Crônica do Alvaro Abreu
Wei Wei na Oca
A
ceia de Natal deste ano foi em São Paulo, onde moram três dos nossos
filhos e cinco netos, formando uma expressiva maioria. O pedido dengoso
da filha para ajudar na arrumação da casa nova engrossou as motivações
para mudar o lugar da festa. Viajamos com expressa recomendação de ver a
exposição de Ai Wei Wei, que ocupa os quatro andares da Oca, no
Ibirapuera. Trata-se de artista chinês de alta potência, ativista
convicto e corajoso, que enfrenta as forças que governam seu país com
mãos de ferro. Faz tempo que ouvi falar dele pela primeira vez, mas só
mesmo vendo de perto para perceber a contundência do seu trabalho, fruto
de vivência intensa de cada questão e fundamentado num conceito direto:
“saber e não esquecer”. Tudo é muito bem registrado para ampla difusão.
Para
denunciar a morte de mais de cinco mil alunos, provocada pela má
qualidade das construções de mais de 700 escolas públicas que não
resistiram à força de um terremoto, Wei Wei ocupou 60 metros corridos do
subsolo, com centenas de toneladas de vergalhões de aço que recolheu
nos escombros, para representar trincas e descontinuidades nos terrenos
afetados pelo fenômeno. Todos eles foram retificados manualmente, com
marretas, por muitos colaboradores, durante vários meses de trabalho. Em
paralelo, mobilizou moradores de todos os lugares atingidos para
conseguir informações sobre cada criança que morreu.
Para
expressar sua solidariedade com as populações de refugiados, lá está um
um enorme barco inflável repleto de crianças e adultos, todos iguais,
usando coletes salva-vidas. Tudo em plástico preto.
Para
criticar aqueles que ficam acompanhando a movimentação dos poderosos da
vez, como fazem os girassóis com a luz do sol, ele mobilizou
trabalhadores e artesãos de uma pequena cidade do interior da China,
durante mais de um ano, para produzir mais de cem milhões de sementes de
girassol, em porcelana pintada à mão. Um terço delas compõe o
desconcertante tapete de sementes, de uns 400 metros quadrados e um
palmo de espessura, que impacta e faz pensar quem vai ao andar de cima
da Oca.
Vitória, 26 de dezembro de 2018.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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