3.6.17

Crônica diária

O baile das cigarras

O sonho muitas vezes é mais fantástico e criativo que a mais inventiva das imaginações. Eu estava em Brasília, mais precisamente na Rodoviária, e desci uma escada rolante,  no rumo da Pastelaria Viçosa desviando da multidão. Desci outra escada rolante, passei em frente ao “Na Hora” e antes de chegar nas catracas do Metrô, havia a esquerda, uma porta metálica discreta, sem placa indicativa do que se tratava. Abri e entrei. Dava direto num salão cinza, sem nenhuma outra porta, com  um bloco de mármore branco, no centro. Sobre o bloco de pedra, do tamanho de uma cama de solteiro, sob um pano cinza, da mesma cor das paredes, do teto e do carpete do piso, um cadáver coberto dos pés a cabeça. A luz era fria, de neon. Havia no salão, aparentemente de um velório, mais três pessoas. Num canto esperando para se despedir do morto dois homens de terno escuro. Ao meu lado uma mulher. Os dois homens caminharam até o defunto, cabisbaixos, levantaram o pano cinza que cobria a cabeça, fizeram o sinal da cruz, e voltaram a cobrir o rosto. Teoricamente seria a minha vez, mas como cavalheiro dei passagem para a mulher que estava ligeiramente atrás e a minha esquerda. Ela aceitou meu gesto, e se dirigiu na direção do bloco de mármore que tinha a altura de uma mesa. Ela estava comovida e com um véu azul claro cobrindo a cabeça. Não cheguei a ver seu rosto. Vestia uma roupa colante bege,  que acentuavam suas  formas. Era muito sensual. Primeiro ficou nas pontas dos pés que calçavam um sapato elegante e salto muito alto e fino. Colocou as nádegas sobre o bloco de pedra, e girando o corpo ficou em paralelo ao corpo do morto.  Em seguida puxou o pano cinza que cobria o falecido, e montou sobre ele. O morto estava vestido de fraque, com sapatos pretos impecáveis.  Ela tirou os seus, deixando caírem no chão. Tinha lindos pés que se apoiaram nos sapatos do morto para alcançar sua cabeça. Com seu corpo totalmente sobre o cadáver, parecia segredar-lhe alguma coisa. Foi nesse instante que percebi havia música muito baixa de um piano. Uma gravação com certeza. E as notas delicadas pareciam acompanhar o canto de uma cigarra. Aos poucos fui me dando conta que o som da cigarra era a voz nos ouvidos do morto. E essa cena durou alguns minutos. Tive a impressão de ver um tremor do falecido, ainda por baixo da mulher cigarra. Depois ela, delicadamente, virou-se para o lado e desceu do bloco branco e frio de mármore. Eu não desgrudava os olhos no morto. Ele realmente estremeceu, seus joelhos se curvaram. Seu peito parecia inflar, e suas pálpebras movimentaram. Num gesto brusco com os braços que estavam paralelos ao corpo, ele espichou os dedos da mão, como se houve levado um susto. Mais tremores, possivelmente em consequência das golfadas de sangue que voltavam a circular e irrigar todo o corpo. Sua cabeça estava pousada num pequeno travesseiro de cetim branco moveu-se ligeiramente, e seus olhos se abriram. Eu continuava estático na ponta do bloco de pedra. Nesse momento me dirigi para o lado ficando na altura das mãos do homem deitado. Ele ergueu a cabeça na minha direção e eu perguntei:
---Você não esta me reconhecendo? Ele franziu a testa, como se estivesse tentando lembrar. Então falei:
---Você foi quem me arrumou o primeiro emprego, esta lembrado? E ele esboçou um leve sorriso, ainda confuso.
---Bem vindo à vida, novamente. Eu disse essas palavras, e ele baixou a cabeça no travesseiro.
O piano e o canto da mulher cigarra continuavam fazendo a trilha sonora dessa cena. Ao contrário do barulho estridente, essa cigarra cantava com um fio agradável de voz. Calçou seus sapatos, e foi cantando ajudar o homem a descer do bloco de mármore. Ele aos poucos ia ganhando cor normal, menos pálida. Era branco de barba cerrada que parecia ter crescido nas ultimas horas. Vaidoso, a todo instante passava a mão tentando ajeitar o cabelo desfeito pelo travesseiro.  A mulher cigarra era, por conta do salto, um pouco mais alta que ele. Tirou o xale da cabeça, e assim do nada, tinha em mãos um envelope grande, desses de casamento ou convite de embaixada. Não me cobrem coerência. Em sonho tudo é possível. Mágico. Fantástico. Nada estava escrito no envelope. Mas ficou implícito, pelo fraque do ressuscitado, e pelo vestido colante da cigarra, que era um convite para o baile de gala do Itamaraty, que aconteceria naquela noite.
Saímos os três. Eles misturaram-se na multidão que se dirigia para o Metrô, e eu voltei a subir as duas escadas rolantes.  Já era noite, e fazia muito calor em Brasília. Nessa época do ano as cigarras tomam conta dos gramados e jardins da cidade. O barulho que fazem é ensurdecedor.  Tomei um táxi e de curiosidade fui para o Itamaraty. Lá o tradicional tapete vermelho recepcionava os chefes de estado, embaixadores, e convidados. O som das cigarras era audível por toda parte. Fiquei um tempo junto ao alambrado que separava o povo dos convidados, na esperança de ver o casal entrar. Depois de algum tempo desisti.  Ou se atrasaram ou já tinham entrado quando cheguei.
Aquela noite eu precisava comemorar.  Saí andando pelos gramados, sob a luz de uma lua enorme, e uma algazarra fantástica das cigarras.
Tocou o despertador, acordei, e olhei os digitais vermelhos do relógio. Eram 07:30.
A primeira coisa que fiz, antes de perder esta historia, foi ir ao computador e digita-la. Li ainda esta semana no “Manual do Escritor” do Roberto Klotz que se deve sempre anotar as novas ideias, antes que elas desapareçam.  Mas uma coisa que eu não disse foi que não iria continuar a escrever contos baseados nas “provocações”  do Desafio dos Escritores do DF. Fiquei indignado com as tarefas dessa ultima. Nunca entrei no Metrô de Brasília. Para dizer a verdade não sabia de sua existência. Depois, como  personagem  uma cigarra. E para completar  o descabimento, um convite sem nome para um baile no Itamaraty. Opa, estou passando 48 palavras das 1000 máximas exigidas. E isso perde ponto. Ainda bem que tive esse sonho. Sonhar absurdos é plausível. O que não dá é para escrever sobre cigarras sem criar uma fábula ou uma crônica.

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