Varal retrátil
Preferi trabalhar cedo,
enquanto estivesse fresco. Nuvens carregadas e a total falta de vento
anunciavam calor de mormaço na manhã de domingo e o serviço que tinha pela
frente exigiria esforço físico: atender uma demanda antiga da dona da casa,
reafirmada sempre que a quantidade de roupa suja se acumulava. O varal que
havia no fundo do quintal dera lugar à horta suspensa e os varais da área de
serviço só dão conta da roupa de casa de poucos filhos. Jamais da casa lotada,
como acontece nos períodos de férias que estão pra chegar, o que fez a pressão
por providências subir para níveis críticos.
Tem tempo que procurava
uma solução que atendesse requisitos e exigências de estética, funcionalidade e
robustez. Sim, um varal que vai ficar na lateral da casa, além de ser capaz de
sustentar o peso da roupa molhada, há de ser discreto. O ideal é que, quando
vazio, ele pudesse ser desarmado e encostado na parede, sem representar perigo
para menino correndo. Quando necessário, ele seria armado na posição
horizontal. Além disso, ele precisaria ser comprido, para receber colchas e
lençóis abertos. E é justamente aqui que aparecem as exigências de robustez: o
varal deveria ser firme e forte o suficiente para suportar peso relevante.
Como se vê, uma espécie
de quebra-cabeça para um engenheiro experiente equacionar com bom senso
apurado, criatividade interativa, alguma competência técnica, e, sobretudo,
valendo-se das ferramentas e dos infindáveis recursos materiais que guarda em
armário repleto, desses de fazer inveja a qualquer MacGyver da TV. Ali,
aplicando a máxima quem procura, acha, encontro praticamente tudo o que
se fizer necessário para montar geringonças diversas, inclusive varais de todos
os tipos e tamanhos.
Uma parte importante do
problema de engenharia foi resolvida na venda de um conhecido, a que recorro
sempre que preciso do que não existe nas lojas modernas. Como cera de carnaúba
para cadeira de balanço. Desta vez, em atitude de desafio, pedimos uma armação
de varal que fosse retrátil. A vendedora, mais do que experiente, voltou lá dos
fundos com um par de armadores, desses que são usados nas mesas presas na
parede, armadas quando necessário. Bem que poderia servir. Prudente, pedi uma
barra de alumínio de três metros em formato de L para dar sustentação ao
conjunto, que teria cabos de aços revestidos para receber a roupa. Escolhi
presilhas, parafusos grandes e respectivas buchas para fixação. Aproveitei para
comprar meio quilo de pregos variados a preço de banana, evitando ter que
comprá-los em caixinhas de plástico, a preço de ouro. Isso foi no sábado, pela
manhã.
No domingo, ainda na
cama, passei em revista as providências para finalizar o projeto completo,
fazer os testes funcionais e executar o serviço de preparação das partes.
Comecei por serrar dois pedaços de caibro de uns vinte centímetros, onde seriam
fixados os armadores, e fiz os furos para os parafusos que os prenderiam na
parede. Em seguida lixei a madeira e arredondei as quinas. Por precaução, achei
melhor reforçar a haste de sustentação dos armadores, que me pareceram frágeis
frente às suas responsabilidades estruturais. Furei as pontas da vara de
alumínio, separei os parafusos e porcas que iriam fixá-la e, todo satisfeito,
dei por finalizada essa etapa do serviço. De banho tomado e com total
disposição, fui comer os caranguejos graúdos que meu cunhado Neném prepara como
ninguém. A felicidade dominical só não foi maior porque eu sou torcedor
convicto do Fluminense e ele é vascaíno doente.
Vitória, 10 de dezembro
de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA