega a
comprometer meu comportamento, levando em conta minha idade. Aos
septuagenários é perfeitamente aceitável uma leve dose de implicância.
Por exemplo: me incomoda gente que chama "jantar" de "janta". Que corta
as verduras de uma salada. Garçom que interrompe constantemente os
começais durante a refeição. Moças e senhoras que mexem, constantemente
no cabelo, durante as refeições. O uso indiscriminado e abusivo dos
IPhones. Coisinhas desse tipo. E fui acusado de implicante por chamar
de "boba" a preocupação dos jovens, na puberdade, com o tamanho dos
seios nas meninas, ou dos pintos nos meninos.
27.1.19
Crônica diária
Brumadinho
Uma tragédia. Não há como não ficar chocado, consternado e pesaroso com
um desastre que provoque tantas mortes, e abale um município e seus
vizinhos como o rompimento da barragem de Brumadinho. Há perdas
irreparáveis que são as vidas humanas. Há perdas incomensuráveis na
natureza. Há perdas financeiras e econômicas para a empresa
proprietária, para o município, e para o Estado de Minas. Há perigo de
contaminação de outros rios, e graves prejuízos com a contaminação das
águas e do meio ambiente. Posto isso, quero focar na maneira
preconceituosa, mesquinha, com que alguns (muitos) jornalistas, e outras
pessoas se manifestaram no calor do acidente. A forma como questionaram
o presidente da Vale, recém desembarcado de Davos. Quem mais do que ele
poderia, como de fato estava, abalado? Quem mais poderia se sentir
responsável do que o presidente da empresa proprietária da mina? Mas os
jornalistas e muita gente nas redes sociais queriam explicações que
obviamente ele não tinha como dar. E foi franco, humilde, e modesto
dizendo: "não sabemos o que aconteceu". É evidente que nenhuma empresa
do porte da Vale iria negligenciar a ponto de permitir uma tragédia
dessa proporção. Metade das vítimas fatais eram diretores e funcionários
da empresa ou terceirizados. Uma empresa do porte e importância da Vale
não dá um tiro no pé. E gente minimamente educada, civilizada, não
agride uma pessoa, como o presidente da Vale, naquelas circunstâncias.
Queriam lincha-lo pelo ocorrido. E isso me revoltou.
26.1.19
Crônica diária
"Assombrações" de Domenico Starnone
"Laços" foi o primeiro livro que li do Starnone em 2017. Não conhecia o
marido da festejada Elena Ferrante, casal de escritores que moram em
Roma. A bem da verdade o nome da Elena é Anita Raja, que
nunca alcançou o sucesso que os livros assinados com o pseudônimo lhe
valeram. Starnone não, continua em sua trilha de escrever sobre a
família, a velhice, o amor, e o desamor. Sobre a vida, em síntese. Neste
romance, "Assombrações", sua relação de poucos dias cuidando de um neto
de quatro anos é magistralmente narrada. "Uma pequena obra de arte",
segundo Garth Greenwell. Tenho mais ou menos a idade do personagem, e
tenho uma neta de quatro anos. Não sei se foi por isso que me deliciei
com os diálogos, situações e agruras desse relacionamento. Vale a pena a
leitura dessas 178 páginas ilustradas por Dario Maglionico, jovem
pintor italiano que trabalha em Milão.
Crônica do Alvaro Abreu
Carrinho de rolemã
Recebi,
com satisfação, o pedido de Dani, minha nora, para que fizesse um
carrinho de rolimã para Biel, o caçula dela. Disse que o moleque tinha
visto um deles num parque em São Paulo e ficou completamente vidrado.
Carrinho de rolimã é algo que povoa a cabeça de muito marmanjo velho que
conheço. Eu mesmo tenho boas lembranças de descer ladeiras em Cachoeiro
a bordo de carrinhos feitos com tábuas de caixote e rolimãs conseguidos
em oficinas de automóvel. Sou da turma dos que não puderam, por ter
nascido antes do tempo, aproveitar as fortes emoções proporcionadas pelo
skate, sobretudo quando se desce, em alta velocidade, estradas de
regiões montanhosas, como se vê na TV.
Para
quem não sabe, usa-se dois rolamentos maiores na traseira e dois
menores no eixo dianteiro, que é pivotado no centro da parte da frente
do carrinho, condição para que possa ser movido com os pés na hora de
curvar. Como era pra criança, resolvi comprar quatro rolamentos iguais,
novinhos e blindados. Gastei 40 reais e sai da loja achando que tinha
feito um ótimo negócio. As madeiras, comprei lá no Colodetti, onde
sempre acho o que preciso nessas empreitadas. Paguei meio caro por um
caibro de angelim e uma sobra de compensado naval de 10 milímetros, mais
leve e fácil de carregar. Na volta pra casa, fui maquinando o projeto
básico do bólido. O ideal seria minimizar o trabalho com serrote, usar
só quatro parafusos e fixar os rolimãs na madeira valendo-me somente do
poder de fixação dos encaixes de alta precisão, dispensando travas e
cunhas. Usaria freios dianteiros acionados com calcanhares, pressionando
pedaços de sandália havaiana contra o chão, e instalaria um cabresto de
cordão com empunhadura de bambu, para proporcionar sensação de
segurança ao piloto.
Ontem,
ao levarmos os netos para ver a lua cheia nascendo atrás do porto, vi
que no final de rua tem uma excelente pista de teste, dotada de boa
inclinação, piso regular e uma curva larga na parte baixa. É toda
ladeada por muro de concreto, que impõe respeito e exige perícia do
estreante.
Vitória, 23 de janeiro de 2019
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA25.1.19
Crônica diária
Uma aula sobre o nó brasileiro
Alcides F. Vidigal " Meu caro Eduardo;
As variáveis estão postas e nem são, em tese, desesperadoras - a "oposição por mera oposição" no Parlamento eleito não chega a 7% no Senado e 19% na Câmara.
O primeiro problema se dá na oposição crítica, já que Guedes professa o liberalismo da Escola de Chicago, vários passos além do renhido keynesianismo que impera no Brasil desde 1937 com crescente intervenção do Estado sobre o domínio econômico e que interessa aos principais órgãos do alto funcionalismo público e isso ataca diretamente qualquer reforma previdenciária.
Nessa situação, dada a fragmentação partidária eleita, para a reforma previdenciária rapidamente pincelada por Guedes, na minha contagem partirão sempre de oposição em torno 47% da Câmara e 49% do Senado. O que equivale dizer, que a reforma será desfigurada e o risco é ficar pior a emenda do que o soneto.
O segundo, é que em questões de reforma tributária nem há que se falar em oposição ideológica, a questão é que os governadores estaduais acabam por dominar suas bancadas em um jogo interminável de “cabo de guerra” por recursos tributários. E as soluções são dificílimas, já que tem sido impossível há décadas exatamente por este motivo.
Assim, se nunca conseguimos chegar nem perto do liberalismo da Escola de Friebourg, que impera na Alemanha desde Adenauer (1949) e nem ao menos arranhamos o Wellfare State dos sociais democratas, me aprece um sonho tão distantes que nem cabe o debate se nos serve ou não o liberalismo empalmado por Guedes.
As variáveis estão postas e nem são, em tese, desesperadoras - a "oposição por mera oposição" no Parlamento eleito não chega a 7% no Senado e 19% na Câmara.
O primeiro problema se dá na oposição crítica, já que Guedes professa o liberalismo da Escola de Chicago, vários passos além do renhido keynesianismo que impera no Brasil desde 1937 com crescente intervenção do Estado sobre o domínio econômico e que interessa aos principais órgãos do alto funcionalismo público e isso ataca diretamente qualquer reforma previdenciária.
Nessa situação, dada a fragmentação partidária eleita, para a reforma previdenciária rapidamente pincelada por Guedes, na minha contagem partirão sempre de oposição em torno 47% da Câmara e 49% do Senado. O que equivale dizer, que a reforma será desfigurada e o risco é ficar pior a emenda do que o soneto.
O segundo, é que em questões de reforma tributária nem há que se falar em oposição ideológica, a questão é que os governadores estaduais acabam por dominar suas bancadas em um jogo interminável de “cabo de guerra” por recursos tributários. E as soluções são dificílimas, já que tem sido impossível há décadas exatamente por este motivo.
Assim, se nunca conseguimos chegar nem perto do liberalismo da Escola de Friebourg, que impera na Alemanha desde Adenauer (1949) e nem ao menos arranhamos o Wellfare State dos sociais democratas, me aprece um sonho tão distantes que nem cabe o debate se nos serve ou não o liberalismo empalmado por Guedes.
24.1.19
Crônica diária
Criticar agora não ajuda. Só alimenta a oposição
Não
costumo polemizar com meus leitores. Quero continuar a manter uma
coluna de crônica diária e não página de debate político ideológico. Mas
às vezes leitores de nível intelectual e formação cultural muito acima
da minha, honram-me com críticas ou comentários, que respondo procurando
manter o alto nível da conversa. E só faço aos bem intencionados.
Quatro dias atrás o Alcides F. Vidigal fez um comentário que mereceu
minha réplica, e acabou virando minha crônica de hoje:
"Primeiro quero agradecer seus lúcidos e consistentes comentários.
Concordo plenamente com as linhas básicas de seu discurso. Concordo
também que ninguém é obrigado a gostar de ninguém incondicionalmente. As
pessoas podem ser úteis e receberem
nosso apoio dependendo das circunstâncias. Foi assim no caso do Eduardo
Cunha. Foi assim, pelo menos no meu caso, com relação ao atual
presidente, que também concordo teve "vida profissional absolutamente
pífia". Nas circunstâncias em que se deram as ultimas eleições o Alckmin
não tinha, como não teve nenhuma chance. Aqui discordo que tenha sido
uma "besteira eleitoral". As opções da esquerda, essas sim, seriam
desastrosas. Ciro, Haddad e caterva. Vinte dias de governo não são
suficientes para nenhuma avaliação de governo nenhum. Só as profundas e
impopulares reformas, que na verdade dependem só do congresso, que ainda
não voltou do recesso, irão produzir os resultados, que você, e o
empresariado, esperam. E isso levará muito mais tempo que a vã esperança
aguarda. Não se faz milagre em gestão pública e em economia. A máquina é
colossal e seus movimentos lentos e pesados. Por ora temos que nos
contentar com expectativas positivas. E elas são muito promissoras. Um
ministério de gente séria e bem intencionada. Goste-se ou não dos
militares eles são melhor preparados que os representantes dos partidos
de fachada. Políticos, em geral, muito despreparados intelectualmente. E
por fim, recrimino os que reconhecem que os governos passados (leia-se
PT e outros) são os únicos responsáveis pelo estado atual da economia e
desemprego brasileiro, e não dão apoio total ao atual presidente. Isso
só não ajuda, como atrapalha o esforço de convencimento de um congresso
ainda muito contaminado pelas velhas políticas. Com inteligência e bom
senso sairemos vitoriosos desta realidade que tem solução. Basta não
ajudar a oposição."
Amanhã publico a tréplica do Alcides que é uma verdadeira aula sobre o nó atual.
Amanhã publico a tréplica do Alcides que é uma verdadeira aula sobre o nó atual.
23.1.19
Crônica diária
O tamanho dos seios e do pinto
Como escrevi ontem, acabo de ler o primeiro volume do "O assassinato do
comendador" do Haruki Murakami. No penúltimo capítulo o personagem
retratista profissional trava um diálogo com sua jovem aluna de 12 anos
que posa para um retrato. As circunstâncias não vem ao caso neste
momento, mas são importantes no contexto do romance. Acompanhada pela
tia que fica lendo na sala ao lado do atelier, a garota que durante as
aulas na escola é muito calada, começa a conversar sobre diversos
assuntos. Pulando de um tema para outro com frequência. Em pouco tempo
falou de sua relação com a tia, perguntou o estado civil do professor, e
se tinha gostado da tia, que era irmã mais nova de seu pai. Falou da
morte da mãe picada por abelhas. E do seu complexo por ter seios muito
pequenos. O professor, em processo de divórcio, havia perdido uma irmã
com a idade da aluna, quando ele tinha 15 anos. Vai respondendo às
perguntas da menina e desenhando seu rosto num caderno. Faz três esboços
em posições diferentes. Qual era o tamanho dos peitos da sua irmã? O
professor franziu a testa, respirou, e respondeu: Não lembro, mas eram
pequenos como todos na sua idade. E eles cresceram? Não, ela morreu. Um
longo silêncio se fez, e a garota volta a falar: Os da minha tia são
grandes e bonitos. Como você sabe? Porque já tomamos banho juntas. Mais
um período de silêncio. Os esboços estavam quase concluídos, ele disse:
quando eu tinha sua idade a minha preocupação era com o tamanho do meu
pinto. Achava que era pequeno. E ela pergunta: e continuou pequeno? Acho
que não. É normal, pelo menos nunca tive nenhuma reclamação. Esse
diálogo usado pelo autor ilustra bem as duas grandes preocupações que
atormentam a puberdade. Seios nas garotas e pinto nos meninos. Que coisa
mais boba essas preocupações da puberdade.
22.1.19
Crônica diária
"O assassinato do comendador" - Haruki Murakami
O escritor mais importante na atualidade no Japão, e nos países (mais de
40) onde é traduzido, é sem dúvida Haruki Murakami. Dele li e comentei
quase todos seus livros publicados no Brasil. Sempre gostei e recomendei
fortemente sua literatura. Embora escreva no Japão, onde mora perto de
Tóquio, sua linguagem é universal. Sua ficção, muito variada, fica entre
o mistério, crime, e um realismo fantástico. Grande apreciador de
música ocidental seus textos tem sempre muitas referências sobre o
assunto. Seus personagens, muito bem construídos, são apaixonantes.
Neste seu primeiro volume de uma trilogia "o assassinado do comendador" o
narrador é um retratista abandonado pela esposa com quem era casado ha
seis anos, e era apaixonado. O truque, em todos seus livros, é manter o
leitor preso por um fio muito sutil e tênue de mistério e suspense. O
fantástico frequenta seus romances de forma quase verossímil e bem
humorada. Nunca o terror é explorado, embora goste de mortes, sangue, e
violência. Sexo é uma constante entre seus personagens. Mas trata o tema
com natural simplicidade. Mais uma vez recomendo Haruki. Este primeiro
volume aguça a curiosidade pelo que vem pela frente.
21.1.19
Crônica diária
Posse de arma
O
decreto, na verdade, não mudou nada que já não existisse. Apenas
detalhou e facilitou a compra que já era permitida, mas não o porte de
arma. A posse, em casa e no trabalho, principalmente nas zonas rurais, e
urbanas, menos policiada, é uma necessidade. O bandido não pode ter a
certeza de que sua vítima esta desarmada. Só o fato de saber que no
pequeno comércio, nas residências rurais e nas casas de cidadãos de bem
há uma arma, fará com que o criminoso se acautele. Mas não é política de
segurança pública. É só um direito de todo cidadão, numa democracia.
20.1.19
Crônica diária
O desastre da esquerda
Para
quem ainda acredita que governo populista e de esquerda é a solução
basta ver o que esta acontecendo no mundo. Para esses, muitas vezes,
enxergar e entender o mundo é exigir demais. Vamos nos limitar à nossos
vizinhos. A Venezuela é um exemplo gritante. Mas a Argentina, onde os
"irmanos" são nossos vizinhos mais próximos e parceiros no Mercosul,
demonstram a derrocada econômica que os 12 anos de governos Kirchner os
meteram. A falta das reformas, as mesmas que temos que fazer
urgentemente, os levou. Inflação de mais de 40%, desemprego e carestia. E
para quem ainda possa ter dúvidas este verão o estado de Santa
Catarina, onde vivo, recebeu 70% menos "irmanos", afetando gravemente
nossa economia. Apesar dessas evidências tem gente ainda defendendo o
corrupto chefe do esquema criminoso que saqueou o Brasil. Além de
continuarem a defender os criminosos, atacam o novo governo, mesmo ante
dele assumir. É preciso ter a humildade de reconhecer o equivoco de ter
elegido e apoiado o PT, e caterva, durante tantos anos. Persistir no
erro é além de tudo burrice.
Outra
observação e conselho que devemos dar ao nosso congresso é que não
cometa o erro do atual governo Macri, da Argentina, que fatiou as
reformas necessárias, acreditando que seriam mais fáceis de passarem
pelo congresso, e não as fez de um golpe, nos primeiros 100 dias de
governo. Após dois anos no poder já paga o preço da impopularidade e os
efeitos nocivos da falta das reformas. Toda reforma é no princípio
amarga. Mas como todo remédio, necessária para a saúde do enfermo.
19.1.19
Crônica diária
Despetização
É um fenômeno absolutamente natural numa troca de governo a substituição
dos funcionários não concursados. No Brasil onde não havia troca de
governo nos últimos 13 anos e o mesmo partido governou, e aparelhou o
Estado, é imperioso que hajam essas substituições, como em qualquer
outro país democrático. Só nas ditaduras e regimes de partido único,
elas não são feitas. Ainda mais quando o partido é derrotado por suas
características ideológicas e morais. No caso do Brasil o fundador, e
líder maior, esta encarcerado por crimes comuns. Seus seguidores são
fanáticos e coniventes. Não podem fazer parte de governo nenhum. Nem
municipal, estadual e muito menos federal. A despetização é
absolutamente necessária e urgente. E não se confunda despetização com
excludência. Tenho lido na imprensa, ideologicamente engajada, que o
governo Bolsonaro é excludente. Não é verdade. Mas a verdade passa ao
largo das convicções petistas e comunistas.
18.1.19
Crônica diária
100 cabeças e 100 comentários
Volto a falar do blog do amigo artista e escritor lisboeta Rui Silvares.
Seu blog se chama "100 cabeças" e, invariavelmente, seus excelentes
textos estão SEM comentários. Escreve sobre tudo. Mas com ênfase em
temas humanitários, sociais, globais. Uma exceção, dia desses, foi
sobre seu "telemóvel". Em Portugal celular tem esse estranho nome. Sobre
ele, o nome, já escrevi algumas vezes por ocasião da publicação do
livro "Um novo caso" (2013). Uma das nossas parceiras, escritora
portuguesa, não queria admitir a troca da palavra "telemóvel" por
celular, em seu texto. Mas o livro seria, como foi, editado no Brasil,
portanto "telemóvel" não cabia. Mas a abordagem do Rui em seu texto é de
natureza afetiva. Compara o aparelho a um animal de estimação. E fala
da dependência que dele nos tornamos. E termina, como é de hábito, com
muito humor e sabedoria: "Nada que uma martelada não resolva."
17.1.19
Crônica diária
O parapsicólogo Padre Quevedo
Futebol, política e religião são temas espinhosos para serem tratados em
crônicas de dez linhas. Mas a morte do padre Quevedo, uma semana atrás,
e a prisão do médium João Teixeira de Deus levaram-me a fazer umas
reflexões. O Quevedo padre católico, espanhol de nascimento e estudioso
da ciência denominada Parapsicologia, ministrou no Brasil, durante
décadas, cursos sobre a matéria. Ciência é uma coisa, religião é outra
completamente distinta. Fatos comprovados cientificamente não cabem ser
discutidos. Enquanto que religião é uma questão de fé. O trabalho do
Quevedo era exatamente desmistificar o espiritismo, demonstrando
cientificamente, causa e efeito atribuídos aos espíritos. Médiuns
espíritas como Chico Chavier, e mais recentemente o "miliciano" João de
Deus, fizeram mais adeptos e fervorosos seguidores do que o padre
Quevedo ao longo da vida. O ser humano é propenso em acreditar em
milagres. e almas do outro mundo, do que na ciência. A ciência não tem
apelo emocional. O homem adora emoções. Tudo que a ciência não pode
explicar é atribuído a Deus. Quevedo demonstrava todos os truques e
mágicas usadas pelos espíritas. Flávio de Carvalho, agnóstico,
defendia a existência de um deus dentro de cada um de nós. Uma forma
simplista de demonstrar toda a capacidade que os seres humanos possuem, e
desconhecem.
16.1.19
Crônica diária
Trocando o isqueiro pela tomada
Tomei uma aula sobre cigarros eletrônicos. O dele é dos antigos, pesado e
do tamanho de um drops ou caixa plástica do chocolate M&M. Associar
o cigarro ao drops ou ao M&M não é por acaso. Ele estava fumando
vapor de água com sabor de melancia. Fumar cigarro eletrônico é isso.
Aspirar e soltar pelo nariz ou pela boca muita fumaça. Para os fumantes
viciados uma forma de continuarem a ingerir nicotina sem os malefícios
do papel e dos produtos químicos nele presente. Os usuários atestam que
sentem o eletrônico fazer menos mal do que os tradicionais. O perigo ou
talvez a vantagem é que os jovens de quinze anos estão adotando o
eletrônico. Futuros dependentes da nicotina. Muita fumaça, por enquanto.
O que será no futuro só deus sabe. Mas é curioso observar a rotina dos
atuais fumantes. Junto com seus celulares andam com um chip com bateria e
água. Não compram mais fósforos ou isqueiros Bic. Põem para carregar
na tomada o i phone e o cigarro. Cada dia mais dependentes da energia
elétrica. Logo logo seus carros também serão elétricos. Uma pane no
sistema energético causará uma catástrofe inimaginável num futuro muito
próximo.
15.1.19
Crônica diária
Não é fixação, mas uma observação
Ontem escrevi, propositadamente, no titulo da cronica: "doce sexo".
Poderia ter escrito "sexo doce", mas teria outra conotação. Não estava
tratando dos sabores do sexo, mas de doces e de sexo. E não usei o "e",
como conjunção aditiva entre doce e sexo, porque tiraria o impacto que
todo título deve provocar. Títulos servem como convite à leitura. A
segunda condição é o tamanho do texto. Hoje em quatro linhas falei de
doce, sexo e de como enganar o leitor. Doce e sexo aguçam os hormônios e
o paladar. Às vezes os dois, e ao mesmo tempo.
14.1.19
Crônica diária
Por falar em doce sexo
Ontem falei de sexo e alguns dias atrás o meu amigo Roberto Klotz
lembrou, num comentário, que o doce que chamamos de "brigadeiro" no Rio
Grande do Sul chamam de "negrinho".Essa denominação atualmente é
considerada "politicamente incorreta". Essas bobagens deveriam acabar.
Mas tentei inventar, para o Roberto, uma justificativa para que os
gaúchos não homenageassem o Eduardo Gomes. Ele não era bem quisto em
terras do Getúlio, que apoiou na eleição de 1945 o General Dutra, que
aliás venceu a eleição. Lembrei ainda que alguns presidentes, ou
candidatos a, passam para a história por conta do gosto de doces. Um bom
exemplo foi Ronald
Reagan e suas jujubas. Doces e sexo marcam presidentes. Os irmãos
Kennedy, e o Clinton, são outros exemplos.O Roberto voltou a comentar: " Parece que a preferência do atual presidente é bala.". E repliquei: "De chumbo! srsrs".
13.1.19
Crônica diária
Recessão sexual
Há três dias postei um texto sobre o romantismo. Curiosamente, dois dias
depois de escrito, li na Folha um artigo da Kate Julian sobre a queda
da atividade sexual nos adolescentes e jovens adultos. Apesar do
abrandamento dos costumes, ou exatamente em consequência disso. A
matéria era longa e toda embasada em pesquisas e estudos sérios sobre o
fenômeno. Sem conhecer as estatísticas eu já tinha desconfiado. Minha
geração foi privilegiada até nisso. Vivemos no após guerra, onde
aconteceram marcos históricos importantes. O rock in Roll, Beatles,
Canabis, biquíni, e muito sexo. O sexo era mostrado e exaltado no
cinema, na literatura, no teatro, na Playboy. As roupas femininas nunca
foram tão sumárias e provocativas. Depois veio o feminismo e a onda de
empoderamento das mulheres, e tudo ficou proibido. O sexo masculino foi
agredido no que mais prezava. Tudo passou a ser considerado assédio.
Houve uma banalização do coito. E com isso perdeu muito da sua graça. A
prova disso são os estudos e estatísticas que essa matéria, em boa hora,
revelam. Tristes adolescentes e jovens adultos.
12.1.19
Crônica diária
"Palavras ao vento" do Antonio Prata
Esse foi o título e assunto da ultima crônica do ano passado, publicada
na Folha de São Paulo dia 30 de dezembro, pelo escritor Antonio Prata.
Achei graça porque o Milton Ribeiro, anos atrás sempre se queixava dos
dois ou três leitores que dizia ter. Aqui no caso, o Antonio afirma que
só o Adams Carvalho, ilustrador da sua crônica, e a revisora Bia, iriam
lê-lo. Com alguns erros ortográficos constatou que nem a Bia tinha lido.
Estavam todos na praia ou acendendo suas churrasqueiras de fim de ano.
Nessa mesma data tive mais de 61 leitores aqui. Não posso reclamar. Mas
gosto do estilo bem humorado e despretensioso do jovem Antonio. Seu pai
conheci pessoalmente, mas o Mario (Prata da mesma família) estava num
momento delicado. Ele, e todos os intelectuais de esquerda, abordo de um
navio no Rio Negro. A Dilma acabava de ser enxotada do poder. Prefiro
esse termo ao importado impeachment. E com essa esquerda preconceituosa
não tem papo. A propósito não gosto também do atual marido da filha do
Mario, e irmã do Antonio. Todos Prata. O marido é o Pedro Bial. A melhor
coisa que fez na vida profissional foi a denúncia do miliciano João
Teixeira de Deus.
Antônio Prata e Milton Ribeiro
Mario PrataCrônica do Alvaro Abreu
Rotina matinal
Fiz questão de começar o ano sem compromissos sérios, liberado de obrigações sociais e despojado de expectativas relevantes. Preferi, por vontade própria e genuína, me sentir abanado pela brisa fresca da lestada, flutuando em rio manso, balançando em rede larga à sombra da acácia rosa em flor, vendo os cachorros da casa dormindo despreocupadamente de barriga pra cima. Engenheiro de produção que sou, resolvi adotar uma rotina matinal leve, tentando racionalizar os movimentos indispensáveis para conseguir maior eficiência e rapidez. Isso, por pura diversão, sabendo que tempo é o que não falta por aqui.
A lista das atividades correntes inclui: tomar o remédio para tireoide logo ao chegar na cozinha, conferir as horas no relógio do micro-ondas (para dar início ao jejum obrigatório), encher a chaleira, acender a boca grande do fogão, posicionar o filtro de papel no coador e colocar três colheres de café no filtro. Enquanto a água não ferve, passarinheiro que já fui, corro para tratar de Amora: limpar a plataforma do poleiro, lavar e abastecer os potinhos com água fresca, pedaço de mamão e ração extrusada. Tudo isso intercalando coçadas debaixo das asas e assobiando melodia que ela conhece muito bem.
De volta à cozinha, escaldo a garrafa térmica e começo a coar o café. Tento acertar a quantidade de água para encher a garrafa até a borda, sem sobrar nem faltar, o que nem sempre consigo. Bebendo a primeira xícara, vou conferir as mensagens recebidas, visitar o blog do meu amigo Eduardo Lunardelli, rastrear as manchetes de quatro jornais e ler as matérias e artigos que mais me chamaram a atenção. Na mesa posta, vou comentando com Carol os crimes e falcatruas da véspera, rindo (para não chorar) das bobagens recentes produzidas pelo pessoal do novo governo, xingando os donos das toneladas de pó preto que caem por aqui. Para completar a rotina, é a vez de continuar tentando convencer Amora de que não é perigoso subir no meu braço. Insegura, talvez traumatizada, ela ainda reluta em fazer o que é natural para qualquer arara caseira.
Vitória, 09 de janeiro de 2019.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
11.1.19
Crônica diária
João Teixeira de Deus
Quando escrevi sobre a norte da dona Rosa, cartomante em Brasília, e o
Roberto Klotz comentou que foi por conta dela que nos conhecemos e
ficamos amigos, lembrei de escrever sobre o rumoroso caso do João
Teixeira de Deus. Tenho amigos queridos, e casos de gente acima de
qualquer suspeita, que se consultaram com o charlatão de Abadiânia, e
narraram coisas extraordinárias. Inclusive cura. Mas o charlatão esta
preso e provavelmente será condenado há muitos anos de cadeia. Seus
crimes não se limitaram ao abuso sexual de centena de mulheres. Há
notícias de trafico de droga, lavagem de dinheiro, e verdadeiro
gangsterismo na região onde era idolatrado. Um verdadeiro miliciano.
Contra ele testemunham filhos e filhas. No entanto, por mais de quarenta
anos, imperou o silêncio, e os crimes praticados eram segredo de suas
crentes e fragilizadas vítimas. Ele como o Lula não lembra e não
reconhece nenhuma acusação. No princípio negou como de é de praxe todo
criminoso morrer negando. Depois as evidências eram tão robustas que
resolveu debitar a culpa aos espíritos. Eu nunca tive dúvida que essa
seria sua desculpa. Acontece que a nossa justiça pode ter falhas e
cometer, ideologicamente, erros grosseiros, mas não cai no conto dos
espíritos. Pelo menos até agora.
10.1.19
Crônica diária
E o romantismo?
Dia desses o leitor Fabio Pace comentou, a título de um texto meu sobre o
desenvolvimento da indústria automobilística e o fim do rádio AM, que
com isso o romantismo "se esgota". É verdade, com a modernidade e o
avanço das novas tecnologias em todas as áreas, além das novidades nos
costumes, e campanhas do "politicamente correto", o romantismo se foi.
Antigamente tínhamos mais tempo para tudo. Tudo tinha um outro tempo.
Namorar, por exemplo, era uma prática para quem já tivesse na puberdade.
E as fases do namoro eram lentas, sucessivas, e muito prazerosas. O
carro, para nos atermos ao texto que deu origem ao comentário do Fabio,
era grande e espaçoso o suficiente para os namorados ao som das rádios
AM namorarem. O banco do motorista e da moça ao seu lado era um grande
sofá, sem nenhum cambio ou empecilho entre eles. E haviam os cinemas ao
ar livre, onde assistia-se os filmes de dentro do carro. Cine drive-in.
Comendo hambúrguer e bebendo Coca-cola. A bandeja pendurada na porta do
carro. O que menos interessava, naquele tempo. era o filme. E tudo isso
era muito romântico.
9.1.19
Crônica diária
Samuel Beckett em duas versões
Incrível. Não pude acreditar. Aconteceu comigo. Não vi disco voador, mas meu espanto foi correspondente. Passei muitas horas de alguns dias me deliciando com o livro Gente de Letras do ilustrador e caricaturista Cassio Loredano. Aquelas cuja "desconstrução" era enorme e tinha que recorrer às legendas para identificar o escritor ( o livro é só de caricaturas de 200 escritores) eu ia ao Google para ver a fotografia do personagem. Invariavelmente a alma do escritor estava inteira na "desconstrução" do Loredano. Uma delas era do Samuel Beckett. E como fiz com muitas outras, resolvi fazer a minha versão do Beckett. No dia seguinte fotografei e coloquei a caricatura num post do meu blog Varal de Ideias (www.cimitan.blospot.com.br). Qual não foi minha surpresa quando ao colocar o nome do Samuel, ter aparecido ma memória do blog referência a ele. Fui saber do que se tratava, e descobri que oito anos antes, portanto em 2010, eu havia feito uma caricatura dele, e uma postagem com texto e imagens do escritor. Uma das fotos era exatamente a que, entre dezena, elegi para fazer a caricatura na noite anterior. E mais, as duas caricaturas tem exatamente o mesmo tratamento gráfico e "desconstrutivo". São muito parecidas. E eu não lembrava absolutamente.
Incrível. Não pude acreditar. Aconteceu comigo. Não vi disco voador, mas meu espanto foi correspondente. Passei muitas horas de alguns dias me deliciando com o livro Gente de Letras do ilustrador e caricaturista Cassio Loredano. Aquelas cuja "desconstrução" era enorme e tinha que recorrer às legendas para identificar o escritor ( o livro é só de caricaturas de 200 escritores) eu ia ao Google para ver a fotografia do personagem. Invariavelmente a alma do escritor estava inteira na "desconstrução" do Loredano. Uma delas era do Samuel Beckett. E como fiz com muitas outras, resolvi fazer a minha versão do Beckett. No dia seguinte fotografei e coloquei a caricatura num post do meu blog Varal de Ideias (www.cimitan.blospot.com.br). Qual não foi minha surpresa quando ao colocar o nome do Samuel, ter aparecido ma memória do blog referência a ele. Fui saber do que se tratava, e descobri que oito anos antes, portanto em 2010, eu havia feito uma caricatura dele, e uma postagem com texto e imagens do escritor. Uma das fotos era exatamente a que, entre dezena, elegi para fazer a caricatura na noite anterior. E mais, as duas caricaturas tem exatamente o mesmo tratamento gráfico e "desconstrutivo". São muito parecidas. E eu não lembrava absolutamente.
Beckett 2018, 2010, Cássio Loredano 2018 e o Beckett do Loredano
8.1.19
De Carol para o Alvaro, e dele para o VARAL
O que é a crônica, essa instância que, quando perdi, quis morrer?
Kacio Pacheco/Metrópoles
Kacio Pacheco/Metrópoles
Crônica não é notícia, não é ensaio, não é artigo, não é denúncia, não é protesto, não é reflexão. Também não é poesia e pode não ser literatura. Mas pode ter notícia, reflexão, protesto, poesia, literatura… Tudo depende da qualidade, do tom – ou do tantã. Se não existe batucada sem tam-tam, também não existe crônica sem ritmo e sem leveza.
Uma das minhas crônicas preferidas, senão a mais adorável de todas, é a Aula de inglês, de Rubem Braga. “Is this an elephant?”, assim começa a mais linda de todas quantas já foram ou serão escritas. “Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema.” O mestre dos mestres segue brincando com o inglês, com o português e se divertindo com o viver.
A crônica costuma ser bem-humorada, às vezes é irônica (o que é sempre um perigo) e tem um lirismo de passarinho bebendo gota d’água na folha.
Mais sobre o assunto
Quando cronista, Arnaldo Jabor escreveu uma crônica que virou música, Amor é prosa, sexo é poesia. (“Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é MST… O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa nova; sexo é carnaval”)
A crônica foi o modo mais preciso com que já se escreveu sobre Brasília. Num dos dois imprescindíveis textos sobre a cidade, Clarice Lispector mandou ver: “Eu sei que os dois quiseram [Lucio e Oscar]: a lentidão e o silêncio, que também é a ideia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna. – Há alguma coisa que aqui me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui”.
Verissimo é cronista de outra linhagem. Parece rir de si mesmo e do mundo, dá risos à amargura e às verdades empacotadas. Uma das minhas preferidas diz assim: “Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas”.Talvez em nenhum outro lugar as palavras se sintam mais à vontade do que nas crônicas ou nas letras do bom samba (quantos cronistas excepcionais há na música brasileira!). Como este aqui: “Você sabe o que é caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar. Caviar é comida de rico, curioso fico, só sei que se come. Na mesa de poucos, fartura adoidado, mas se olha pro lado depara com a fome. Sou mais ovo frito, farofa e torresmo, pois na minha casa é o que mais se consome. Por isso, se alguém vier me perguntar o que é caviar, só conheço de nome”. O cronista é Luiz Grande.
Kacio Pacheco/MetrópolesQue não se engane o leitor ou a leitora. Haverá dias em que escreverei algo com o nome de crônica e pode ser que não seja uma crônica como um elefante pode não ser um elefante. Às vezes, ela não vem por mais que eu tente, que eu reze, que eu escreva.
Outras vezes, ela nasce pronta.
Esta de hoje não é bem uma crônica, é uma homenagem aos cronistas.
Crônica diária
"Carne crua"- Rubem Fonseca
Acabei
de ler e escrever umas poucas linhas sobre Miguel Sanches Neto e
comecei a ler Rubem Fonseca em "Carne crua". Até agora só li o primeiro
conto de três páginas. O interesse pelo livro já é enorme. A boa vontade
para com os autores que se conhece e que se gosta, é fundamental. Como
não conhecia o Miguel e seu texto, o resultado foi morno para não dizer
decepcionante. Conhecendo e gostando muito do Rubem Fonseca, o "Carne
crua", já anuncia mais um sucesso e leitura agradável. Apesar de
continuar repetindo que seus personagens não matam mulheres nem anões.
7.1.19
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )



