Crônica diária
Uma alucinação
Nos últimos cento e dez anos São Paulo e o Brasil mudaram muito. Conta Roberto Pompeu de Toledo, no seu livro " A Capital da Vertigem" que o "Correio Paulistano", órgão oficial do todo poderoso Partido Republicano Paulista, na sua edição de 21 de Janeiro de 1906 faz um relato da principal notícia do dia. O Senador estadual Francisco de Assis Peixoto Gomide, vice de Campos Sales no governo estadual, e presidente por um ano (1897 e 1898) amanheceu depois de uma noite maldormida , almoçou como era de costume na cidade, às dez horas, com sua mulher e seus quatro filhos, e continuou na sala de jantar acompanhado de sua filha Sofia de 22 anos. Ele continuou silencioso na mesa, jogando para o alto bolinhas de miolo de pão. Ela sentou-se numa poltrona e pôs -se a fazer crochê. Essa situação durou muito tempo, e o pai começou a andar de uma sala para outra muito agitado, porém em silêncio. A alturas tantas, escreve Roberto, o pai se aproxima da filha com um revolver Smith and Wesson e atira na cabeça da moça. Em seguida foi para a sala de visita, sentou-se junto ao piano, e atirou contra a própria cabeça. Estupefação geral. A casa ficava no centro da cidade, na rua Benjamin Constant, e logo os gritos e choros foram ouvidos pelos vizinhos. A redação do jornal Estado ficava perto, na rua Quinze de Novembro, e seu repórter chegou em seguida.A narração agora é do "Estado". Abriu colunas para enumerar as personalidades que acorreram ao velório na própria casa. O "Estado" fez minuciosa cobertura e aventurou-se a tratar das causas da tragédia, coisa que o Correio não ousou fazer. Em síntese Sofia iria se casar dia 27, dali a uma semana. O noivo era o promotor público Manuel Batista Cepelos, moço de origem humilde, que a custo completara os estudos, e já se distinguia como poeta. Segundo o jornal, Peixoto Gomide nos últimos tempos demonstrava sinais de nervosismo. Chegou a confidenciar a amigos que não suportava a ideia de separar-se da filha. Chegou a consultar o psiquiatra Franco da Rocha. O que os jornais não publicaram, e foi a versão que correu durante muitos anos, especulava que o Peixoto Gomide seria o pai do noivo. Incapaz de confessá-lo teria recorrido ao ato de matar a própria filha e a si, para evitar o casamento. Curiosamente o escabroso caso nunca foi tratado pela imprensa como "crime", "assassinato", mas como "tragédia", "uma fatalidade", "uma obra do destino", "uma alucinação".

2 comentários:
Caramba que história!
Andei tanto e por muito tempo pela Batista Cepelos (quando morei na Aclimação), não fazia idéia. Esses nomes nunca mais serão só ruas.
Como se diz por aqui, histórias de faca e alguidar.
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