Crônica diária
É preciso quatro para preparar uma salada
Foi cruzando com uma velha amiga, numa manhã em São Paulo, que recebi a
informação de que ela, e alguns intelectuais seus conhecidos, estavam
lendo, ou leram, e gostaram muito, do Premio Jabuti 2016. O livro
premiado A Resistência. O autor Julián Fuks. Não havia ouvido falar nem
de um, nem do outro. Nesse mesmo dia comprei. Comprei mais interessado
em saber o que os juízes desses concursos andam premiando. Sempre tive
muito preconceito com concursos. Trauma de infância. Meu pai foi
desclassificado num concurso de boi gordo, com um lote de Nelores, por
excesso de peso. Isso depois de vir ganhando, sistematicamente, todos os
torneios. Ele ficou muito abalado, e eu devo ter assimilado esse horror
a concursos. Mas sempre é bom conferir. Logo de início percebi que o
autor ostenta um physique du rôle de
escritor russo do século XVIII. Isso para jurado de literatura é
positivo. Depois é filho de pai judeu, psicanalista e mãe psicanalista
também, embora, católica. E para completar o clima favorável, o pai é um
ex terrorista argentino. Família de esquerda. Todos os ingredientes
necessários para uma receptividade favorável de qualquer júri. Mas só isso não
basta. É preciso escrever bem. Aí é que o carro pega. Já na orelha a
crítica Noemi Jaffe chama atenção para a forma rigorosa de linguagem.
"Quase matemática". Os jurados gostaram, e o premio foi dado. Outra
coisa é o leitor comum gostar. Eu, por exemplo não gosto dos rigores das
formas, muito menos de matemática. Mas no capitulo 14 dei risada com a
parábola que o pai do autor costumava contar sentados à mesa: "Eram
preciso quatro pessoas para preparar uma salada. Um avarento, um
pródigo, um sábio, e um louco. Ao avarento cabia despejar uma
quantidade pequena de vinagre. Ao pródigo esbanjar no azeite. Uma
quantidade acurada de sal ficava por conta do sábio. E por fim ao louco
misturar tudo com entusiasmo."


Um comentário:
Tenho preconceito de prémios.
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