31.1.18
Crônica diária
Betty Vidigal e 38 contos
O título do livro que reúne os trinta e oito contos é Triângulo. Ela é
filha de poeta, é poeta, mulher paulista, escritora, tradutora,
roteirista, conduz oficinas literárias, membro de júri de concursos
literários, e trabalha com textos, para escritores e empresas. Antes
disso tudo foi colega da minha irmã Elisa, e muito depois cursou Física
na USP. Professora de Desing de Interiores, e depois formou-se em
jornalismo. Triângulo é seu quinto livro. Ao contrário dos ângulos e
pontas de um triângulo, escaleno, ou isósceles, os contos da Betty são
macios, redondos, inesperados, sensuais, bem humorados, improváveis,
sonoros, ilusórios, divertidos, mas acima de tudo muito bem escritos. De
leitura fácil e excitante. Um convite para percorrer toda a sua obra
poética e de prosa. Uma autora que dá a importância e colorido exato a
cada detalhe, sem perder de vista o conjunto.
30.1.18
Crônica diária
"Entre sem bater"
Esse é o título de um conto do livro "Triângulos" da Betty Vidigal sobre
o qual falarei oportunamente. Mas a leitura do conto imediatamente
remeteu-me a uma história verdadeira que vou contar omitindo o nome dos
personagens por motivos óbvios. Na usina de açúcar o acionista
majoritário era um rei. Respeitado, temido, odiado ou amado, não passava
desapercebido. Era o todo poderoso. Ainda mais quando não era herdeiro
do império. Já estava na casa dos sessenta, e no escritório da usina sua
sala era ampla toda forrada de lambri escuro. Sobre a porta pelo lado
de fora havia uma lâmpada vermelha. Ela era acionada por um botão fixo
na parede atrás da mesa do usineiro, à um metro do chão. Sua secretária
tinha mesa no salão em frente a porta e a luz. Não entrava ou saí, por
essa porta, ninguém sem estrita ordem dela. E zelava muito por essa
autoridade. Havia na sala do chefe uma outra porta externa por onde ele
entrava e saía, e só ele tinha a chave. A luz vermelha acesa era sinal
de que ninguém poderia entrar pela porta do salão. Nem a secretária.
Isso era sagrado. Certo dia no final da tarde a zelosa secretária se viu
em papos de aranha. A luz vermelha começou a piscar. Acendia e apagava,
acendia e apagava numa velocidade inédita, e num ritmo curioso. Nunca
acontecido antes. A secretária estranhou, ficou uns instantes com os
olhos fixos na lâmpada imaginando que poderia ser só um mau contato. Em
fração de segundos lhe ocorreu que poderia ser uma emergência. Por fim
assustada, não resistiu, e correu para a porta. Abriu com cuidado uma
fresta e lá estava o usineiro de costas, calça arriada, abraçado numa
mulher cuja bunda, inadvertidamente, mas num ritmo compassado, apertando
e soltando, apertava e soltava o botão da luz vermelha.
29.1.18
Crônica diária
Você sabe o que é ortoépia? E cacoepia?
Viver e aprender. Em muitos casos cultivar uma cultura inútil. Por exemplo: vivi 74 anos sem saber que nós brasileiros cometemos muitos erros de ortoépia. E não dei-me conta disso. Mas vamos ao que interessa: ortoépia é um erro na articulação dos grupos vocálicos ou dos fonemas consonantais. Em outras palavras, está relacionada com a perfeita emissão das vogais, a correta articulação das consoantes e a ligação de vocábulos dentro de contextos. Erros cometidos contra a ortoépia são chamados de cacoepia. E para se compreender o que é isso, lá vão alguns exemplos. A palavra correta é trouxa. Mas há quem fale troxa. Advogado, e não adevogado, adivinhar, e não advinhar. Esses são alguns erro de ortoépia, cacoepias.
Viver e aprender. Em muitos casos cultivar uma cultura inútil. Por exemplo: vivi 74 anos sem saber que nós brasileiros cometemos muitos erros de ortoépia. E não dei-me conta disso. Mas vamos ao que interessa: ortoépia é um erro na articulação dos grupos vocálicos ou dos fonemas consonantais. Em outras palavras, está relacionada com a perfeita emissão das vogais, a correta articulação das consoantes e a ligação de vocábulos dentro de contextos. Erros cometidos contra a ortoépia são chamados de cacoepia. E para se compreender o que é isso, lá vão alguns exemplos. A palavra correta é trouxa. Mas há quem fale troxa. Advogado, e não adevogado, adivinhar, e não advinhar. Esses são alguns erro de ortoépia, cacoepias.
Comentários que valem um post
- Superar Traição disse...
-
Um gato fazendo ARTE... kkkkkkkk
-
sábado, 27 de janeiro de 2018 19:42:00 BRST
- **********************************************
28.1.18
Crônica diária
Minha tolice sem fim
Há dez dias escrevi sobre as possibilidades que a natureza oferece de
nascer, a todo instante, um gênio. Uma leitora, que se considera um
desses gênios, e costuma fazer comentários óbvios e estapafúrdios,
deu-me uma lição impressionante. Transcrevo para dividir com meus
leitores toscos, como eu, a sabedoria desse gênio:
"O mundo humano não é construído somente de Picassos, Pavarrottis, samurais e gênios da ciência e tecnologia.
O mundo humano também é construído por mãos anônimas e trabalhadoras que se colocam diariamente na faina incessante para nos fornecer as milhares de coisas que nos proporcionam segurança, saúde, lazer, alimentos, etc.. Se os recém-nascidos se tornarem mulheres e homens honestos e trabalhadores será maravilhoso.
O mundo humano também é construído por mãos anônimas e trabalhadoras que se colocam diariamente na faina incessante para nos fornecer as milhares de coisas que nos proporcionam segurança, saúde, lazer, alimentos, etc.. Se os recém-nascidos se tornarem mulheres e homens honestos e trabalhadores será maravilhoso.
Se não forem tocados pela genialidade não tem importância alguma."
Meus leitores devem estar surpresos, como eu fiquei, com
as revelações inéditas e absolutamente originais do pensamento exposto
acima. E penitencio-me por não ter abordado o tema de forma inversa, ou
seja: Fui conhecer uma criança recém-nascida, que com quase toda certeza
vai ser um trabalhador honesto e maravilho, que produzirá segurança,
saúde, lazer, alimentos e etc... por conta de total falta de sorte, DNA,
e meio em que nasceu e será criado. Ou pela falta de um desses
requisitos. Apesar disso, esse ser é maravilhoso e fará parte de 99,99%
da população mundial. Os outros 0,01% estarão divididos em dois grupos.
Um grupo menor, por conta da sorte, do DNA, ou do meio onde nasceram e
foram criados serão gênios como Picasso, Pavarotti, samurais, iluminados
da ciência, tecnologia. e nos esportes. O outro grupo muitíssimo maior
dentro desses 0,01% serão bandidos, assassinos, corruptos, e seres
desprezíveis, mais uma vez por falta de sorte e nessa ordem, meio onde
nasceram e foram criados, educação, educação, educação e DNA. Se eu
tivesse escrito meu texto com esse enfoque, talvez a leitora tivesse
outras brilhantes e contundentes observações a fazer, como de costume.
27.1.18
Crônica diária
Na levada de Lydia Davis
Fui a um hospital agendar um
procedimento na próstata. A atendente perguntou se eu tinha plano de saúde e
qual era. Passei o cartão do plano e disse: "Só espero que eles não digam
que é uma "cirurgia estética" e que o plano não cobre."
Crônica do Alvaro Abreu
Caixinha de utilidades
Fazendo
carinha de anjo, Manu, minha neta mais velha, me pediu que fizesse um
kit completo de colheres para levar pra São Paulo. Ela adora inventar
moda na cozinha e já aprendeu a fazer gelatina, sopa de legumes e broa
de milho. Trabalhei uma manhã inteira e fiz até rolinho para esticar
massa. Ao lembrar que ela vai ficar sem poder usar o que existe de bom e
aproveitável no meu armário de ferramentas, resolvi separar um pequeno
arsenal de utilidades para que ela possa usar quando quiser fazer, com
suas mãozinhas habilidosas, alguma coisa interessante para oferecer a
alguém. Para que nada se perca na mudança para a casa nova, coloquei tudo numa daquelas simpáticas caixinhas de madeira utilizadas para embalar vinhos mais caros.
Comecei pelas fitas adesivas para os mais diferentes usos, algo de que ela tanto gosta e
que tenho em profusão. Para facilitar, enrolei umas dez tiras lado a
lado em um gomo retinho de bambu. Escolhi as mais coloridas, de ”fazer vista”, como
se dizia. Em outro pedaço de bambu, este com nós bem juntinhos, tratei
de enrolar uns vinte tipos diferentes de linhas e fios, algo que muito
prezo pela utilidade que têm: barbantes de algodão, nylons e cordinhas
de tucum de várias espessuras, fio urso e um pedaço da linha de pesca mais resistente que conheço. Fora
isso, enrolei também fio de plástico prateado, linha para costurar
sapato, uma tirinha de couro e um pedaço de cordão de rede trazido da
Paraíba. Por precaução, inclui três folhas de lixa d'água, pregos
variados e tachinhas sortidas, além de parafusos de vários tipos e
tamanhos e algumas buchas.
Coloquei
também ferramentas de uso corrente: um martelinho colorido, duas chaves
de fenda, dois alicates pequenos, sendo um de ponta fina, uma serrinha
de aço e cinco goivas japonesas para cavar madeira macia. Por último,
mesmo sabendo que faca não é brinquedo de criança, resolvi dar pra ela
uma das faquinhas alemãs que uso para cortar bambu. Se bem conheço
aquela menina, ela vai usar tudo e logo logo vai me pedir para repor o
que estiver acabando.
Vitória, 24 de janeiro de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETACURIOSIDADE:
Comentarios que valem um post
João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária":
O número de linhas não diz nada.
O que interessa é o que as palavras significam.
Postado por João Menéres no blog . em sexta-feira, 26 de janeiro de 2018 08:11:00 BRST
******************************************************
O número de linhas não diz nada.
O que interessa é o que as palavras significam.
Postado por João Menéres no blog . em sexta-feira, 26 de janeiro de 2018 08:11:00 BRST
******************************************************
26.1.18
Crônica diária
Lydia Davis legitimou-me
Quando escrevo crônicas com três linhas, meus críticos dizem que não é crônica. Depois de conhecer a obra da famosa escritora americana Lydia Davis, e seus contos de três linhas, quero que meus críticos "lambam sabão."
Quando escrevo crônicas com três linhas, meus críticos dizem que não é crônica. Depois de conhecer a obra da famosa escritora americana Lydia Davis, e seus contos de três linhas, quero que meus críticos "lambam sabão."
25.1.18
Crônica diária
Sondas urinárias
Apesar de São Paulo estar fazendo aniversário, mão é sobre os 462 anos
que escrevo hoje. É sobre o uso de sondas urinárias, que nunca foram
assunto de alcovas, mas desde que o Temer foi obrigado a usa-las, e
depois tratar de uma infecção, o tema virou corriqueiro. Articulistas
usaram seus espaços para denunciar as falhas dos setores da saúde em
todo o país. Uma simples infecção na uretra do Presidente pode ser
revertida com certa facilidade por conta dos cuidados médicos,
hospitalares e dos antibióticos específicos. Já essa mesma sonda e
infecção na uretra do cidadão comum que dependa da rede de saúde
pública, pode e tem levado a óbito com frequência. Medicamentos
essenciais, e agora não estamos falando de infecção urinária, mas de
doenças do coração, da medula e outras que pela falta de remédio são
mortais, estão em falta constante nos posto de saúde. Desde novembro
passado faltam medicamentos de alto custo no SUS. E não adianta as
autoridades negarem. Eu estive lá em novembro, dezembro e janeiro e
constatei. Faltam dinheiro e gestão na saúde, mas não faltam verbas para
os fundos partidários fazerem campanha política. Saúde, educação e
segurança deveriam ser absolutamente prioritários e sem
contingenciamento em tempo algum.
24.1.18
Crônica diária
Pescaria no Uruguai
No Natal e fim do ano de 2011 Paula, minha mulher e eu nos programamos
passar pescando no Rio Uruguai. Ela estava em São Paulo, foi de avião
para Florianópolis, e de lá pernoitamos na Piacaba, nossa casa em
Imbituba, e de carro seguimos para o sul. Sem pressa. Comendo e dormindo
sem reservas. Nessa época do ano os restaurantes e hotéis estão vazios.
Quando chegamos na ponte onde há a aduana da fronteira com o Uruguai,
estacionei o carro. Peguei o documento da Paula, os do veículo e fui ao
guichê cumprir as formalidades legais. Entreguei tudo ao funcionário,
que como todos que exercem essa função usam óculos Raiban, e em geral
não esbanjam simpatia. Começou pelo da Paula. Juntou todos e me devolveu
dizendo: "Só com Passaporte ou Carteira de Identidade". Assustado ainda
tentei argumentar que a Carteira de Motorista tinha foto e o número do
RG, mas foi em vão. Não pude nem insistir. É lógico que país nenhum do
mundo aceita carta de motorista como documento válido, a não ser para
dirigir. Voltei para o carro. Perguntei se ela não tinha trazido nenhum
outro, e com a negativa, manobrei e voltamos para alguma cidade próxima
da fronteira onde houvesse um posto de correio. Pelo celular, que ora
não tinha sinal, ora o sinal era débil, pedimos para o filho da Paula,
que na época morava em casa, em São Paulo, fosse a uma agência dos
correios com o Passaporte e Identidade da mãe e colocasse num Sedex 10,
único capaz de chegar a tempo. Véspera do dia 25, clima de Natal. E em
poucas horas ficamos sabendo que o tal Sedex 10 só opera em cidades com
aeroporto. A mais próxima era Santa Maria. Muitos quilômetros de
distância faziam diminuir nossas esperanças do plano dar certo. E não
deu. Resolvemos não azedar nosso fim de ano, procurando um hotel, sem
ter a mínima ideia da geografia da cidade. E na portaria nos indicaram o
único restaurante aberto aquela noite, véspera de Natal. O restaurante
era enorme, com apenas uma mesa com adultos e crianças de uma família.
Procuramos sentar o mais longe possível, para evitar o barulho delas. Lá
pelas tantas percebo que um indivíduo falando alto e grosso sentou na
mesa pegada à nossa. Com tanta mesa, foi logo sentar nas minhas costas. A
Paula que estava de frente foi descrevendo as razões pelas quais as
crianças da outra mesa estavam tão agitadas. Era um senhor muito gordo,
com vasto bigode e barba brancos, e cabelo grisalho, preso num
"rabo-de-cavalo". Acompanhava o "Papai Noel", sem a tradicional roupa
vermelha, um garoto de quinze anos. Comemos peru. Afinal era Natal.
Terminado o jantar nos preparamos para passar pela mesa com a maior
discrição possível, uma vez que pela altura da voz, nos parecia que o
homem estava alcoolizado. Ao cruzar a mesa ouvi: " Eduardo?" Não era
possível. Quem poderia me conhecer em Santa Maria, no Rio Grande do Sul,
numa noite véspera de Natal? Dei meia volta, e num tempo que deve ter
durado segundos, mas me parecia uma eternidade, olhando nos olhos do
velho barbudo disse: "Não estou te reconhecendo". Ele abriu um largo
sorriso e se apresentou: "Sou o Ricardo Franco de Mello". Não podia
acreditar. Fomos amigos de infância e não nos víamos a mais de cinquenta
anos. Ele disse ter me reconhecido porque eu era a cara do meu pai.
Nossos pais e irmãos eram muito amigos. Apresentei a Paula, ele o
garoto, seu enteado, e nos justificamos por estar em Santa Maria naquela
noite. Cada história menos verossímil do que a outra. Abraçamo-nos,
trocamos números de telefone e prometemos encontrarmo-nos ainda antes do
próximo século.
23.1.18
Crônica diária
O imortal Carlos Heitor Cony
Imortais morrem. Aliás o Cony acreditava que "muitos anos de vida", da canção "Parabéns a você", não se deveria desejar a ninguém. Ele pelo menos, saltava essa fala nos aniversários. Morreu com 91 anos. Fui aos meus arquivos procurar quantas vezes escrevi sobre ele, e me espantei só tê-lo citado em três ocasiões. Numa delas, e a mais engraçada, transcrevi uma crônica do próprio Cony, enviada pelo José Luis Fernandez. Publiquei no meu blog Varal de Ideias em 28/03/2013. Transcrevo porque é hilária.
Carlos Heitor Cony e Antonio Maria
Carlos Heitor Cony conta: "Um dia, Antônio Maria me telefona: — Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou." Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias (de Cony). Aproximou-se, apresentou-se como sendo o autor do livro, e a mulher, uma típica apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam. "— Mas, Maria..." era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. "— Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama com ela." E Cony, curioso: "— E ai?" "— E aí foi que aconteceu o problema" — gargalhava Maria. "— E ai você broxou, Cony, você broxou!"
Depois disso, escrevi em 18/08/2017 uma crônica com três linhas, e que volto a transcreve-la porque tenho muitos leitores novos.
ABL e os imortais
Acabam de eleger um novo imortal. Antonio Cândido. Poeta. Sobre sua posse outro imortal Heitor Cony falou na CBN: "Sobre ser imortal, já dizia Olavo Bilac, somos porque não temos onde cair mortos". Para a crônica de hoje, estas três linhas bastam.
E citei o Cony dia 7 de janeiro passado, dia seguinte da sua morte.
Foi muito pouco para o intelectual, cronista e escritor do porte dele. Mas agora é tarde. Cony é morto.
PS- Aproveito para observar ao jovem e leitor bissexto Germano Fehr que repreendeu-me, recentemente, por não falar do Antonio Maria, esta aí ele mais uma vez.
Imortais morrem. Aliás o Cony acreditava que "muitos anos de vida", da canção "Parabéns a você", não se deveria desejar a ninguém. Ele pelo menos, saltava essa fala nos aniversários. Morreu com 91 anos. Fui aos meus arquivos procurar quantas vezes escrevi sobre ele, e me espantei só tê-lo citado em três ocasiões. Numa delas, e a mais engraçada, transcrevi uma crônica do próprio Cony, enviada pelo José Luis Fernandez. Publiquei no meu blog Varal de Ideias em 28/03/2013. Transcrevo porque é hilária.
Carlos Heitor Cony e Antonio Maria
Carlos Heitor Cony conta: "Um dia, Antônio Maria me telefona: — Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou." Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias (de Cony). Aproximou-se, apresentou-se como sendo o autor do livro, e a mulher, uma típica apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam. "— Mas, Maria..." era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. "— Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama com ela." E Cony, curioso: "— E ai?" "— E aí foi que aconteceu o problema" — gargalhava Maria. "— E ai você broxou, Cony, você broxou!"
Depois disso, escrevi em 18/08/2017 uma crônica com três linhas, e que volto a transcreve-la porque tenho muitos leitores novos.
ABL e os imortais
Acabam de eleger um novo imortal. Antonio Cândido. Poeta. Sobre sua posse outro imortal Heitor Cony falou na CBN: "Sobre ser imortal, já dizia Olavo Bilac, somos porque não temos onde cair mortos". Para a crônica de hoje, estas três linhas bastam.
E citei o Cony dia 7 de janeiro passado, dia seguinte da sua morte.
Foi muito pouco para o intelectual, cronista e escritor do porte dele. Mas agora é tarde. Cony é morto.
PS- Aproveito para observar ao jovem e leitor bissexto Germano Fehr que repreendeu-me, recentemente, por não falar do Antonio Maria, esta aí ele mais uma vez.
22.1.18
Crônica diária
Por via das dúvidas, esta poderia ter sido uma crônica póstuma
Ontem falei de morte, e hoje passadas duas semanas do evento, posso
contar para vocês que não morri. No mês de novembro, todos os anos,
costumo fazer uma revisão médica, a começar pelo meu urologista e hoje
amigo Dr. Marmo Lucon. Já detectou problemas (e quem não os tem?), e me
operou várias vezes. Da próstata, com procedimentos iguais ao do
presidente Temer, que foi operado há seis anos, e a minha cirurgia faz
doze. E até então nunca mais tive nenhum problema com ela. Este ano o
exame do PSA, que corresponde, em síntese, ao de mama para as mulheres,
acusou uma alteração. Dr. Marmo pediu para repetirmos o exame dali a
alguns dias. Claro que fiquei preocupado. Mas resolvi deixar para fazer
só em janeiro. Não queria ter mais uma notícia má no ano de 2017. Chega
as que tivemos ao ler os jornais diariamente. Em janeiro refiz o exame
de PSA e o resultado foi ainda pior. Muito pior. Mas como estávamos no
início de um novo ano, novas esperanças, novo ânimo, marquei hora e fui
ao médico levar o exame. O resultado muito pior, era a melhor notícia
que eu poderia receber. Dr. Marmo explicou-me que câncer não provoca
alterações tão grandes, em tão pouco tempo, logo, não seria câncer, mas,
e sempre há um mas em medicina, pediu que eu fizesse uma biópsia da
próstata. Diante das duas notícias, essa do pedido de biópsia, era a
melhor delas. E marquei para dois dias depois. Agora eu tinha pressa. Os
procedimentos são simples, mas com anestesia e no hospital. Duas horas
ao todo. E lá fui eu, sem antes deixar esta crônica escrita e datada
para ser postada hoje dia 22 de janeiro. Até essa data eu já tinha
textos programados. Se eu não acordasse da anestesia, vocês só ficariam
sabendo duas semanas depois. Detesto os rituais de praxe. Como detesto
os clichês. Cumprimentos de pesar, missa de corpo presente ou de sétimo
dia. Queria poupa-los de tudo isso. Mas acordei da anestesia, que me
proporcionou um sono maravilhoso, e terão que me aguentar por mais um
tempo.
21.1.18
Crônica diária
Vida depois da morte
No texto "As focas" da
americana Lydia Davis ("Nem vem" é o título do livro) onde a forma
como ela escreve é muito interessante, conta que u´a mãe, crente que
depois da morte haveria mais alguma coisa, sempre se desentendia com a filha,
que ao contrário, não acreditava em nada após a morte. Certo dia a mãe falou: "Quando
morrermos as duas, uma de nós vai levar um tremendo susto!"
20.1.18
Crônica diária
Gostar ou não de Kafka
Alguns dias atrás meu querido e velho amigo e leitor Walter De Queiroz Guerreiro fez o seguinte comentário: "ser
chato como Kafka para mim é uma referência positiva, questão de opinião
e de interpretação de mundo, recomendo "Arte e imaginação" de Roger
Scruton, sua tese de doutorado em filosofia da arte e estética ( aviso: é
pesada, e para a grande maioria chata, mas elucidativa)." Na mesma publicação a leitora Isabel Fomm de Vasconcellos comentou: "Tem
intelectual que acha que ler livro chato é exemplo de superação da
chatice e de consequente superioridade intelectual. Tô fora!
hahahaha...". Quem provocou esses dois comentários foi meu texto onde
concluo dizendo achar o Kafka muito chato. A Isabel esta cheia de razão.
E ao amigo Walter quero dizer que leitura nesta fase da minha vida é só
por prazer. Não tenho mais nenhuma pretensão, desejo ou vontade de
quebrar a cabeça para interpretar o mundo. Tudo que fui obrigado a ler
porque todo mundo lia, só cristalizou-me a certeza de que não teria
perdido grande coisa não lendo. Estou portanto entre a grande maioria
que acha chata leitura pesada, livros grossos, autores muito eruditos,
teses filosofias, ou filosofias baratas. Hoje só leio o que me dá
prazer. E você tem razão Walter, é simplesmente uma questão de gosto e
opinião.
19.1.18
Crônica diária
Repertório de cronista
Tem gente que detesta piada. Eu gosto, embora lamente o meu pequeno
arsenal de anedotas de salão. Todo homem culto tem um punhado delas para
entreter seus amigos. Minha memória nunca foi suficiente para
guarda-las e muito menos renovar ou atualizar o repertório. Tenho amigos
que em todas as ocasiões propícias, jantares e fim de noite, nos
deliciam com uma série completamente nova ou no mínimo bem repaginada.
Saber conta-las é fundamental. Pior do que uma piada fraca é uma boa
piada mal contada. Duas, das mais antigas, nunca esqueci, e sempre
fizeram relativo sucesso. Até já andei contando aqui nas crônicas. Uma
bem bonitinha e familiar, apesar de sinistra, foi contada em cena de um
filme do Cantinflas. Lembram dele? Nesse filme era comissário de bordo.
Claro que as calças sempre ficavam abaixo da linha da cintura. O
comandante o chama, ele volta, fecha a cortina que separa a cabine,
naquele tempo era cortina, e em alto e bom som anuncia: "Señores
pasajeros abroche los cinturones de seguridad, no es por nada, sólo
para que no se esparren los cadaveres ". A outra apesar de salão, nada
familiar: "Durante a ultima guerra, no campo de batalha o único
transporte disponível era um camelo. Nele subiram hierarquicamente o
general, seguido por um coronel, por um major, por um tenente, por um
sargento, e finalmente por um cabo. Dez minutos de caminhada o general
observou os olhos e orelhas do animal, virou-se para o coronel e falou:
"Este camelo esta fodido". O coronel virou-se para o major e disse:
"Esse camelo esta fodido". O major virou-se para o tenente e replicou o
alerta. O tenente cumpriu sua missão e reportou a informação para o
sargento:: " Este camelo esta fodido." E o sargento por sua vez passou a
mensagem para o cabo: "Este camelo esta fodido". O cabo prontamente
respondeu: "Se eu tirar o pau eu caio".
18.1.18
Crônica diária
Crônica da capa do livro "Contos urbanos"
Às vezes ficamos meses, até anos, matutando sobre determinado assunto e
as ideias giram em falso, repetindo-se num moto contínuo. De repente,
como num passe de mágica, surge uma ideia completamente nova e óbvia
para o problema. Foi assim com o título do meu próximo livro de contos.
Terá só dois contos. E um deles dava nome ao livro. Mas não me
convencia. Quatro anos depois de escrito o conto, de tanto pensar sobre a
conveniência ou não de manter o título fiz uma busca no Google e
constatei o que já desconfiava. Haviam dezena de livros com o mesmo
título. Foi decisivo para a troca por "Contos urbanos". E esse nome
genérico, também tem lá seus livros, mas em menor número. Daí parti para
o estudo da capa. O primeiro título tinha além de muitos homônimos, uma
dificuldade a mais, nenhuma foto ou ilustração combinava.
Provisoriamente pensei numa tela abstrata. Quando não se quer dizer
nada, o abstrato é tudo. Com o novo título "Contos urbanos", ao
contrário, rapidamente compus onze capas diferentes. Todas com fotos
minhas. Sou um fotógrafo razoável. Daí um novo e crucial drama. Qual
delas escolher. Mandei o layout para quatro pessoas que confio no gosto
estético e prático. Capa de livro é como gravata, rótulo de vinho,
embalagem de perfume. Tem que agradar ao consumidor. É o primeiro e
importante estímulo. Outras considerações são sempre secundárias. Mas a
minha pesquisa não foi conclusiva. Houve maioria, mas não unanimidade.
Das onze capas, quatro agradaram muito a todos. Uma só, claramente
repudiada por dois votantes. E entre as dez restantes acabei por eleger
uma que nenhum deles citou como favorita. Levei em consideração a razão,
mais do que a emoção. "Contos urbanos" não poderia ser confundida com
revista ou livro de arquitetura, logo a minha foto do Copam, em São
Paulo, foi descartada. Um grafite que fotografei em Berlim, e que da a
impressão de azulejos, foi a mais votada, e usarei como capa de outro
livro. É muito boa capa, mas para o "Contos urbanos" a escolhida é toda
cinza, com uma foto de um canto de parede, preta e amarela, com um
extintor de incêndio vermelho, no chão de cimento, encostado na parede
no centro da imagem. Ela contém uma carga estética e visual urbana que
casa perfeitamente com o título.
17.1.18
Crônica diária
De perto ninguém é normal
Exatamente porque já
virou clichê uso essa frase cuja autoria é dada ao Caetano Veloso, mas há quem diga que é do Millôr
Fernandes. Não importa o pai, o fato é que caiu no gozo popular. Assim como a
cantora Anitta esta bombando nas paradas e shows musicais. Acontece que no caso
dela as estrias na bunda e suas imperfeições explicitamente expostas é que lhe
estão dando a fama que tem. Posa nas lajes das comunidades (leia-se:
favelas) com biquíni mínimo feito de fita isolante. Mostra seu corpo
desnudo com tudo que Deus não deu. Mas esta feliz com o que tem. E isso agrada
multidões que estão fartas de fake, de maquiagem, Photoshop, produtos pirata, falsos e
made in China. Anitta é autêntica. E de perto é que se vê que ela é normal. É coisa
nossa.
Assinar:
Postagens (Atom)
Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )


































