21.7.17

Crônica do Alvaro Abreu

Voando na Ilha

Dia desses uma família de corujas fez sucesso na primeira página deste jornal. Sérias e intrigadas, elas posaram para a foto diante da toca que cavaram na areia, perto da Curva da Jurema.
No começo da Praia da Direita da Ilha do Boi também tem uma família daquelas corujas. Aliás, passarinho é o que não falta por aqui, dos bem pequenos aos mais taludos: juriti, pomba-rola, rolinha, anu branco e preto, bem-te-vi, cambaxirra, caga-sebo, cardeal, pica-pau, joão-de-barro, canário-da-terra, sabiá da mata, sabiá da praia, bombeirinho, coleiro, beija-flor, sanhaço, gavião, maçarico, andorinha-do-mar, gaivota, pardal e urubu, naturalmente.
Acompanho a evolução dessa turma desde que me mudei pra cá, em1987, quando os pardais dominavam o pedaço. A chegada dos bem-te-vis foi bem vinda e determinante. Maiores e mais fortes, aos poucos foram tomando terreno. Faziam ninhos nos transformadores da rede elétrica e se alimentavam com ovos dos concorrentes.
Não tenho visto mais o bando de bombeirinhos que habitava a ilha desde sempre. Acho que se mudaram por falta de semente de capim colonhão (SIC), que a prefeitura não mais permite cultivar nos terrenos baldios que restam. 
Outro dia reparei o bando de maçaricos fazendo hora na laje de pedra em frente ao Village. Por alguma boa razão ancestral, eles descansam perfilados no contra-vento, num pé só, com o bico vermelho enfiado debaixo da asa direita. Para fugir da espuma das ondas, saltitam para a parte mais alta, sempre no mesmo pé. Há quem se queixe do barulho que fazem à noite.
Gosto de pensar que o mamoeiro que vejo da janela do meu quarto alimenta os sanhaços e que a moita de hibisco tenha virado uma espécie de restaurante self-service para cambaxirras, caga-sebos e beija-flor de todo tipo. Mas merece denúncia a concorrência desleal praticada por passarinhos que bicam as frutas da nossa jabuticabeira desvairada, antes mesmo que amadureçam.
Em dezembro passado apareceu um sabiá da praia, que adora passear pelos jardins da casa usando pulseira de alumínio na perna esquerda. Mansinha, acho deve ter sido solta da gaiola por insistente pressão dos filhos de quem a mantinha presa. Em compensação, nunca mais vi o único pica-pau que bicava por aqui.
Não sei bem os motivos, mas uma grande quantidade de andorinhas do mar resolveu se apossar da Galheta de Fora recentemente, deixando a pedra toda branca. Fazem lembrar das garças carrapateiras que descem em caravana o rio Itapemirim nos fins de tarde. Da varanda da casa de um amigo, parei de contar depois que passaram mais de 600.
Como muita gente da minha geração, fui criado com passarinho em volta, dentro de casa. Pouco antes de morrer, papai ganhou de presente de Augusto Ruschi um bicudo, que viveu conosco por mais de 14 anos. Ele conhecia mamãe de longe. Seu canto, afinadíssimo e melodioso, era de fazer inveja a tio Cristalino, que tinha grande orgulho de seus bicudos e curiós.
Digo tudo isso com saudade da Aurora, a arara que vivia solta pelos muros, fazendo graça para quem passasse na rua. Temperamental, tinha ciúmes dos cachorros da casa. Interesseira, ela vinha tomar café da manhã comigo. Diariamente.

Vitória, 30 de Setembro de 2009
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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