22.5.17

Crônica diário

 O alemão obsessivo 

Nascido em Munique, desde pequeno adorava brincar com régua e compasso, fazendo desenhos geométricos. Um dia seu tio, mestre cervejeiro, voltando de uma viagem ao Brasil aonde havia ido assessorar um fabricante de bebidas, trouxe alguns cartões postais de Brasília. Um deles mostrava um relógio de sol; outros, fachadas de edifícios modernos, recém-construídos, e algumas paredes revestidas de azulejos coloridos, a maioria em branco e azul. As formas e desenhos chamaram a atenção do menino. Eram de algum modo semelhantes a seus obsessivos traços geométricos. Os postais ficaram durante anos na parede de seu quarto. Muito tempo depois, já formado em arquitetura, resolveu viajar a Brasília para conhecer aqueles murais coloridos. Levou os velhos cartões postais do tio como referências. Já no aeroporto, ao passar por um mural amarelo e vermelho, desconfiou fosse obra do artista que viera conhecer. O hotel que escolhera, na chamada Asa Norte, tinha o nome do autor dos famosos azulejos. Assim que entrou no quarto, tirou do frigobar uma cerveja e tomou-a em homenagem ao tio. Com a máquina fotográfica pendurada no pescoço pediu um táxi ao porteiro e mostrou ao motorista um dos cartões postais, fazendo gestos para que ele entendesse o destino pretendido. Rumaram para o Parque da Cidade, na Asa Sul, a poucos minutos dali. Lá estava o relógio de sol que ele conhecia dos cartões, e havia também espelhos d´água, ciclovias, gramados e uma vegetação que em nada pareciam com as imagens dos postais de anos atrás. No horizonte ele via prédios do arquiteto Oscar Niemeyer, que conhecia dos livros da faculdade, e de outros que vieram depois dele. O sol estava a pino, e o alemão aproveitou para fotografar o relógio, sempre cercado de turistas. Não foi difícil avistar um ponto de ônibus e banheiros públicos com as paredes recobertas com azulejos coloridos formando os característicos desenhos do Athos Bulcão. Sentiu um frio na coluna, um arrepio pelo braço e um descompasso no ritmo da respiração ao ver os azulejos em suas formas variadas, predominando a combinação de azul e branco. Aqueles dos cartões da sua infância. Aqueles que tantas vezes tentara copiar. Que sonhava conhecer. Seus olhos chegaram a marejar. Uma emoção enorme. Caminhou até eles. Aproximou-se extasiado com a imagem que tinha na memória há tantos anos. Colocou a mão sobre os ladrilhos como quem toca os pés de um santo na igreja. Embevecido. Tomou certa distância, para fotografar. Os passantes o atrapalhavam, mas a obra de Athos fora feita para eles, não para museus e galerias. Voltou a aproximar-se, para fotografar detalhes. As formas retas e curvas, revelando desenhos abstratos, assentados com lógica ou enganosamente sem critério, eram de uma beleza inimaginável. Mais impactante do que sonhara. Queria olhar um por um. Encontrar um fora do lugar. Procurou obsessivamente. Havia lido que o artista, ao acompanhar a instalação dos azulejos, recomendara aos pedreiros que iniciassem pela fileira de cima, e depois inventassem eles próprios a disposição. No caso desse painel dos pontos de ônibus do Parque, isso não podia ser verdadeiro. Estavam magistralmente dispostos. De moderna forma, contemporânea. E foi com essa observação cuidadosa e obsessiva que ele notou, num canto, perto da abertura da entrada do banheiro, um azulejo cujo tom de azul era ligeiramente diferente. Só perceptível para olhos muito atentos. Um falso Athos Bulcão. Um azulejo pirata no meio de tantos verdadeiros. Fotografou sua descoberta. Imaginou que talvez os fragmentos do original  estivessem enterrados nos arredores da marquise do ponto. Seria um troféu e tanto. Voltou para o táxi e mostrou outros cartões, fazendo o motorista perceber o interesse do seu passageiro. Entendiam-se mais por mímica do que pelo inglês que o motorista não dominava. E aí o trajeto foi mais longo, porém não menos interessante. Brasília lembrava um pouco, na topografia e nos amplos espaços verdes, a cidade de Berlim. Tinha até uma torre de TV entre o hotel e o Parque, e nela outro painel. Fizeram longa peregrinação. Em cada construção que exibia um mural, o motorista estacionava. Brasília estava repleta deles. A emoção de vê-los pessoalmente foi enorme. Fez questão de parar em cada um. De colocar a mão nos azulejo frios, em azul e branco. Fotografá-los. Em detalhe e no conjunto. Mas não encontrou nenhum outro que parecesse falso. Finalmente, quando partiu da cidade, o alemão contemplou aquela imensidão de céu e terra e percebeu que ali era mesmo o local ideal para a obra de Athos, nome do filho de Gaia, a Terra, e Urano, o Céu, na mitologia grega.

PS- Foi com esse conto que inscrevi-me no DESAFIO DOS ESCRITORES DF
Concorreram 138 textos, e só 21 autores foram escolhidos para continuarem no certame. Eu não me classifiquei.

3 comentários:

João Menéres disse...

Não conhecendo os 21 que o júri apurou, não posso afirmar que este seu conto dos azulejos de Brasília foi injustamente excluído.
Mas posso dizer seguramente que a mim me agradou sobremaneira.
E eu quase me senti retratado nesse arquitecto alemão que um dia fora menino.
Muitos parabéns, Eduardo.

Eduardo P.L. disse...

João, eu conheço os outros 21 contos e concorrentes e posso afirmar que são muito bons e mereceram serem escolhidos. O meu foi recusado por dois motivos principais, segundo um jurado, e concordo: faltou ação e ficou no clichê das provocações. Nas duas seguintes procurei corrigir essas falhas, e acredito ter escrito um conto melhor. São muito úteis essas oficinas literárias.

João Menéres disse...

Se os outros 21 são considerados por si como muito bons, tudo bem, então.

AS POSTAGENS ANTERIORES ESTÃO NO ARQUIVO AÍ NO LADINHO >>>>>

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