Crônica diária
Um copo
de cólera
Como todos sabem o escritor Raduan Nassar acaba de
ganhar o Prêmio Camões, o mais prestigioso para quem escreve em língua
portuguesa. Sabem também que Raduan é escritor, segundo ele, de um livro e
meio. Isso mesmo, considera o decantado "Lavoura Arcaica" um livro e
o "Um copo de Cólera", meio, por ser diminuto. Esse pequeno trabalho
foi minuciosamente retocado até sua 5º edição, e multiplicou-se em 19
reimpressões. Acabo de ler. Já havia lido, há muitos anos atrás, o
"Lavoura Arcaica", e pra dizer a verdade achei muito chato. Como
chato achei Guimarães Rosa, quando li, ainda estudante ginasial em Cataguases,
graças a indicação do saudoso professor Gradin. Naquele tempo ninguém conhecia "O Grande Sertão: Veredas". Minha mãe, leitora informada, nunca havia ouvido
falar nesse escritor. Raduan vai na mesma trilha. Não faz cerimônia em
inventar. A leitura não é fácil. Mas a precisão e pontaria com que trabalha com
as palavras fazem dele um escritor ímpar. Chegou a ter seu "Um Copo de Cólera"
recusado por um editor espanhol porque alegou que a novela daria um volume
muito magro, e pediu mais três contos para engordar a lombada, com o que Raduan
não concordou. Hoje o escritor, agora com o prêmio, e com 80 anos, irá, com
certeza, aposentar-se definitivamente, cuidando só das múltiplas traduções que
virão. Até então foi obrigado a repetir que havia se aposentado com seu livro e
meio. A exemplo do que disse, e não cumpriu, João Cabral de Melo Neto. Raduan é
um escritor de, e da palavra.

Um comentário:
Nunca tinha ouvido falar.
Postar um comentário