Crônica diária
Doris Lessing - "As avós"
"As avós" escrito ao lado esquerdo no canto inferior da capa, em tipos
suaves e pequenos, menores do que o nome da editora, no canto esquerdo
superior, parecia desproporcional não fossem as letras garrafais do nome
da autora DORIS LESSING. Tudo isso sobre uma imagem em preto e branco de
duas mulheres, da cintura para baixo, com os pés nus sobre o assento de
uma cadeira. Isso foi tudo que vi quando o Lúcio Zaccara, da livraria
que leva seu nome, há 38 anos, colocou-me nas mãos. Leia que é muito
bom. Ele não sabia o que eu pensava, e pior, escrevia, contra a
literatura feita por mulheres. Paguei com a língua, neste caso. Que
maravilha de livro. Como escreve bem essa senhora. Que história
interessante. E bem contada. Doris nasceu em 1919 e morreu em 2013 em
Londres onde morou a vida toda. No ano de 2007 foi o Nobel de
Literatura. Que bom, comecei a ler "As avós" antes dos dois outros
livros recomendados pelo Lúcio. E neste ele acertou em cheio. Um livro
inesquecível.

2 comentários:
Bm dia Eduardo!
Muito bom mesmo! Vou reler. Por curiosidade fui dar uma olhada na estante e como eu anoto a data em que comprei, pude ver que li em 2007! Nossa, há quanto tempo!
Li inúmeros livros traduzidos da Doris Lessing, tive uma "fase Doris Lessing..."
Falando em literatura, gostaria de ler o seu conto premiado "Dias Cinzas".
Você publicou aqui no Varal de Idéias ou no Facebook?
Bjs.
Sonia, foi publicado dia 25 passado aqui e no FB
Dias cinzas
A noite foi de muito calor e pernilongos. Pessimamente dormida. Quando o dia clareou não tinha a luz habitual de manhãs de sol. Estava nublado e escuro. Levantou e nem abriu a veneziana como fazia de costume. Beirava sessenta e oito anos, viúvo há dois, e nos últimos meses andava muito deprimido. Arrastou-se com os olhos semicerrados até o banheiro, urinou como sempre, escovou os dentes, sem olhar para o espelho, e volto para o quarto. Colocou a roupa de trabalho e chamou o elevador. O mostrador indicava que vinha descendo, mas passou sem parar no seu andar. Definitivamente aquele não era seu dia. Voltou a apertar o botão do elevador e quando ele chegou entrou com o pé direito. Notou algo estranho no olhar, e no bom dia, do seu João da portaria. Passou a mão no rosto e percebeu que não havia feito a barba nem penteado o cabelo. Respondeu cabisbaixo: "Estou atrasado". Na calçada, a caminho do ponto de ônibus, pisou num coco de cachorro. Foi raspando o pé melecado por uns bons passos, enquanto praguejava contra a raça humana, como um todo. O mundo conspirava contra ele. Não havia chegado ao ponto quando, com um gesto que lhe era habitual, passou a mão no bolso traseiro da calça, e percebeu que havia esquecido a carteira. Não havia alternativa. Voltou, ainda raspando a sola do sapato. Passou pelo seu João dizendo: "Esqueci a carteira". Essas teriam sido suas ultimas palavras. Abriu a porta do apartamento de dois cômodos. Trancou a porta como quem não pretendia mais sair de casa aquele dia. Foi para o quarto, e ao invés de pegar a carteira que estava no criado mudo, abriu a gaveta. O trinta e oito, cano curto, marca Taurus estava lá como nos últimos trinta e tantos anos. As balas no tambor, como no dia que comprou a arma de um companheiro de oficina. Pegou o revolver, abriu a boca e puxou o gatilho mirando para o céu. Estalo seco. Tirou espantado o cano da boca. Abriu o tambor da arma, conferiu os projéteis. Estavam todos lá. A umidade e os trinta anos danificaram a espoleta. Caiu de joelhos num choro profundo e desesperado. Um tempo depois, ainda soluçando olhou a claridade que entrava pela veneziana fechada. Foi até a janela, abriu, e um sol lindo da manhã invadiu seu quarto, batendo de frente com seu rosto molhado de lágrimas. Foi ao banheiro, fez a barba, penteou os cabelos grisalhos, pegou a carteira, trocou de sapato, e o elevador ainda estava no seu andar. Ao sair na rua ouve uma buzina e reconhece um colega de trabalho que lhe cumprimenta e oferece carona. Ao entrar no carro do amigo, fala com convicção: "Sou um homem de sorte, iria chegar atrasado".
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