Crônica diária
Pescaria no Uruguai
No Natal e fim do ano de 2011 Paula, minha mulher e eu nos programamos
passar pescando no Rio Uruguai. Ela estava em São Paulo, foi de avião
para Florianópolis, e de lá pernoitamos na Piacaba, nossa casa em
Imbituba, e de carro seguimos para o sul. Sem pressa. Comendo e dormindo
sem reservas. Nessa época do ano os restaurantes e hotéis estão vazios.
Quando chegamos na ponte onde há a aduana da fronteira com o Uruguai,
estacionei o carro. Peguei o documento da Paula, os do veículo e fui ao
guichê cumprir as formalidades legais. Entreguei tudo ao funcionário,
que como todos que exercem essa função usam óculos Raiban, e em geral
não esbanjam simpatia. Começou pelo da Paula. Juntou todos e me devolveu
dizendo: "Só com Passaporte ou Carteira de Identidade". Assustado ainda
tentei argumentar que a Carteira de Motorista tinha foto e o número do
RG, mas foi em vão. Não pude nem insistir. É lógico que país nenhum do
mundo aceita carta de motorista como documento válido, a não ser para
dirigir. Voltei para o carro. Perguntei se ela não tinha trazido nenhum
outro, e com a negativa, manobrei e voltamos para alguma cidade próxima
da fronteira onde houvesse um posto de correio. Pelo celular, que ora
não tinha sinal, ora o sinal era débil, pedimos para o filho da Paula,
que na época morava em casa, em São Paulo, fosse a uma agência dos
correios com o Passaporte e Identidade da mãe e colocasse num Sedex 10,
único capaz de chegar a tempo. Véspera do dia 25, clima de Natal. E em
poucas horas ficamos sabendo que o tal Sedex 10 só opera em cidades com
aeroporto. A mais próxima era Santa Maria. Muitos quilômetros de
distância faziam diminuir nossas esperanças do plano dar certo. E não
deu. Resolvemos não azedar nosso fim de ano, procurando um hotel, sem
ter a mínima ideia da geografia da cidade. E na portaria nos indicaram o
único restaurante aberto aquela noite, véspera de Natal. O restaurante
era enorme, com apenas uma mesa com adultos e crianças de uma família.
Procuramos sentar o mais longe possível, para evitar o barulho delas. Lá
pelas tantas percebo que um indivíduo falando alto e grosso sentou na
mesa pegada à nossa. Com tanta mesa, foi logo sentar nas minhas costas. A
Paula que estava de frente foi descrevendo as razões pelas quais as
crianças da outra mesa estavam tão agitadas. Era um senhor muito gordo,
com vasto bigode e barba brancos, e cabelo grisalho, preso num
"rabo-de-cavalo". Acompanhava o "Papai Noel", sem a tradicional roupa
vermelha, um garoto de quinze anos. Comemos peru. Afinal era Natal.
Terminado o jantar nos preparamos para passar pela mesa com a maior
discrição possível, uma vez que pela altura da voz, nos parecia que o
homem estava alcoolizado. Ao cruzar a mesa ouvi: " Eduardo?" Não era
possível. Quem poderia me conhecer em Santa Maria, no Rio Grande do Sul,
numa noite véspera de Natal? Dei meia volta, e num tempo que deve ter
durado segundos, mas me parecia uma eternidade, olhando nos olhos do
velho barbudo disse: "Não estou te reconhecendo". Ele abriu um largo
sorriso e se apresentou: "Sou o Ricardo Franco de Mello". Não podia
acreditar. Fomos amigos de infância e não nos víamos a mais de cinquenta
anos. Ele disse ter me reconhecido porque eu era a cara do meu pai.
Nossos pais e irmãos eram muito amigos. Apresentei a Paula, ele o
garoto, seu enteado, e nos justificamos por estar em Santa Maria naquela
noite. Cada história menos verossímil do que a outra. Abraçamo-nos,
trocamos números de telefone e prometemos encontrarmo-nos ainda antes do
próximo século.

Um comentário:
Até no Polo Norte ( ou Sul ) podemos ser "apanhados" !...
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