10.3.18

Crônica do Álvaro Abreu







Com arara e sem parque

Amora chegou no começo da noite de sexta feira. Fomos em comitiva apanhá-la no setor de cargas do aeroporto. Estava estressadíssima dentro de uma pequena caixa de madeira comprida, onde passou muitas horas vendo um mundo totalmente estranho, através de uma tela de arame. Nossa primeira troca de olhares não foi nada animadora. Ela gritou com força e me fez ficar preocupado com a possibilidade de ter sido criada uma antipatia definitiva. Em casa, achei por bem deixá-la ficar diante da gaiola com as quatro calopsitas de Manu. Pelo silêncio, acho que percebeu que estava em ambiente familiar, mas não quis sair da caixa enquanto estivemos por perto. O criador nos disse que ela poderia ficar dois dias sem querer comer ou beber.

Passei o sábado por conta dela, tentando provar ser pessoa confiável. Para tanto, lancei mão de uma varinha de bambu e lasquei uma das extremidades em muitas varetas, algo bastante atraente para quem gosta de bicar o que esteja por perto. Antes mesmo de ter gasto toda a sua raiva atacando a varinha, mergulhei a ponta na água e ofereci pra ela. Deu gosto vê-la bebendo as duas primeiras gotas. Passei um bom tempo repetindo a operação com movimentos suaves até que matasse a sede. Em seguida, prendi um pedacinho de mamão entre as lascas e estendi pra ela que, depois de vencer o que restava de desconfiança, recolheu a comida com a parte superior do bico e comeu com esganação. O fato é que, de gota em gota e de pedaço em pedaço, ela foi enchendo o papo amarelo e abrindo o coração, a ponto de deixar que eu usasse a tal varinha para dar as primeiras coçadas na cabeça dela. Se arara sorrisse, Amora teria sorrido pra mim. Tranquila a bordo do seu poleiro móvel, tomou um bom banho de mangueira e passou o resto do dia prestando atenção na conversa de adultos animadíssimos, comendo jabuticabas tiradas do pé, servidas na ponta dos dedos.

Vi que compensa esperar um filhote de arara por alguns meses, mas começo a acreditar que foi totalmente em vão esperar 26 anos pelo Parque Tecnológico de Vitória.

Vitória, 07 de março de 2018
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA



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