Crônica diária
Pérola na gravata
Naquele tempo se usava. Meu avô imigrante italiano, que de uma pobreza
extrema, com muito trabalho, ficou rico, dizia em tom de zombaria que
os brasileiros usavam pérola na gravata, mas andavam descalços. Com isso
queria dizer que nosso povo, sem nenhum lastro econômico, precisava
demonstrar riqueza. Tenho lembrado do meu avô toda vez que cruzo a Rua
Venezuela com a Avenida Brasil. No sinal de transito entre outros
vendedores de raquetes elétricas contra pernilongo, bolas com as cores
dos times, animais de pelúcia com camisa do Corinthians e do Palmeiras,
cabos para celulares, há um que, diferentemente dos outros, vende
pastilhas por R$ 2,00, colocando as caixinhas sobre o espelho da porta
do carro. Traja um blazer azul marinho escuro, com botões dourados,
camisa branca bem passada, e gravata em dois tons de azul, calça preta e
sandália de dedo havaianas. Muito elegante se não fosse as sandálias. E
corre para recolher os saquinhos quando o sinal abre. Meu avô estava
certo. E olha que já faz tempo.

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