24.1.18

Crônica diária

Pescaria no Uruguai

No Natal e fim do ano de 2011 Paula, minha mulher e eu nos programamos passar pescando no Rio Uruguai. Ela estava em São Paulo, foi de avião para Florianópolis, e de lá pernoitamos na Piacaba, nossa casa em Imbituba, e de carro seguimos para o sul. Sem pressa. Comendo e dormindo sem reservas. Nessa época do ano os restaurantes e hotéis estão vazios. Quando chegamos na ponte onde há a aduana da fronteira com o Uruguai, estacionei o carro. Peguei o documento da Paula, os do veículo e fui ao guichê cumprir as formalidades legais. Entreguei tudo ao funcionário, que como todos que exercem essa função usam óculos Raiban, e em geral não esbanjam simpatia. Começou pelo da Paula. Juntou todos e me devolveu dizendo: "Só com Passaporte ou Carteira de Identidade". Assustado ainda tentei argumentar que a Carteira de Motorista tinha foto e o número do RG, mas foi em vão. Não pude nem insistir. É lógico que país nenhum do mundo aceita carta de motorista como documento válido, a não ser para dirigir. Voltei para o carro. Perguntei se ela não tinha trazido nenhum outro, e com a negativa, manobrei e voltamos para alguma cidade próxima da fronteira onde houvesse um posto de correio. Pelo celular, que ora não tinha sinal, ora o sinal era débil, pedimos para o filho da Paula, que na época morava em casa, em São Paulo, fosse a uma agência dos correios com o Passaporte e Identidade da mãe e colocasse num Sedex 10, único capaz de chegar a tempo. Véspera do dia 25, clima de Natal. E em poucas horas ficamos sabendo que o tal Sedex 10 só opera em cidades com aeroporto. A mais próxima era Santa Maria. Muitos quilômetros de distância faziam diminuir nossas esperanças do plano dar certo. E não deu. Resolvemos não azedar nosso fim de ano, procurando um hotel, sem ter a mínima ideia da geografia da cidade. E na portaria nos indicaram o único restaurante aberto aquela noite, véspera de Natal. O restaurante era enorme, com apenas uma mesa com adultos e crianças de uma família. Procuramos sentar o mais longe possível, para evitar o barulho delas. Lá pelas tantas percebo que um indivíduo falando alto e grosso sentou na mesa pegada à nossa. Com tanta mesa, foi logo sentar nas minhas costas. A Paula que estava de frente foi descrevendo  as razões pelas quais as crianças da outra mesa estavam tão agitadas. Era um senhor muito gordo, com vasto bigode e barba brancos, e cabelo grisalho,  preso num "rabo-de-cavalo". Acompanhava o "Papai Noel", sem a tradicional roupa vermelha, um garoto de quinze anos. Comemos peru. Afinal era Natal. Terminado o jantar nos preparamos para passar pela mesa com a maior discrição possível, uma vez que pela altura da voz, nos parecia que o homem estava alcoolizado. Ao cruzar a mesa ouvi: " Eduardo?" Não era possível. Quem poderia me conhecer em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, numa noite véspera de Natal? Dei meia volta, e num tempo que deve ter durado segundos, mas me parecia uma eternidade, olhando nos olhos do velho barbudo disse: "Não estou te reconhecendo". Ele abriu um largo sorriso e se apresentou: "Sou o Ricardo Franco de Mello". Não podia acreditar. Fomos amigos de infância e não nos víamos a mais de cinquenta anos. Ele disse ter me reconhecido porque eu era a cara do meu pai. Nossos pais e irmãos eram muito amigos. Apresentei a Paula, ele o garoto, seu enteado, e nos justificamos por estar em Santa Maria naquela noite. Cada história menos verossímil do que a outra. Abraçamo-nos, trocamos números de telefone e prometemos encontrarmo-nos ainda antes do próximo século. 

Um comentário:

João Menéres disse...

Até no Polo Norte ( ou Sul ) podemos ser "apanhados" !...

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