RELATO
DE ISABEL DA ROCHA BRAGA APRESENTADO NO SEMINÁRIO DE ARTE NA EDUCAÇÃO
DA ESCOLINHA DE ARTE DO BRASIL SOBRE A ESCOLINHA DE ARTE DE CACHOEIRO DE
ITAPEMIRIM, ESPIRITO SANTO, QUE FUNDOU E DIRIGIU DE ABRIL DE 1950 A
1955.
MOTIVACÃO DA EXPERIÊNCIA
Em 1948, residindo em
Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, tomei conhecimento de uma
inovação no processo de recreação artística aplicada à criança, através
de notícias e reportagens nos jornais do Rio.
O criador desse
movimento era o artista plástico e professor Augusto Rodrigues. Sua
escolinha nessa ocasião funcionava com o nome de Escolinha de Arte da
Biblioteca Castro Alves, do IPASE.
Interessada e curiosa de ver de
perto seu trabalho, durante uma viagem ao Rio fui a ele apresentada por
meu cunhado, Dirceu Nascimento, diretor da revista Manchete, ocasião que
fui convidada e conhecer a Escolinha.
O que vi foi bastante para
fixar-me a ideia de fazer algo parecido em Cachoeiro, a fim de
proporcionar às crianças do lugar e aos meus próprios filhos aquela
oportunidade, que logo me pareceu tão preciosa.
Naquela época eu
não sabia nada sobre artes plásticas, nem ao menos tinha oportunidade de
visitar exposições de arte, apenas tinha notícias de que tudo existia, e
algum conhecimento muito superficial do desenvolvimento da pintura e
seu progresso no mundo. Até então jamais havia me arvorado a pegar num
lápis para desenhar.
Mas, se a mim foi negada essa oportunidade,
percebi que, por aquele processo que vinha desenvolvendo o Prof.
Augusto, qualquer um poderia tentá-la. No meu entender o ensino de
desenho nas escolas primárias e secundárias era muito limitado. Nenhum
aluno saía do colégio aproveitando alguma coisa que aprendia, para ser
aplicada na prática. O que acontecia é que se formava um conceito
pessoal em torno do desenho, de quem tinha ou não "jeito para desenhar",
e os que poucos conseguiam realizar os deveres de desenho dados pelos
professores, ajudavam o resto da classe.
E, na certeza de que o
processo que havia visto na Escolinha do IPASE seria um passo definitivo
para resolver aquela deficiência de ensino, tornei realidade o sonho de
fazer algo a respeito.
A APLICACÃO DA EXPERIÊNCIA
Com o
nome de Clube de Arte Recreativo de Cachoeiro de Itapemirim, batizei
minha primeira experiência, em 1950. Antes vinha tentando fazer bonecos
de fantoches, aprendendo através de aulas periódicas publicadas em
jornal do Rio, e fazendo teatrinhos de fantoches em festinhas de
aniversários de crianças.
Logo após consegui num clube social da
cidade um contrato para duas apresentações durante a Semana da Criança,
de uma pecinha teatral que escrevi e encenei com um grupo de jovens.
Desse dinheirinho - Cr$500,00 comprei material de pintura, de desenho,
balde para o barro, e comecei a trabalhar. As salas me foram emprestadas
pelo Partido Socialista Brasileiro, que ocasionalmente se reunia ali à
noite.
Levei meus filhos e seus amigos como cobaias. Espalhei
prospectos do movimento, em correspondência particular e anúncios nos
jornais. E mandei também a notícia para a Escolinha de Arte do IPASE,
que imediatamente se mostrou interessada em meu trabalho.
O RESULTADO DA EXPERIÊNCIA
Nas férias de 1951 levei ao Prof. Augusto o resultado de meu trabalho,
em forma de desenhos e pinturas das crianças. Embora recebesse sua
aprovação, percebi que não poderia continuar naquelas condições tão
precárias, com falta de tudo. Resolvi então acabar com a Escolinha no
fim de 1950, durando ela, portanto, um ano. Mas continuei a persistir na
ideia, escrevendo e publicando sobre a minha experiência e procurando
uma maneira de continuá-la em melhores condições.
ENRIQUECIMENTO INDIVIDUAL
Em 1952, nas férias de começo de ano, voltei ao Rio e na Escolinha do
IPASE encontrei funcionando na ocasião vários cursos: desenho,
xilogravura, gravura em metal e silkscreen. Os alunos variavam de idade,
desde crianças, jovens e até pessoas de idade. Imediatamente o Prof.
Augusto me fez frequentar todos os cursos, de 8 às 20 horas diariamente.
Para mim essas aulas eram dadas como as das crianças, inteiramente
livres, apenas com a presença dos professores, incentivando, e embora as
técnicas fossem por mim desconhecidas, despertaram-me um interesse
indescritível, e uma satisfação só mesmo comparável à que eu descobria
nos meus alunos enquanto trabalhavam.
E assim, voltando para
Cachoeiro, tornei-me autodidata, na impossibilidade de frequentar aulas
ou poder encontrar uma só pessoa que pudesse ministrá-las.
ASPECTOS CARACTERISTICOS E A REABERTURA DA ESCOLINHA DE ARTE DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM
Durante o curso, recebia do Prof. Augusto e de Lúcia Alencastro
orientação sobre a experiência que eles ali realizavam com as crianças.
Certo dia o professor induziu-me a requerer uma verba do Ministério da
Educação, apresentando-me a Vera Simões, que gentilmente acompanhou-me
até seu pai, o Ministro Simões Filho, e expos minhas dificuldades, pois,
moça da roça que era, senti-me inibida a expor pessoalmente o que
necessitava.
Voltando a Cachoeiro, para meu verdadeiro espanto
recebi daí a dias a comunicação de que a verba havia sido concedida, e
um cheque que $25.000. Imediatamente procurei um local que servisse para
reabrir a Escola e, em março de 1952, pode ela reabrir-se com o nome de
ESCOLINHA DE ARTE DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM, em caráter particular.
Além dessa verba, outra me foi concedida pela Associação de Proteção à
Maternidade e Infância de Cachoeiro de Itapemirim, de $1,000, em troca
de 10 bolsas de estudos para crianças pobres.
Mais tarde a
Prefeitura local também concedeu outra verba de $500, com direito a
matrículas gratuitas. Desses $1.500 cruzeiros, pagava mil de aluguel e
$500 para uma ajudante. Com a verba do Ministério adquiri móveis,
material de desenho, pintura, xilogravura e silkscreen, e depositei o
restante para futuras despesas.
Explorando particularmente a
técnica de silkscreen, no campo comercial, consegui desenvolver o
restante do dinheiro depositado, e assim pude manter a Escolinha até
1995.
A Escolinha funcionou numa das ruas principais da cidade
durante três anos, em dois turnos, pela manha e à tarde, com a duração
de duas horas cada turno.
As atividades empregadas de começo foram:
desenho, pintura, xilogravura, barro, fantoches, bonequinhos de arame,
trançados de palhas e contas.
Além dessas aulas durante o dia,
intercalei aulas de bordados para senhoras, três vezes por semana, duas
horas à tarde e duas horas à noite, para atender às necessidades das que
nãp podiam ir durante o dia.
Haviam duas salas de mais ou menos
5x4 m, e as mesas eram desmontáveis, para facilitar as festinhas
proporcionadas às crianças. Mandei fazer banquinhos confortáveis e
resistentes, armários fechados em baixo, com estantes por cima, sendo
uma para exposição de objetos de barro e outra para livros.
A
primeira secretária que contratei se divertia muito com a experiência e
tinha para comigo um ar de riso suspeito, como quem duvidasse da minha
competência ou da minha perfeita capacidade mental, por deixar que as
crianças pintassem e desenhassem espontaneamente. Logo tive de
dispensá-la, pois se achou no direito de ensinar as crianças a usarem as
cores "certas". A função de secretária também correspondia a de
ajudante de limpeza e tudo mais.
Além das salas citadas havia um
quarto de banho completo, onde nos dias mais quente as crianças às vezes
tomavam banho de chuveiro, pois a banheira de começo já havia sido
transformada em depósito de barro.
Havia também uma cozinha pequena e uma varanda que dava para o rio Itapemirim, e outra na frente para a rua.
DESCOBERTAS FEITAS DURANTE A EXPERIÊNCIA
Alguns pais foram pessoalmente matricular os filhos, pagando a
mensalidade de $80,00. Além dos bolsistas, matriculei os filhos da
lavadeira e do pedreiro que construíra nossa casa. Esses alunos foram os
maiores incentivadores do nosso trabalho, pela assiduidade e entusiasmo
com que frequentavam as aulas, trazendo os companheiros da escola e
vizinhos do bairro onde moravam.
Eles apareciam sujos e descalços, motivo pelo qual instituí o uso de avental uniforme, com as iniciais EACI.
A alegria desses meninos era contagiante, e a espontaneidade e
simplicidade de seus trabalhos, tentando principalmente reproduzir a
natureza do lugar onde viviam, deixavam transparecer toda felicidade que
desfrutavam, como crianças livres que eram, de cidade do interior.
Subiam as escadas correndo, numa ansiedade incontida para começar as
aulas. As técnicas eram escolhidas por elas mesmas, e quase sempre
optavam pela pintura e xilogravura. Enquanto trabalhavam conversavam
sobre todos seus problemas, e quase sempre no final das aulas um
grupinho dava à turma a surpresa de um espetáculo improvisado de
fantoches, com as vozinhas muito características de neném, fazendo
pilhérias com os companheiros.
Por incrível que pareça, não havia
brigas dentro das aulas. O grupo vinha sempre junto e unido. Certo dia,
um deles não apareceu e o grupo se isolou num silêncio e murmúrios, o
que me deixou intrigada. Perguntei o que havia, não me responderam.
Certo momento apareceu o atrasado, a quem recebi cordialmente, como de
costume, mas eles se abstiveram de qualquer manifestação e se
conservaram calados quando ele se aproximava.
Durante uns dias o
enjeitado faltou, mas não me davam nenhuma notícia dele. Um dia apareceu
sorrateiramente e desconfiado, permaneceu por alguns minutos na porta,
olhou toda a sala e corajosamente se dirigiu a um do grupo e pediu
desculpas. E tudo imediatamente voltou ao normal, como se nada tivesse
acontecido. E se puseram a comentar a briga que haviam tido em suas
brincadeiras.
Esse mesmo grupo organizou um conjunto de música com
pandeiros de lata de goiabada, maracas de cabacinhas com cabos de
vassouras serradas e contas de lágrimas, tamborins que trouxeram de
casa, e uma flautinha de lata, que um deles de dez anos tocava de
ouvido.
E EXPERIÊNCIA PARTICULAR EM CERAMICA
Como a
cidade possui várias cerâmicas de fabricação manual, animei-me a fazer a
experiência pessoal em uma delas, pois ia sempre lá encomendar vasos
para minha coleção de plantas. O ceramista se prontificou a me ensinar
suas técnicas, e fiquei durante quinze dias praticando num torno de pé, a
seu lado, enquanto ele ia fazendo seus vasos e moringas. Observei que
as crianças vizinhas começavam a se divertir nos tornos desocupados,
tentando fazer o mesmo. Então mandei fazer um torno pequeno num
marceneiro, e instalei-o na cozinha. De começo tentei ensinar a técnica
de rodar a roda com o pé e equilibrar o barro no prato. Mas achei melhor
experimentar e deixar que eles fizessem a tentativa sozinhos, pois a
descoberta da técnica era para eles tão curiosa, como a das combinações
de cores nas tintas. Eu me preocupava somente em ensinar-lhes o perigo
de algum acidente com a roda, embora eles estivessem acostumamos a andar
sozinhos pela cidade, pelas margens do rio, evidentemente acostumados a
ele. De pronto se familiarizaram com o torno, chegaram a manejar o
barro e a fazer muitos objetos, como pratos, cofres, vasilhas, esperando
às vezes o endurecimento necessário para aplicar relevos altos e
baixos.
Depois dos trabalhos prontos e convenientemente secos,
levávamos os objetos de cerâmica para queimar, e depois de queimadas as
crianças geralmente os pintavam e levavam para casa.
Considero a experiência importante pelos seguintes resultados obtidos:
a) como instrumento de criatividade e de recreação.
b) como exercício para o desgaste físico.
c) como incentivo à vontade de acertar, pelo esforço que faziam tentando equilibrar, levantar, contornar e abrir o barro.
d) pela coordenação motora do exercício, e levando-os a satisfazer a necessidade de criar coisas úteis.
No entanto não sei se realmente tudo isso convém à criança, foi apenas
uma experiência em que tentei proporcionar mais uma inovação para suas
recreações, sem nenhuma intenção didática.
PROBLEMAS DECORRENTES
Depois de uns dois anos, o trabalho se intensificou, com a minha
nomeação para Professora de Artes Aplicadas no Colégio Estadual e Escola
Normal Muniz Freire. Encerrei os cursos de bordados, e passei a
explorar comercialmente o silkscreen, aceitando encomendas de flâmulas e
cartazes.
Meus filhos atravessavam a puberdade e não havia mais na
Escolinha ambiente para eles, junto às crianças. A exemplo da Escolinha
do Rio, incentivei meus filhos à criação de um clube juvenil, e cedi a
sala, depois das aulas das crianças, para que ali organizassem o clube,
sobre minha supervisão. O livro de ata deste clube conta toda sua
história. Mas mais tarde fui obrigada a fechar o clube, pelo fracasso da
experiência, muito em parte pela minha falta de conhecimentos
psicológicos que me permitissem conhecer melhor aqueles jovens e saber
guiá-los convenientemente.
Passaram então a se reunir em minha
casa, e ali recreavam e desenvolviam outras atividades que organizavam.
Mas a minha presença em casa se fazia necessária, e sentia que não podia
resistir ao trabalho por mais tempo.
A PRESENÇA DO PROFESSOR
Ao lado dessas dificuldades, as presenças do Prof. Augusto Rodrigues e
Lucia Alencastro se faziam sentir através de um permanente intercâmbio
de correspondência, animadora e esclarecedora. A Escolinha certa vez
recebeu de surpresa a visita do Prof. Augusto, que viu, absorveu de
perto e incentivou o nosso trabalho. Acredito que essa era a mola que
impulsionava o trabalho, e sem ela teria jamais teria prosseguido por
tanto tempo.
IMPACTO E RELAÇÕES COM A ESCOLA TRADICIONAL
Na verdade não houve impacto. Se os professores primários não chegaram a
tomar parte ativa do movimento, também não se manifestaram contra.
Alguns visitavam a Escolinha a convite meu, outros se limitavam a
perguntar como ía indo. Da parte da imprensa sempre encontrei a maior
colaboração, divulgando e até exaltando o trabalho. As exposições dos
trabalhos dos alunos eram sempre muito concorridas, e sempre realizadas
no dia da tradicional Festa da Cidade, e inauguradas pelos prefeitos,
governadores e autoridades que ocupavam cargos administrativos nas
ocasiões. Realmente houve boa aceitação, e nenhuma reação visivelmente
desfavorável.
Quando fechei a Escolinha, fui convidada a dirigir o Jardim de Infância, o que cheguei a fazer durante um ano.
TENTATIVAS DE SOLUÇOES E SOLUÇAO ENCONTRADA
Os principais motivos que me levaram a encerrar os trabalhos na
Escolinha foram a falta de recursos financeiros para ampliá-los, a
necessidade pessoal de remuneração e a obrigação particular de dona de
casa e mãe de família, que, com os filhos crescidos, mais se agravou.
Em 1955, ao mudar o governo do Estado, procurei solucionar o problema,
tentando organizar uma sociedade jurídica (a Escolinha já havia sido
declarada de "utilidade pública" pela Prefeitura e pelo Governo do
Estado (leis 206, de 4.12.52 da P.M. e Lei 675, de 16.12.52, do Governo
do Estado). Com a promessa de uma verba maior pela Prefeitura, aluguei
um salão de 10 x 20 m, mais duas boas salas para secretaria, e
instalações sanitárias independentes. As dependências davam de frente
para a praça principal da cidade e fundos para o rio.
Aproveitando a
visita do governador Francisco Lacerda de Aguiar e de seu secretariado à
cidade, organizei uma grande exposição inclusive com trabalhos de
crianças do Uruguai, cedidos pela Escolinha do Rio, que havia se mudado
para sua nova sede já com o nome de Escolinha de Arte do Brasil.
A
nova sede da nossa Escolinha foi convenientemente inaugurada com os
trabalhos citados e os da nossa Escolhinha, e um quadro elucidativo
sobre as exposições que Augusto Rodrigues fazia na Europa, com recortes
de noticiários estrangeiros e demais documentos enviados da Europa.
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Isabel Braga
Tive o imenso prazer de receber um comentário da filha de Isabel, na noite de Natal. Marília Braga, filha de Newton Braga. Newton era irmão mais velho do Rubem Braga. Logo estamos falando dessa família de Cachoeiiro no Espírito Santo, Além de poetas, escritores, uma artista plástica que tenho a honra de recepcionar aqui no Varal.
Amanhã tem mais arte de ISABEL BRAGA