5.8.17

Crônica do Álvaro Abreu



Frutas de Estação

Não sei se repararam, mas dias desses estavam vendendo carambolas enormes nas esquinas da cidade. Carambola profissional, tipo exportação, especial para consumidores diferenciados, como dizem por aí.
Mais uma vitória dos pesquisadores que vivem de aprimorar e recriar frutas. Mais doces, mais coloridas, mais homogêneas, mais rentáveis. Coisas do chamado agro-bussines.
Da minha parte, fiz um excelente investimento no verão passado. Paguei R$ 5,00 por 15 mangas espadas da mangueira da calçada do prédio onde eu trabalho.
Durante anos acompanhei a vida daquela árvore, mas nunca havia tido o gostinho de experimentar uma de suas frutas. As mangas de vez sumiam de um dia para outro. No máximo, via gente tentando derrubar algumas delas, na base da pedrada.
Contratei os serviços do rapaz que se iniciava na carreira de flanelinha. Esperto, o danado subiu na árvore com facilidade, até as grimpas. Da janela da nossa sala, fui passando instruções para que ele alcançasse as mangas mais escondidas.
Ele me entregou dois sacos cheios de mangas, como se fossem troféus. Notei orgulho no seu gesto. Eram frutas perfeitas, sem um amassado sequer, porque tiradas a mão. Algumas tinham pintas pretas na casca, indicando que estavam prontas para o consumo. Outras davam tal indicação com um amarelo degradé, mais forte em volta do cabo. O cheiro forte completava o quadro de tentação.
Chupei duas delas com o caldo escorrendo pelos braços. Meu colega de sala escolheu uma bem grande para matar o desejo. Os outros, vejam só, agradeceram a oferta com cara de pouco caso. Imagino que eles devem gostar de pocan, fruta que parece inventada para agradar multidões, como esses cantores que surgem por aí, a cada semana.
Tenho birra de pocan, desde que a conheci. Confesso-me consumidor convicto das mexericas de casca lisa, azedinhas, cheias de caroço. Mexeria pequena, da roça. É que fui criado com frutas tiradas nos quintais da vizinhança. Esperava a chegada do tempo do cajá-manga, que via crescer e começar a amarelar. Acho que a impaciência me fez aprender a comer cajá com sal, com água na boca, achando uma delícia.
Mamãe costuma dizer que em Cachoeiro só se comia frutas e verduras que davam em cada estação, quase sempre trazidas de fazendas próximas. Comida não entrava nas despesas da casa. Nada vinha de muito longe.
No verão, em Marataízes, comprava-se a carga que cabia em balaios trazidos no lombo das éguas, puxadas por maratimbas, gente muito branca, de fala bem arrastada e meio cantada. Todos usavam de chapéu de palha.Os cargueiros vinham pela areia da praia lá da Ponta do Siri. O carregamento era quase sempre o mesmo: manguita redonda, cujo gosto não me sai da memória, abacaxi miúdo e muito doce, melancia comprida cheia de caroço e um melão perfumado, mas de pouco gosto, que se comia com vinho e açúcar.
Talvez por tudo isso, tenho certa dificuldade em comprar goiaba, carambola, beribá e abiu roxo. Em compensação, compro kiwi, morango e cereja sem qualquer problema psicológico. Uva também.
Vitória 19.08.2009
Alvaro Abreu
Crônica escrita para a Gazeta

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