Crônica diária
Mais um prêmio
Hoje
as 17 horas estarei em São João da Boa Vista participando da premiação
do XXV Concurso de Prosa e Poesia dessa cidade. Fiquei em segundo lugar
com o texto "Dias cinzas". Quando dei essa notícia aqui, meses atrás,
alguns leitores pediram-me para publica-lo. Como o conto deveria ser
inédito, temi faze-lo antes de receber o prêmio. Hoje faço, entretanto, liberando da leitura os que não gostam de textos longos. Estão dispensados.
Dias cinzas
A
noite foi de muito calor e pernilongos. Pessimamente dormida. Quando o
dia clareou não tinha a luz habitual de manhãs de sol. Estava nublado e
escuro. Levantou e nem abriu a veneziana como fazia de costume. Beirava
sessenta e oito anos, viúvo há dois, e nos últimos meses andava muito
deprimido. Arrastou-se com os olhos semicerrados até o banheiro, urinou
como sempre, escovou os dentes, sem olhar para o espelho, e volto para o
quarto. Colocou a roupa de trabalho e chamou o elevador. O mostrador
indicava que vinha descendo, mas passou sem parar no seu andar.
Definitivamente aquele não era seu dia. Voltou a apertar o botão do
elevador e quando ele chegou entrou com o pé direito. Notou algo
estranho no olhar, e no bom dia, do seu João da portaria. Passou a mão
no rosto e percebeu que não havia feito a barba nem penteado o cabelo.
Respondeu cabisbaixo: "Estou atrasado". Na calçada, a caminho do ponto
de ônibus, pisou num coco de cachorro. Foi raspando o pé melecado por
uns bons passos, enquanto praguejava contra a raça humana, como um todo.
O mundo conspirava contra ele. Não havia chegado ao ponto quando, com
um gesto que lhe era habitual, passou a mão no bolso traseiro da calça, e
percebeu que havia esquecido a carteira. Não havia alternativa. Voltou,
ainda raspando a sola do sapato. Passou pelo seu João dizendo: "Esqueci
a carteira". Essas teriam sido suas ultimas palavras. Abriu a porta do
apartamento de dois cômodos. Trancou a porta como quem não pretendia
mais sair de casa aquele dia. Foi para o quarto, e ao invés de pegar a
carteira que estava no criado mudo, abriu a gaveta. O trinta e oito,
cano curto, marca Taurus estava lá como nos últimos trinta e tantos
anos. As balas no tambor, como no dia que comprou a arma de um
companheiro de oficina. Pegou o revolver, abriu a boca e puxou o gatilho
mirando para o céu. Estalo seco. Tirou espantado o cano da boca. Abriu o
tambor da arma, conferiu os projéteis. Estavam todos lá. A umidade e os
trinta anos danificaram a espoleta. Caiu de joelhos num choro profundo e
desesperado. Um tempo depois, ainda soluçando olhou a claridade que
entrava pela veneziana fechada. Foi até a janela, abriu, e um sol lindo
da manhã invadiu seu quarto, batendo de frente com seu rosto molhado de
lágrimas. Foi ao banheiro, fez a barba, penteou os cabelos grisalhos,
pegou a carteira, trocou de sapato, e o elevador ainda estava no seu
andar. Ao sair na rua ouve uma buzina e reconhece um colega de trabalho
que lhe cumprimenta e oferece carona. Ao entrar no carro do amigo, fala
com convicção: "Sou um homem de sorte, iria chegar atrasado".

2 comentários:
O conto é lindo! Parabéns Edu pelo merecido prêmio! E que venham muitos, contos e prêmios!
bjs
Gostei demais Eduardo! Muito tocante! Prêmio merecido!!
Na parte final do conto, quando você escreve "e um sol lindo da manhã invadiu seu quarto", fiquei emocionada!
Muito obrigada pela gentileza de enviá-lo também por e-mail.
E o conto estava bem pertinho e eu não havia visto...
Beijos!
Postar um comentário