26.5.17

Crônica diária

Roberto, com adaga, não

Maldita hora que o Cassinho falou da existência do concurso/oficina Desafio dos Escritores DF. Antes não tivesse eu inventado de participar. Ele mesmo "amarelou". Fui eliminado na primeira semana. Na primeira provocação, como o Roberto Klotz chama seus desafios. Mas de brincadeira, como exercício, continuei escrevendo sem participar do grupo dos 21 concorrentes. O Cassinho comentou que o meu terceiro conto já estava mais "encorpado". Meus leitores cativos gostaram dos três. Resolvi esperar pelo quarto desafio. O Roberto esta complicando as coisas gradativamente. Veio com um "cenário da Rua das Noivas". Em Brasília, evidentemente. Eu não conheço, mas aposto, sem medo de errar, que deve ser brega e parecida com todas as "ruas das noivas" de todas cidades do Brasil. "O personagem, em vez de um, são dois: gêmeos". E explica que pode ser um signo, ou dois irmãos do mesmo sexo, ou de sexo diferentes, idênticos ou não. E para completar o  objeto-chave desta vez é  "uma adaga". Onde o Roberto esta com a cabeça! Desconfio que anda lendo muito Paulo Coelho, que segundo ele próprio, Roberto,  as pessoas criticam, sem terem lido. Mas "adaga" é coisa de conto "fantástico", de alusão a poder, e simbolismo. Me nego a escrever um conto nessa linha. Poderia até inventar uma história com muita ação, uma vez que fui criticado (e com razão, diga-se de passagem) no primeiro conto, "O alemão obsessivo", por falta de ação, e por ter ficado dentro do clichê. Mais uma vez, "adaga" é um convite claro a um bom clichê. Nessa não caio mais. Mas também não fujo da raia. Anotem aí, Cassinho e Roberto, vou lhes contar a história dos dois anõezinhos gêmeos, que resolveram se casar. Moravam numa chácara em Edilândia a 83 quilômetros de Brasília. Não pensem que ando influenciado pelo Rubem Fonseca, que não deixa de colocar um anão em seus contos. Nem pelas cenas circenses do Fellini, com seus anões portando adagas de madeira, em exército de Brancaleone´s. Os anões gêmeos, da minha história, são ainda mais singulares. Negros e idênticos. Univitelinos. Calcular idade de um anão não é tarefa para principiante. Os nossos  tinham trinta e dois anos. Sonhavam um dia serem donos de uma pousada em Alto Paraíso de Goiás. Inseparáveis, com muita afinidade, comunicavam-se entre si com um olhar. Um deles, e como eram idênticos, não adianta tentar identifica-los, se apaixonou pela Lurdinha. Moça simples do interior. Solteira com quarenta anos. Loira cacheada, de olhos azuis, pele clara, de estatura média e peso acima do desejável. Filha de gaúchos, descendentes de alemães, que vieram do Rio Grande do Sul cultivar soja no cerrado. Um ano depois de namoro, por insistência da Lurdinha, o outro irmão começou a sair com a amiga Gracinha, que de graça só tinha o nome. Magra esquelética, cabelo ruim, olhos de lagarto, e para completar nariz adunco. Feiosa, a coitadinha. Mas os quatro resolveram casar. Como os pais da Lurdinha eram contra esses casamentos, resolveram enfrentar a família, por conta própria. Alugaram o salão de festa da paróquia. Contrataram um buffet, e uma dupla sertaneja para animar a festa. Os convites, para o casamento duplo, foram impresso em papel pergaminho e letras em relevo numa gráfica de Brasília. E para lá os quatro foram de ônibus fazer as reservas dos trajes da cerimônia. O endereço era a Rua das Noivas. Duzentos metros (segundo o Roberto) de lojas com tudo para casamento. Só não havia roupa para anões. Mas isso os dois irmãos já sabiam. As noivas foram para alugar os respectivos vestido. Gracinha muito magra, e Lurdinha acima do peso, queriam que os vestidos fossem idênticos, numa homenagem ao mau gosto e às semelhanças dos noivos. Não encontraram nada parecido para alugar. Tiveram que se contentar com vestidos diferentes. Os irmãos foram comprar terno e camisa, num shopping, em lojas de roupa para criança. Acabaram que meio fantasiados. As padronagens juvenis não tem conotação matrimonial. Mas até as duas gravatas, que compraram numa loja de adultos, eram iguais. Impossível distinguir um do outro. Mas como um deles havia esquecido o celular no provador da loja, o outro resolveu ficar esperando num bar próximo do shopping. Quando o irmão voltou, não encontrou o outro. Tentou ligar para o celular do irmão, e caía na caixa postal. Resolveu tomar um táxi e ir para a Rua das Noivas, na esperança de encontrar o irmão e as duas noivas. Elas estavam na "Duquesa das Noivas", transpirando, mas com os vestidos ajustados e o aluguel contratado. Mas nada do irmão. Esperaram por mais de duas horas, andando para baixo e para cima. Já conheciam, pelo menos pelas vitrines, todas as lojas da rua.  E nada do irmão. Perder um anão negro, sem nenhum preconceito ou ironia nessa afirmativa, numa cidade como Brasília, não é coisa corriqueira. Resolveram fazer novamente o trajeto até o bar próximo do Shopping na esperança de que o irmão estivesse na redondeza. A noite já se apresentava, e nada do irmão. O celular continuava não atendendo. Restava antes de voltarem para a chácara comunicar a polícia. Foi fácil descrever o desaparecido por conta da semelhança do irmão. Chegavam a trocar as fotos nos documentos oficiais sem que ninguém percebesse. E para dizer a verdade, nem a Lurdinha, muito menos a Gracinha sabiam quem era um, quem era o outro. Voltaram no dia seguinte a Brasília e percorreram todos os hospitais, e delegacias possíveis. Nada de encontrar o irmão. O tempo foi passando e os casamentos tiveram que ser desmarcados. Não havia clima para festa, e na verdade faltava um noivo para a cerimônia. Como resolveram a questão? Cancelaram o salão da paróquia, o buffet, a dupla caipira e o vestido de noiva da Gracinha. O irmão que estava presente para casar escolheu a Lurdinha. Se o noivo era ele, ninguém nunca ficou sabendo. Pelo sim, pelo não, quem desapareceu foi o noivo da Gracinha.


Um comentário:

João Menéres disse...

Uma decisão bem lógica a do anão que se decidiu pela Lurdinha.
E o noivo da Gracinha desistiu de casar e de viver.
Para ele, Rua das Noivas jamais !
Nem qualquer outra rua em Brasília ou noutra qualquer cidade.

NOTA : Fui rindo a cada linha que lia e bem desperto pelo sucessivo suspense que me aguardava na seguinte.
Uma história trágico-cómica muito boa !

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