30.9.18
Crônica diária
As jabuticabas
Minha amiga e escritora Betty Vidigal é
uma pesquisadora e curiosa constante. O General Mourão, vice do
Bolsonaro, chamou o 13º salário de jabuticaba. Ela foi atrás para
conferir. E postou sua conclusão. Não é uma jabuticaba. Tem
na Alemanha, dependendo do acordo coletivo, tem na Áustria, na Itália,
na Holanda, em toda a América Latina, e na Espanha se chama Aguinaldo. A origem da palavra Aguinaldo é interessante, disse a Bethy.Vem de hoc in anno, que virou "en este año" e aí virou "aguilando", passando para aguinaldo...
Por
coincidência quando li o seu post estava escrevendo sobre palavras que
não são sinônimos, nem homônimos, e outras que não tem nada a ver com o
que parecem significar. Por exemplo: "Rastilho" é o pavio que conduz
fogo a um artefato com pólvora. Mas seria muito mais lógico se chamasse
"Polvilho". O polvilho, também chamado de fécula de mandioca, carimã ou goma, é
o amido da mandioca.
O polvilho azedo é um tipo modificado por processo de fermentação e
secagem solar, apresentando características bem diversas do polvilho
doce. E o polvilho é uma jabuticaba, até que a Beth prove o contrário.
29.9.18
Crônica diária
Dois comentários
Escrevi
um texto sobre as combinações de nome, e sobrenome, inconvenientes ou
impróprios. O escritor Roberto Klotz fez um comentário perfeitamente
pertinente:
"Os
nomes podem definir destinos. Nomes podem ser escolhidos (ou mal
escolhidos). Não há muita escolha para sobrenomes. Uma amiga rejeitou o
Pinto do marido e escolheu o sobrenome da sogra. O famoso cubista era
Picasso pelo lado materno."
Então respondi:
E
como bom Catalão preferiu o Picasso da mãe do que o sobre nome do pai
Ruiz y Blasco, mesmo porque pretendia fazer mais sucesso do que ele nas
artes.
PS- Note que o Pablo teve
muitos nomes para escolher entre os seus de batismo: Pablo Diego José
Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la
Santísima Trinidad Ruiz y Picasso.
Roberto, você imagina que ele poderia ter feito o sucesso que fez, e faz, se assinasse: Pablo Maria de los Remédios?
Picasso
Roberto, você imagina que ele poderia ter feito o sucesso que fez, e faz, se assinasse: Pablo Maria de los Remédios?
Picasso
28.9.18
Crônica diária
Suaxará
Meu
amigo Nelson de Souza é uma pessoa difícil de definir. Dessas que
surgem em nossas vidas por acaso e quando nos damos conta somos baita
amigos. Para quem não o conhece e para facilitar uma descrição pensem no
jornalista e escritor Merval Pereira. Poderiam ser irmãos. O Nelson
alguns anos mais velho, mas a mesma voz, a mesma postura, o mesmo
bigode. As semelhanças ficam por aí, mesmo porque não conheço
pessoalmente o Merval. O Nelson é gaúcho e usa algumas expressões do sul
que nunca ouvi do seu sósia. Mas fomos almoçar dias atrás em São Paulo,
e levei-o num restaurante japonês que se gaba ser único no mundo:
comida japonesa com trufas como ingrediente principal. Tartuferia
Giapponese, na Alameda Lorena, 1892. Na casa a única nipônica é a host, e
de quarta geração. Uma gracinha de menina. Os outros funcionários são
brasileiros, e idênticos a de todos os restaurantes de São Paulo. A
maioria cearense. Mas o Nelson, que sempre é muito cordial e agradável
perguntou o nome da nissei, quando ela veio à nossa mesa saber se tudo
andava bem. E antes que ela respondesse, deu um largo sorriso, e contou a
história que ouvira da atriz Irene Ravache. Certo dia entrou numa
floricultura e perguntou para a vendedora, japonesa, qual era seu nome? A
moça respondeu Suaxará. Ireni repetiu: Suaxará? A moça confirmou. Nunca
mais chamou-a por outro nome. A moça se chamava Irene.
27.9.18
Crônica diária
Algumas reflexões sobre sexo
Foi no livro, que volto a citar "A única história" do Julian Barnes que encontrei essas definições que transcrevo quase na íntegra:
"Sexo bom é melhor do que sexo ruim."
"Sexo ruim é melhor do que sexo nenhum, exceto quando sexo nenhum é melhor do que sexo ruim."
Sexo solitário é masturbação.
"Sexo triste é muito pior do que sexo bom, sexo ruim, sexo solitário e sexo nenhum. Sexo triste é o sexo mais triste de todos."
Foi no livro, que volto a citar "A única história" do Julian Barnes que encontrei essas definições que transcrevo quase na íntegra:
"Sexo bom é melhor do que sexo ruim."
"Sexo ruim é melhor do que sexo nenhum, exceto quando sexo nenhum é melhor do que sexo ruim."
Sexo solitário é masturbação.
"Sexo triste é muito pior do que sexo bom, sexo ruim, sexo solitário e sexo nenhum. Sexo triste é o sexo mais triste de todos."
26.9.18
Crônica diária
A fórmula
Toda vez que vou a uma galeria de arte, ou museu, e vejo pinturas ou
esculturas que me agradam, bate uma vontade enorme de pintar ou
esculpir. Pintura deixei em 2010 quando fui diagnosticado com
mielodisplasia, ou uma disfunção da medula, provocada pelo chumbo das
tintas a óleo. Havia pintado cinquenta anos. Esculturas ainda cometo de
vezemquando. Mas quando parei de pintar comecei a escrever e hoje quando
estou lendo um bom livro tenho o mesmo desejo que me provocam as
pinturas e esculturas que gosto. Tenho vontade de escrever. Quando leio
uma coisa bem escrita, invejo não ter sido eu o autor. E penso: "como
não escrevi isso antes?" Estou lendo Julian Barnes, e seu livro "A única
história". Lá pela página 53 ele escreve: "...eu tenho uma fórmula para
saber se duas pessoas estão ou não tendo um caso: se você acha que é
possível que estejam, então é porque estão." O que me chamou atenção
para a "fórmula" do personagem é que eu nunca saco quando duas pessoas
estão tendo um caso. Ao contrário, sempre juro que isso não pode estar
acontecendo, e na verdade fico sabendo, muito depois, que estavam. E já
aconteceu o contrário, de achar que estavam, e nunca estiveram.
25.9.18
Crônica diária
Risível, e muito
Tenho leitores e leitoras que me honram e envaidecem muito pela
paciência, delicadeza, inteligência, cultura, educação, e boas maneiras.
Hoje faço aqui minhas homenagens a todos esses leitores na pessoa da
Professora Eni, Enilce Zaiter, que tem mestrado em Linguística:
Étnolinguística na USP 1972/74. Dias atrás postei um texto sobre um
desabafo de uma das sogras do Leonardo, amigo meu. E a crônica terminava
com a sogra saindo de uma delegacia, onde fora fazer um BO de documento
de identidade extraviado, e depois de longa e tediosa espera, sem ser
atendida, resolveu ir embora. Ao sair cruzou com uma loira, vestindo
vermelho, colante e curto, que a sogra pensou tratar-se de uma
prostituta. Era a delegada. Minha simpática leitora e Professora Eni fez
o seguinte comentário: " Risível e muito". Hoje em dia são poucas as
pessoas que se dão ao trabalho de ler. Muitas comentam sem ler ou sem
ter entendido o que leram. E seus comentários muitas vezes são
verdadeiros hieróglifos. Ao contrário do que
se poderia supor as pessoas estão escrevendo muito mais do que antes.
Os equipamentos de comunicação telefônica passaram a ter teclado
alfabético e permitir mensagens escritas: WatsApp. Mas o que é grafado
esta longe de ser em bom português. E eu estou longe de conseguir
decifrar as absurdas abreviações e convenções usadas atualmente. Adorei o
comentário da Professora Eni. Risível, burlesco, cômico, engraçado, gracioso, travesso, chistoso, hilariante, hilário, e muito. Obrigado pelo comentário que através dele agradeço a todos os outros desse nível.
24.9.18
Crônica diária
Ainda sobre Elisa Lynch
Ontem escrevi sobre a fantástica história da amante do Marechal Solano
Lopes. Em conversa com meu amigo e escritor Sebastião Cabral recomendei
vivamente a leitura da biografia da Elisa Linch, como tenho feito com
outros amigos, e de resto, como costumo fazer quando fico empolgado com
um determinado livro. Depois de me ouvir por alguns minutos, onde pude
explicar que tratava-se de uma história cujo cenário é a guerra do
Paraguai, o Cabral, com sua timidez e gentileza que lhe são
características, me presenteou com um dos seus livros. E resumiu seu
conteúdo: a revelação do lado etéreo que provocou exatamente a guerra do
Paraguai. Demos risada da coincidência. Ganhei um carinhoso autógrafo e
ele ficou de procurar nos sebos um exemplar do "Elisa Linch, mulher do
mundo e da guerra". O meu exemplar já passei a diante. Livro bom tem que
circular.
23.9.18
Crônica diária
Elisa Lynch, mulher do mundo e da guerra
O autor é o economista e jornalista gaúcho Fernando Baptista (1920 -
1993) que descreve sobre o ponto de vista da irlandesa, amante do
Presidente Marechal López, a guerra do Paraguai. Uma biografia deliciosa
de ser lida. Elisa, mulher de beleza inconfundível, que um dia sonhou
ser imperatriz, foi a mulher mais rica da América, deu seis filhos para o
Marechal Lópes, e foi uma valente companheira em todos os cinco anos de
guerra contra a tríplice aliança da Argentina, Uruguai e Império do
Brasil. Não há na literatura de ficção uma personagem tão instigante.
Vale a pena ler esse delicioso livro.
22.9.18
Crônica diária
A campanha do Geraldo Alckmin
Acredito que tenha sido a três ou quatro anos, que escrevi uma frase,
após uma viagem ao interior de São Paulo, e perdi um velho amigo, e ex
colega de Cataguases. "São Paulo é uma ilha cercado de Brasil por todos
os lados". Foi o bastante e suficiente para JLF contestar, e desaparecer
para sempre. Ofendido. Mineiro morador de Niterói achou a frase uma
afronta. Volto quatro anos depois, de carro para visitar minha filha e
netos, à cidade de Ribeirão Preto. Trezentos quilômetros da capital,
pela rodovia dos Bandeirantes e Anhanguera. Só prazer. Estradas de
primeiro mundo. Sinalização impecável. Asfalto mantido por
concessionárias que fazem jus ao que cobram de pedágio. Uma demonstração
cabal e definitiva que a iniciativa privada é mais competente,
eficiente e econômica que o poder público. Mas não são só as rodovias
que diferem do resto das do país. A paisagem, a agricultura, e as
cidades, no seu entorno, fazem a diferença. Na pior crise econômica por
que passamos, o interior paulista parece esbanjar abundância. Tratores e
máquinas agrícolas novas por todo lado. E fico pensando como um
político, que foi diversas vezes governador desse estado, esta se
sentindo em campanha nas águas de Marajó, ou no interior do Acre,
Rondônia, e de todos os outros estados brasileiros. No Brasil profundo.
Estagnado. Carente. Atrasado. E em sua maior parte, desiludido. Que
tarefa difícil é governar o Brasil. E a pesar disso com tantos
candidatos, na maioria completamente despreparados, tentando chegar ao
cargo.
Crônica do Alvaro Abreu
Tá difícil, dificílimo
Já completei 70 anos e, pela lei, não sou obrigado a votar nas próximas eleições. Não chega a ser uma vantagem, mas pode representar uma opção diante de um quadro de candidatos a presidente que me traz uma grande dose de desânimo e desencanto.
Pensando bem, isso de ser mais velho tem, como decorrência natural, forte impacto no nosso processo decisório. Seja porque já vivenciamos muitas situações, seja porque não demos sorte, seja por que não conseguimos aproveitar as oportunidades que tivemos ou por já termos sofrido na pele as consequências das nossas escolhas.
Os acontecimentos que mais nos marcam são aqueles que impactam negativamente nos nossos valores de vida, nos nossos hábitos e na nossa percepção de mundo.
Engenheiro que sou, não entendo muito das coisas da psicologia e afins, mas acredito que somos movidos tanto pelos traumas e dores como pelas alegrias que tivemos e palmas que recebemos. Aprendi que os homens decidem por vontade de ganhar e, sobretudo, por medo de perder. Sabendo disso, inteiramente cientes das próprias forças e fraquezas, os candidatos fazem de tudo para validar verdades e promessas de campanha, douradas por poderosas técnicas de marketing político, apostando alto na possibilidade de seduzir corações pulsantes e mentes desavisadas. E aqui é que se instalam as minhas piores emoções eleitorais, se é que existe esse tipo de emoção.
Nesta disputa para eleger um presidente para governar o país em crise e sem dinheiro, vejo a população sendo induzida e mobilizada a se posicionar radicalmente, seja contra ou a favor de mocinhos, bandidos e salvadores da pátria. Ânimos exacerbados e atitudes virulentas não se prestam a construir e viabilizar a convivência de legítimos interesses antagônicos e a tolerância de valores individuais e coletivos, próprias da democracia. Na polarização que vem se armando, me sinto em meio a uma verdadeira guerra de slogans e palavras de ordem, que deverá se acirrar depois das eleições e pode se manter por anos. Uma guerra duradoura e paralizante. Dá medo só de pensar.
Vitória, 19 de setembro de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
21.9.18
Crônica diária
A bicicleta do padre
Quem conta esta história é o escritor Juian Barnes, no livro " A única
história". Esta de Malta, não é a história central do livro, mas
transcrevo porque achei-a singela. Em Malta onde o povo é muito
religioso e a Igreja católica é toda poderosa e todo mundo muito
obediente, os preservativos são proibidos e só aos contrabandeados os
moradores tem acesso. As jovens que se casam e demoram um ou dois anos
para engravidar, ou as casadas que querem ter mais um, e as preces não
resolveram, se valem do padre, que vem com sua bicicleta, estaciona na
porta principal do lado de fora da casa para que todo mundo -
principalmente o marido - saiba que não deve interferir enquanto a
bicicleta não for embora. E quando, nove meses depois - embora, é claro,
às vezes sejam necessárias várias visitas - a família é abençoada, e
essa bênção é conhecida como " o filho do padre", e considerada um
presente de Deus. Há famílias com mais de um filho de padre.
20.9.18
Crônica diária
"Solução razoável"
A empresa Bookwire, maior distribuidora de livros digitais esta cortando
acesso da Saraiva e Livraria Cultura dos seus catálogos, por falta de
pagamento há mais de sete meses. A Saraiva alega que "renegociar prazos é
rotina do varejo e que trabalha em uma proposta de solução razoável".
Essa é a triste situação do mercado de livros no Brasil. Infelizmente.
19.9.18
Crônica diária
Você é o culpado
Puxa, quanta coisa tenho para contar, e tem gente que me pergunta como
arrumo assunto para todas as crônicas, todos os dias. É o contrário,
fico ansioso para que leiam tudo que escrevo, e escrevo compulsivamente,
chegando a ter um mês de crônicas prontas, esperando seu dia para serem
postadas. Muitas vezes uma simples palavra lida em algum lugar é motivo
para um texto. Por exemplo: "escandir" que significa "separar" me levou
a pensar numa crônica tratando da maneira particular com que o Geraldo
Alkimin fala escandindo as sílabas. Nem sempre tenho certeza de que o
assunto vai agradar. Mas escrevo prioritariamente para mim. Não tenho
obrigação, nem compromisso, com ninguém. Só essa liberdade quanto não
vale? A maioria dos cronistas tem contratos, prazos, e um patrão, ou
chefe, que lhes cobram. Assim é para quem escreve em revista, jornal,
rádio e TV, além das mídias digitais. Eu não. Só tenho obrigação, que
virou um grande prazer, de postar, toda manhã, uma dúzia de linhas, que
outra dúzia de leitores esperam que eu poste. Estou me realizando
fazendo aquilo que adorava ler quando era um jovenzinho. As crônicas do
LM (Luiz Martins), no Estadão, Rubem Braga, Fernando Sabino, e tantos
outros que eram meus ídolos. E acho que no fundo da alma desejava: "um
dia vou fazer isso". E o destino me colocou às mãos os blogs, depois o
Facebook, e acabei juntando a cada 300 crônicas, que correspondem a 300
dias corridos, num livro de papel. Continuo duvidando desse dito arquivo
nas nuvens. Para mim elas ainda só servem para fazer chuva. E com isso
já tenho quatro livros de crônicas publicados. O quinto lanço nos
primeiros dias de Outubro, "Intimidades crônicas" com prefácio de Alvaro
Abreu. O sexto no início do próximo ano com o título "Pretextos", e
tomando carona no título, coloco na capa uma tela e uma escultura minha.
O sétimo, que já esta com 300 textos, e tem por título "Cronicante",
sai no fim de 2019. Em seguida o "Oitavo, livro de crônicas" em 2020. E
o grande responsável é você, meu caro leitor. Esqueci de dizer que além
dos livros de crônicas publiquei nos últimos seis anos um quase
romance, três livros de contos, um sobre blogs, e dois de poesias. Não
foi pouca coisa.
18.9.18
Crônica diária
Então por que escrever?
As redes sociais acabam de demonstrar de maneira inequívoca e definitiva
que um par de peitos, de pernas, ou mesmo uma bunda, faz mais sucesso do
que uma boa ideia, um bom texto, uma boa reflexão. E olhe que não
estamos comparando uma boa ideia com um bom peito. Qualquer peito, bunda
ou pernas ganha em comentários, curtidas e compartilhamentos na
internet, ao contrário do bom texto. Queiram ou não as feministas. Mas
isso não é novidade nenhuma, a revista Playboy nunca trocou uma
coelhinha despida por um texto na capa. E não foi por acaso.
17.9.18
Crônica diária
"O perfeito cozinheiro das almas deste mundo"
Esse é o título do
livro coletivo, posteriormente publicado em nome do Oswald de Andrade, e que
você pode comprar nos sebos por R$90,00 a R$1 600,00 a Edição Fac-Similar.
Trata-se do livro do hall de entrada da "garçonnière" do Oswaldo e
sua turma, composta basicamente de Monteiro Lobato, Vicente Rao, Léo Vaz,
Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Ignácio da Costa Ferreira. A sala
de 42 metros na Rua Líbero Badaró, 67 -3º andar, sala 2 era onde Oswald e a
bela moça de dezenove anos, Miss Ciclone, normalista vinda do interior do
estado, se encontravam. No livro, todos que frequentavam o apartamento,
deixavam reflexões, recados, poemas, desabafos, ideias, caricaturas, recortes,
piadas, provocações, reportagens, diversas colagens. Era o início de 1918 e
essa turma estava criando o que hoje poderia ser chamado de blog, uma obra
interativa, social, coletiva e aberta. São os primeiros passos de uma geração
que criou o movimento modernista e da Semana de Arte Moderna de 1922. É
lá também que Oswald faz seus primeiros esboços do seu Miramar,
personagem que ganhará seu livro próprio em "Memórias Sentimentais de João
Miramar", publicado anos depois, em 1924. Além de toda efervescência
cultural, brota das páginas do diário uma história de amor. Deisi, a Miss
Cíclone, que é desejada por todos os frequentadores será a protagonista do
desenrolar poético e fatalista desse romance. Nas palavras de Haroldo de
Campos, a heroína ganha status de "pré-Pagu" ou ainda a espécie de
"ghost writer" desse agendário coletivo, dessa escritura
originariamente plural, que flui por revezamento e contraste, por idílio e
trocadilho, ponteio e contraponto, exercício estilizante e mordacidade
paródica. É uma pioneira da mulher liberada, independente. Na época tinha outro
nome.
*Os dados aqui
citados foram colhidos do texto de Luis Antonio Giron, e publicados na Folha de
SP.
16.9.18
Crônica diária
O pernil ou a vida
Era
aniversário de sua filha de quatro anos. Os preparativos começaram
semanas antes. Por sugestão de uma comentarista da rádio CBN resolveram
servir no almoço do sábado um pernil do Bar e Lanches Estadão. É
considerado o melhor sanduíche de pernil de São Paulo. Na véspera por
telefone encomendou o pernil que pesa seis quilos em média, e mais os
molhos, uma salada de batata, farofa e arroz. Ficou de apanhar as dez do
dia seguinte. Antes de ir buscar o almoço passou num supermercado e
comprou cerveja, refrigerantes, vinte mini pão francês, e uma vela com
número 4. O bolo a mulher fez questão de fazer em casa. Dez e vinte
estava com toda a compra no carro. Por sugestão do funcionário do Bar o
pernil foi colocado no banco traseiro. Não convém colocar no porta mala
para não ressecar. E porque também estava cheio com as compras do
supermercado. Duas esquinas a diante, num semáforo, parou u´a moto com
uma pessoa na garupa que apontou a arma dizendo:
--Passa o pernil, ou morre.
E
sem ele ter tempo de qualquer reação o da garupa, com arma em punho
abriu a porta traseira, pegou o embrulho com o pernil, largou a porta
aberta e fugiram com a moto.
Ele
desceu, ainda aturdido com o assalto, fechou a porta, fez um gesto de
desculpa para o motorista que estava atrás, se desculpando pelo
incômodo.
O ódio, a raiva e a tristeza tomaram conta. Suas pernas tremiam.
Meia
hora depois chegou em casa e contou o ocorrido para a mulher. Ela o
abraçou, e disse que o importante era que ele estava vivo. Vamos comprar
presunto e queijo e colocar no lugar do pernil.
15.9.18
Intimidades crônicas
Capa
Capa, lombada e contracapa
Capa, lombada e contracapa
Minha mulher disse outro dia que eu gosto mais de fazer capas do que escrever livros. Ela tem uma dose de razão. Desde que o maior capista brasileiro Helio de Almeida resolveu me ignorar fui obrigado a criar minhas próprias capas. E peguei gosto. Perdi a "vergonha", e estou achando a maior graça em produzi-las. Se são comerciais, se são antiquadas, se são apelativas não tenho a menor ideia. Elas me agradam, e ponto. Desta, especialmente gosto muito. Meu filho Guilherme, que não participou da criação desta me disse ser a melhor de todas. Vocês vão se cansar de vê-la em meus blogs. O livro estará nas minhas mãos a partir dos primeiros dias de Outubro. O conteúdo são 301 crônicas postadas no ano de 2016. Uma delícia ler agora o que na época chamávamos de futuro. Mas isso quem vai poder confirmar são meus leitores. Como novidade um importante prefácio do escritor e cronista Alvaro Abreu. A história da capa esta no texto da contracapa. Vale a pena conhecer.
Crônica diária
O retrato do momento
Acaba de sair a pesquisa Data Folha três semanas antes das eleições de 7
de Outubro. Para os leitores que me acompanham, e para manter minha
coerência, sou obrigado a confessar que errei redondamente não
acreditando, ou não querendo acreditar, no candidato capitão reformado
Bolsonaro. Primeiro ignorei sua postulação. Depois lamentei sua
candidatura. Por fim nunca poderia acreditar que ele, despreparado como
é, conseguisse polarizar a direita e boa parte dos eleitores de centro.
Eu vaticinava que o segundo turno seria entre o PT e o Geraldo Alckmin.
Errei mais uma vez. O Geraldo não esta conseguindo despontar para um
segundo turno. É lamentável. Já não tenho esperanças que ele consiga
superar o Haddad, e ou Ciro, nesta disputa. E nesse caso nem o voto útil
a seu favor, contra a volta do PT vai funcionar. Vamos ter, salvo um
novo acidente de percurso, um segundo turno com Bolsonaro e Haddad. E
imaginem vocês, meus leitores, vamos ter que votar no Bolsonaro. Quem
diria!
14.9.18
Crônica diária
Lobos solitários, idiotas e canalhas
Lee Oswald (1963), Manso de Paiva (1915), Mark
Chapman (1980), e agora Adélio Bispo de Oliveira, só para citar alguns
dos idiotas, e canalhas, assassinos do Kennedy, Pinheiro Machado, John
Lennon, e da tentativa de morte do candidato a presidente, Bolsonaro,
tem em comum alguns pontos. Todos praticados por pessoas de passado com
confusões mentais. Idiotas. Todos cometidos por canalhas sem motivação
política partidária ou razões supervenientes. Em todos os casos houve a
suspeita de conspiração, crime encomendado, nunca comprovados. Não é
diferente no atual e grave caso de Juiz de Fora. Há sempre fatos,
detalhes e indícios que levam a imaginação popular, inflamada por
correligionários e parentes das vítimas, desenvolver teorias absurdas.
Não há acidente aéreo, onde morram políticos importantes, que não seja
criminoso. Aliás não há morte de político, mesmo em desastre terrestre
na Dutra (JK) que não seja passível de absurdas ilações. Assim também
foi com a morte do marechal Humberto Castelo Branco, João Goulart,
Carlos Lacerda, Ulisses Guimarães senador Severo Gomes, candidato a
presidente Eduardo Campos e tantos outros. Até o suicídio do Getúlio tem
gente que põe dúvida e defenda, mais uma vez a absurda tese de uma
grande farsa, inclusive a carta testamento. Como tem gente que acredita
que Elvis não morreu.
13.9.18
Crônica diária
Morreu Wagner Domingues Costa
Você já ouviu falar dele? E do Mr. Catra? Não também? Eu nunca havia
visto ou ouvido falar desse funkeiro que nasceu há 49 anos no morro do
Borel e cesceu na rua Dr. Catrambi, zona norte do Rio. Vem daí seu
apelido de Mr. Catra. Por que escrever sobre sua morte? Porque nunca vi
o jornal da Globo News dedicar 32 minutos consecutivos sobre a morte de
nenhum artista. E ao trocar de canal para a Band News, lá estava a
notícia no ar. Pelo visto só eu não o conhecia, ou não sabia quem era o
Mr. Catra. No dia seguinte, 10 de Setembro de 2018, o jornal Folha de
São Paulo dedica uma página inteira ao músico e cantor. Dela pincei umas
frases do artista: "Eu sou um homem de muitas mulheres, mas sempre das
mesmas muitas mulheres". "Quer romance? Compra um livro. Quer
felicidade? Compra um cachorro. Quer amor? Volta para a casa da mamãe."
"Se tudo der certo, hoje vai dar merda". "Na guerra urubu é frango."
"...deixa eu fazer meus filhos." (Teve 32 filhos). Quando questionado
por sua infidelidade respondia: "Querem me rastrear, coloquem um chips
no meu pinto." O jornal Estadão foi mais econômico ao noticiar a morte
do Mr. Catra, deu um quarto de página.
12.9.18
Cronicante
Essa será a capa do livro de crônicas que completou ontem trezentos textos, e que será publicado em 2019, depois do PRETEXTOS no primeiro semestre. A capa dele também já esta pronta.
Hoje iniciasse outra série de 300 crônicas que serão publicadas sob o título de OITAVO livro de crônicas em 2020. Todos pela Piacaba Editora.
Hoje iniciasse outra série de 300 crônicas que serão publicadas sob o título de OITAVO livro de crônicas em 2020. Todos pela Piacaba Editora.
Crônica diária
Baita saudade
Ontem falei da exposição onde uma grande e importante tela da amiga Myra Landau esta exposta. Deu muita saudade da recém falecida artista plástica. Saudade que me bate, de amigos como Vicenzo Scarpllini, design gráfico e artista plástico que veio da Itália e deixou muitos amigos na cidade de São Paulo onde morou e morreu. Saudade do maior blogueiro que conheci, Jacinto Gomes, português de Lisboa, com quem tive a honra de tomar aulas sobre a arte e arquitetura da cidade portuguesa. Três pessoas que me fazem muita falta, e cuja saudade só faz aumentar.
12 de Setembro de 2018
Ontem falei da exposição onde uma grande e importante tela da amiga Myra Landau esta exposta. Deu muita saudade da recém falecida artista plástica. Saudade que me bate, de amigos como Vicenzo Scarpllini, design gráfico e artista plástico que veio da Itália e deixou muitos amigos na cidade de São Paulo onde morou e morreu. Saudade do maior blogueiro que conheci, Jacinto Gomes, português de Lisboa, com quem tive a honra de tomar aulas sobre a arte e arquitetura da cidade portuguesa. Três pessoas que me fazem muita falta, e cuja saudade só faz aumentar.
12 de Setembro de 2018
11.9.18
Crônica diária
Fui ao
Sesc de Pinheiros, em São Paulo, visitar uma exposição de arte denominada
" O Outro Trans Atlântico". Com curadoria de Marta Dziewanska, Dieter
Roelstraete e Abigail Winograd, a mostra foi organizada pelo Museu de Arte
Moderna de Varsóvia em 2017, tendo passado pelo Garage Museum of Contemporary
Art em Moscou em 2018.
A
exposição examina um breve momento, embora historicamente significativo, na era
pós-guerra, quando artistas da Europa Oriental e América Latina compartilharam
um entusiasmo por Arte Cinética e Op Art. Essa tendência representou uma
alternativa e um desafio para o consenso crítico da arte dominante no Atlântico
Norte. Enquanto o Expressionismo abstrato, a Arte Informal e a Abstração lírica
reinavam supremos nos centros de arte estabelecidos de Paris, Londres e Nova
York, um capítulo distinto da história da arte estava sendo escrito, ligando os
pólos de Varsóvia, Budapeste, Zagreb, Bucareste e Moscou com Buenos Aires,
Caracas, Rio de Janeiro e São Paulo.
Uma rede
de práticas artísticas foi forjada, seus artistas se comprometeram com um
conjunto inteiramente diferente de questões estéticas surgidas no contexto de
realidades políticas e econômicas análogas. O florescimento da Arte Cinética e
da Op Art nessas regiões foi, em grande parte, uma manifestação de fascínio pelo
movimento, seus efeitos estéticos e as oportunidades dinâmicas que gerou,
criando novas possibilidades para o engajamento do público.
Desde
modo, a mostra apresenta obras de mais de 40 artistas e coletivos vindos de
ambos os lados do Atlântico, apresentados em uma narrativa que reflete fatos
comuns entre seus interesses e intuição criativa. Através de um foco em
arte que ultrapassou objetos estáticos e definições claras do papel do artista,
o caráter de uma obra de arte e o papel do espectador, a exposição tenta
reescrever um capítulo marginalizado da história da arte após a Segunda Guerra
Mundial através da uma perspectiva geopolítica diferente.
Em São
Paulo, a mostra organizada pelo Sesc SP, em colaboração com o Museu de
Arte Moderna da Varsóvia, com o Museu de Arte Contemporânea
Garage; Instituto Adam Mickiewicz e com a Casa Sanguszko de Cultura
Polonesa, seleciona além das obras originalmente apresentadas em Varsóvia e
Moscou, um maior número de obras de arte da América Latina, tendo contado com a
colaboração da pesquisadora Ana Avelar.
Uma tela
cedida pela Pinacoteca de São Paulo, da artista e minha amiga MYRA LANDAU, faz
parte da exposição.
10.9.18
Crônica diária
Bolsonaro entre "árabes" e judeus
Curiosamente a grande imprensa, principalmente televisiva, não comentou o
fato. A Folha de São Paulo foi o único jornal a faze-lo, mas com
discrição. O que corre solto nas redes sociais, e repercute na imprensa é
o fake, o falso, as teorias da conspiração. Horas depois do idiota
(aqui significando "confuso mental') ter esfaqueado o capitão candidato a
Presidente, a página do canalha Adélio Bispo de Oliveira no facebook,
foi montada com fotos e depoimentos completamente falsos. Ele não era
petista, e nunca participou de comícios do Lula. Tudo fake. E exatamente
quando a imaginação dos apoiadores e contrários ao candidato esfaqueado
inventavam imagens fotoshopadas e inverdades absurdas, a família, e o
núcleo próximo ao candidato divergiam e disputavam o hospital que
deveria tratar de sua recuperação. Duas correntes se formaram: a que
defendia a internação no hospital Sírio Libanês, destino de muitos
presidentes e políticos importantes, principalmente os petistas que
estiveram recentemente doze anos no poder, e nunca optaram pelo SUS, em
detrimento do hospital Sírio Libanês de São Paulo. Uma equipe da unidade
da UTI desse hospital foi mandada para Juiz de Fora, e lá chegou perto
da meia noite. As notícias divulgadas só falavam de uma eventual
transferência para esse hospital, e isso após a liberação da equipe que
operou o candidato, que não cogitava do assunto. Diga-se de passagem,
equipe muito elogiada por todos médicos. Ao mesmo tempo apoiadores
judeus, que são maior número, argumentavam que a internação no Sírio
Libanês faria do Bolsonaro mais um político, igual a todos os outros, a
se valerem desse hospital. Bolsonaro queria um hospital do exército. Mas
prevaleceu o Einstein, com a presença do Dr. Antônio Macedo, considerado
um dos maiores cirurgiões especialistas nessa área. Como ele atende no
Einstein, o grupo de judeus venceu os Sírio Libaneses. Mas houve bate
boca, e a Folha noticiou o fato. O resto é fake.
9.9.18
Crônica diária
Canalhas idiotas
Não inventem teorias de conspiração. Já em 1915 um idiota matou com um
punhal Pinheiro Machado, e quiseram encontrar um motivo político, um
mandante, e nada foi encontrado. Ao ser apunhalado Pinheiro Machado
exclamou: "Ah! Canalha". Manso de Paiva tomou 20 anos de condenação. Em
1940 Millôr encontra o idiota chupando mexerica, e cuspindo as sementes
no chão, na entrada do edifício da revista O Cruzeiro. Adélio Bispo de
Oliveira é outro idiota que 103 anos depois esfaqueia um candidato que
lidera as pesquisas de voto para Presidente da República. E o Bolsonaro
nem chamou-o de canalha. E nem os que tentam fazer parecer que é parte
de uma conspiração da esquerda contra a direita. Não passa de um
canalha, idiota como era o Manso de Paiva.
8.9.18
FLORES PARA A DELEGADA

No meu mar de livros
pesquei
o “Flores para a delegada”.
Você montou uma estrutura ótima. Intercalando informações sobre os
personagens enquanto a história avança. Seus ganchos de amarração –
continuísmo/ criação de expectativa – funcionaram muito bem. Eu não
saberia fazer melhor. Parabéns.
Gostei da possibilidade de o “caso do florista” ter alguma possibilidade
de ser o advogado que enviara flores para a delegada. A expectativa
poderia ter sido mais explorada.
Senti firmeza e verossimilhança e cativou-me o bom gosto do advogado:
Sessa Fly 45, jantar no Parigi (faltou o prato escolhido) e a seleção
musical (pg 72). Até eu me apaixonaria por ele. Hahaha.
Para a delegada faltaram credenciamentos. Exemplos de comando ou
atividades policiais. Talvez o manuseio da pistola e algum detalhe do
cenário da delegacia.
Enquanto digito este feedback, ouço Michael Feinstein em "The More I See
You".
Parabéns, cronista e escritor.
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )

Foto de Claudinha Kuser - Setembro 2018












