Crônica diária
Empatias
Tem pessoas que a gente não gosta sem conhecer. Outras que gostamos
apesar de desconhecidas. É o caso do Antonio Prata. Nunca leio jornal.
Na Piacaba, em Santa Catarina não chegam, em São Paulo por falta do
hábito. Domingo passado li na Folha o artigo do Antonio Prata. Ele
escreve gostoso. Desta vez falava do prazer que é tomar vinho branco à
beira-mar, ou ler Rubem Braga numa varanda de um sítio. Deve ser por
isso que gosto do Antonio. A gente já tem três prazeres em comum. O
terceiro é escrever. Temos mais um: acordar cedo nos predispõe à
felicidade. Nesse artigo, cujo título é "Abraçando árvore", conta de
forma deliciosa, para uma leitura dominical, que numa sexta-feira foi
almoçar com seu editor. Comeram peixe na brasa, acompanhado de vinho
branco. Repito, eu também gosto dessa combinação. Após o almoço, ao lado
do Cemitério da Consolação, "com seus pacíficos encantos", saiu
andando a pé e quando se deu conta estava em frente à paineira da
Biblioteca Mario de Andrade. Descreve a árvore centenária, gigantesca,
que certamente já estava ali antes do Mario de Andrade nascer. Por
muitas razões que não vem ao caso, teve uma súbita vontade de abraçar a
árvore. Deixa claro que não é do tipo que abraça árvore. Pelo contrário,
como eu, faz piada com quem abraça árvore. Mais uma identidade. Foi,
disse Antonio, um gesto simbólico, como atirar rosa ao mar dia 31 de
dezembro. "Olhou prum lado,". "Olhou pro outro". "Tomou coragem e foi só
encostar o rosto no tronco para ouvir: "Antonio?!" Era seu editor.
Foram dois segundos de desespero. Seu inconsciente, consciente do perigo
de passar por louco, alcoólatra, perder o editor, lançou a ideia
salvadora. "Uma braçada", disse "volvendo para a esquerda e envolvendo a
árvore novamente, "duas braçadas e...Três". "Uns cinco metros de
diâmetro". "Tava medindo pra escrever no livro, pois no fim essa
paineira é importante." Colou". Cada um foi pro seu lado. Na verdade, no
livro, nem uma samambaia estava prevista.

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