Crônica diária
Avenida São João com Ipiranga
Outra história deliciosa que Roberto Pompeu de Toledo conta no livro "A
Capital da Vertigem" é narrada no livro de Cícero Marques(1884-1948)
intitulado "De pastora a rainha". Marques conta que na esquina da rua
São João com a rua Ipiranga, que no início do século ainda não haviam
sido promovidas à Avenidas, havia um velho sobrado em que, na parte de
baixo, o italiano Fontinelli mantinha uma casa de secos e molhados e, na
de cima, Natália, "atraente mariposa do amor" compartilhava seu
"casulo" com outras "alegres companheiras". Do outro lado da rua, havia a
mercearia do italiano Ângelo Tebaldi e, pegada a ela, uma casa pintada
de azul onde Julieta Petachinikoff, uma eslava "morena de olhos negros,
alta, magra, bonita e elegante", montou "o seu ninho". Havia, segundo
Marques, que morou na São João, cerca de dezesseis "pensões" de mulheres
na região, sem contar avulsas como "a francesa Juliette" que morreu
envenenada. Havia ainda "a caipirona gorda", que veio a São Paulo
conhecer as delícias tristes da vida alegre". Lola "salerosa espanhola",
na esquina com Líbero Badaró, e a pensão da Maria Augusta, próxima à
rua Aurora. A lista é imensa, e Marques enumera: Maria Cavalheira,
Negrinha, Barretinho, Negrini, madame Dorica e a portuguesa Maria Leal,
onde brilhava "a célebre Cobrinha". Boriska se exibia no Casino
Paulista, em atrações de nus artísticos, e despertava na plateia
exclamações de admiração pelo fato de "poucas vezes" se ter visto no
mundo "um desenvolvimento tamanho dos músculos glúteos". Quando "entoava
umas cançonetas" era interrompida por gritos de "Vira, vira", e ela
virava. Pediam de novo "Vira, vira", e ela virava de novo. "Quanto mais
"madama" virava, tanto mais era aplaudida". O jovem Julio Prestes,
futuro Presidente da República (1930), era um frequentador assíduo
desses espetáculos.

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