23.5.17

Crônica diária

Ouça o sino



O apart-hotel ficava a poucas quadras do Palácio da Alvorada, porém suas janelas não permitiam avista-lo. Aliás, por conta do andar baixo e da copa das árvores não se via nada. Mas o casal que ocupava o apartamento 122 não estava nada interessado na vista. Nem a cortina chegaram a abrir. Era a primeira vez que estariam juntos num quarto de hotel. Algumas intimidades já tinham acontecido no banco traseiro do táxi que os levou da boate até o hotel. Ela, muito ansiosa, ele meio alcoolizado, foram direto para o banheiro tomar uma ducha. O casal de meia idade aparentava boa forma física. Tinham até certo orgulho de seus corpos. Despiram-se sem maiores formalidades. Mas uma coisa chamou atenção da mulher. Dez centimetros abaixo do umbigo do companheiro havia uma grande tatuagem. Um sino. O lugar era pouco usual para tatuagens. E a tentativa de confundir o badalo do sino, com o pênis, era ridícula. A mulher achou graça e perguntou: 
Esse sino funciona?
Às vezes, meu bem. E riram.
A ducha era forte, a água quente, mas o espaço do chuveiro não permitia maiores movimentos. Ficaram abraçados por alguns segundos, e foi o bastante para o sino se manifestar. Ensaboaram-se mutuamente, enxaguaram-se e foram enrolados em toalhas macias para o quarto. Junto com o celular e a carteira do homem, sobre a mesa de cabeceira, a mulher notou um santinho de Dom Bosco. Mais uma vez intrigada, perguntou se ele era padre.
Não, minha querida. E riram, novamente.
O homem foi até o frigobar ao lado da TV, pegou duas garrafinhas de dose única de whisky, duas pedras de gelo em cada copo, e levou até a cama, onde a mulher nua lia, aparentemente com atenção o verso do santinho.
Eu explico o porquê desse santinho. Sou jornalista e estou fazendo uma matéria para a revista sobre o sonho de Dom Bosco.
Brindaram com os copos, dizendo:
Ao nosso encontro.
Conta a história desse sonho, disse ela.
Tudo começou com outro sonhador chamado Monteiro Lobato.
O do sítio do pica-pau amarelo?
Exatamente. Ele descobriu que Dom Bosco sonhara que haveria muita riqueza no solo de Brasília, muito antes dela ter sido construída, e muito antes de imaginarem que aqui seria a capital do país.
Interessante. Conta mais.
Agora abraçados, ele bebericando seu whisky, e ela acariciando o badalo do sino, continuaram a conversa.
Monteiro Lobato, como muitos outros políticos, interessados em usar o sonho do santo como avalizador de seus projetos, difundiram o que era na verdade insinuações de difícil interpretação, como são essas previsões visionárias.
Cada um interpreta como quer, disse a mulher, agora mais interessada no badalo do que na história.
É verdade.
Ele segurou a cabeça pela nuca, e deu-lhe um longo beijo na boca. Deixaram os copos de lado, tratando de fazer o sino funcionar.
Meia hora depois, suados, apesar do forte ar condicionado, cada um no seu lado da cama, só com as pernas entrelaçadas, ela perguntou:
Agora me conta essa história do sino.
Ahhh essa foi uma aposta de muitos anos atrás, com um amigo na praia da Enseada no Guarujá. Éramos vizinhos, e passávamos as férias juntos. Tínhamos dezessete ou dezoito anos, e apostamos quem conseguiria seduzir a empregada que trabalhava na casa ao lado da nossa. Era uma linda moreninha jambo, mais velha do que nós, e muito assanhada. Quem perdesse a aposta faria uma tatuagem no peito. Perdi. Fomos a Santos, onde havia um famoso tatuador, e na hora de escolher o lugar, imaginei que aqui era o mais escondido possível.
E por que um sino?
E o que mais eu poderia colocar aqui?
Riram, se beijaram, e fizeram o badalo funcionar o resto da noite.

 PS- De brincadeira escrevi esse conto com as premissas e provocações da 3º semana para os 21 concorrentes do Desafio dos Escritores DF, onde só os 21 classificados estão concorrendo.

2 comentários:

João Menéres disse...

Acho que o OUÇA O SINO teria sido apurado nos 21, Eduardo !
Tem princípio, meio e fim e a história é uma delícia !

Jorge Pinheiro disse...

E com badalo é outra coisa.

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