31.3.17
Crônica diária
Ana C, Caio F, e Cèsar
A crônica de
ontem foi escrita num caderninho pautado desses que se compra em supermercado.
Tem cinquenta folhas e fica na gaveta do criado mudo. Acho horrível dizer mesa
de cabeceira para parecer politicamente correto. (Uma bobagem essa de
descriminar a palavra criado mudo). A anotação anterior à crônica de ontem
datava de 4 de junho de 2013, portanto há quase quatro anos que não usava
o tal caderno. E lá eu escrevi que não havia gostado do livro "Aos teus
pés" da Ana C. Salvo uma frase que transcrevi, e volto a fazê-lo, de tão linda
que é: "Estou bonita que é um desperdício". Em seguida, nas mesmas
anotações fiz uma brincadeira com a letra "C" do nome da Ana Cristina
Cesar, que assinava Ana C por não poder usar CC do seu nome. E lembrei,
naqueles escritos, do Caio F de quem a Ana C era amiga. E conclui lembrando o
nome do Cèsar Baldaccini (1921 - 1998) grande escultor, que não tem nada a ver
com o sobre nome da Ana C.
30.3.17
Crônica diária
Meio, muito cafajeste
Amanheceu um dia escuro, céu totalmente encoberto e ligeiramente mais
frio do que fora a noite. Tão escuro que perdi a hora de acordar.
Coloquei, depois da barba feita e um bom banho, minha bermuda, camiseta
XL branca, e havaianas que compõe meu traje na praia. A manhã continuou
nublada mas um vento sul levou as nuvens, fazendo aparecer o sol ao meio
dia. A temperatura continuou caindo, apesar do sol. Minha camiseta XL
branca é mais gostosa quanto mais velha e rala fica. Com o uso e lavagem
perde o algodão de que são feitas e ficam uma delícia. Mas não
agasalham. Às cinco e meia da tarde o tempo voltou a fechar, e virou
noite. A chuva era evidente no horizonte. Esfriou ainda mais. Subi para o
meu quarto com a intenção de pegar um agasalho. Ao passar pela cama,
mudei de ideia. Tirei a bermuda e entrei embaixo das cobertas. Só
acordei às 22:30, portanto cinco horas depois. O que me despertou foi a
luz de uma lua descomunal, exatamente no lugar que nasce o sol. Como
durmo de janela e porta do terraço abertas, os 10 000 wats da lua me
acordaram. Não choveu. Com a forte luz da lua batendo no meu rosto, a
ponto de ferir minha vista lembrei que não uso óculos, com lente escura,
há décadas. Desde que fui obrigado a usar lentes de grau, para perto e
longe, aposentei os óculos escuros contra o sol. E confesso, não sei se
por inveja, ou por outra razão qualquer, acho meio brega a maioria dos
usuários de lentes escuras. E se usarem corrente no pescoço, de ouro ou
prata, não importa, acho meio cafajeste. Confesso, porém, que quando
tinha meus vinte anos, cabelo com topete, usei óculos escuros, e
corrente de ouro branco no pescoço. E achava o máximo.
Crônica do Alvaro Abreu
Gente, olhem q bonitinha a crônica q o meu amigo-escultor Alvaro Abreu publicou nesse domingo lá no jornal de Vitória:
"Política e amizades"
Fomos passar três dias em Itapoá, Santa Catarina, cidadezinha situada na margem norte da baía da Babitonga, que é lugar pra turista nenhum botar defeito. Ao todo éramos uns vinte adultos, muitos já maduros. Pessoas de ocupações e interesses bem diversificados, gente habituada a rir das histórias dos outros e de si mesma. O motivo da viagem era nobre: comemoração do aniversário de um xará que vive por lá. Festança para mais de 200 convidados à base de chope gelado e churrasco feito no fogo de chão.
Saí de casa achando que seria um período próprio para uma avaliação serena das coisas que estão ocorrendo no Brasil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, tenho vivido os últimos tempos em estado de alerta permanente, ávido por informações fresquinhas, quase que viciado em noticiários de TV e posts de internet.
Soube com antecedência que não haveria TV a cabo no hotel e nem reclamei: com certeza, eu conseguiria viver uns poucos dias sem notícias sobre os últimos "acontecimentos sócio criminais", como meu irmão Afonso canta em uma de suas músicas.
Mas mesmo naquele ambiente descontraído, algumas pessoas, sempre de olho no celular, se mantinham on line com o que acontecia em Curitiba, nas avenidas brasileiras, no Congresso Nacional e nos tribunais e palácios em Brasília. As informações que iam chegando eram prontamente oferecidas a quem estivesse por perto. As conversas, frouxas pela cerveja farta, eram seguidamente interrompidas para o relato da última notícia bomba. Novidades sem fim sobre o presente, mas quase nada, além de incertezas, sobre o futuro.
Em companhia daquele grupo razoavelmente afinado em suas expectativas, me vi temporariamente afastado do embate surdo entre certos e errados, bons e maus, informados e desinformados, entre tolerantes e raivosos, crédulos e decepcionados, entre quem tem a ganhar e quem tem a perder com as eventuais mudanças e, o que é muito triste, entre pessoas que eram amigas fraternas até outro dia e hoje se veem como inimigos.
Vitória, 23 de março de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
"Política e amizades"
Fomos passar três dias em Itapoá, Santa Catarina, cidadezinha situada na margem norte da baía da Babitonga, que é lugar pra turista nenhum botar defeito. Ao todo éramos uns vinte adultos, muitos já maduros. Pessoas de ocupações e interesses bem diversificados, gente habituada a rir das histórias dos outros e de si mesma. O motivo da viagem era nobre: comemoração do aniversário de um xará que vive por lá. Festança para mais de 200 convidados à base de chope gelado e churrasco feito no fogo de chão.
Saí de casa achando que seria um período próprio para uma avaliação serena das coisas que estão ocorrendo no Brasil. É que, como deve estar acontecendo com muita gente, tenho vivido os últimos tempos em estado de alerta permanente, ávido por informações fresquinhas, quase que viciado em noticiários de TV e posts de internet.
Soube com antecedência que não haveria TV a cabo no hotel e nem reclamei: com certeza, eu conseguiria viver uns poucos dias sem notícias sobre os últimos "acontecimentos sócio criminais", como meu irmão Afonso canta em uma de suas músicas.
Mas mesmo naquele ambiente descontraído, algumas pessoas, sempre de olho no celular, se mantinham on line com o que acontecia em Curitiba, nas avenidas brasileiras, no Congresso Nacional e nos tribunais e palácios em Brasília. As informações que iam chegando eram prontamente oferecidas a quem estivesse por perto. As conversas, frouxas pela cerveja farta, eram seguidamente interrompidas para o relato da última notícia bomba. Novidades sem fim sobre o presente, mas quase nada, além de incertezas, sobre o futuro.
Em companhia daquele grupo razoavelmente afinado em suas expectativas, me vi temporariamente afastado do embate surdo entre certos e errados, bons e maus, informados e desinformados, entre tolerantes e raivosos, crédulos e decepcionados, entre quem tem a ganhar e quem tem a perder com as eventuais mudanças e, o que é muito triste, entre pessoas que eram amigas fraternas até outro dia e hoje se veem como inimigos.
Vitória, 23 de março de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
29.3.17
UEBA ! Olha nossos livros entre os outros...
Chegaram ! Agora estou rica ! Que delicia ! Tks Fernanda Dias de Oliveira e Eduardo Penteado Lunardelli. E à Saraiva pela rapidez ! UEBA !
Crônica diária
Frases escolhidas
"A mediocridade pode criar alguma coisa, seja ela uma forma de governo ou um novo estilo de cabelo, que valha a pena questionar". Vladimir Nabokov (1889 * 1977)
Memórias de François d´Agricourt: "Não conheço nada mais depravado do que o minueto, que eles acham adequado para se dançar em nossas cidades". (Compositor 1684 * 1758 - na França)
"Acho que aí eesta o sentido da criação literária, retratar objetos ordinários como serão refletidos nos espelhos simpáticos dos tempos futuros; a época em que um homem que vestia o mais comum paletó de hoje estará pronto para uma elegante festa à fantasia". Vladimir Nabokov
"A mediocridade pode criar alguma coisa, seja ela uma forma de governo ou um novo estilo de cabelo, que valha a pena questionar". Vladimir Nabokov (1889 * 1977)
Memórias de François d´Agricourt: "Não conheço nada mais depravado do que o minueto, que eles acham adequado para se dançar em nossas cidades". (Compositor 1684 * 1758 - na França)
"Acho que aí eesta o sentido da criação literária, retratar objetos ordinários como serão refletidos nos espelhos simpáticos dos tempos futuros; a época em que um homem que vestia o mais comum paletó de hoje estará pronto para uma elegante festa à fantasia". Vladimir Nabokov
28.3.17
João Menéres, casa de ferreiro, espeto de pau
Esse ditado, muito usado aqui no Brasil, serve para definir a nova foto do perfil do grande fotógrafo da cidade do Porto. Como fotógrafo consagrado, nunca mostra seu rosto na frente das lentes. E nunca troca de imagem na foto do perfil. Recentemente publicou esta, ótima. Quase se poderia dizer que foi uma selfie pela qualidade.
Crônica diária
Nuvem negra
Foi com essa definição: "nuvem negra" que o Senador Romero Jucá
(PMDB-RR) definiu o que paira sobre as cabeças de todos os políticos.
Ele é o mesmo que da tribuna do senado, há poucos dias, usou a expressão
"suruba" para definir a situação do congresso. É um Lord. Mas de
Roraima. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, e na condição de
líder do governo, "defende" a Lava Jato, porem, alertando para o
perigo da "generalização", que pode ter efeito negativo nas eleições de
2018. Curioso é que ele é a pessoa menos credenciada para falar em
"generalização". É um dos investigados pela Lava Jato. E quando alerta
para que se tenha cuidado, para não acabarmos com a classe de políticos,
abrindo espaço para "aventureiros", dispostos a qualquer tipo de
loucura, devemos "pensar no país". Logo ele, líder da turma que esta no
poder há mais de treze anos só pensando em si, em seus apaziguados, em
seus partidos, e jamais no bem do povo e do Brasil. Mas ele pode estar
certo de que a Lava Jato ainda fará a nuvem preta descarregar raios na
cabeça do Renan, do Lula, da Dilma, e da sua, evidentemente. Por quê só o
Eduardo Cunha e o Cabral estão presos? Que Justiça é essa? A nuvem
preta deverá sobrar para todos. Aí sim, poderemos, com novos partidos,
novas legislações eleitorais e partidárias, pensar no país. Com esses
bandidos, não dá.
Comentários que valem um post
Li Ferreira Nhan deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária":
Delícia essa crônica. Sempre me vejo nesse embate com as máquinas.
Mas penso que reflete o rápido passar do tempo e como ficar velha é complicado.
Postado por Li Ferreira Nhan no blog . em segunda-feira, 27 de março de 2017 02:54:00 BRT
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Jorge Pinheiro deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária": Excelente crónica.
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João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária":
Estamos todos pirando com essas vozes robotizadas, Eduardo !
Postado por João Menéres no blog . em segunda-feira, 27 de março de 2017 08:52:00 BRT
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Delícia essa crônica. Sempre me vejo nesse embate com as máquinas.
Mas penso que reflete o rápido passar do tempo e como ficar velha é complicado.
Postado por Li Ferreira Nhan no blog . em segunda-feira, 27 de março de 2017 02:54:00 BRT
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Jorge Pinheiro deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária": Excelente crónica.
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João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária":
Estamos todos pirando com essas vozes robotizadas, Eduardo !
Postado por João Menéres no blog . em segunda-feira, 27 de março de 2017 08:52:00 BRT
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27.3.17
Crônica diária
As máquinas são burras
Minha irmã Estela liga para papearmos.
--Tudo bem?
--Tudo, e vocês?
--Eu
acabo de tentar falar no banco mas o telefone não atende. Devem ter
mudado a linha. Ligo para o 0800 para solicitar o Informe de Rendimentos
para o Imposto de Renda, e quem atende é uma voz eletrônica. Depois das
apresentações de praxe, noto que nenhuma das opções que me oferecem diz
respeito ao Informe do IR. Teclo em outros, e da mesma forma nenhuma
opção contempla esse formulário. Tento falar com um dos atendentes, e a
gravação retorna ao ponto inicial. Fiz essas tentativas três vezes.
Nada. Amanhã vou na agência e resolvo. Mas o aparelho da Sky da minha TV
passou a dizer que não reconhece o cartão. Fiz quatro vezes tudo que a
tela da TV mandou. Desliguei o aparelho da tomada e todas as outras
instruções. Nada. Liguei para SAC e quem atende é outra voz eletrônica
que apresenta várias opções. Depois de escolher uma delas, tive que
aguardar um bom tempo ouvindo musiquinha de espera. Pedindo desculpas
pela demora atende uma voz real. Depois das informações de usuário, CPF,
endereço, etc, me passam um número enorme de dez dígitos como
protocolo. Anoto e passamos a fazer todas as operações que já havia
feito. Ela certamente não acredita nos clientes, e me fez repetir tudo
novamente. Pede um minuto. Volta pedindo desculpas e informa que não
conseguiu resolver o problema e que vai mandar um técnico. Amanhã das 13
às 18 um técnico vai à sua casa. Esperei pelo técnico, e apareceram
vendedores de frutas e ovos, um cobrador dos produtos de limpeza, um
encanador que foi chamado pelo vizinho, e nada do técnico da Sky. No dia
seguinte, depois de algumas tentativas, dava sempre ocupado, consegui
falar primeiro com a voz mecânica, depois com a atendente, passei o
longo número do protocolo, fui chamado de senhor Eduardo Penteado, e
reclamei com veemência. A coitada da moça ouviu e pediu um momento.
Voltou se desculpando pela demora, e disse estar fazendo uns
procedimentos no sistema, e que resolveria o problema por lá. Como de
fato resolveu. No dia seguinte um sinal no meu celular indica mensagem.
Abro e é da Sky dizendo que dia 17 recebi a visita do técnico e que
deveria avaliar minha satisfação de 1 a 10. Escrevi que não recebi
visita do técnico. Resposta insatisfatória. Digite de 1 a 10 o grau de
sua satisfação. Repeti: 0. Resposta insatisfatória, digite de 1 a 10 o
grau de sua satisfação. Voltei a escrever: ZERO. E ela, a máquina,
voltou instantaneamente a responder: Resposta insatisfatória, digite....
Vá a merda, pensei, não escrevi e desliguei. Sabe Estela, nosso pai é
que tinha razão, computadores nunca vão tomar nossos lugares porque são
máquinas burras.
--Eduardo, nosso pai nunca disse isso.
--Mas poderia ter dito, dentro de sua sensatez.
--Você de tanto escrever ficção, esta confundindo a realidade.
--Estela,
a única vantagem dessas vozes mecânicas e burras, é que mesmo quando eu
erro, elas docemente, com sotaque português de Portugal, me dizem:
recalculando, no GPS.
--Um beijo, meu irmão, você esta pirando.
E desligou.
26.3.17
Crônica diária
Todos nós que participamos dos protestos de rua para derrubar o governo
corrupto e incompetente da Dilma, do PT, e do Lula, precisamos voltar.
As forças derrotadas, mas não mortas, estão mais do que nunca precisando
receber das ruas, um sinal claro, de que estamos dispostos a continuar a
faxina. A operação Lava Jato nesta fase de julgamento dos políticos
envolvidos, pode ser vítima do corporativismo atávico, e na calada da
noite, o Congresso colocar tudo a perder. Não podemos subestimar a
capacidade diabólica de Sarneis, Renans, Jucás, e companhia. Além das
listas fechadas para as próximas eleições de 2018, que tem o único, e
exclusivo, intuito de eleger, e brindar os velhos caciques dos partidos
políticos, livrando-os da eventual derrota nas urnas, de se submeterem
ao juiz de primeira instância Sérgio Moro, não podemos aceitar que
aumentem o fundo partidário. O país esta quebrado. As contas só fazem
aumentar. As receitas, de uma esperada recuperação econômica, vem
frustrando mês a mês a equipe econômica. O congresso continua fora de
sintonia com o eleitor. Ao invés de aprovar as reformas, tais quais o
executivo clama, desfiguram-na, tornando-as inócuas. E só novos
impostos, que nós eleitores, e povo brasileiro vamos pagar, farão com
que as contas fechem. E a culpa vai recair no Temer, claro. A oposição
vai jogar no colo do presidente a nova conta. Ele, em boa medida, é
realmente culpado por não ter feito o que era preciso, logo nos
primeiros 30 dias de mandato. Nunca assumiu o presidencialismo de que é
presidente. Por sentir-se ilegítimo, talvez, como vice da chapa da
Dilma, tentou, como continua tentando, governar como se o regime fosse
parlamentarista. Mas com esse parlamento não dá. Isso todo mundo sabe.
Parlamento corrupto e desacreditado. E vamos mais uma vez pagar a conta.
Mas sem antes manifestarmos publicamente contra, com nossa presença nas
ruas do país. E para lá vamos voltar tantas vezes quantas for
necessário. Só assim poderemos demonstrar nosso desagrado com quem não
nos representa, e ajudar a salvar o Brasil. Ele corre grande risco.
Comentários que valem um post
João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Frieda Kahlo":
Sou um franco admirador da obra da Frida !
Postado por João Menéres no blog . em sábado, 25 de março de 2017 07:21:00 BRT
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Gaspar de Jesus deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Frieda Kahlo":
Aos 47 anos... Foi pena que uma Artista como a FRIDA tenha desaparecido tão prematuramente.
A foto, de autor desconhecido, está muito estragada pela erosão do tempo « e das unhas dos gatos ».
Postado por Gaspar de Jesus no blog . em sábado, 25 de março de 2017 12:09:00 BRT
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25.3.17
Crônica diária
Comparando coisas diferentes
Em junho de 2015, portanto há um ano e nove meses escrevi sobre o que
tinha lido do Herzog de Saul Bellow. Fui, percebo hoje, muito
influenciado pela reputação e informações sobre o livro e o autor.
Parei, naquela época na metade do livro. Só retomei a leitura este mês
de março de 2017. Alguma razão, diferente do que escrevi em 2015 deve
ter me afastado da difícil leitura. Acabo de ler, e não sou crítico
literário, só um leitor assíduo, o romance Caçando Carneiros do Haruki
Murakami, livro que o projetou internacionalmente. Dele se pode extrair
algumas observações: os dois personagens principais não tem sequer nome.
O livro todo conta com mais três ou quatro personagens. Um J, um Rato,
Um homem Carneiro, e outro de terno preto. Em seguida voltei ao Herzog
numa derradeira tentativa de terminar a leitura. Não consegui acabar.
São tantos os nomes e são tantos os personagens citados que a história
fica enfadonha. São tantas as palavras que carecem de asterisco, e nota
de rodapé, que cansam o leitor. Treze páginas de apresentação do autor, e
de sua festejada obra, assinada pelo não menos famoso Philip Roth,
valem pelo livro. Dirão alguns de vocês: "Mas não pode comparar um
Premio Nobel de Literatura com um escritor japonês de relativo sucesso".
Respondo que leio só por prazer. E o Haruki me da, e sempre deu, muitas
horas de pura satisfação e alegria. Para que sofrer? Ler o Herzog do
Bellow é uma cansativo exercício de memória, atenção, reflexão, que
retira qualquer ideia de prazer. Poderão dizer que estou comparando
Shakespeare com Paulo Coelho. Retruco dizendo que não chego a tanto, mas
que considero Shakespeare uma leitura para determinados dias e poucas
horas, e Paulo Coelho jamais, em tempo algum. Não sei se me entendem. E
entre os elogios que fiz em 2015 na resenha ufanista que produzi do
Herzog, fico com esta minha impressão desfavorável deste mês. Ou devo
ter emburrecido nesses vinte e um meses.
Crônica do Alvaro Abreu
Inveja branca
Passei
uma semana no Uruguai. Voltei de lá com uma inveja danada dos nossos
vizinhos. Tinha estado em Montevidéu para uma reunião de trabalho, por
volta de 1985. No inverno de 1970, a bordo da Kombi do dono de uma
pastelaria da Vila Rubim, alugada de última hora, junto com colegas da
turma de engenharia, cruzei o país em caravana a caminho da Argentina.
De banho tomado, prontos para conhecer a vida noturna da cidade, fomos
impedidos pela chegada repentina do Minuano, vento fortíssimo e gelado,
que não nos deixou sair do hotel.
Desta
vez, fomos só pra bestar junto de nossas duas filhas que moram em São
Paulo, dos genros e do neto caçula. Ficamos na casa de um amigo
argentino, à beira mar, perto de Piriápolis, balneário a uns cem
quilômetros da capital. Sem pressa e de olhos bem atentos, percorremos
um bom pedaço do litoral até depois de Punta del Este. Nas estradas, o
trânsito é tranquilo, com poucos caminhões e sem os radares que aumentam
substancialmente a tensão ao dirigir. Por todo lado, a expressão do bom
gosto arquitetônico e do bom senso urbanístico uruguaio. Quase todas as
construções, independente do tamanho e uso, estão em centro de terreno e
bem afastadas da estrada. No interior dos bairros, as casas estão à
sombra de árvores enormes, em ruas tranquilas de calçadas amplas. Embora
eu tenha avistado apenas um único carro de polícia durante todos esses
dias, pouquíssimas são as residências protegidas por grades ou muros
altos, coisa raríssima por aqui. Lá, a beira mar é lugar público, para o
deleite coletivo, e o espetáculo do por do sol em mar aberto é um
valioso atrativo turístico, uma espécie de instituição nacional.
Uma
curiosidade: por todo lado se vê cachorros enormes, inteiramente
soltos. São mansos e afáveis, e parecem livres da obrigação de proteger
seus territórios. Três deles acompanharam todas as nossas rodadas de
churrasco na varanda e me fizeram relembrar dos tempos em que Zorro, o
vira-lata de Afonso, circulava livremente pela Praia do Canto e
adjacências, em busca de emoções.
Vitória, 22 de março 2017
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA24.3.17
Crônica diária
Papel bolha
Ouvi pelo rádio a triste notícia. O único fabricante do papel bolha
informa que ele será tirado do mercado. Isso mesmo. Não ouvi mal. Papel
bolha é aquele vendido por metro, em rolos de difícil transporte, por
conta do volume de ar que contém. Difícil de guardar, pelo mesmo motivo.
Mas de uma utilidade imensa. Para embalar mudanças, cristais, e objetos
delicados. Feito de plástico, estouram ao serem pressionados com os
dedos. O estalinho é uma delícia. Recebo pelo correio livros comprados
em sebos embalados em papel bolha. Me divirto lendo e estourando as
bolinhas. O fabricante informa, segundo a notícia do rádio, que o papel
substituto será de um plástico mais resistente. As bolhas de ar não vão
estourar com a mesma facilidade. O material será mais resistente, é
ainda mais barato. Alerto aos amantes do atual papel bolha que corram e
façam seus estoques. Depois não digam que não avisei. Poderão se
arrepender.
Comentários que valem um post
João Menéres deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Serra":
O molde promete.
Postado por João Menéres no blog . em quinta-feira, 23 de março de 2017 07:05:00 BRT
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23.3.17
Crônica diária
Olhem que lindas essas três linhas
As frases não são minhas: "O caráter do ser humano pode se alterar com o
passar dos anos, mas nunca a sua mediocridade, já disse certo autor
russo. Os russos às vezes são muito perspicazes. Talvez pensem muito
durante os longos invernos." Haruki Murakami
O Bic e o Alvaro Abreu
Meu prezado Eduardo,
Saiba que foi com a chegada do
isqueiro Bic que eu tive a minha primeira aula prática sobre produtos
descartáveis na minha vida. Foi um choque de realidade para um rapaz do
interior, que usava isqueiros a querosene, fossem eles Zippo, Monopol ou
mesmo aqueles em formato de bala, usados pelos matutos para acender
cigarro de palha.
Os primeiros isqueiros de
plástico podiam ser reabastecidos por uma válvula existente no fundo. O
grande avanço da Gillette (foi ela mesmo?) foi conseguir fazer um
produto seguro e baratinho que, depois de utilizado, pudesse ser jogado
fora sem dó nem remorso. Tendo acabado o combustível, o isqueiro Bic não
serve pra mais pra nada, a não ser para dar pedrada...
Pelas
avaliações que fiz na época, para meu espanto, o que deveria ser jogado
fora era muito mais valioso do que o gás consumido: uma cápsula de
plástico resistente e de design sofisticado, uma plaquinha de aço inox
em formato de "U", usada para proteger a chama contra o vento, um
cilindro de metal maciço com superfície ranhurada, um pino de metal para
prender o cilindro na cápsula, uma pedrinha de cerâmica para gerar
fagulha ao ser riscada, uma molinha usada para pressionar a pedrinha
contra o cilindro e uma válvula inteiramente segura por onde o gás pode
ser liberado, incluindo engenhoso sistema de alavanca para acioná-la.
Isso, sem pensar na quantidade de lixo gerado pelos milhões de isqueiros descartados diariamente pelo mundo a fora.
Bento,
meu filho, me deu de presente de aniversário um isqueiro acompanhado
com um cartão que dizia: "Pai, se você vai continuar fumando 3 maços por
dia, use um Zippo para acender os cigarros com elegância". Ele está
guardado, como marca do tempo, na minha gaveta de meias e cuecas desde
que tive o infarto.
Grande abraço.
Alvaro Abreu
22.3.17
Crônica diária
Evolução
Primeiro foi a fricção
entre dois pauzinhos. Depois vieram as caixas de fósforos. Os palitos eram de
madeira. O Zippo foi o isqueiro produzido a partir de 1933, que mais fez
história Era baseado na binga Inco australiana Aí, surgiram as cartelas
de fósforos de papelão. Além de fogo faziam marketing. Hoje continuam existindo
todas essas modalidades, mas o isqueiro descartável Bic é líder de mercado.
Assim caminha a humanidade.
21.3.17
Crônica diária
A Resistência, Julián Fuks
Ontem contei um pouco do que eu achei do livro que ganhou o Prêmio
Jabuti 2016. Hoje volto para reiterar e concluir minha opinião. De forma
inédita o livro termina com uma crítica dos pais do autor, e
personagens do livro. Embora ele diga que o tema seja o irmão adotado, o
livro é uma grande sessão de terapia familiar. Numa família de pai
judeu, e pai e mãe psiquiatras. O jovem autor nascido em 1981, com cara
de escritor russo do século XVIII, como disse ontem, confessa ter
desenvolvido uma reflexão, um exame obsessivo dos sentimentos. Carrega o
carma de judeu perseguido comparando os anos de chumbo da Argentina com
o holocausto. O que a mãe (a mais sensata dos personagens) acha do
livro é exatamente o que eu, leitor, senti. Há sempre um matiz triste, a
alguma mágoa. Ela, a mãe, entende o apego que o autor tem pela
intensidade, apesar de não entender por que ela deva ser tão
melancólica. E a mãe conclui com uma frase que me diz respeito: "Você
mente como costumam mentir os escritores..." Eu não gosto de escrita
traçada com régua, esquadro e compasso. A "linguagem rigorosa, quase
matemática" de que falou a Noemi Jaffe, e repeti ontem. Parece um texto
para resolver problemas familiares, e disputar um concurso literário. E
vencer.
Comentários que valem um post
Gaspar de Jesus deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Modelo do Botero":
'No tempo em que a gordura era formosura'
A cara de menina e o laçarote na cabeça destoam do conjunto.
Abraço
Postado por Gaspar de Jesus no blog . em segunda-feira, 20 de março de 2017 10:55:00 BRT
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Jorge Pinheiro deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Crônica diária":
Tenho preconceito de prémios.
Postado por Jorge Pinheiro no blog . em segunda-feira, 20 de março de 2017 08:49:00 BRT
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20.3.17
Crônica diária
É preciso quatro para preparar uma salada
Foi cruzando com uma velha amiga, numa manhã em São Paulo, que recebi a
informação de que ela, e alguns intelectuais seus conhecidos, estavam
lendo, ou leram, e gostaram muito, do Premio Jabuti 2016. O livro
premiado A Resistência. O autor Julián Fuks. Não havia ouvido falar nem
de um, nem do outro. Nesse mesmo dia comprei. Comprei mais interessado
em saber o que os juízes desses concursos andam premiando. Sempre tive
muito preconceito com concursos. Trauma de infância. Meu pai foi
desclassificado num concurso de boi gordo, com um lote de Nelores, por
excesso de peso. Isso depois de vir ganhando, sistematicamente, todos os
torneios. Ele ficou muito abalado, e eu devo ter assimilado esse horror
a concursos. Mas sempre é bom conferir. Logo de início percebi que o
autor ostenta um physique du rôle de
escritor russo do século XVIII. Isso para jurado de literatura é
positivo. Depois é filho de pai judeu, psicanalista e mãe psicanalista
também, embora, católica. E para completar o clima favorável, o pai é um
ex terrorista argentino. Família de esquerda. Todos os ingredientes
necessários para uma receptividade favorável de qualquer júri. Mas só isso não
basta. É preciso escrever bem. Aí é que o carro pega. Já na orelha a
crítica Noemi Jaffe chama atenção para a forma rigorosa de linguagem.
"Quase matemática". Os jurados gostaram, e o premio foi dado. Outra
coisa é o leitor comum gostar. Eu, por exemplo não gosto dos rigores das
formas, muito menos de matemática. Mas no capitulo 14 dei risada com a
parábola que o pai do autor costumava contar sentados à mesa: "Eram
preciso quatro pessoas para preparar uma salada. Um avarento, um
pródigo, um sábio, e um louco. Ao avarento cabia despejar uma
quantidade pequena de vinagre. Ao pródigo esbanjar no azeite. Uma
quantidade acurada de sal ficava por conta do sábio. E por fim ao louco
misturar tudo com entusiasmo."
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Falaram do Varal:
"...o Varal de Ideias é uma referência de como um blog deve ser ." Agnnes
(Caminhos e Atalhos, no mundo dos blogs)..."parabéns pelo teu exemplo de como realmente se faz um blog...ou melhor tantos e sempre outstandings...".
(Vi Leardi )















Sério, não acredito nem na prisão do Canalheiros. Muito menos do Brahma.
Está óptima.
Postado por Jorge Pinheiro no blog . em terça-feira, 28 de março de 2017 07:13:00 BRT
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