O Bic e o Alvaro Abreu
Meu prezado Eduardo,
Saiba que foi com a chegada do
isqueiro Bic que eu tive a minha primeira aula prática sobre produtos
descartáveis na minha vida. Foi um choque de realidade para um rapaz do
interior, que usava isqueiros a querosene, fossem eles Zippo, Monopol ou
mesmo aqueles em formato de bala, usados pelos matutos para acender
cigarro de palha.
Os primeiros isqueiros de
plástico podiam ser reabastecidos por uma válvula existente no fundo. O
grande avanço da Gillette (foi ela mesmo?) foi conseguir fazer um
produto seguro e baratinho que, depois de utilizado, pudesse ser jogado
fora sem dó nem remorso. Tendo acabado o combustível, o isqueiro Bic não
serve pra mais pra nada, a não ser para dar pedrada...
Pelas
avaliações que fiz na época, para meu espanto, o que deveria ser jogado
fora era muito mais valioso do que o gás consumido: uma cápsula de
plástico resistente e de design sofisticado, uma plaquinha de aço inox
em formato de "U", usada para proteger a chama contra o vento, um
cilindro de metal maciço com superfície ranhurada, um pino de metal para
prender o cilindro na cápsula, uma pedrinha de cerâmica para gerar
fagulha ao ser riscada, uma molinha usada para pressionar a pedrinha
contra o cilindro e uma válvula inteiramente segura por onde o gás pode
ser liberado, incluindo engenhoso sistema de alavanca para acioná-la.
Isso, sem pensar na quantidade de lixo gerado pelos milhões de isqueiros descartados diariamente pelo mundo a fora.
Bento,
meu filho, me deu de presente de aniversário um isqueiro acompanhado
com um cartão que dizia: "Pai, se você vai continuar fumando 3 maços por
dia, use um Zippo para acender os cigarros com elegância". Ele está
guardado, como marca do tempo, na minha gaveta de meias e cuecas desde
que tive o infarto.
Grande abraço.
Alvaro Abreu



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