9.6.17

Crônica diária

Cartomante em Brasília

Com oitenta e sete anos, quase completos, o padre Quevedo, hoje aposentado e morando numa casa para idosos em Belo Horizonte, cuida de sua precária  saúde. Nascido em Madri na Espanha, naturalizou-se brasileiro e como uma das maiores autoridades do mundo em Parapsicologia, dedicou sua vida em difundir suas teorias, estudos e pesquisas que visavam combater os posicionamentos de religiosos e paranormais que afirmam  poder  prever  o futuro, e considera tais práticas como ilusionismo, e charlatanismo. Por ironia do destino os videntes e cartomantes mais conhecidos também tem sotaque estrangeiro. Tratar do assunto, contra ou a favor, com sotaque,  parece aumentar a credibilidade.
Brasília desde sempre foi uma capital mística. O poder e o misticismo parecem estar sempre juntos. Dona Rosa, filha de candangos nasceu pelas mãos de parteira. Moravam no acampamento Vila Amaury, reservado para os trabalhadores da construção da cidade. Quando as águas da lagoa Paranoá submergiram a Vila, dona Rosa já não morava mais lá. Sua mãe abandonada pelo marido foi trabalhar como faxineira na Embaixada do Paraguai. A filha foi praticamente criada pelo pessoal da embaixada. Fala português tão bem (ou mal) quanto o espanhol. Até um pouco de Guarani. Nunca saiu do Distrito Federal, mas tem ares de viajada. Desde menina pequena e franzina encantava as pessoas com seu olhar vivo, e inteligência aguda. Possuía uma sensibilidade diferente. Adorava inventar histórias. Quando sua mãe morreu, já era mocinha, e recebeu para morar uma casinha na Asa Norte, como gratidão dos funcionários da embaixada. A alta sensibilidade da dona Rosa nunca a deixou se apaixonar por ninguém. Nunca se casou. Se tivesse tido orientação espiritual talvez a vocação fosse para freira. No início aconselhava gratuitamente os vizinhos, e depois os amigos dos vizinhos e logo sua fama de cartomante se espalhou. Dona Rosa é muito solicitada em Brasília. Poderia estar rica se cobrasse o que cobram seus concorrentes. Mas ela só aceita doações para sobreviver, e manter uma creche com trinta e seis crianças. Fala português,  a maior parte do tempo, mas quando esta atendendo um cliente, mescla o espanhol. E não faz isso por esperteza ou sagacidade, alegando serem determinações dos espíritos.
A maioria de carros de clientes, atualmente param em frente a casinha de dona Rosa, com motorista e chapa branca. Carros oficiais. Os políticos se socorrem da vidente em busca de luzes no futuro. Um deles chegou a propor uma sala próxima a seu gabinete no Congresso Nacional. Nunca aceitou nada além de módicas contribuições.
 Na manhã de um domingo, sem aviso telefônico prévio, parou na sua porta, um carro preto, com vidros fumê, e dele saíram três truculentos homens vestidos com ternos e gravatas igualmente pretas. Suas intenções eram claras nos gestos enérgicos e decididos.
--Viemos busca-la dona Rosa.
Ela parecendo conseguir ler os pensamentos dos seus algozes, não os questionou, apenas pegou uma pequena bolsa, e se disse pronta a acompanha-los.
Em grande velocidade, sem qualquer necessidade ou pressa aparente, mas como é de hábito os carros oficiais se locomoverem, o destino foi o Congresso Nacional.
Entraram pela rampa da garagem reservada aos parlamentares. Apesar de ser um domingo parecia haver muita gente trabalhando. Ela foi conduzida por três dos quatro homens de terno para o terceiro andar. Era a primeira vez que estava no coração do poder legislativo do seu país. Em que pese, seu pai ter trabalhado como candango naquela obra, jamais pensara um dia poder estar “a convite” num salão tão nobre.
A razão do “convite” em pouco tempo se esclareceu.  O presidente do Senado estava com uma pasta azul, com muitas folhas no seu interior. Ele e cinco assessores sentaram-se à mesa onde dona Rosa já os aguardava. Sentiu-se uma pessoa importante.  Lembrou as recepções que aconteciam na embaixada onde passou a infância.
Tomando a palavra, de forma afetada, como costumam se expressar os políticos nessa posição, o Senador foi direto ao ponto:
--É um prazer recebe-la dona Rosa, que tão prontamente atendeu nosso convite, e não é necessário enfatizar a gravidade do momento que vivemos.
--É mesmo, Senador? Exclamou, ingenuamente, dona Rosa.  
--Na verdade estamos aqui com um projeto de lei que irá modificar profundamente nossas instituições, e gostaria que a senhora nos dissesse o que será do nosso futuro.
--Senador, meus conhecimentos são sobre a alma humana, e não tenho   essas informações que deseja.
--...mas dona Rosa, dizem que a senhora enxerga o futuro...
--Senador, posso dizer algumas coisas sobre sua vida, e a vida de algumas pessoas aqui presentes, mas não sobre o futuro desse monte de papel. Os espíritos, e nesse ponto começou a falar em espanhol, não cuidam de leis.
Os cinco assessores do presidente, (três mulheres) até este ponto concentrados em seus postos, reagiram com largos sorrisos. Pareciam estar comemorando uma vitória. Como trocar seus doutos e profundos conhecimentos técnicos, por uma reles e inculta opinião de uma cartomante.
O senador, visivelmente contrariado, fechou a pasta, e levantando-se deu a reunião por encerrada. Contrariando a  praxe, nenhum assessor o acompanhou.  Ao contrário, todos com os olhos colados na frágil dona Rosa, continuaram sentados,  dispostos a conhecerem seus próprios futuros. A manhã passou muito rápida. Eram mais de treze horas quando o motorista de terno preto, sem nenhum dos outros três seguranças, levou a vidente de volta para casa.
Os cinco assessores saíram para almoçar, e a tarde foi toda dedicada às profecias  que haviam escutado naquela manhã de domingo. E nada parecia tão grave como o Presidente do Senado havia previsto. A vida de cada um deles seguiria o seu curso  normal. Casamentos, filhos, novos amores, e muito dinheiro.

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